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Cachimbo de Água

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O perfume da maré

Francisco Luís Fontinha 1 Abr 12

O meu rosto impresso no espelho da alvorada, lá fora o rosnar dos carros embebidos no perfume da maré que me olham e querem levar-me para longe, abros as asas e em pequeníssimas bicadas no mar oiço dos teus olhos os fios de luz do desejo,

A gravidade puxa-me até ao centro da terra, e os teus lábios começam a desaparecer nas migalhas do pôr-do-sol, e a criança que há em ti atravessa o arame debaixo da tenda que encobre a vida, equilibras-te ao som de Wordsong (AL Berto) e todas os espetadores mergulham no teu corpo,

- Desejo-te quando acorda o dia

Abro as asas e sacudo a areia molhada que há em mim, olho-te em passinhos de algodão sobre o arame da manhã, o meu rosto impresso no espelho da alvorada, lá fora o rosnar dos carros embebidos no perfume da maré que me olham, e debaixo de ti lágrimas de suor voam em direção a deus,

- E quando termina o dia espero-te junto à janela onde entras todas as noites, e quando termina o dia desejo-te como desejo sair desta ilha naufragada, desejo-te como desejo voar até chegar ao sol, e sem nunca olhar para trás, e sem nunca olhar para trás abraçar-te no infinito,

Eis as palavras do meu corpo quando o sangue coagula nas frestas da infância, e barcos prisioneiros no rio procuram lagostins e pastéis de bacalhau, o sangue transforma-se em vodka e brota nas prateleiras da biblioteca, todos os livros embriagados, e oiço as vozes de cada poema, e oiço o abrir da janela e dizem-me

- Hoje ela não vem,

E dizem-me que os relógios dormem nos lençóis das tuas mãos como quando acordo e percebo que estou vivo e que tu

- Hoje Desejo-te quando acorda o dia,

E percebo que estou vivo e que tu caminhas sobre o arame debaixo da tenda que encobre a vida, línguas de fogo entre fatias de pão, e todo o mel derrete-se na tua boca, e todo o mel derrete-se no meu desejo,

E todo o mel

- Abraça-me Francisco,

E todo o mel nas portadas da manhã, entre fatias de pão e sumo de laranja…

 

(texto de ficção)

Eternamente dia

Francisco Luís Fontinha 1 Abr 12

Há de acordar do silêncio da noite

A estrela polar dos teus olhos

E eu

E eu que sou um veleiro

Guiar-me-ei até aos teus braços

Meu porto de abrigo

 

Há de acordar do silêncio da noite

O fervor dos teus lábios

Quando a tua boca em desejo

Se alimenta do meu cansaço

 

Quando a tua boca em desejo

Mergulha nas minhas mãos

E olho-te à beira mar

Em brincadeiras com o vento

Há de acordar do silêncio da noite

Uma casa sem portas e sem janelas

 

E será eternamente dia.

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