Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

16
Ago 12

Uma mulher de vidro poisou nas minhas palavras

sobre a secretária de madeira

invento-lhe história com fotografias a preto e branco

que trouxe de Angola

os barcos ainda vivem

e navegam entre paredes de limão

e o fumo dos cachimbos ensonados junto aos livros desassossegados

uma mulher

 

no meu álbum de fotografias

uma mulher que hoje é uma menina

e ontem

e ontem galopava no cavalo branco com sílabas de cetim

 

perdi-lhes o nome

olho-as e quase desconheço os lugares

e os cheiros

e todos os nomes do caderno preto

 

vejo o mar

e o mar parece um amontado de ruínas de cimento

vejo as árvores

e todas as árvores mortas nas janelas dos pássaros sem cabeça

perdidos no meu álbum de fotografias

vejo o mar

e todos os barcos são pedaços de madeira

dentro dos dias ensanguentados de insónia

e princípios de solidão

os calafrios da morte

a preto e branco

nas equações do amor...

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:48

15
Ago 12

deixei de sentir o peso do meu corpo

e o vento levou-me o coração de silício

que eu transportava nas palavras

e escondia dentro do meu peito

 

escondo-me na tua voz invisível

e inaudível

que também ela se esconde nas tardes junto ao Tejo

 

deixei de sentir os abraços do inverno

e o beijos da primavera

deixei de sentir o peso do meu corpo

sobre a água salgada onde se suicidam os barcos do verão

com a voz cansada dos pedaços de cigarros em decomposição

na sepultura do amor

 

escrevo-te

 

despeço-me dos teus lábios antes de cair a noite

dentro dos lençóis da loucura

despeço-me com justa causa

ausência

infinitamente entre paredes e veredas de xisto

escrevo-te

 

e despeço-me

 

e será que me ouves quando abres a janela da torre do teu castelo de algodão?

Deixei de sentir as nuvens

e os finíssimos gemidos dos grãos de areia das brincadeiras no Mussulo

e deixei de ouvir as lanternas mágicas na rua com escadas para o sótão dos enganos

hoje timidamente ausente de ti e de mim e do próprio vento

e despeço-me

escrevo-te

da ausência do peso...

 

sou um pássaro de papel

que voa em direcção ao buraco da solidão

 

escondo-me

escrevo-te

da ausência do peso das palavras

que escreves nas paredes do meu esconderijo

a noite

e à noite deixei de ouvir-te

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:52

14
Ago 12

madrugada

hoje

sem encontro marcado

com a alvorada transparente

 

hoje

eternamente só dentro dos silêncios da noite

 

madrugada

hoje

sem flores na algibeira

o néon agoniado pelo balançar da calçada

a maré cresce

e leva todos os corpos para longe

 

gaivotas com asas de beijos

mergulham nos púbis felizes dos poemas entre mãos

madrugada

hoje

entre mãos

e os dias que desapareceram do calendário suspenso na parede do amor

 

viagem

hoje

eternamente só dentro dos silêncios da noite

 

madrugadas

de papel

entre mãos

e flores queimadas sobre o soalho da tristeza

vem a solidão

vem o mar sem espuma

e leva todos os corpos filhos da madrugada

hoje.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:55

Este meu destino

de sobriamente abandonado pelas aves das trevas

quando do relógio das pálpebras

emergem as candeias e

e deus desce pelas escadas de cartão

e o meu corpo transforma-se em vento ensanguentado

entre papeis

e mulheres de porcelana

 

amores risíveis

mas não

ou então

 

das ruas miseráveis da plenitude madrugada

um homem sem cabeça

apaixonadamente ama

ama verdadeiramente o quê?

Se o céu é de fogo

e da terra

oiço as frestas cansadas das estrelas sem coração

o amor?

 

E da terra

se o céu é de fogo

ama verdadeiramente o quê?

o amor?

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:41

13
Ago 12

O amor

é uma coisa defecada

numa esplanada

junto ao rio,

 

sem palavras

entre coisas loucas

e poucas loiças coisas apaixonadas

 

sem cabeça

as flores do amor defecado

 

as malditas flores

dos coisos

coisos amores loucos

poucos em ti

as noites sem paixão

 

O amor

é uma coisa defecada

numa esplanada

junto ao rio,

 

(um rio que nunca foi rio

numa cidade com prédios de plasticina

e amêndoas doces

um rio construído na amargura

sem barcos

nome

ou um simples número de polícia

um barco sem braços e sem pernas devorado pelos livros da aldeia em ruínas

sem cabeça

as flores do amor defecado

poucos em ti

as noites sem paixão)

 

só existe uma forma de ser feliz;

voar como os pássaros

e ser louco como os poetas

e ser livre

livre dentro da noite

como todos os travestis invisíveis da cidade.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:50

Uma nuvem de vidro

em lábios amores

à procura de palavras

e tenras flores

 

uma nuvem sem sentido

de vidro cansado e triste

às palavras sem sorriso

na maré que resiste

 

uma nuvem de vidro

à janela da madrugada

em lábios amores

amores de nada.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:20

12
Ago 12

Eternamente belas

as flores de papel

que pintei no tecto do bairro (Madame Berman, Luanda)

entre as mangueiras solitárias

e o triciclo de madeira

suspenso nas frestas da saudade

e todas as noites regresso

e do portão de entrada

oiço as garças em silêncio no estuário do Tejo

e os barcos de xisto em desassossego para me encontrarem

e não percebem que morri

porque desisti das flores de papel

 

desisti do tecto do céu

e das esquinas onde me sento na cidade sem nome

 

desisti das portas invisíveis

onde todas as noites

construo milhares de flores de papel

 

desisti dos cigarros

e das garrafas de vodka

e vivo numa seara de livros

velho

entre quatro paredes em ruínas

nas crateras dos quintais do bairro sem sossego

das noites de abelhas sem desejo

nas clarabóias da insónia...

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:02

11
Ago 12

Dentro do medo

os legumes incisivos do orvalho

na rua do silêncio

olho o suicídio do rio

de encontro ao petroleiro desgovernado

 

cansado

com frio

dentro do medo

o ar-condicionado com escutas

para escutar o medo

e os legumes incisivos do orvalho

entre o cio de uma louca suspensa na copa de uma árvore

e LUDO (do livro Teoria Geral do Esquecimento, J E Agualusa)

dentro das paredes invisíveis do apartamento de Luanda

e aos poucos esqueço-me que estive em Luanda

inventei meninos e meninas da areia do Mussulo

quando a tarde era de papel

 

hoje

hoje sou um velho com olhos de vidro

e que vive dentro do buraco do medo

em busca dos legumes incisivos do orvalho

 

(Tenho saudades do SABALU, do livro Teoria Geral do Esquecimento, J E Agualusa)

 

quando eu galgava as mangueiras

e LUDO

e LUDO inventava um abraço só para mim...

 

e tudo morreu.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:09

10
Ago 12

Acorrentado às palavras do amor

oiço da janela da solidão

os silêncios pigmentados na tela do desejo

procuro-te incessantemente nos livros sem nome

e apenas pequeníssimas migalhas de suor

minguam pela esplanada da insónia,

 

Ela hoje não vem.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:49

09
Ago 12

Dizem que a solidão

é uma pedra fina e rija

e vive nas montanhas da insónia

 

que é uma pedra com esqueleto de faca

para cortar os corações

e as flores que dormem nos jardins sem poesia

 

dizem que a solidão

uma noite

entrou dentro do corpo dele

que anda vestido de tristeza

e às vezes vêem-se lágrimas de papel

com pequeníssimos pingos de amanhecer.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:55

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