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Cachimbo de Água

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noite melancólica

Francisco Luís Fontinha 27 Nov 12

bem-vinda saborosa noite melancólica do infinito inferno silêncio da luz construída entre dois orifícios, que a fechadura nocturna da mini-saia depravada voz inventa nas flores e limita limitadamente as palavras murmuradas, os cereais e o leite com chocolate, bem-vinda saborosa noite, internada num livro apavorado no medo clandestino das janelas suspensas no lençol equilátero semeado na ardósia de papel às árvores aventuras de uma esplanada em ruínas, procuras

 

- os fósforos, filtros, mortalhas, coisas poucas e comuns que procuro na algibeira e dou voltas circulares dentro da cidade, tenho vómitos, talvez excesso de palavras, talvez excesso de cachimbos vazios, sozinhos, cansados de mim para mim, ao cair a noite nas traseiras da semana tristemente cansada dos suspiros madrugadores que o palhaço e a trapezista desenham debaixo da tenda do circo invisível, os holofotes de tinta nos pedaços de aço que sobejam na calçada das abelhas singelas migalhas de desejo, ouvem-se triângulos de sombras nas paredes das patogénicos meninos de porcelana, bem-vinda, madrugada sem destino, descuradamente feliz nas mãos do Outono, ela dizia-se senhora dona da rua das flores e largo das eiras campestres dos dias passados à lareira, dizias-me, dizias-me, sussurravas-me

 

não venhas tarde, e

 

- e eu, perdia-me semanas a fio até desaguar no cais das âncora de papel e chocolates em amêndoa que a pastelaria azul servia nos intervalos da poesia nojenta que eu, e eu, eu escrevia amedrontado que as minhas palavras mergulhassem na ferrugem dos barcos apaixonados, e eu, eu ficaria também apaixonado loucamente perdido em ti, em ti às vezes eu sobejo os fios de sémen estupidecidos num qualquer banco do jardim, não me sento em ti, não me abraço a ti

 

porquê eu?

 

- abraçado a ti, e dentro de ti vive um poço infindável de luz com cerejas e mel, porquê eu, não me abraço a ti acreditando que na ardósia de papel existem números complexos, matrizes, equações diferenciais, porquê eu vestido com cetim e fitas encarnadas no cabelo loiro indesejado pelos homens dos desertos bares da escuridão,

 

de que tens medo Perguntas-me todas as alvoradas quando regressas com os cereais e o leite com chocolate, olho pela janela a verdadeira vida vivida vivendo eu nas tuas mãos de manhã ensonada, os sexos orgulhosamente felizes, também eles, nós, os sonhos

 

- porquê os sonhos?

 

se amanhã é sábado, e os rios estão encerrados para descanso do pessoal.

 

(texto de ficção não revisto)

As mortas mãos da paixão

Francisco Luís Fontinha 27 Nov 12

As mortas mãos da insónia

prisioneiras do meu silenciado peito

da dor

o odor suspeito

de uma flor em decomposição,

 

As mortas mãos

coitadas em esqueletos coração

da flor

o amor

que o desejo tece no tecto da paixão.

 

(poema não revisto)

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