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Cachimbo de Água

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Cidade de aço

Francisco Luís Fontinha 16 Dez 12

Abro-o sabendo que do seu interior um pequeno riacho em rodopios transversais brincam no silêncio de um cubo de gelo, a caixa dos sonhos em aspirais complexas, deferido, a ex-mulher de mim descendo a rua financeira do ciúme que as laranjas de S. Mamede de Ribatua sobejam nas clarabóias dos lábios infernais, em flor de sorrisos nocturnos, a amante dela

 

chupava-te os dedinhos dos pés,

 

até já meu amor delírio das noites de sábado, abro-o, silencio-me em tua boca o chilrear dos meninos vestidos de pássaros poisados nas árvores das tuas pálpebras adocicadas, até já, volto já, fui, perguntava-lhe onde estavam os pedaços de beijos que de manhã deixei em cima da mesa-de-cabeceira, e a parvalhona

 

comi-os porquê?

 

dentro dos cubos de gelo, mergulhava-me e desistia, procuras-me, sobejas-me, laranjas ao pequeno-almoço, perguntava-te porquê

 

comi-os,

 

chupava-te os dedinhos dos pés, e não sabia que no cortinado habitavam cerejas, pequeno-almoço recheado de pão com marmelada, recheado de pão com manteiga, doce de abóbora, comia-os, porquê, ontem acreditavas nos sonhos construídos por pequeníssimas palavras, ontem acreditavas no desejo, na garganta do destino, e tu

 

ensonados nas asas brancas da morte

os pássaros tristemente apaixonados

em busca da sorte nas frestas invisíveis do granito esmigalhado

ensonados

todos os silêncios que habitam nos quartos escuros sem janelas para o mar

quando barcos malvados

de corda ao pescoço

ensonados

enforcados

no profundo poço,

 

sem nome

com fome

o menino da batina encarnada e calções às mesquinhas

rabugento

o infeliz momento

do tristemente apaixonado

vento lácteo em perfis de cimento

tracejando sombras nos lábios dos travestidos barcos de esferovite

espera impaciente a viagem

que a ponte de aço o leva até à morte,

 

a boca alaranjada do pirilampo ensanguentado

em palavras de miséria

murmuradas

das mãos tuas jangadas esperadas

matas-te como se o vento fosse uma simples frase de amor

um jardim em flor

sem nome

com fome

o homem

nas cordas ensonados das asas brancas da morte,

 

e tu desejavas a loucura quando me abraçavas sem me perguntares pelos beijos, deixavas-os obre a mesa-de-cabeceira, deixava-os e eu olhava-os, tocava-lhes ao de leve, sentia-os dentro do meu peito

 

os cubos de gelo?

 

dentro do meu peito os olhos da cidade de aço à minha procura, procuras-me, escondo-me de ti, escondo-me das árvores, dos pássaros, dos barcos

 

um jardim em flor,

sem nome

com fome

 

os homem das cordas de vidro,

 

sabia-o e abria-o, sabia-o e abria-o mas quis o destino que o amor da minha vida fosse de plástico, e vivesse sobre uma mesa-de-cabeceira, longe, algures entre um vão de escada e a porta de acesso ao teu corpo emagrecido pela lentidão dos gemidos das cobras

 

nas cordas,

 

hoje imagino-te, não sei, como, a ex-mulher dela amante do meu ex-patrão, cunhado do meu irmão, e tio da minha filha, hoje imagino-te nos alicerces da desgraça, um pedaço de pão, um punhado de trigo, hoje procuras-me, fujo, escondo-me, de ti, dela, de vós, ontem eu percebia-me, tinhas nos olhos um ramos de crisântemos, mas hoje

 

hoje, os homens das cordas de vidro, sós, entre paredes e degraus, no telhado as infindáveis curvas de linho, lençóis e pimenta, hoje, os homens

 

comi-os porquê?

 

os homens do eléctrico galgado paralelepípedos acanhados, gajas desejando devorar livros e papeis de parede, janelas sem olhos sobre a desgraçada cidade de aço, flores moribundas, amenas, anãs algumas, comi-os porquê? Por nada meu amor, a amante dela

 

dentro do meu peito os olhos da cidade de aço à minha procura, procuras-me, escondo-me de ti, escondo-me das árvores, dos pássaros, dos barcos, as azuis cuecas de iodo que o mar transpirou enquanto as tuas mãos caminhavam no interior de mim, quase natal, quase, e procuras-me em todos os cubos de gelo, em todas as quatro paredes da insónia,

 

os homens, sem olhos sobre a desgraçada cidade de aço com vultos amarelos, sujos, imundos, longínquos, Porquê?

 

ontem apeteciam-me, os teus dedos,

 

e tu, às vezes, muitas poucas, por nada, os homens, de mão dada, há em ti uma boca desejada, há em ti lábios de pérola adormecida, sem madrugada, sem comida, há em ti, em ti há caramelos Espanhóis e cigarros ciganos, tracejando o pechisbeque amor na feira da ladra, um velho procura-me, um velho deseja-me, e eu

 

e eu, eu uma mulher apetecível solitariamente a ver os barcos, imagino-te, procura-me, desgraçada cidade de aço, sem braços, com beijos desperdiçados, esquecidos sobre a mesa-de-cabeceira, olá menina Catarina, Olá menina Adosinda, Olá querida amada Cidália,

 

comi-os, todos,

 

e procuras-me.

 

(texto de ficção não revisto)

 

@Francisco Luís Fontinha

vento lácteo em perfis de cimento

Francisco Luís Fontinha 15 Dez 12

ensonados nas asas brancas da morte

os pássaros tristemente apaixonados

em busca da sorte nas frestas invisíveis do granito esmigalhado

ensonados

todos os silêncios que habitam nos quartos escuros sem janelas para o mar

quando barcos malvados

de corda ao pescoço

ensonados

enforcados

no profundo poço,

 

sem nome

com fome

o menino da batina encarnada e calções às mesquinhas

rabugento

o infeliz momento

do tristemente apaixonado

vento lácteo em perfis de cimento

tracejando sombras nos lábios dos travestidos barcos de esferovite

espera impaciente a viagem

que a ponte de aço o leva até à morte,

 

a boca alaranjada do pirilampo ensanguentado

em palavras de miséria

murmuradas

das mãos tuas jangadas esperadas

matas-te como se o vento fosse uma simples frase de amor

um jardim em flor

sem nome

com fome

o homem

nas cordas ensonados das asas brancas da morte.

 

(poema não revisto)

 

@Francisco Luís Fontinha

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