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Cachimbo de Água

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Absorviam-te as palavras

Francisco Luís Fontinha 26 Dez 12

Insisto, desistes facilmente como se fosses a chuva miudinha dos finais de tarde em Belém, e nunca percebi, senti, sem ti, perceber

 

Porque me perseguias entre sombras e canaviais que escondem a cidade, porque me perseguias, sem perceber, sem ti e sinto, hoje, não propriamente hoje, ontem talvez, às vezes esqueço-me que já morri, defecado dentro dos orifícios das lilases masmorras de granito, sentavas-te e acorrentavas-te aos candeeiros encardidos, velhos, ontem, hoje não

 

Perceber, sem ti, sentir-te dentro dos meus olhos cabisbaixos, amorfos, fabricando euros clandestinos num barracão da Madragoa, e entortavas-te com a vestimenta disfarçada de gaja Espanhola, made in China, perceber

 

Hoje não, desculpa-me,

 

E entortavas-te nos lençóis embebidos em vodka, senti, sem ti

 

Hoje não, desculpa-me,

 

Sem ti e sinto, hoje, não propriamente hoje, ontem talvez, às vezes esqueço-me que já morri, defecado dentro dos orifícios das lilases masmorras de granito, os sexos murchos como as palmeiras da Baía de Luanda, quando o vento, as levava, e eu

 

Sentavas-te, sem ti, senti, sentavas-te a olhar o mar, e esperavas, pelo regresso das palmeiras, algumas regressavam, outras morriam, e outras

 

E entortavas-te nos lençóis embebidos em vodka, senti, sem ti

 

Libertavam-se das manhas de cacimbo, e o capim mergulhava nas tuas coxas de linho, o cortinado tremia, sentavas-te

 

Sentia-te,

 

Sentavas-te nos rochedos que as nádegas, e entortavas-te nos lençóis embebidos em vodka, senti, sem ti a paixão dos homens que se suicidavam dentro dos cubos de vidro, e sentavas-te nos rochedos que as nádegas de manteiga desenham nos espaços vazios da areia das parais do Mussulo, caraças

 

Sentavas-te e sentavas-te e sentia-te

 

Regressavam os barcos nocturnos das viagens sem regresso, perdias-te nas caves escondidas dos porões esfomeados que a saliva do desejo traçava nas paredes murmuradas em parêntesis incompletos, pontos finais sem fim, continuação da história, da mulher de saltos altos e meia de vidro no palco em delírios e sentavas-te

 

No caixão revestido de sorgo, amêndoas e chocolates fora de validade, acreditavas nas esplanadas junto ao rio, abrias as pernas, fincavas os dentes num pedaço de pano, sujo, imundo, húmidas as tuas mãos, e

 

Absorviam-te as palavras, desculpa-me, sentavas-te, sentavas-te, senti, sem ti, absorviam-te as palavras como se fosses um poema de amor, como se fosse uma rosa, uma nuvem, pássaro, ou uma árvores inventada pelas mãos de um apaixonado motorista dos machimbombos, com asas de de vodka, embebias os lençóis em sangue menstrual, limpidamente à janela de onde se observava a pastelaria, e quem diria

 

E entortavas-te nos lençóis embebidos em vodka, senti, sem ti,

 

E quem diria, que eu, um dia, acabaria como um lençol mutuário, sem testamento, herdeiros, e quem diria, que eu, um dia, sem ti e sinto, hoje, não propriamente hoje, ontem talvez, às vezes esqueço-me que já morri, defecado dentro dos orifícios das lilases masmorras de granito, os sexos murchos como as palmeiras da Baía de Luanda, quando o vento, as levava, e eu

 

E eu

 

Um vulcão,

 

E eu

 

Sentia-te,

 

E eu

 

Libertava-me das manhas de cacimbo, e o capim mergulhava nas coxas de linho construída por uma noite de insónia, e o cortinado tremia, e sentavas-te

 

Sentia-te,

 

Nos meus silêncios do inverno à lareira dos sonhos,

 

E eu

 

Não acreditei.

 

(Texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Quatro segundos de voz

Francisco Luís Fontinha 26 Dez 12

Roubo às palavras ditas

palavras escritas,

 

a melancolia

quando acordo não percebendo que acordei

e tropeço nas areias húmidas das rochas incendiárias

e não sei que o dia compreendia

a enormíssima porcaria

de fato e gravata

que é o doutorado diabo

em silêncios mergulhado

torturado por uma velha de mãos efémeras em cio

com um sorriso na veia

maldita mulher que o vento semeia

nas coxas exaustas das tempestades de areia,

 

Roubo às palavras ditas

palavras escritas,

 

e eu sabia

que um dia

me fodia

acreditando nas palavras desertas

hirtas e difusas

e eu sabia

que um dia

um velho dia

ele vinha

me pegava

e me levava

até aos confins olhos das amêndoas que jazem nas cinzentas lajes do oceano,

 

Roubo às palavras ditas

palavras escritas,

 

e sento-me sobre as nádegas do amor

sou feliz

talvez

um pouco

muitas vezes dentro de um prato de sopa

a tua simples madrugada

em gaivotas voadoras

loucas

que a tua boca de papel amarrotado

dissimila

e deita-se nas celestes luzes das cidades de vidro

a dita palavra escrita dita roubada em quatro segundos de voz,

 

P.S.

Roubo às palavras ditas

palavras escritas.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

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