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Cachimbo de Água

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Fotografia a preto e branco

Francisco Luís Fontinha 27 Dez 12

O cabelo minguava a cada fotografia a preto e branco no espelho do guarda-fato, os tios uns forretas de doutoramento abstracto e risíveis amargas glândulas das palavras ensonadas pela espuma do mar e de punhos cerrados, e as tias, beatas convictas nas calçadas embriagadas dos milagres impossíveis da ilha dos desejos, pensa

 

E não me adiantava pensar, porque com eles não ia longe e com elas, coitado de mim, queixa-se ele quando nos contava as anedóticas peripécias de uma infância desenhada a esquadro e régua, e às vezes, e às vezes,

 

Pensa, pensa nas coisas boas que a pobreza proporciona aos homens e às mulheres, e às crianças, e a deus, porque digamos que

 

Deus também será pobre?

 

Não sei, não sei, e às vezes

 

E eu pensava, nas clarabóias da crosta em bosta que os animais derramavam no alpendre com ventilação mecânica, iluminação natural, em néon com chapinhas de zinco suspensas nos cromados que diariamente a Marília acariciava, e nova vida, e uma placa de madeira prensada à porta de entrada

 

Vendem-se cromados acabadinhos de fritar, doida, ela subia à copa das árvores, e sem perceber que a gravidade, às vezes muito grave, gravíssimo

 

E no entanto fazia-o por prazer, não por loucura, segredava-me ela Eu não estou louca! Claro que não Marília, Claro que não, loucos

 

Deus também será pobre?

 

Não sei, não sei, e às vezes

 

Os pássaros, as gaivotas, o mar e os barcos de papel, a melancolia e a tristeza absoluta, os orgasmos e todos os púbis fingidos de amnésia e licor de medronho, esses Marília, esses sim

 

Loucos e Loucas,

 

E eu?

 

Claro que não, Claro que não,

 

Piratas, tentáculos que desciam do alpendre, a fome vestida de tarde de verão, deitava-me junto à seara de trigo, pegava numa palhinha e metia-a na boca, imitava cigarros, e sonhava com aviões com olhos azuis, e sonhava com aviões com cabelos de alecrim, jasmim, cravos de sofrer que as rodas dentadas atropelavam pelos corredores da enfermaria

 

Não estou louca

 

Claro que não, Claro que não

 

Marília abre a mão está na hora das drageias, não sei, não sei, e às vezes

 

Não resistia ao chamamento dos pássaros quando poisados no peitoril guerreavam entre eles por minha causa, e percebia, e eu sabia que cada um deles

 

Eu

 

Eu levo-a a passear,

 

Os pássaros, as gaivotas, o mar e os barcos de papel, a melancolia e a tristeza absoluta, os orgasmos e todos os púbis fingidos de amnésia e licor de medronho, esses Marília, esses sim

 

Loucos e Loucas,

 

E eu?

 

Claro que não, Claro que não,

 

E eles,

 

Loucos e Loucas,

 

Pegavam em mim, aos poucos começavam em batimentos fictícios de asas, e eu sentia

 

Sim diz, O que sentias Marília?

 

Sentia-me levitar, devagarinho, de milímetro em milímetro, e quando acordava estava sentada no telhado, cruzava as pernas e esperava

 

Sim diz, O que esperavas Marília?

 

Que alguém me resgatasse das garras loucas dos pássaros do jardim, e perguntava-me

 

Deus também será pobre?

 

Claro que não, Claro que não.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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