Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

22
Dez 12

Sinto-me

sentando-me desesperadamente só

sinto-me não ouvindo o silêncio dos rochedos submersos nas tuas lágrimas

de primavera adormecida

sentando-me

sobre a tua sombra

sinto-me

desesperadamente só

como um pássaro esquecido na copa de uma árvore invisível

sobre a lua

a tua sombra

sinto-me sentando-me desesperadamente só

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:48

21
Dez 12

Cortaste-me a cabeça oca como se eu fosse

(quem será a menina de tranças suspensa na prateleira dos sonhos...)

se eu fosse um comboio sem braços

com muitas poucas pernas de aço

acendias a luz e a noite desaparecia do cais das miseras galinhas chocas

enfadadas pelos atropelos das palavras

parvas

que a marmelada esconde na tigela doirada

 

cansavas-te curvada na roldana dos dias

quando das noites infernais

com os supositórios de vidro

à espreita agachados os uivos tristes da alvorada

ardiam os jornais

ardiam os orifícios curvilíneos das cancelas do palheiro

havia música nas tuas mãos de gesso

e brincavam

 

(quem será a menina de tranças suspensa na prateleira dos sonhos...)

será uma ela?

um ele?

coitado

coitada

não me interessam as tranças verdes da espuma que o mar saliva

contra os rochedos da paixão proibida

tristemente eu em pequeníssimas cabeçadas à areia ardida

 

perdida

tu

eu

perdido

sem tranças

com tranças à janela do vento

sinto

quando me sento

 

o quê?

Como

porquê?

assim não dá

(quem será a menina de tranças suspensa na prateleira dos sonhos...)

não sei talvez um dia

as asas das gaivotas sejas alegres

como a minha tristemente cabeça oca

 

(se eu fosse um comboio sem braços

com muitas poucas pernas de aço

acendias a luz e a noite desaparecia do cais das miseras galinhas chocas)

 

o galinheiro alimentava-se das tuas palavras

doces lábios do doirado orgasmo da tigela louca

descia a ti de ti

a marmelada macia que

cansavas-te curvada na roldana dos dias

quando das noites infernais

com os supositórios de vidro

a janela do teu ciúme abre-se aos beijos dos papagaios de papel.

 

(poema não revisto)

 

@Francisco Luís Fontinha

 

P.S.

(cansavas-te curvada na roldana dos dias

quando das noites infernais

com os supositórios de vidro)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:28

Obviamente não foi embora, e três dias depois, quase noite, encerrou-se dentro de uma caixa de vidro, puxou o cortinado, acendeu o cigarro, e sem hesitar, entre coices e telas em acrílico que tinha acabado de destruir e deitado fora, finou-se, morreu, e só teve tempo de cruzar os braços em abraços, e

 

sem hesitar,

 

desapareceu entre as sombras abstractas que a morte inventa no tecto das casas com sótão, escadas em madeira, e janelas sobre as outras casas, também elas, em madeira, e luzes fanadas a outras casas, a água desviada silenciosamente da casa do vizinho, e com duas galinhas, e com alguns coelhos, e poucos

 

sem hesitar,

 

galos de crista encarnada, os cornos do peru, as hastes mestras das cabras, as ovelhas em gemidos, e logo temos queijo fresco e legumes, e sandálias de couro com calções de chita, e sem hesitar

 

obviamente não foi embora, eu

 

sem hesitar,

 

desapareci entre as sombras abstractas que a morte inventa, e poucos

 

porcos de crista encarnada, galos com cornos e perus com asas de papel e hélices em fibra de vidro, e poucos

 

sem hesitar,

 

eu

 

sem hesitar,

 

desapareci entre as sombras abstractas que a morte inventa, e poucos ou nenhuns pássaros sobre o meu cadáver acetinado, as unhas de gel que a menina do rés-do-chão desenhou nas minhas mãos por vinte aéreos, poucos

 

eu

 

sem hesitar,

 

queria ser como tu, terça-feira disseste-me que não, e agora dizes-me que sim, que há pássaros no quintal à minha espera, e que depois de se extinguirem todas as lâmpadas das mesas de vodka, tu puxas de um cigarro, acendes o cortinado, e em coices desapareces nas telas em acrílico que brincavam na torre de controle do aeroporto da Chã, a pista longínqua, o último grito da aviação comercial, o pássaro Galileu em poucas palavras faz-se à pista, e há pista senhores excelentíssimos passageiros, há pista, os carrinhos de choque

 

eu

 

sem hesitar,

 

aos saltos e pulos e voos pegajosos e nojentos para não acordar a vizinhança pela manhã quando era domingo, e tu, hoje, terça-feira disseste-me que não, e agora vejo-te aos círculos na cama com lençóis de mar, há pista, poisas os pezinhos sobre a almofada, abres em noite de estrelas as asas dos desejos nocturnos, rolas silenciosamente pela pista, há pista, há pista senhores excelentíssimos senhores, à pista encostas as mamas e adquires estabilidade, da torre dizem-te

 

sem hesitar menina, vento a dez nós, sem hesitar, endireitar o nariz e os lábios, e não esqueça o púbis cansado e aerodinâmico das canções de Natal,

 

vens bem, pensava eu, enquanto te observava a percorrer a cama pela manhã, vens bem, e aterravas nos meus frágeis braços de alumínio,

 

obrigado senhores excelentíssimos passageiros,

 

aos seus destinos,

 

sem hesitar,

 

caminhava pelas ruas, puxava do cortinado e acendia o cigarro, sentava-me sobre os fardos de palha que todas as manhãs acordavam à porta do tio Joaquim, há porta, janelas, há janelas nesta casa travestida de sótão?

 

eu

 

sem hesitar,

 

mentia-te, e dizia-te que a pocilga onde vivíamos era um sótão com escadas de madeira, e janelas sobre as outras casas, também elas, em madeira, e luzes fanadas a outras casas, a água desviada silenciosamente da casa do vizinho, e com duas galinhas, e com alguns coelhos, e poucos

 

sem hesitar,

 

porcos de crista encarnada, galos com cornos e perus com asas de papel e hélices em fibra de vidro, e poucos,

 

que tu acreditavas.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:24

20
Dez 12

(a factura: é em seu nome ou em nome do burro?)

 

Não esqueço

sábado à noite vou entrar em ti

escrever nas tuas entranhas vísceras de primavera

o silêncio

com pingos de chuva

não esqueço

escrever

e as gajas de incenso

 

mergulhadas no papiro húmido da manhã sem acordarem

vivendo viver o sofrimento amor

não amando

amar

escrever

nas gajas de incenso

as palavras de encantar

que os barcos de sábado à noite

 

encalham na areia fina dos testículos

que dos tectos descem

os minguados tropeços de saliva

há na boca dele

ela entre parêntesis

abraçada ao ponto final

travessão

vírgula repetição paragem cardíaca ao pequeno-almoço

 

vírgula

ponto

paragrafo ordinário na tua mão não esquecendo

o calendário

vírgula

ponto final obrigado pela vossa presença

amanhã será outro dia

 

não esqueço sábado à noite vou entrar em ti

repartir-te em pedacinhos

palavra por palavra

letra por letra

sílaba por sílaba

não esqueço

sábado

quando as fotografias acordarem e dentro de ti eu

 

absorto

voando nas tuas vísceras entranhas cavidades

de primavera

a primeira classe das florestas virgens

absoluto em zero complexo tu eu nós os três pássaros da miséria

absorto

a primeira música no primeiro poema do primeiro desgosto de amor

não vieste desististe partiste dentro do oceano tua solidão

 

sábado

esperarei por ti

debaixo da ponte

trago os cigarros a corda de nylon e uma gaivota de esperma

e sei que nas tuas coxas

sábado

os cigarros

míseros sofrimentos que a noite constrói em folhas de papel...

 

(poema não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:43

Não sabia que te incomodavam as teias de aranha que embrulham alguns dos livros que sepultei na cave, velhos, fora de tempo, moribundos como as pessoas da minha idade, não sabia, desculpa, que te incomodavam

 

dias depois de mim, descias as escadas e sentavas-te sobre as páginas cansadas e poeirentas da velhíssima encadernação, algumas palavras tuas, dias depois, te incomodavam os inchaços invisíveis que das tuas torrentes mãos alicerçavam as ruas circunflexas que a cidade engole, um copo de cerveja, vodka, qualquer coisa por favor senão morro, morro, como eles, e enterram-me na cave, como eles,

 

te incomodavam as minhas frágeis carícias, te incomodavam as aventuras do poderosíssimo Pai Natal, de chaminé em chaminé, e finta algumas das clarabóias para não incomodar

 

que te incomodavam,

 

os amantes sobre os lençóis encarnados do Natal, que eu, que tu

 

detesto,

 

que eu

 

detesto,

 

desculpa, não sabia, que te incomodavam as minhas mãos de sabão, desculpa, não sabia, que te incomodavam as minhas orelhas pontiagudas como aqueles sapatos de joguei janela fora, também eles, pontiagudos, e tu

 

não me ouves, e sentavas-te sobre a velhíssima encadernação de couro, velhíssima como os meus cabelos, cinco por cento são meus, e noventa e cinco por cento

 

detesto,

 

que eu,

 

detesto,

 

noventa e cinco por cento do fisco, dos credores, e da puta que os pariu, a elas e a eles

 

as baratas e as teias de aranha, não te importavas, não querias saber, e agora, agora

 

feliz Natal,

 

(o caralho)

 

detesto,

 

que eu

 

detesto,

 

e pergunto-me, e pergunto-te, tu deitavas-te em mim e enrolavas-te nos meus braços

 

que eu

 

e os restantes trezentos e sessenta e cinco dias?

 

detesto,

 

nos meus braços, não te importavas, não sabias que os sonhos são simples sombras de rochedo que o mar vomita nas noites de insónia, não dormimos, não comemos, apenas jazemos na cave, embrulhados em teias de aranha, sentavas-te sobre mim

 

feliz Natal,

 

que eu

 

detesto,

 

que tu

 

detesto,

 

dias depois de mim, descias as escadas, pegavas numa lanterna, enrolavas-te em mim e silenciosamente folheavas as minhas finíssimas páginas de puro aço, frio, distante, a cave onde eu

 

detesto,

 

adormecia com os teus beijos.

 

(texto de ficção não revisto)

 

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:36

19
Dez 12

(21 de Dezembro de 2012, 02:35 horas)

 

Não sobrou nada para nós, dizias que ele era um oceano de luz entre quatro paredes de vidro, mas ela não queria acreditar, o fim do mundo?

existe o mundo? Perguntava a minha avó quando subia connosco ao cimo da montanha, e olhando em redor,

 

tão grande o mundo,

 

e apenas uns miseres quilómetros quadrados, depois, o mar dentro das jangadas de xisto que deambulavam em circunferências concêntricas até desaparecerem no limite do pôr-do-sol quando o olhar da mulher que vivia no rés-do-chão direito, da rua da alegria, tendia para zero, confundia-se às vezes

 

mais ou menos infinito,

 

o fim do mundo espelhado no tecto da igreja abandonada pelas pessoas da aldeia, mentias-me quando chegavas a casa de dizias-me que vinhas da missa, eu, fingia acreditar e pensava

 

mas ele não é Ateu?

 

Não, sobrou nada para nós, ouvias-me fingindo que acreditavas em mim, perguntava-te

 

não acreditas em mim? Sorridentemente dizias-me Claro que sim meu querido amor, claro que sim, tão grande o mundo, as palavras, as azeitonas sobre a mesa da cozinha, completamente sós, abandonadas pelas mãos da minha avó, que subia connosco ao cimo da montanha, e olhando em redor

 

tão grande o mundo,

 

tão azul, tão, como diria o meu grande amigo, tão clandestino como as asas dos plátanos, ninguém, entre noites e muros de vedação, ninguém acreditava

 

acaba agora o mundo...

 

mas ele não é Ateu?

 

Claro que é, mas para efeitos normativos, para enganar a mulher, enquanto ela o espera

 

será que o espera?

 

Ele faz o sacrifício de todas as noites ir à missa deita-se de barriga para o céu e começa a contar as estrelas, e quando as fotografias da amante começam a colarem-se-lhe no corpo esbranquiçado de incenso, parte, para longe, e chega a casa

 

desculpa amor, o sacerdote chegou atrasado, e ela não queria acreditar, o fim do mundo?

 

acaba agora o mundo...

 

mas ele não é Ateu?

 

Não é, foi, agora é de todas as crenças, talvez alguns dos outros deuses lhe valham, e o fim do mundo

 

não acabou, vês meu amor querido,

 

e sinceramente eu não via nada, pesava-me a cabeça, cambaleava quando entrava em casa, ela esperava-me, ele esperava-me,

 

só agora, eles para mim,

 

e logo agora

 

e sinceramente eu não via nada, pesava-me a cabeça, cambaleava quando entrava em casa, ela esperava-me, ele esperava-me, e logo agora que fiquei sem cigarros, e logo agora

 

só agora, eles para mim,

 

a mulher, a amante da mulher, o sacerdote, o sacristão, e eu

 

Não sobrou nada para nós.

 

(texto de ficção não revisto)

 

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:16

18
Dez 12

Há dentro de ti

um fluido hidráulico que corre como um rio

alimenta os teus braços

as tuas pernas

os teus ossos engomados

pela complexa geada da noite

 

tens luzes na tua boca silenciosa

que esconde madrugadas

flores amassadas

incêndios de esperma

janelas encerradas

que não te deixam ver o mar

 

há dentro de ti

um jardim de terra queimada

capim

mangueiras cobertas de sonhos

e de papagaios de papel

há em ti a literatura verdejante que as mãos do diabo despenharam contra os rochedos da lua

 

há um homem cego

dentro de ti que habita a paixão

capim

zinco que rodeia a cidade

há uma canção

à espera da tua voz poética e que a chuva miudinha mastiga

 

e sofre

e engole

manhãs de ti dentro do perfume da maré

caiem docemente as partículas do sono

sem fé

que os teus lábios consomem na lareira do ciúme inventado por um louco

 

e pouco

muito pouco posso escrever dentro de ti

a não ser

olhar-te como um rio

que corre

e caminha o teu fluido hidráulico que traz a insónia em pedacinhos de cereja...

 

(poema não revisto)

 

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:52

Anoitecia, e eu sem saber onde te escondias, dormias às vezes debaixo dos beirais, outras, embrulhado em jornais, às vezes procurava-te em cada cama melancólica que a cidade coloca à disposição dos homens, das mulheres, que como tu, vivem, sofrem, amam, desejam ser amados, e dormem num pedaço de chão, às vezes, tantas vezes, da claridade do sono, a fome, o tilintar de esqueletos nas ruas perfumadas pelos bonecos de palha, espantalhos, que guardam as searas dos malvados e infernais pássaros pretos, anoitecia

 

e sabias que me escondia em pouquíssimos milímetros quadrados de espuma que o mar trazia do outro lado da montanha, o céu era azul, as árvores verdejantes com olhos castanhos, e os cabelos, nos cabelos uma flor encarnada e eram loiros como quando acorda o dia, e depois, redopiam silenciosamente as horas, os minutos, redopiam silenciosamente os segundos, até que um qualquer homem sem destino, acorda, cruza as mãos, e anoitecia, e eu

 

sem saber escrever,

 

e eu

 

sem saber ler,

 

e eu

 

sem saber que existias e dormias como os pardais,

 

e sabias desenhar nas ardósias da infância a liberdade, e voavas, e eu

 

sem saber fazer contas,

 

de somar, subtrair, dividir, ou quase sempre de multiplicar, pegava em dois pedacinhos de sofrimento, ela, a professora, multiplicava-os por três medidas de dor, e meu deus, sofrias

 

até que as malditas lágrimas de sangue desciam do primeiro andar vagabundo e desaguavam junto à ponte que me levava até ao cemitério, a morte é um complicado mistério, efémero destino suspenso pela associação clandestina dos fósforos depois de darem vida a um cachimbo de madeira, o fumo que escorre das tuas veias, e sofrimento, destino, sofrias

 

em pequeno menino,

 

sem saber escrever,

 

e eu

 

sem saber ler,

 

e eu

 

mergulhado nas vertigens que as gaivotas de papel provocam nas manhãs de chocolate, procurava-te

 

sem saber escrever,

 

 

e quase nunca te encontrava, e quase nunca sabia de ti, dias, noites perdidas, em lágrimas de sangue, cimento, a argamassa que crescia no meu rosto de vento encharcado de poeira, sofrimento, e lá fora corrias, dormias em sítios desconcertantes, e eu

 

sem saber desenhar,

 

e eu

 

sem perceber que as tuas mãos tremiam, e dos teus lábios ouviam-se os pingos finíssimos da chuva, as noites, as noite intermináveis, de sono, construídas em folhas de aço e arrebites de insónia, e mesmo assim, eu

 

esperava por ti.

 

(texto de ficção não revisto)

 

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:11

17
Dez 12

O quarto de mármore fugitivo que a noite deixa cair

sobre o lençol de linho

os sonhos

entre ossos de pedacinhos de ninho

que o coitadinho

passarinho

aliviou quando acordou a madrugada

e desceu sobre ela a morte,

 

a sala sem lareira

na fúria agonizante que as luzes de néon

desenham nas entranhas paredes da película fina tua pele

e não sei

e não sei se as minhas palavras amargas

são

então hoje dormiste sobre a geada fina da montanha

são as cansadas mágoas sofridas pelas húmidas tuas mãos de tecido,

 

tu

tu desesperadamente

com o medo da escuridão que os olhos me obrigam a caminhar

sobre ti

a areia amarela da calçada

à janela

tu desesperada mente a paixão Clementina

ciumenta os alicerces do clitóris poemas inventados,

 

nos poemas murmurados

que ao púbis paixão em versos clandestinos

tu

escreves-me quarta-feira

e a sorte desespera-se em mim

assim

o jardim inválido quando as asas poeirentas das abelhas

na rede cintilante dos pequenos orgasmos das flores em flor,

 

tudo no chão

o soalho

às cadeiras suspensas nas estantes da cave tua boca

as palavras

há palavras na garganta do pavimento térreo

livros alguns poucos poucas nenhumas em sílabas teus seios de marfim

tudo no chão

as palavras em trinta e um de Dezembro.

 

(poema não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:11

Uma gaivota de luz sentenciou-me com quatro simples palavras retiradas de uma caixa espessa que vivia na minha casa, dentro de um espelho, em finais de Setembro, e orgulhosamente escreveu no meu corpo

 

- quero as tuas lágrimas,

 

a minha cansada casa ficava na periferia da cidade, havia árvores, muitas árvores até encontrar o meu quintal onde brincavam as flores da minha avó e as pombas da minha mãe, eu, eu tinha uma irmã, mais velha, crescida, e ela tinha um cavalo branco, vestia-se de branco e flutuava dentro do cacimbo como se fosse um espelho, nuvem, charco de areia finíssima que algumas vezes apareciam, outras, deixava de os ver, eu perguntava-lhe

 

- as minhas?

 

Explicava-lhe que nunca as tive, Nunca choraste? Respondia-lhe que não, Não me lembrava, nem sabia o que eram, Caixas Espessas?

 

- lágrimas

 

telhas de aço cobriam as cabeças infelizes dos rissóis e dos pasteis de nata, Belém, barcos, piolhos disfarçados de mariposas, olhos com pedaços de névoa esperavam o regresso da noite, eu perguntava-lhes

 

- as minhas?

 

lágrimas, nos carris do eléctrico padeciam as migalhas do silêncio, uma caixa espessa, húmida, e, explicava-lhe que não sabia o que eram lágrimas, ossos, carne apodrecida, não sabia, não sei, nunca vou saber porque caem as árvores no meu quintal, quinta-feira, espelho de morte na minha má grande sorte, nem a lotaria do natal, nem um simples postal, perdão, peço desculpa, em quatro simples palavras de alecrim

 

- quero as tuas lágrimas,

 

- também

 

eu

 

- as queria, quero-as, todas, aos molhos, as tripas das Marilús e afins estabelecimentos comerciais, vende-se casa dos anos setenta, calças à boca de sino, e elásticos

 

lágrimas,

 

- quero

 

- eu

 

- as minhas e as tuas

 

e elásticos à volta do pescoço fino e esguio até entrar dentro das nuvens que via láctea desenhava nos cornos da lua, tu desaparecias à porta da sala de estar, da cozinha chegava até nós o som da lareira prestes a partir para o outro lado da cidade, na periferia da cidade, havia árvores, muitas árvores até encontrar o meu quintal onde brincavam as flores da minha avó e as pombas da minha mãe, eu, eu tinha uma irmã, mais velha, crescida, e ela tinha um cavalo branco, e em tardes de final de texto via-a

 

- voava sobre os quintais zincados dos meus amigo pretos,

 

o cavalo ganhava asas, a minha irmã com um chapéu de flores que embrulhavam-lhe os loiros cabelos poéticos que o meu pai escrevia no tronco de uma mangueira, voava sobre os quintais zincados

 

- Belém, barcos, piolhos disfarçados de mariposas, olhos com pedaços de névoa

 

esfregava os olhos,

 

- eu,

 

ela voava,

 

eu e os meus amigos pretos,

 

- cansados de olhar o céu,

 

às vezes,

 

- poucas

 

ela adormecia e o cavalo ia até ao mar, depois uma gaivota de luz sentenciava-me com quatro simples palavras

 

- quero as tuas lágrimas,

 

lágrimas,

 

- quero

 

- eu

 

as minhas e as tuas,

 

- pergunto-te

 

o que são lágrimas em quatro palavras com muitas árvores até encontrarem o meu quintal onde brincavam as flores da minha avó e as pombas da minha mãe, eu

 

chorava, quando o cavalo branco com asas brancas, quando a minha irmã vestida de branco sobre o cavalo branco..., desapareciam em direcção ao mar.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:03

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