Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

07
Jan 13

Deixara de chover, a máquina de lavar roupa pifou uma vez mais, constipação, ou

Fígado,

Ou

Talvez não,

Não temos tempo para despedidas, Pedro, O senhor Alberto para o filho que parecia uma abelha em círculos de luz às voltas do avô João, o carro pronto a avançar estrada fora, recheado de pequenas miudezas, batatas e couves, chouriços e presunto, pão de milho, e o Opel Kadett de 1964 aos soluços como os bebés depois de nascerem enquanto aguardam a chegada do babado pai e a enfermeira

É um menino,

Fígado,

Ou

Talvez não,

O pai retratava o filho com imagens a preto e branco, no tornozelo uma fitinha azul com o nome e o dos progenitores, e se fosse hoje, e se fosse hoje juro

Pifou

E deixara de chover,

E se fosse hoje juro que não queria progenitores, inventava-me, fazia-me das larvas azedas que de árvore em árvore, que de nuvem em nuvem, juro, juro que me tinha inventado como inventei tantas outras coisas,

Adeus avô, com choraminguices o Pedro ao despedir-se, e ouviam-se os lamentos do senhor Alberto, que começava a ver cair a noite e pelas suas débeis contas só de viagem deveriam ser aproximadamente quatro horas, isto é, sem efectuar quaisquer paragem, para um café, ou

Pai, preciso de fazer xixi,

É um menino,

Fígado,

Ou

Talvez não,

E deixara de chover, a máquina de lavar roupa pifou uma vez mais, constipação, ou

(pausa para ir à casa de banho)

Ou simplesmente entrou em greve sem pré-aviso, e cá em casa parece que estão todos loucos, queixava-se o pobre do senhor Alberto, viúvo, um filho, desempregado, E pergunto eu, que vou dando vida a este texto

Que mais poderá acontecer a este desgraçado?

Mulheres há muitas, sou palerma!,

O pai retratava o filho com imagens a preto e branco, no tornozelo uma fitinha azul com o nome e o dos progenitores, e se fosse hoje, e se fosse hoje juro

Digam-me, que mais este desgraçado poderá esperar da vida?

Juro, se fosse hoje, se fosse hoje inventava-me, colocava umas luzinhas na cabeça, pedia ao senhor Arsénio que me desenhasse umas asas e mandava-as construir ao tio Serafim, quando regressasse a casa com a estrelada, coitada, manca

Estrelada!

E amanhã não me fodes mais porque vais ficar na loja porque com a pedrada que te dei, e enquanto isso, o Serafim a jogar ao pino com os colegas da escola, e tenho quase a certeza que ele me constrói umas asas com vista para o Tejo, pensava o menino Pedro antes de adormecer e enquanto a família, pai, mãe e avós, todos, numa irritação

É a tua cara Alberto,

Não é não, respondia a avó Madalena, e acrescentava

É tal e qual o meu João, isso não tenho duvidas

E eu, e eu tenho a certeza que tenho algumas parecenças com um embondeiro, com um mabeco, ou na pior das hipóteses

Com um Anjo,

(mais uma breve pausa para ir à casa de banho regressamos o mais breve possível)

Sim, com um Anjo, Porque não? Deve estar louco menino Pedro, queixava-se o porteiro embriagado quando madrugada dentro ele

Eu, tu, regressávamos das longínquas sentinelas de estanho, deixávamos as mesas de granito junto aos jardins caquécticos da casa de S. Pedro do Sul

Constipação

Ou

Fígado,

Constrói-me umas asas, tio Serafim

E a coitada da estrelada só em três patas, sofreu tanto, tanto sofrimento teve esta ovelha, e o menino Pedro e a menina Margarida

Eu, tu, regressávamos das longínquas sentinelas de estanho, deixávamos as mesas de granito junto aos jardins caquécticos da casa de S. Pedro do Sul, deixara de chover, o fígado pifou uma vez mais, constipação

Ou

O pai retratava o filho com imagens a preto e branco, no tornozelo uma fitinha azul com o nome e o dos progenitores, e se fosse hoje, e se fosse hoje juro

Tinha-me inventado.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:15

Tínhamos uma árvore de papel

das palavras com sabor a prata

tínhamos uma sílaba de lata

com pingos de mel

e nas tardes em silêncio que brincávamos com o mar

tínhamos um punhado meigo de melancolia

e versos de amar

que cantávamos até nascer o dia,

 

Tínhamos que ainda não esqueci

a harmonia

que às vezes disfarçava-se de alegria

e outras tantas vezes inanimadas

vi

e senti

o sorriso das lindas madrugadas

que eu inventava nas planícies acorrentadas,

 

Às bocas submersas no cais das merendas (livro de Lídia Jorge, O cais das merendas)

e murmurávamos na língua escura da solidão

os sons do piano bar

com os poemas da paixão

antes do jantar

murchava o coração

e das mãos pegajosas os textos loucos que a luz escreve nas paredes de betão

que um louco aldrabão esqueceu na sombra de uma árvore de papel,

 

Tínhamos sabão

e óleo vegetal com sabor a pimenta

tínhamos o amor e os lábios pigmentados com sandes de salpicão

e mesmo assim

no jardim

tínhamos sexo dentro de uma caixa de cartão

comíamos sem sabermos que as viagens para Marte eram pingos de saliva da tua imaginação

antes de regressarmos à morte que adormece nas lamentações de uma triste sebenta.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:41

06
Jan 13

Ouviam-se os petardos anárquicos misturados nas palavras amargas, às vezes, um fino fio de mar corria pela casa, e entre a sala de jantar e a cozinha, flores, tínhamos flores em recipientes cerâmicos, de várias cores, pintavas-os com os restos de tinta acrílica dos meus tubos que ias buscar ao meu atelier, metias as mãozinhas no bibe, e de cabelo balançando dentro do vento que acabara de sair da caixa de madeira, dizias-me

Pai, porque não há pássaros hoje, e perdia-me em explicações complexas, porque estava frio, porque já era quase noite, e porque dentro de casa não há pássaros,

Mas pai, podia vê-los através da janela, ou não,

Não sei, sei, não, sempre tive dificuldade em conversar com miúdos, sempre, e sentia que tinha à minha frente um miúdo com seis anos a perguntar ao pai

Porque voam as mangueiras quando desce a noite, pai?

Porque amanhã é sábado, respondia-lhe ele,

E pai,

Sim filho,

Os barcos pai

Que têm os barcos Francisco?

Os barcos voam?

Não, não voam,

Porquê?

Mas pai, podia vê-los através da janela, ou não,

Não sei, sei, não, sempre tive dificuldade em conversar com os pássaros e com as flores e com a sombra das mangueiras, e

Pai, quando chegarmos a sábado os barcos vão voar?

E

E pai,

Sim filho,

Os barcos pai

Que têm os barcos Francisco?

Não, não vão voar. os barcos não voam, as mangueiras não voam, e o mar

Os barcos pai,

E o mar em finos fios a correr pela casa, ouviam-se os petardos anárquicos misturados nas palavras amargas, às vezes, trazias nos olhos lágrimas de prata, tinhas asas de vidro, e quando te perguntava

Matilde, mexeste nas minhas tintas?

Sorrias, abanavas as asas, e voltavas a sorrir

Não, não mexi, pai

Sorrias, abanavas as asas, e voltavas a sorrir

Pai?

Sim, Matilde!

A mãe?

Que tem a mãe?

Onde está?

Sorrias, abanavas as asas, e voltavas a sorrir, e tínhamos flores em recipientes cerâmicos, de várias cores, pintavas-os com os restos de tinta acrílica dos meus tubos que ias buscar ao meu atelier, metias as mãozinhas no bibe, e de cabelo balançando dentro do vento que acabara de sair da caixa de madeira, aos poucos aproximava-se da grande cidade o paquete com ventos lilases e folhas de árvore empobrecidas pelo sal e devido ao calor, transpiravam os carros junto a Belém

Não sei, Matilde, nunca soube onde está a tua mãe,

E os carros arfavam, e tu sorrias, e eu empoleirado nas grades ouvia os pedaços de fumo do cigarro de um magala que pelo fardamento devia andar nos lanceiro, na Ajuda, sentado e de pernas cruzadas, sobre as coxas via um caderno com uma capa que tinha desenhos de flores, via também um livro “O Doutor Jivago” de Boris Pasternak, e ao longe, nos jardins de Belém dois amantes provavelmente separavam-se eternamente para o todo e sempre, ouvias-lhe

Sim, Matilde!

A mãe?

Que tem a mãe?

Onde está?

Ouvias-lhe as lágrimas de prata e tu, com asas de vidro, sorrias, ouvias-lhe os silêncios entre as árvores e os arbustos,

Tenho de ir

Porquê pai?

Já alguém te disse que tens o coiso grande?

Não sei, Matilde, nunca soube onde está a tua mãe,

E aos poucos Lisboa entrava dentro de mim, e aos poucos sentia a paixão da cidade a entranhar-se nos meus frágeis ossos, de galinha de aviário, e perguntei ao meu pai

Pai, vamos para onde?

Olhou-me, lançou o cigarro ao Tejo, a sorrir e a abanar as asas, sorrias, abanavas as asas, e voltavas a sorrir, Pai?

Vamos para Alijó.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:31

Assassina-me como se eu fosse um grito de luz, e não deixes que as cores do arco-íris murchem, se extingam, morram, quando acorda a noite no pólo da saudade, chegavas tardíssimo a casa, inventavas trânsito que todos os dias antes partires, deixavas colado no frigorífico, regressavas, descolavas o post-it e a cidade retomava o ritmo solitário que as noites trazem, constroem dentro das imensas dores frágeis que os ossos das tuas mãos carregavam caminho abaixo até chegares à ribeira, e mentalmente ela queria dizer-me

Amor, falta-nos tudo,

E ele respondia-lhe

Se a casa tiver livros já tem tudo,

Não, livros não tem, em finíssimas palavras a senhoria, Nem um sequer para amostra? Não, respondia-nos ela, nem um para amostra, talvez ratazanas, talvez teias de aranha, talvez

Tenho a certeza que estou constipado, e ela

Amor, falta-nos tudo,

E ela aparecia durante a noite com o leite e o mel,

Vai fazer-te bem, amor,

Acordavas-me, erguias-me, a ténue luz desenhava na parede lateral um menino de sombra, e ela obrigava-me a beber o leite com mel, queimava a boca, torcia-me na cama como se estivesse no interior de uma tempestade de areia, bufava, arfava, em pedacinhos ia engolindo a mistela, e sentia o calor desértico das terras ensanguentadas pelas lilases letras dos cadernos proibidos pelos militares que ocupavam a nossa província perdida no meio de urtigas e rochas esquisitas que os homens das aldeias vizinhas vinham buscar para pintarem e vendiam-nas aos transeuntes turistas que em noites de luz cheia nos visitavam,

As ratazanas querem comer-me, acreditava eu, a cada segundo de ponteiro que o velho relógio descrevia nas clandestinas terras assombradas pelo capim desnorteado, estonteante, doente, e afinal as ditas ainda tinham mais medo do que os palhaços do circo junto ao átrio da igreja protestante, e mentalmente ela queria dizer-me

Amor, falta-nos tudo,

E ele respondia-lhe

Se a casa tiver livros já tem tudo,

Vai fazer-te bem, amor,

Acordavas-me, erguias-me, a ténue luz desenhava na parede lateral um menino de sombra, e ela obrigava-me a beber o leite com mel, queimava a boca, torcia-me na cama como se estivesse no interior de uma tempestade de areia, e nunca percebi o infernal trânsito

chegavas tardíssimo a casa, inventavas trânsito que todos os dias antes partires, deixavas colado no frigorífico, regressavas, descolavas o post-it e a cidade retomava o ritmo solitário que as noites trazem, constroem dentro das imensas dores frágeis que os ossos das tuas mãos carregavam caminho abaixo até chegares à ribeira, e mentalmente ela queria dizer-me

Amor, falta-nos tudo, e afinal, as ratazanas queriam comer-me, acreditava eu, a cada segundo de ponteiro que o velho relógio descrevia nas clandestinas terras assombradas pelo capim desnorteado, estonteante, doente, e afinal as ditas ainda tinham mais medo do que os palhaços do circo junto ao átrio da igreja protestante, e mentalmente ela queria dizer-me,

Se a casa tiver livros já tem tudo,

O trigo deixou de crescer após a tua partida, os pássaros, hoje, tal como os aviões, não voam, morrem, às vezes morrem, sem nada a casa, hoje não, se a casa tiver livros já tem tudo, o post-it e a cidade retomava o ritmo solitário que as noites trazem, constroem dentro das imensas dores frágeis que os ossos das tuas mãos carregavam caminho abaixo até chegares à ribeira, e mentalmente ela queria dizer-me

Falta-nos tudo,

E mentalmente ela queria dizer-me que o trigo deixou de crescer após a tua partida, os pássaros, hoje, tal como os aviões, não voam, morrem, às vezes morrem, sem nada a casa, hoje não, se a casa tiver livros já tem tudo,

E tu

Assassina-me como se eu fosse um grito de luz, e não deixes que as cores do arco-íris murchem, se extingam, morram, quando acorda a noite no pólo da saudade, chegavas tardíssimo a casa, inventavas trânsito que todos os dias antes partires, os pássaros, os aviões, e eu

E eu sempre que podia, quase sempre, antes de começar a noite, inventava trânsito, que cobriam as cores do arco-íris, e tu

E eu

Com o leite, o mel, à espera que regressasses das tuas longínquas viagens ao além, e afinal as ditas ainda tinham mais medo do que os palhaços do circo junto ao átrio da igreja protestante.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:23

05
Jan 13

A todas as palavras frágeis

que desenhei na tua boca

quero-as de volta à minha mão deserta

morta

 

confusa porque o meu coração

sente o silêncio das rochas mergulhadas no mar

um peito arde e esfumaça-se na lareira da saudade

como todas as flores que viviam nos jardins da Babilónia

 

arderam morreram simplesmente subiram aos céus

e encontraram

morta

A todas as palavras frágeis

 

que desenhei na tua boca

a louca

porta

que se esconde nos teus abraços lilases

 

poucas

como as jangadas que se suicidam no lago da amoreira

troncos finos de árvores cansadas

tombam

 

incham

e em ais sobejam dos lábios em poesia

sentia que sinto ainda as palavras poucas

nas frágeis manhãs de Primavera.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:23

Perpétuo silêncio de luz à espera das almas sem destino, uma paragem de eléctrico semi-nua cambaleia entre as sombras que a cidade constrói com os ossos invisíveis dos peixes apaixonados, e de longe vinham até nós os sons melódicos de um saxofone em solidão, era verão, era sábado, e a tarde começava a evaporar-se nas palavras que escrevíamos sobre os teus joelhos esqueléticos onde poisávamos um caderno com um capa dura, grossa, com desenhos de flores, e marés e árvores com pássaros e os cabelos de ti nos tentáculos dos poemas que íamos construindo, emendávamos, riscávamos, voltávamos a reinventar as palavras, até que chegava a noite, e ele

E eu, eu pegava na tua mão débil, finíssima como os ramos de laranjeira que tínhamos no quintal em trás-os-montes, tão longe, a lareira, os livros, o sino da igreja quando dormíamos sossegadamente dentro dos lençóis de insónia, e amanhá era domingo, ouvíamos o sino, revoltavas-te contra a saudade, o amor, a paixão, e nunca gostaste dos meus barcos de papel, talvez porque te faziam lembrar o que era a morte, a partida, sem regresso, e eu, eu pegava na tua mão e levava-a até aos meus lábios perdidamente absorvidos pelos cigarros, e tu

Tens de deixar de fumar,

E eu, continuo a fumar cigarros invisíveis, e eu, eu sento-me no banco onde nos sentávamos, puxo de um cigarro imaginário (porque hoje não cigarros) e conto os pássaros disfarçados de barcos que correm dentro dos meus olhos, e pergunto-me

Tens de deixar de fumar

Porquê?

E passaram mais de vinte e cinco anos, o perpétuo silêncio de luz à espera das almas sem destino, uma paragem de eléctrico semi-nua cambaleia entre as sombras que a cidade constrói com os ossos invisíveis dos peixes apaixonados, e de longe vinham até nós os sons melódicos de um saxofone em solidão, era verão, era sábado, e a tarde começava a evaporar-se nas palavras que escrevíamos sobre os teus joelhos esqueléticos onde poisávamos um caderno com um capa dura, e culpavas Einstein pelo nosso afastamento

A culpa é da curvatura do tempo-espaço, e eu, eu acreditava que sim, ciclicamente, e nunca gostaste dos meus barcos de papel, talvez porque te faziam lembrar o que era a morte, a partida, sem regresso, e eu, eu pegava na tua mão e levava-a até aos meus lábios perdidamente absorvidos pelos cigarros, e tu

Sentia a tua mão nos meus seios, e ias descendo, descendo, sabia-te dentro do meu púbis de areia, e o mar começava a alimentar-se de mim, prenunciava grunhidos sons, e ao longe os ossos invisíveis dos peixes apaixonados, e vinham até nós os sons melódicos de um saxofone em solidão, era verão, era sábado, e a tarde começava a evaporar-se nas palavras que escrevíamos sobre os teus joelhos esqueléticos onde poisávamos um caderno com um capa dura, grossa, com desenhos de flores

Porquê

Tens de deixar de fumar,

E eu, eu pegava na tua mão débil, finíssima como os ramos de laranjeira que tínhamos no quintal em trás-os-montes, tão longe, a lareira, os livros, o sino da igreja quando dormíamos sossegadamente dentro dos lençóis de insónia, e tu

Eu sentia o sofrimento árduo dos teus lábios acabados de regressar, trazias nas mãos uma punhado de areia húmida, e na boca escondias o silêncio amor que a paixão sibilou nas carcaças apodrecidas dos peixes que viviam nos lençóis nossos que do jardim cheirava a incenso, alecrim, mirra, oiro falso, alquimia, líamos Proust, e sabíamos que

E deixei de fumar,

E sabíamos que todos os plátanos um dia, vinte e cinco anos depois, ruiriam, como ruíram os alicerces de todos os crucifixos de prata

Sentia a tua mão nos meus seios, e ias descendo, descendo, sabia-te dentro do meu púbis de areia, e o mar começava a alimentar-se de mim, prenunciava grunhidos sons, e ao longe os ossos invisíveis dos peixes apaixonados, dos poemas,

Morreram, como morrem todos os crucifixos de prata que entram na minha vida nocturna com sabor a mar e desejos de luas com pedaços de laranja, sonhos, e pipocas quando ligo a máquina das imagens, e apenas sombras, pretos, brancos, os riscos, os riscos crucifixos de prata que a melancolia escreve nas ardósias palavras dos teus seios.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:08

05
Jan 13

Sou uma casa em ruínas

simplificada que habita na garganta da avenida

sentindo a solidão das pálpebras doces que a noite deixa ficar

sou

sem portas

janelas

nem vista para o mar

uma casa cansada,

 

uma casa triste e velha dançando na madrugada

sou uma casa em ruínas

abandonada

como todas as palavras que escrevo

desgraçadamente voando sobre as nuvens cinzentas

sou sem portas varandas

restaurante sem ementa

e tantas

casas como eu

à procura do céu

em zinco as lâminas que o vento semeia

no peito coração das gentes da aldeia,

 

sou

uma casa

em ruínas

apenas só

amarga

dançando debaixo das árvores de papel

que as palavras silenciosas

sou

sem portas

janelas

nem vista para o mar

uma casa cansada...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:19

Hoje, sussurras-me palavras mágicas que ontem deixei cair sobre as sílabas voláteis da paixão incandescente que provoca na madrugada, sempre que há uma madrugada visível aos olhos das luas sem destino, uma sapiência desumana, suja, imunda, clandestina às vezes, prosaica, outras, nem por isso, as cabeças desmioladas das meninas suspensas nas aspirais húmidas que a noite provoca no corpo recheado de rosas, malmequeres, crisântemos, ou uma simples folha de papel, nua, fictícia, que os poetas tanto adoram,

Tive um irmão aparvalhado, estúpido, meio homem, meio mulher, e que gostava de escrever nas paredes da casa onde vivíamos em Luanda, o parvalhão, mias facilmente reconhecível por parvalhão do que pelo seu verdadeiro nome

Hortênsio,

E pergunto-me, eu, o irmão do Hortênsio, o que levaria os meus queridos pais a colocarem um nome tão esquisito a um parvalhão como ele, o meu irmão, o Hortênsio, e de tanto me perguntar, esqueço-me que

Hortênsio?

Nunca percebi o que é o amor, as palavras fluíam e saiam de mim como se fossem gotas de água, quando se desprendem das nuvens, sem prévio aviso

Estás despedido, parvalhão,

E o gajo lá se movimentava, de sótão em sótão, subindo escadas sem nunca ter conseguido chegar ao céu, porque aí é mais difícil de entrar do que concluir uma licenciatura por equivalências, e rezam as más línguas que antes de morrer, coitado

Do meu querido irmão Hortênsio, um infeliz sabe senhora dona Amélia, um infeliz, mas que quer? Irmão é irmão,

Coitado, que antes de se finar dizia ser doutor em pornografia e vão de escada, de dia, era bancário, e quando começava a acordar a noite, a noite para ele era o clímax da mulher que vivia dentro dele, e quando começava a acordar a noite, entrava em casa, despia o fato, suspendia a gravata no cabide adjacente à porta de entrada, e

Estás despedido, parvalhão,

Depois de se confrontar com o espelho do guarda-fato e completamente nu, começava a metamorfose, e aos poucos, nascia a menina dona Marilú, Rainha da noite, e que às terças e quintas dançava em cima de uma mesa num bar em Cais do Sodré, um dia, assisti

Estás bem mano?

Nem que sim, nem que não, assisti a um dos seus espectáculos, talvez o mais emblemático da sua pequena carreira, porque para mim, foi o primeiro e o último, ele era realmente linda, mas um grandessíssimo parvalhão,

Hortênsio? Hoje, sussurras-me palavras mágicas que ontem deixei cair sobre as sílabas voláteis da paixão incandescente que provoca na madrugada, sempre que há uma madrugada visível aos olhos das luas sem destino, uma sapiência desumana, suja, imunda, clandestina às vezes, prosaica, outras, nem por isso, as cabeças

Ocas, finas, dentro de quatro paredes de vidro, o cubo, o hipercubo, a raiz quadrada de vinte e cinco, coitado

Porquê

Hortênsio?

Que amanhã era domingo, que amanhã os dias deixavam de ser preenchidos por vãos de escada e sótãos, que amanhã

Eu, o Hortênsio, o irmão do António, e ele deixou de aparecer, e ele evaporou-se completamente como se o sol o absorvesse, ou como se fosse comido por um monstro marinho, um petroleiro com asas de vinil, livros encadernados a couro e completamente abandonados, como eu, num sótão, hoje, que me sinto tristemente só, hoje que nem sou o Hortênsio e nem idade tenho para ser a Marilú, hoje

Morri,

Porquê

Hortênsio?

Ocas, finas, dentro de quatro paredes de vidro, o cubo, o hipercubo, a raiz quadrada de vinte e cinco, coitado

Nunca o soube,

E a morte quase sempre vinha vestida de Primavera, chegava docemente, despia-se, e deitava-se na levemente beleza das palavras não prenunciadas, abraçava-o, afagava-lhe o pouquíssimo cabelo que lhe restava, dava-lhe a mão

Não tenhas medo Hortênsio,

E eu, o irmão do António, nunca tive medo, nunca,

Dava-me a mão

Não tenhas medo Hortênsio,

Nunca meu amor,

E começávamos a flutuar em direcção ao céu nocturno das caves sem janelas

E depois?

O Tejo deixava de se ver.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:50

03
Jan 13

Liberta-me, alimenta-te de mim, come-me,

Noite sem fim, quando as ausências programadas cintilam, correm, desgraçadamente pela espinhal medula, as madrugadas, os fantasmas em pálpebras cerradas, húmidas, cansadas em ti, e a Emília

Quero o divórcio,

O meu pai que sim, mas o miúdo fica comigo, como se eu fosse um livro do Kundera ou do Lobo Antunes, e depois de uns quatro ou cinco uísques, o meu pai

Vamos lá repartir os livros, tu, para a Emília, tu ficas com os livros do Milan Kundera, eu, o meu pai, eu fico com todos os outros, ela, a Emília, porque só fico com os livros de Milan Kundera, eu, o meu pai, porque eu quero,

E eu, o miúdo, não tenho voto na matéria? Tudo indicava que não

Quero o divórcio,

A noite quando vinha quase sempre trazia companhia, uma ou duas abelhas deambulavam na sala de jantar, e ainda hoje não percebo

Abelhas na biblioteca? E eu, o miúdo, não acreditava, estás a mentir-me pai,

Claro que não, e ainda hoje não percebo porque nos fomos embora, e ainda hoje não percebo os carris paralelos onde brinca o comboio, e nunca, nunca se encontram no infinito

Divórcio,

Liberta-me, alimenta-te de mim, come-me, pensava eu, o miúdo, em voz alta, abria a janela com vista para as traseiras da casa, o quintal emblemado com silvas e tojos embrulhados em amarelo cetim, urtigas, miudezas algumas, e eu, o miúdo, e eu

Decidam-se, quem fica com quem?

E eu, o miúdo

Estás a mentir-me pai, não é verdade que sou um livro

É?

Talvez, não sei, resmungava a porteira

Toda a porcaria aqui vem parar, como tudo era diferente antigamente, ninguém se metia na vida de ninguém, sempre o respeitoso Bom dia dona Margarida, como passou a noite?, ou

É?

Quero o divórcio,

Como tem passado Dona Margarida?, e eu, não o miúdo, eu a porteira, e eu lá lhe ia dizendo que o maldito reumático não me deixava dormir, e eu, não o miúdo, eu a porteira, a queixar-me das dobradiças e parafusos, E a netinha já deve estar um mulherzinha?

Olhe menina Margarida, um anjo que teve a infelicidade de casar-se com um estafermo, e ao que parece

Quero o divórcio,

Vão divorciar-se, ao menos livra-se daquele paspalho, o meu pai, e só tenho pena dele, eu o miúdo, coitadinho dele, tão novinho, coitadinho dele, um anjo que teve a infelicidade de nascer numa cidade com edifícios de barro e palha com janelas para as urtigas e tojos embrulhados em papel amarelo, e silvas, e pássaros dona Margarida, e pássaros

Ai dona Amélia ainda me lembro da menina Emília em corridas aqui no Hall de entrada, loira, espertaaaa como nunca vi, e deixei de a ver, hoje não a conheço, vamos lá repartir os livros, tu, para a Emília, tu ficas com os livros do Milan Kundera, eu, o meu pai, eu fico com todos os outros, ela, a Emília, porque só fico com os livros de Milan Kundera, eu, o meu pai, porque eu quero, e pássaros dona Margarida, muitos, em cada esquina

É?

Um anjo que teve a infelicidade de nascer numa cidade com edifícios de barro e palha com janelas para as urtigas e tojos embrulhados em papel amarelo, e silvas, e pássaros dona Margarida, e pássaros, e eu, o miúdo, e eu

Porquê pai? Tu, para a Emília, tu ficas com os livros do Milan Kundera, eu, o meu pai, eu fico com todos os outros, ela, a Emília, porque só fico com os livros de Milan Kundera, eu, o meu pai,

Porque eu quero,

E eu, o miúdo, e eu a ouvi-los

Liberta-me, alimenta-te de mim, come-me,

Noite sem fim, quando as ausências programadas cintilam, correm, desgraçadamente pela espinhal medula, as madrugadas, os fantasmas em pálpebras cerradas, húmidas, cansadas em ti, e a Emília

Quero o divórcio,

Como se eu fosse um livro, um pequeno livro, oco, simples, sem palavras, sem carroceis, carrinhos de choque, eu, eu o miúdo, eu como se eu fosse um livro de poesia que ninguém

Eu leio muito

Lê,

Diurno, o nocturno miúdo dos desejos, como se eu, o miúdo, como se eu fosse um livro, grosso, aprisionado numa prateleira longínqua onde barcos de madeira se passeiam, sonham, caminham, e cavalgam montanha acima, até chegarem ao céu dos incensos, e eu, eu o miúdo

Sofrido, cansado, triste, imundo,

e eu, eu o miúdo

À espera de um afago por parte da porteira, a única que nunca se queixava dos ossos que diziam crescer nas paredes do edifício construído em barro e palha, e com janelas

Lembras-te miúdo?

Claro que sim,

Para o quintal emblemado com silvas e tojos embrulhados em amarelo cetim, urtigas, miudezas algumas, e eu, o miúdo, e eu

Decidam-se, quem fica com quem?

E eu, o miúdo

Estás a mentir-me pai, não é verdade que sou um livro

É?

Claro que não.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:18

02
Jan 13

Talvez, um dia, quem sabe, junto ao cais da rocha conde de Óbidos, zarpe, visto-me de marinheiro, pego num pequeno barco, de preferência, em madeira prensada, por causa do peso, e zarpo, sem rumo, destino, endereço físico ou electrónico, deixo ficar tudo

Não acredito que o faças, e enquanto a oiço penso nas ruas onde brinquei, me sentei, caí e chorei, penso, recordo, e enquanto a oiço vejo-me sentado em cima de uma grade de madeira onde alguém tinha trazido maçãs, ou pêssegos, talvez laranjas, foi há tempo suficiente para não me recordar, e sei que junto ao portão eu o esperava, abraçava-o e ele dava-me um beijo, pegava na minha mão trémula, e desaparecíamos entre as sombras das mangueiras,

Deixo ficar tudo, e mergulho no vácuo

Sem rumo eu, hoje, dele, quando o mar, talvez laranjas, o mar pegava nele e levava-o a passear pelas ruas invisíveis da cidade iluminada por candeeiros a petróleo e flores com olhos verdes, dele, o mar vestia-o de marinheiro, e zarpava, corria e descia a calçada, sempre apressadamente abraçado à loucura, esquecia-se sobre a mesa da cozinha do fuso horário, parava sobre o equador, toda a noite, o baile de gala, dançavam, dele, nunca lhe ouvi uma palavra de amor, nunca, nunca lhe ouvi um sorriso nos lábios, nunca, sem rumo, eu, hoje, quando o mar, oiço-lhe os lamentos solitários das noites mórbidas que um desenhador constrói com um esquadro e uma régua, os lamentos

Que puta de vida a minha,

Claro que podia ser pior, dizia-lhe eu, e um dia deixo ficar tudo, e mergulho no vácuo, e um dia deixo ficar tudo e mergulho no plasma das tuas veias e vou em direcção ao arco da lua, cerras os olhos, cerras os olhos e oiço-te

Que puta de vida a minha,

E digo-te, e digo-o e escrevo-o para que nunca o esqueças

Que podia ser pior?

E escrevo-o, e digo-o para que um dia nunca o esqueças, nunca, nunca acreditei que o fizesses, e enquanto te ouvia pensava nas ruas onde brincávamos, nos sentávamos, caíamos e chorávamos, pensava, recordo, e enquanto te ouvia via-me sentado em cima de uma grade de madeira onde alguém tinha trazido maçãs, ou pêssegos, talvez laranjas, foi há tempo suficiente para não me recordar, e sei que junto ao portão ele me esperava, abraçava-me e dava-me um beijo, pegava na minha mão trémula, e desaparecíamos entre as sombras das mangueiras, hoje não

E digo-te, e digo-o e escrevo-o para que nunca o esqueças

Que podia ser pior?

Muito pior.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:49

Janeiro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO