Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

26
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Embebida nas drogas sintéticas do desejo

há palavras que brotam em teus alicerçados lábios de amanhecer

como pedaços de papel suspensos de um velho livro de poemas

há uma cadeira vazia onde te sentavas

e deixaram de existir os gemidos gonzos perdidos de ti,

 

Saboreando eu as ditas embebidas na tua doce boca

ou quando acorda o botão de rosa

e sabes que vem do espelho cinzento o vento que te enlaça

e enrola nos cordões de aço

sobre o rio em delírios nocturnos,

 

Abres as janelas das cinco torres de neblina

que sobejaram da alegre tempestade de alento

sabes que parti porque sou como as gaivotas

voando de mastro em mastro

em busca de alimento,

 

Sou

sou um falso carvão filho de um medíocre carvoeiro

que corre as ruelas da cidade numa bicicleta antiquada

não estou habituado a alimentar-me como as pessoas normais

talvez porque eu não seja humano… talvez porque eu sou um normal carvão,

 

Sem coração

profano

embebida nas drogas sintéticas do desejo

ela a Rainha das madrugadas em poesia

saltando de vez em quando os tristes muros da insónia...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:19

25
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Olhos, eu? Não os tenho... são apenas pedaços de xisto vagueando ente os socalcos do Douro e a imaginação invisível do sonho de voar..., uma velha metralhadora dispara sorrisos contra a parede de vento que separa os quintais, um pertence ao palhaço rico, e o outro, como nem podia ser de outra forma, é propriedade do palhaço pobre, quando criança queria ser palhaço, trapezista... ilusionista, qualquer coisa que rimasse com circo, qualquer coisa que me fizesse deslocar de terra em terra, e nunca, nunca ser pertença de nenhuma, não ter terra, não inventar rimas quando vinhas à janela, olhava-te e sorriamos como crianças entrelaçadas nas aranhas dos livros de banda-desenhada, imagina que eu fosse o circo, uma roulote, uma fera indomável, correndo e comendo carne até adormecer,

Imagina-me de bicicleta entre sombras de mangueira e gargalhadas de plátanos, imagina-me, não à janela do primeiro andar, mas... num rés-do-chão sobre rodas,

Imaginava-me prisioneiro a uma corda sem princípio nem fim, eu, um palhaço, um trapezista ou um malabarista engolindo fogo e vomitando pedaços de vidro, imaginava-me acorrentado aos abraços de alguém, que quando chegasse no final da noite,

Estou enjoada,

E eu confortava-a dizendo-lhe que provavelmente era do trapézio, ela olhava-me e sorria

E ente silêncios,

Do trapézio... Parvalhão que não percebe,

Nunca, quando chovia, nunca, quando montávamos a tenda e debaixo dela centenas de crianças, sorrindo, comendo pipocas, gelados, nunca, quando eu no palco travestido de cigana lançava-me às feras, elas diziam que eu

Do trapézio... Parvalhão que não percebe,

Disparam-se sorrisos contra a parede de vento, revoltam-se os lençóis de linho das nossas avós, e ardentemente, faço uma pequena sesta na minha infame roulote, e o melhor local para arquivar determinadas mensagens é sem qualquer dúvida a pasta “LIXO”, e enquanto me esticava no pouco espaço da roulote, olhava-me suspenso no tecto, e percebia que nunca seria eternamente criança, e que um dia a vida artística terminaria, deixaria de ser o trapezista, deixaria de ser o palhaço pobre, deixaria de ser o malabarista... e de to e sempre, deixaria de ser o menino do mar, e perguntar-me-ia

Do trapézio?... Parvalhão que não percebe,

E que não, nunca percebeu, e ainda hoje acredita que os olhos são apenas pedaços de xisto vagueando ente os socalcos do Douro e a imaginação invisível do sonho de voar...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:02

foto: A&M ART and Photos

 

Um círculo de espuma

no centro sombrio de uma tela mergulhada em insónia

junto à fronteira que separa a noite do dia

o mar rasurado misturando-se em lágrimas e pequenos silêncios de papel...

e de um sofá submerso em sonhos pincelados de sal... ouve-se o gato “Orlando” em gemidos de sono,

 

Ele inventa a madrugada sobre os telhados de Lisboa

e pinta nas manhãs de neblina a paisagem invisível do rio envergonhado

atravessado por uma ponte rabugenta

enferrujada pelo vento das nortadas entre despedidas e desejadas barcaças

derramando a solicitude em palavras abstractas e insignificantes,

 

O desejo em tua felina pele voando sobre as árvores do Tejo

confunde-te com gaivotas e pernaltas em pétalas de açúcar

barcos apaixonados

e astronautas

e no final do dia dizes-me que no Sábado vais ficar ausente de mim,

 

Habituei-me às tuas garras sobre o meu peito em papel-cartão

marinheiro tu saboreando sorvetes de chocolate como broches na lapela do mendigo artista

dormindo sobre a calçada e desenhando nos teus tornozelos as equações trigonométricas da paixão

e procurando ângulos no negro quadro separando a parte real da parte imaginária

os números complexos em ti descendo o corpo do círculo de espuma,

 

Estás nua

geada de sémen em migalhas de areia

correndo esquinas e travessas em madeira

pilares e vigas

e sorriso algum emerge dos teus lábios de cidade adormecida... vadia e prostituta.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:15

publicado por Francisco Luís Fontinha às 08:29

24
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Fazes sentido depois de rasurada, destruída, tu, uma apenas folha de papel, sem nada a tapar-te o corpo desnudo, de pele flácida, como a madrugada, como o amanhecer, antes de acordarem as palavras, e de te vestires convenientemente para saíres à rua? Pergunto-me

Pergunto-te camuflada dentro das gavetas da minha velha secretária, em alguns pontos dela, o caruncho a procurar-te, e não te encontra, abro-lhe as gavetas, a primeira, a seguir, a última... e tu, tu não estás presente, apenas uma fina poeira...

Fazes sentido viveres em mim? Tu? Folha de papel amarotada, esquecida, às vezes, amachucada e deitada no caixote de rede entrelaçada, claro que não meu querido, claro que não, nunca serás o que eu fui, e nunca foste o que eu serei, depois, depois de partirem as andorinhas, depois caírem todas as folhas das árvores da nossa terra (será que ainda temos terra?), não sei... eu não tenho a certeza de ter uma Pátria única, una, sinto-me a tua folha de papel, rasurada, destruída, amachucada... nas tuas mãos, quando começa a noite e me tocas na face oculta, escondida, como as sombras dos candeeiros de naftalina, procuro-me dentro das tuas gavetas, encontro bugigangas, coisas mais parecendo objectos adquiridos por ti quando visitavas a Feira da Ladra, e nada trazias dentro de ti, e nada existia entre nós, eu, uma simples folha de papel, e tu, uma doce e bela caneta de tinta permanente,

Pergunto-me

Como será o Outono?

Gostava de ser como tu, não me preocupar com as palavras, não me preocupar com a saudade, o amor e a paixão, desistir de ti, ser apenas eu, uma caneta, uma triste caneta, sem letras, tinta, solitária como as janelas viradas para o quintal onde habitam roseiras, cravos e hortelã... o aroma do pericão, e a tranquilidade da tarde quando sinto que tu desististe de mim e te lanças, ao caixote de rede entrelaçada, amachucada, rasurada, triste, branca, branca... como a lua acordada em noites de luar, gostava de ser como tu, não saber ler, escrever, contar, um dois três quatro cem quinhentos, ser um andante na algibeira dos mendigos, e pergunto-me?

Valeria a pena?

Claro que não, claro que sim, não sei, talvez,

Como será o Outono de amanhã?

Talvez, não o sei, e não fazes sentido depois de rasurada, amachucada, depois de amarrotada, feita um bola, lançada à lareira, como fazíamos aos cortinados na casa de Favarrel, depois, depois..., valeria a pena escrever em ti? Não, claro que não..., talvez, amanhã, talvez ontem, talvez nunca, claro, percebo perfeitamente,

Tu, uma simples folha de papel,

Eu, uma triste caneta de tinta permanente...

Não, não quero, não preciso... das tuas flores.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:40

foto: A&M ART and Photos

 

Sombras de ti dentro do espelho cansado em mim

saboreando livros invisíveis com odor a melancolia

um espaço vazio sombrio e escuro

entranha-se-te fazendo em ti a escultura linear da insónia

pedes-me “silêncio” e eu escrevo “silêncio” nos teus lábios de noite vaiada pela lua imaginária,

 

Pedes-me “amor”

e eu não sei escrever “amor” no teu corpo tridimensional vagueando pelo espaço-tempo

e buracos de minhoca

invento-te nas paredes do fazedor de versos

um transeunte doente com palavras apodrecidas,

 

Malcriado inocente nas bocas verticais de um triângulo rectângulo

pedes-me para escrever “hipotenusa” nos olhos do tua tangente

perco-me de ti

e não escrevo “hipotenusa” junto ao cateto das tuas coxas de cristal

escrevo-a no seno da tua saudade...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:41

Real Palácio Hotel. Apresentação de “Palavras de Cristal – Volume 1” Colectânea de Poesia. Participação de Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:48

23
Jun 13

Real Palácio Hotel. Apresentação de “Palavras de Cristal – Volume 1” Colectânea de Poesia. Participação de Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:21

foto: A&M ART and Photos

 

Sinto-me como um panfleto manuscrito, rasurado em determinados centímetros quadrados de área, sinto-me uma pulga vagueando no interior do pêlo fiel amigo meu canino, escondo-me das luzes, escondo-me dos paralelos desconformados, defeituosos, alicerçados a um passado que nunca, nunca existiu em mim um mar verdadeiro, silencioso, com ondas coloridas, calmas, docemente cinzentas como as flores do teu olhar, sento-me e esqueço-me da tua existência como mulher, criança, menina mimada, sempre em revolta, a brincar, às vezes, dentro da minha oca cabeça, recheada, a minha oca cabeça, com papel de parede floreado, que me servirá para alimentar o medo do quarto onde me deixam adormecer, deixavam? Também o desconheço, o ignoro, penso nas mãos dele e tenho-lhes medo, medo de ser acariciado como uma rosa quando acorda no jardim em desejados corações de incenso,

Tenho-os dentro do meu esqueleto os antigos panfletos manuscritos, rasurados, nojentos, tenho-os, mesmo antes do nascimento do amor, em mim, recordo a primeira paixão, talvez fosse o mar, o meu primeiro amor, ou... as mangueiras, ou... o meu fiel amigo chapelhudo, ou o abraço do velho Domingos quando regressava a casa, abria-me os braços... e eu, entrava dentro dele, até ao dia seguinte, até ser novamente manhã,

Lembro-me das tuas carícias, recordas-me tu em apenas três imagens, três simples desenhos inventados por ti numa noite de desenhos com literatura e vodka, ouvíamos “Dire Straits” sentados numas cadeira com uma estrutura flácida, como o sexo em noites de embriaguez, deitavas a cabeça no meu ombro, e voávamos sobre um Lisboa acabada de descobri, eu imaginava-te dançando sobre uma mesa num bar em Cais do Sodré, tu, não me imaginavas mas sabias que eu era um panfleto manuscrito, rasurado, como a montanha quando nascem os pássaros e a olham pela primeira vez, sorriem e exclamam...

Amo-o,

As tintas alimentava-te,

Amo-a,

Também, vestia-se de tela, e do corpo cresciam raízes pedestais em cúbicas cidades de areia, dançávamos como se não existissem madrugadas de poesia, como se não existissem rosas no jardim do amanhecer para alimentar-te os lábios pincelados de encarnado sangue, fluidos derramavam-se-te como espelhos em pedacinhos de luz, que reflectiam nos tectos das noites ausentadas, e percebia-se figuras não geométricas nos teus lençóis de insónia,

Hoje,

Amo-o,

As tintas alimentava-te,

Amo-a, o cansaço equacionado em triplas integrais numa ardósia junto à pastelaria onde comíamos os fabulosos pasteis de nata, Belém, a nossa casa, um relvado infinito de sombras, de braços entre beijos e sonhos, as árvores despiam-se e deitavam-se connosco, éramos muitos, muitas, o quê?

Amo-o, dizias-me tu enquanto te masturbavas no espelho invisível da noite, e no entanto, reconhecia os meus desenhos no teu corpo bronzeado, escuro, como os livros acabados de arder sobre as tuas coxas de silício, e ias à janela, e desaparecias como desaparece o fumo dos cigarros que hoje não fumo...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:22

foto: A&M ART and Photos

 

Tão só como as andorinhas em papel

que brincam na tua mão exagerada

as migalhas do xisto mendigo correndo montanha abaixo

e depois

as carícias que a tua pele de neblina inventam no meu corpo de Primavera,

 

Vejo a névoa que os teus olhos alimentam à roldana das horas

voando entre finas esparsas manhãs com chocolate em pó...

dos ponteiros do meu relógio sem pulso

uma deslumbrante doentia pulsação esmorecendo nos finais de tarde

e entra-me o rio no meu corpo de madeira,

 

Encharca-me o peito

e sinto a inundação do meu coração... coitado

… à deriva como uma barcaça perdendo as letras do nome

em cada esquina da cidade com as sombras árvores em silêncios nocturnos

e eram assim os meus dias aprisionado em ti não o sabendo,

 

Em mim perdido como um charco de lama derretido no musseque da lentidão

desce a noite

cobrem-se-me as pálpebras com as palavras de ti

vagueando no cansaço espelho do guarda-fato o meu destino imaginário

….............
tão só,

 

As andorinhas em papel ardendo na lareira dos teus seios

submersos no meu peito

se ainda o tenho

porque não o sinto

porque... também eu transformei-me em homem de papel...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:30

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