Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

09
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Eras em pluma doce crisântemo do Éden jardim

escondias nos lábios a algibeira dos sonhos

e trazias nos braços as imagens prateadas

que o velho homem de chapéu negro deixou ficar após a tempestade

sobre a cidade dos vampiros de cabeça estonteante,

 

Comíamos sem comer

imaginávamos alimentos em todas as árvores que víamos

às vezes fingíamos caçar pássaros de asa amarela e azul

como os papeis que usávamos na secretária da noite

para adormecermos as nossas palavras em dor,

 

E por algumas drageias apenas

elas

as palavras vomitadas pela nossa empobrecida insónia...

inventavam sonhos e marés com vestidos de renda

e deixávamos de saber o nome dos dias,

 

Pintávamos minutos dos relógios procurando braços

para aportarem âncoras de iodo e laboratórios de análises clínicas

as palavras com teores de açúcar bastante elevados

e dos poemas havia uma pequena alteração no níveis de colesterol...

comíamos livros e nem assim conseguíamos sobreviver aos anzóis do amanhecer,

 

Se nos amávamos deixei de perceber

que na tua boca de Primavera envergonhada

habitavam calçadas como rios fundeados nos alicerces da tuas palavras

as mesmas e aqueles que as drageias apenas

elas as palavras eram pedaços de papel envenenado pela escuridão do prazer...

 

(não revisto)

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 14:32

08
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Tinha medo do escuro e das mãos não tuas, cresciam em mim desejos imprimidos no papel grosso e quase cartão onde embrulhávamos os demais objectos não utilizados, tínhamos apenas uma cama para as duas, e éramos uma lágrima antes de romper a madrugada janela adentro, ouvíamos ranger a cidade, ouvíamos os rosnar dos autocarros dando os primeiros passos avenida abaixo, ouvíamos o estender de braços, sobre a cabeça, do rio que ficava a meia dúzia de metros dos nossos encontros secretos, depois, abríamos a janela, dávamos as mãos, e fumávamos os primeiros cigarros de nós, e éramos felizes assim

Poemas que vão integrar esta colectânea,

Horríveis, sangrentos, húmidos às vezes, como esponjas derramando películas de suor que vogais e sílabas alimentam depois de nascer o poema, e morrer o texto, sulcos salivais, vaginais, vagabundos escondendo-se em folhas velhas de jornais, a cama, delírios imaginados por um transeunte camuflado num sobretudo castanho, havíamos combinado escondermos-nos no sótão enquanto nos acariciávamos olhando-nos num espelho magro, esquelético, voraz, volátil como alguns fluidos dentro de pequenas caixas de fósforos, e ardíamos como cachimbos na boca desespero do senhor António Emagrecido com voz penumbra soletrando as pequenas letras no cardápio do prazer,

Poemas que vão integrar esta colectânea, poemas de “merda” e textos de “merda” percorrendo socalcos e avenidas entre arbustos e automóveis de luxo, por favor – Mesa para duas – e depois despedíamos-nos após transcrevermos na palma da mão os poemas envenenados e moribundos, alguns, nem sobreviviam e na primeira carícia acabavam por despenharem-se-me nos seios circunflexos das paixões em marés de Primavera, éramos novas e queríamos – Queremos um quarto de casal se faz favor – e a pergunta parva de sempre

(as meninas vão dormir juntas)

Respondíamos que não, claro que não – Eu durmo no chão e ela dorme com o gato Jerónimo – PARVALHÕES...

Horríveis, percebem?

Os poemas, as noites em claro olhando uma lâmpada embrulhada em papel celofane, encarnada, e pela segunda vez sinto o meu corpo possuído pelo maldito sarampo, eu parecia um forno depois de aquecido e esperando a entrada em mim da massa, que posteriormente, como os poemas, renasce o saboroso pão, e trazias-me a manteiga de amendoim, e quando acordava, sentia-me embalsamada nas tuas mãos..., “tinha medo do escuro e das mãos não tuas, cresciam em mim desejos imprimidos no papel grosso e quase cartão onde embrulhávamos os demais objectos não utilizados, tínhamos apenas uma cama para as duas, e éramos uma lágrima antes de romper a madrugada janela adentro, ouvíamos ranger a cidade, ouvíamos os rosnar dos autocarros dando os primeiros passos avenida abaixo, ouvíamos o estender de braços, sobre a cabeça, do rio que ficava a meia dúzia de metros dos nossos encontros secretos, depois, abríamos a janela, dávamos as mãos, e fumávamos os primeiros cigarros de nós, e éramos felizes assim, assim, assim como hoje, poisando os cotovelos no peitoril de verniz sobre a Avenida Almirante Reis, e comíamos Sábados à noite, depois de acordarmos com hálito a chocolate e a beijos de açúcar”, mãos, as mãos tuas em mim, depois, depois a penúria de vivermos sobre um mar de areia branca, sem barcos...

Horríveis, percebem?

Como todos os versos dele...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:43

foto: A&M ART and Photos

 

Tinhas na mão as palavras minhas

em ausências mergulhadas nos carris da insónia

trazias-me ao jantar os sabores do mar

com pequenas algas e pedaços de luar

tinhas nas mão as palavras minhas

dementes como esqueletos ósseos suspensos no estendal da noite

como acontecia aos orgasmos nocturnos nas miseras coxas em granito

tínhamos corações de xisto

e janelas com imagens encarnadas entre flores e pétalas às pálpebras quebradas

dos vidros restou nada

e da casa com cortinados de papel...

sobraram saudosos beijos embrulhados em simples abraços,

 

Tinhas na mão a pele silenciosa da madrugada

como pingos de chuva

em cansados versos por mim declamados

tínhamos os rios e as pontes e gaivotas embriagadas

nos confins voos em siderais mistelas de açúcar e canela

e demais minhas desérticas palavras

por ti

e de mim

abandonadas

tinhas

na mão minhas

corpos dispersos teu desejo travestido entre plumas e rosas de amor.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:18

07
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

É sexta-feira, atiram-se pedras contra as palavras que poisam no estendal do quintal onde juntamente com demais roupa, de homem e senhora, uma criança grita pelos patos que brincam no lago, são três, podiam ser quatro, o ideal seriam cinco, mas é o que eles têm, e já não é pouco, de essa criança existem alguns brinquedos espalhados ao redor das mortas árvores de papel grosso, pouco maneável, não chove, o tempo seco ressaca-lhe os pulmões desabituados ao fumo do cigarro, e hoje, não sente saudades de fumar, mas não se cansa de recordar o cheiro, as imagens inventadas pelo fumo esbranquiçado, penumbro, arrancando bonecos de palha do campo de milho da tapada do avô Domingos, Carvalhais existe, S. Pedro do Sul padece das minhas mãos quando me sentava no jardim junto ao Município, ou ficava horas a imaginar o rio Sul em círculos enquanto do meu corpo uma sombra de planaltos deambulava pelas encostas em frente às Termas, queria atravessar o rio, voando, como pássaros, os melros invadiam-se da gaiola do senhor Joaquim, tio,

(o tio Joaquim não percebe porque chamam ao grande José Eduardo Agualusa, falso escritor, não percebe, não entende, talvez porque o tio Joaquim já tenha morrido, talvez porque o tio Joaquim só tinha a quarta classe, ou, porque apenas e só, quem o afirma, o escreve por inveja, ou pior, por ignorância, ou porque não lhe interessa ou interessam os temas dos livros de Agualusa, é verdade que todos têm direito à opinião, livre, mas dizer falso escritor... porquê? Tínhamos três patos, eu passeava-me em volta do lago imaginário onde perto do lago existia um canastro, atulhado de milho, a eira ao lado do canastro, ambos, pertenciam ao outro tio, o artista, Serafim, grande homem, este, e o outro também, o Joaquim, mas tinha um defeito, um grande defeito, não percebia a razão de escreverem que Agualusa é uma falso escritor..., tantas falsas coisas, e os livros, são todos eles verdadeiros, e aquele que escreve, será ele um falso homem? Só não percebo, querido tio Joaquim, questiona-se a possível fortuna de Agualusa, e não se questiona a fortuna de certas pessoas que em Angola vivem sem que se perceba como conseguiram tão grandes fortunas, essas sim, colossais, quando não ainda há muito tempo, alguns, mal sabiam ler e escrever e andavam de G3 no mato... e agora, alguns deles, passeiam-se de avião e vêm às compras a Lisboa)

O tio, o outro, o artista, cantava fado e declamava poesia na sua adega, rodeava-se de amigos, alguns de simplicidade invejável, outros, que deixavam o respectivo canudo à porta da adega e madrugada depois, saiam, felizmente o conseguiam fazer, alguns de gatas, outros, outros cambaleando sobre rodas de incenso e lápis de cor,

(hoje percebo que não nasci em Angola, que jamais regressarei porque felizmente não compactuo com determinados comportamentos, sempre o fui e sou, a favor do livre pensamento, recuso-me a aceitar o insulto apenas pelas diferenças de opinião, não concordo que José Eduardo Agualusa seja um falso escritor, e para terminar, percebi hoje que os destaques do meu blogue Cachimbo de Água no Sapo Angola, de hoje em diante, terminaram; paciência, sou e sempre fui assim, mesmo sabendo que posso perder tudo, o pouco que tenho, e não te preocupes tio Joaquim, um dia, um dia vamos ver o Mussulo, e depois, levamos duas cadeiras de vime, sentamos-nos junto à Baía e esperamos pelo regresso da...)

E dos lápis de cor, ele, o tio, o Joaquim, deitou fora o de cor azul.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:51

foto: A&M ART and Photos

 

Esqueço abismos e inglórias

acordo sabendo que deixaste de me esperar no banco granítico

do jardim invisível

o nosso pequeno quarto sobre as rochas viradas a Norte,

 

Esqueço palavras e sonhos

imagens

esqueço os sofrimentos das nocturnas esplanadas que a escuridão engole

e transcreve para o muro em betão que divide os nossos corpos separáveis hoje,

 

Acorrentados ontem

(lembras-te – querida solidão de areia?)

como barcos prisioneiros em pilares de sombra

e esperando que o luar desça as escadas dos cais desassossegados,

 

Esqueço a ti

como as serpentes envenenadas debaixo do divã

esqueço a ti embrulhada no capim húmido dos lençóis da madrugada

e sei que deixaste de me esperar,

 

E nunca mais te vi na janela da manhã

como o fazias ontem

antes de ontem...

quando regressávamos dos corredores de aço com sulcos finos em papel de parede,

 

Rosas em decomposição

corpos de poemas em putrefacção não sabendo eles que deixaste de olhar o sol

e começaste a caminhar mar adentro

como um paquete sem rumo,

 

Descendo calçadas de vidro

versos cansados

palavras e palavras e palavras

para quê?

 

Versos malvados

esqueço abismos e inglórias

acordo sabendo que deixaste de me esperar no banco granítico

do jardim invisível...

 

Tristes

estas noites quando os relógios morrem

e o tempo cessa as suas garras

no pescoço teu onde dormem as gaivotas embriagadas.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:27

06
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Viajo entre curvas ínfimas que me transportam às sílabas papel dos lábios jardins camuflados dentro da cidade, tenho ruas só minhas, casas desabitadas, onde, só, adormeço, passos algumas horas, porque tenho a poder de transformar horas em dias, recheios de apartamentos sujeitos a vandalismos proliferam escadas abaixo, e entre mim e o corrimão, penso-o, possivelmente nem uma mosca, daquelas esqueléticas, conseguem colocar-se a meu lado, subo só, e desço descalço, como se não existissem espelhos e cobertores, apenas uma rampa inclinada, voando eu, até encontrar a porta do prédio ao lado, uma velha pastelaria, moscas, estas não esqueléticas, coabitam com os croissants e os restantes bolos, lâminas de barbear, pilhas, jornais e revistas, mulheres nuas dentro de papel que acabará numa casa de banho pública, peço um café curto, e sobre a mesa onde esqueço os cotovelos, vejo uma chávena quase a abarrotar de café, procuro na algibeira sessenta cêntimos de euros e despeço até sempre desta horrível pastelaria perdida numa avenida incógnita, como as pedras da Ajuda, caminhadas com milhões de pés, às vezes, com o vento, tombávamos no chão, havia desníveis, ora subia, ora descia, e claro, o chão sempre foi a nossa melhor cama, depois do sono, acordavam os enjoos, o fígado inchado, a dor no estômago, e

Tonturas,

E os cigarros esquecidos na prateleira junto ao uísque e a migalhas de haxixe que de um caixote em chapa, de nome armário, ficavam o santo dia acorrentados, até que vinha a noite, abríamos a porta, e seguíamos viagem pelas ruas mais escuras que habitavam junto ao rio, corríamos, corríamos... e quando nos sentávamos nas margens do rio, apenas sós, cruzávamos as pernas, eu, os cigarros e as migalhas de haxixe, e

Tonturas, pernas torneadas por um verdadeiro artista plástico, bela, o corpo parecia um Stradivarius, e o som, o som escorria um líquido a que os humanos chamam de suor, pequenas gotinhas com sabor a incenso, ou a doçura, ou... a música,

E uma almofada amarela com bolinhas encarnadas, brancas ou negras, mergulhava nos lençóis desejo da noite, listras, brancas, intercaladas com o silêncio do capim, e nas paredes do sono, quadros, pinturas abstractas com mãos de alicerce, uma ponte despedia-se do rio, e no rés-do-chão da rua onde dormíamos quando fingíamos desgostos e dores de cabeça, havia sempre uma mosca, esquelética, não esquelética, e que às vezes era tão amorosa que dormíamos os três juntos...

(os cigarros, o sono, as migalhas de haxixe, duas moscas, uma esquelética e outra não esquelética, e claro, eu)

… amarrados à almofada, com o medo de perdermos as listras brancas, porque as negras não corriam esse risco, visto ser noite, e o negro dilui-se na escuridão, como os beijos de duas pessoas que se desejam,

Um homem e uma mulher, dois homens ou duas mulheres, porque o importante é não perdermos as moscas, as esqueléticas e não esqueléticas, os cigarros, as migalhas de haxixe, as mãos quando se entranham nas tuas coxas, e sempre, o todo, o inesquecível abraço, os sexos imprimidos nos espelhos das janelas, e feliz Stradivarius voando sobre dois corpos nus sobre lençóis invisíveis, e almofadas com listras, coitadas, acorrentadas à solidão...

E esqueci-me do uísque.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:36

foto: A&M ART and Photos

 

Havia uma louca paisagem

acorrentada à Cinderela manhã com sorrisos de nada

um pedaço de ti mergulhava em sombras com braços despidos

proibidas as melodias teu cansaço...

havia uma tal de Josefina... inventava tigelas de marmelada

que à janela secavam e às vezes dos vorazes sons do papel vegetal

voavam neblinas de insónia e projecteis de orvalho no final do dia

como acontece aos meninos que brincam debaixo das madalenas árvores de sonhar...

 

Eras quase noite

trazias-me os sonhos embrulhados em finas toalhas bordadas pela mãe Arminda

(às vezes zango-a dizendo-lhe que são trapos)

velharias em exposição que um vendedor ambulante tentava impingir-nos a todo o custo

cachimbos e bonés de militar da ex-URSS... livros velhos com presença de dores musculares

havíamos embainhado os relógios nossos pulsos em pequenos cabelos ramificados

como cabos de aço a prenderem petroleiros no corredor desgosto do ser

o papel de embrulho sempre deitado sobre o velho balcão em madeira apodrecida,

 

O cheiro da roupa depois do sexo

o perfume do sémen impregnado nas oliveiras além socalcos

como ventoinhas em suspenso no tecto da cubata esquecida sobre o Tejo

tínhamos medo da ponte de ferro

e dormíamos nos bancos de jardim porque queríamos escrever sobre os joelhos cansados da madrugada

havia uma louca paisagem com uma louca casa e uma louca varanda

dos teus loucos beijos

em tuas grandes loucas mamas de amanhecer violento depois das tempestades palavras...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:13

05
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Comíamos as tristes noites de insónia

e acompanhávamos-nos como serpentes de dor

enroladas em nuvens de cor

e papel celofane suspenso dos lábios moliceiros em desejados sonos nocturnos

que a mão teu corpo envergonhado deixava cair sobre os geométricos alicerces clandestinos da luz,

 

Traços uniformes

seixos de mágoa que transparentes imagens de sons desconformes

voavam entre a madrugada

e a pele simétrica que cobre o sufoco jardim das clarabóias de cetim

às primeiras horas dos minguados sopros beijos,

 

Tínhamos na fome

o prazer de olharmos as árvores em descansos imaginários

como marés invisíveis

quando o vento as levava...

e a faca penumbra circunferência dos teus seios poéticos e melódicos ficavam esquecidos no interior de um livro de poemas,

 

(sinto-os endoidecer nas minhas mãos)

como a saliva e o folhear de páginas sem palavras

folhas tristes e brancas

como as janelas sem cortinados

como os olhos sem pálpebras,

 

Com o céu despido nu nas estrelas tuas mãos

fictícias manhãs desenhadas numa ardósia que um recreio escondeu

como as flácidas enguias que o prazer transformava em delírios moribundos

e de um pinheiro envelhecido

desciam margaridas flores com pétalas de pergaminho púbis...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:55

foto: A&M ART and Photos

 

Eras transparente como o vento, à procura de ti transversalmente sobre as placas tectónicas do magma silêncio onde poisavas os ombros, descansavas os braços, de ti, quando a pele se ausentava do teu corpo, e fingia mergulhos secos em poços de ninguém, víamos a maré através de uma janela, e dávamos as mãos, porque éramos apenas crianças perdidas nas planícies das bananeiras, ouvíamos ao longe os semáforos uivos dos pescadores envergonhados quando das ondas chegavam até eles objectos cúbicos, círculos de luz e lápides de mármore, dois gajos, um de cada lado e ao cento um emaranhado de palavras, os gajos, salvo seja, feios, imundos, e das palavras apenas

(do saudoso saudades de vós, perdedores insensíveis das noites de luar, isto é um jogo, diziam eles, e nós vamos ganhar, diziam eles..., dos filhos das filhas e das esposas e dos esposos, e dos afilhados, ex-afilhados, novos, velhos transparentes apressados para encontrarem lugar sentado na cadeira do senhor, à direita, depois à esquerda, depois ao centro, e quem sabe, um dia, os dois em lápides de ternura da comunhão solene apressadamente em frio inverno, diziam-me eles, que, talvez, um dia, um dia vamos ganhar, vamos, claro que sim Doutor... a vitória é sua; Ora porra... será a águia... ou... a lápide com dois gajos, feios, muito feios, perdidamente apaixonados pelo desespero, uivos)

Apenas sentia o calor dos teus dedos, percebia-se pela chegada da noite que do teu castanho cabelo uma flor crescia, e quando já noite cerrada, ela emergia-se-me e dirigia-se-me, acredito que gostasse de mim, como acreditei em tantas parvoíces que hoje, hoje não acredito em nada, nem no que vejo, hoje só sentindo,

Uma mãe chamava a sua querida filha, resgatava-a da noite e das minhas garras de menino apaixonado por triciclos e papagaios de papel, um menino que da sombra das mangueiras, apenas e só, construía edifícios de muitos andares, que alguns deles, tocavam o céu, e os beijos teus que me oferecias quando te despedias da noite, brincávamos dentro de uma caverna forrada com pedaços de cartão, e mais tarde, tive medo dos caixotes de madeira

(cuidado – frágil)

Um guindaste enferrujado vomitava sulcos de fumo, havia no ar um enorme rosnar de um motor envelhecido, doente, cansado, carregava, descarregava, imaginava-o suspenso nos teus sonhos, e quando me deitava, e quando não dormia, acreditava, fazia contas, imaginava quantos caixotes de madeira ele tinha carregado/descarregado, até que desisti quando regressou a Primavera, fiquei em liberdade condicional, libertei-me do enfadado Inverno, chorei, sorri, gritei, pesadíssimas as minhas primeiras botas calçadas num dia de geada, porra... que vida esta, diziam-me eles

(do saudoso saudades de vós, perdedores insensíveis das noites de luar, isto é um jogo, diziam eles, e nós vamos ganhar, diziam eles..., dos filhos das filhas e das esposas e dos esposos, e dos afilhados, ex-afilhados, novos, velhos transparentes apressados para encontrarem lugar sentado na cadeira do senhor, à direita, depois à esquerda, depois ao centro, e quem sabe, um dia, os dois em lápides de ternura da comunhão solene apressadamente em frio inverno, diziam-me eles, que, talvez, um dia, um dia vamos ganhar, vamos, claro que sim Doutor... a vitória é sua; Ora porra... será a águia... ou... a lápide com dois gajos, feios, muito feios, perdidamente apaixonados pelo desespero, uivos, o desterro, os dois mosqueteiros sem espada, cordas, enforcados num simples plátano macho, uma lápide, duas fotografias a preto-e-branco, de uma lado, o avô Domingos, e do outro, a saudosa e querida avó Silvina, ao centro, o palavreado de sempre, datas de nascimento, o dia em que partiram, e claro, nunca esquecer o dia da derrota final, aquele da libertação, quando os prometidos soldados, comandados por um General imune a corrupção, ao banditismo, e ao trágico silêncio embarcadoiro por mares encastrados num castanheiro como símbolo de armas, que coisa, loisa, loiça espalhada pelo chão, e sempre esperando que o dito vento, aquele que como tu, também ele transparente, um dia regresse e todos sejamos livres, livres como os pássaros da casa de Favarrel – Carvalhais...)

E diziam-me eles que tudo seria temporário, as botas, temporárias, a casa com divisões em panos de chita, temporárias, e os sonhos não realizados, também eles temporários..., “eras transparente como o vento, à procura de ti transversalmente sobre as placas tectónicas do magma silêncio onde poisavas os ombros, descansavas os braços, de ti, quando a pele se ausentava do teu corpo, e fingia mergulhos secos em poços de ninguém, víamos a maré através de uma janela, e dávamos as mãos, porque éramos apenas crianças perdidas nas planícies das bananeiras, ouvíamos ao longe os semáforos uivos dos pescadores envergonhados quando das ondas chegavam até eles objectos cúbicos, círculos de luz e lápides de mármore, dois gajos, um de cada lado e ao cento um emaranhado de palavras, os gajos, salvo seja, feios, imundos, e das palavras apenas, apenas? Apenas se os velhos marginais de areia, conchas, moluscos, quitetas, deliciava-me, e no entanto, sentia a tua falta, o teu sofrimento quando te levavam para longe, dentro de um barco, e...”, dois, dois parvos embrulhados numa lápide de papel, como carneiros vagueando debaixo do tecto do medo,

(cuidado – frágil, e percebi que estes comboios não eram de brincar)

E eras transparente como o vento, e quando gritavas o meu nome..., apenas sentia o vento enrolado nos tornozelos de um embondeiro, e a tua voz, aos poucos, mergulhava-se-me como gotinhas de água que desciam solenemente dos céu... até caírem inocentemente sobre as placas tectónicas do magma dos teus lábios; e sim, eras tu, nunca o duvidei.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:43

04
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Ouves as mãos de chocolate vagueando sobre a tempestade de cereal em forma de palavra

escreves-me dos tentáculos silêncios dos vulcões entranhados na montanha teus seios

e um arbusto chora a tua ausência

como se o vento adormecesse nas melancólicas mesas de granito

que um buraco de minhoca alimenta em pedaços de paixão

e tristes casas de areia com vista para a cidade dos barcos amargurados,

 

Ouves tuas minhas cansadas desilusões que o mar engole como Sereias de papel

e nada fica eterno

oiço-os fingindo escadas de acesso ao tecto da insónia história

não existo

desisto

de procurar palavras numa calçada sem nome num bairro esquecido no altímetro do Mussulo,

 

Vagabundeio semi-nu procurando terrenos para aportar

meus alicerces de tristezas manhãs de Primavera

a astronomia minha amiga inventa-me estrelas com pequenos torrões de açúcar

goiabada e mandioca

habitávamos em corpos sonâmbulos pela infinita distância sem que o universo nos informasse

dos projectos para ultrapassarmos as difíceis tardes abraçados a um rio imaginário,

 

Doente

sem nome dizendo-se filho das grandes palavras esquecidas nas cúbicas coxas cinzentas

que deixam os pássaros embriagados em penumbras cristas de azoto

finíssimas peles bronzeadas como noites escurecidas num qualquer confim de África...

e invento a felicidade com pedaços de capim e uivos de mabecos

enquanto um velho papagaio de papel circula no céu como uma ventosa em busca da saudade...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:19

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