Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

31
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

espero-te como se fosses a noite e me trouxesses as listras encarnadas da solidão

como se fosses a janela dos meus sonhos

e me trouxesses

a fantasia

e a paixão

revestida

negra

a fome

depois de acordar a madrugada

depois de cessar este empobrecido coração

espero-te

espero-te eu porquê?

 

depois...

depois o quê?

que não dormes

e que sonhas comigo?

espero-te na esquina da insónia

e tu não és de carne e osso...

como os humanos que aprendi a distinguir e a amar e a odiar...

às vezes

depois

tenho-te medo

que vagueis em mim como os tristes ângulos dos teus lábios

entre senos e cossenos magoados

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:51

foto de: A&M ART and Photos

 

adormecias-me nas clandestinas janelas com olhos de vidro

e entravas nos meus sonhos

entre telas e palavras semeadas nos braços da paixão...

e assim

vivíamos inventando os segredos das noites coloridas...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Agosto de 203

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:00

30
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

(detesto rosas

porque picam

porque podem ser em papel

e ardem)

 

detesto as madrugadas envenenadas pelos teus beijos vestidos de mendigo

quando poisam sobre o tabuleiro do pequeno-almoço

e na mesa-de-cabeceira espera por ti uma fina e tímida folha

com a débil despedida

abro a janela e começo a voar em direcção ao vazio

percebendo que em ti

e de ti

as palavras são como pedaços de cigarro semeados no cemitério do medo

e há paixão no teu corpo

uma lareira de desejo percorrendo as minhas mãos de areia húmida

como dizem que às gaivotas aparecem durante a noite vómitos de sobejadas paixões

em cansaços de amêndoa

 

(detesto rosas

porque picam

porque podem ser em papel

e ardem)

 

ardem as rosas

e o corpo das rosas

ardem os filhos das rosas

e os filhos do corpo das rosas

ardem os poemas

e as canetas de tinta permanente...

ardem...

como limalha de aço suspensa nos teus lábios

beijar-te sabendo que és um corpo vulnerável

incendiável

um corpo... volátil como a minha voz quando sinto a tua presença

… assim... como o teu... como as sílabas decalcadas nos seios do amanhecer...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:32

29
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

És a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo sobre uma deserta cama com lençóis de Pôr-do-Sol e finas tiras do adormecido miolo que o pão em molho de beijos vagabundos que dos lábios teus saltitavam até de encontro aos vidros da pequena janela

Embaterem e destruírem-se como bolas de sabão,

Ouvíamos o ruído em cacos vidros caírem sobre a ruela com a garganta apertada, sentia-se na respiração o ofegante grito do cansaço, caírem como pedaços de papel em colorida cinza, e confesso que

Não gosto, e detesto,

Que entre em mim a noite mendiga, travestida, enfeitada com cartão e velhos cobertores que antigamente alimentavam lindos cortinados suspensos na janela da sala onde habitava o piano da tia Adosinda, onde permanecia ainda, penso eu que

Não gosto, e detesto,

Que me digam o que tenho ou não de fazer, que os espelhos me olhem e me ordenem

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

Penso que sobrevivia sozinho, e não precisavas de esconder debaixo da mesa as chaves do sótão da rua das flores, e não precisavas de trazer no rosto as minhas pobres telas, e não precisavas de retirar todos os cortinados e oferece-los aos mendigos da rua contígua que agora utilizam como cobertores

Cantigas, lérias... olha agora cobertores...

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

Não, não gosto, e detesto,

(és a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo)

Lembras-te de mim, miúda?

Provavelmente já não te lembras do pintor que trazia no rosto as sujas telas e os tristes papeis como argamassa do muro da solidão, eras tão nova, que

Não, não gosto,

Que confesso,

Que

Lembras?

Que foi a última vez que tive na mão o beijo da cidade dos embebidos marinheiros que chegavam em pequenos grupos aos teus braços, ainda pensei plantar-me junto ao rio, ainda pensei

Ainda gostas de mim?

Gostar, o que é gostar?

Que ainda pensei transformar-me em ponte, em aço de preferência, esticava os braços, juntava as duas margens, ou

Cantigas, lérias... olha agora cobertores...

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

… ou

É triste

É triste ser peixe e viver dentro de um minúsculo aquário de peneirento vidro com perfume made in China, depois chegavas a casa, corrias os cortinados, entrava em nós a luz ténue da madrugada, abrias o piano, e começavas a tocar para mim...

Ou...

Tão triste, tão, ser peixe em trinta e seis suaves prestações... e sem juros.

 

 

(Não revisto . Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:44

foto de: A&M ART and Photos

 

imagino as incógnitas que vivem na tua cabeça

tento perceber as equações do teu empobrecido coração

geometricamente

não consigo determinar a posição do teu corpo no espaço tridimensional...

e tudo parece tão simples

normal

imagino a integral dos teus seios pintados de encarnado

e reflectidos no prisma que se esconde na teoria das cores

dos cheiros

e sabores

imagino a equação diferencial das tuas alegres coxas

quando se despedem da tarde as gaivotas triangulares

 

imagino o silêncio vestido de negro

caminhando sobre o arame da solidão

lá em baixo o público enfurecido olha-te como se fosses um cartaz perdido no vento

balançando

dormindo

chorando

e imagino as incógnitas que vivem na tua cabeça

os círculos trigonométricos do teu púbis amargurado

cansado de mim

talvez... apaixonado por mim

talvez

porque tridimensionalmente... não consigo determinar-te no espaço só e vazio

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:35

28
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

não percebes que vivo enclausurado num caixote de vidro

que uso suspensórios

tenho falhas de memória

não percebes que eu vivo

prisioneiro de uma tempestade de areia

onde vivem nuvens com perfume de laranjeira...

que adormeço sonhando com rochas suspensas no tecto do sótão enraivecido

dos gritos vulcânicos da montanha da morte

 

não percebes que és uma mentira vestida de negro

passeando pela noite até encontrar o espelho da vaidade

sorrindo às vezes

chorando quando caiem os desenhos abstractos das paredes envergonhadas...

(sou de ti) responsável pelo teu fingimento

como são os livros das tuas mãos

como são...

os roseirais da tia Guilhermina

 

marinheiros vagabundos dormindo sobre mesas embriagadas

e não percebes

não entendes

que há marés de madeira

e todas as semanas aparece um Pôr-do-Sol nos cortinados do medo

os roseirais da tia Guilhermina

morrem e querem de ti o esqueleto mentiroso

que as palavras dissipam na claridade dos pequenos teus olhos verdes

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 28 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:44

foto de: A&M ART and Photos

 

dia 21

quarta-feira, 28 de Agosto de 2013

Prisão da Alegria,

Mãe,

Hoje não tivemos direito a almoço, um problema qualquer na cozinha, segundo eles, mas a verdade é que ainda não vimos nenhum dos guardas, estamos encerrados desde ontem ao final da tarde, há um silêncio total à nossa volta, mete medo, abrimos o postigo de acesso ao pátio e nem os pássaros se conseguem ouvir, alguém nos disse que tinham desertado todos, juntamente com os guardas, ao que tudo indica, estamos por nossa conta, começa a chover, parecem pedaços de cinza, dizem que a cidade dos sonhos arde, mas outros, outros dizem-nos que é o Governo que está a transformar a Cadeia da Alegria em Cemitério da Tristeza, não o posso garantir, mas a verdade, mãe

Fui aí para te visitar e disseram-me que estavas com dor de cabeça, gripe penso eu, desculpa meu filho, desculpa... já não consigo perceber muito bem o que me dizem, oiço mal, vejo mal, e cada vez que te vou visitar há uma desculpa à minha espera, talvez tenhas apanhado muito sol, talvez...

Olha, o mar que tínhamos pintado numa das paredes da cela, desapareceu durante a noite, dizem que a culpa foi dos incêndios das últimas semanas, parece que o Governo privatizou o nosso mar, e agora, vê tu, o mar que tanto trabalho nos deus a pintar

Não me digas, meu querido filho, não me digas que foi comprado pelos Chineses...

Exactamente, exactamente mãe, como o sabias?

Não o sabia, não o sabia,

Estou esquecida, meu filho, tão esquecida que deixei de perceber há quanto tempo estás ausente de mim, oiço mal, vejo mal, dizem-me que estás bem, que estás a trabalhar numa Ilha com muitas mangueiras, com muitos barcos, e que és muito feliz... é verdade, meu filho?

Sim, sim mãe, aqui na Cadeia da Alegria somos todos muito felizes, ou... éramos, porque depois de nos terem vendido o mar... nada nos resta aqui, apenas um pequeno jardim deitado sobre um corpo emagrecido, vendido em pequenas fatias pelo Governo, e dizem que os pássaros e os guardas levaram as árvores, acreditas nisto, mãe? Que País é este? Que... que transforma as Cadeias da Alegria em Cemitérios da Tristeza..., diz-me tu, por favor?

Fui visitar-te e disseram-me

Que eu estava com gripe, é mentira mãe, é tudo invenção deles...

E disseram-me que estavas bem, que tinhas o mar numa das paredes da tua suite, que havia barcos, sonhos, sons, e palavras

Palavras? Quais palavras, meu filho?

Palavras, mãe, palavras de papel, acreditas nisto, mãe?

E disseram-me que estavas bem, até que tinhas engordado três quilogramas

Acreditas, mãe, acreditas que eu engordei três quilograma?

Fui visitar-te, esperei, esperei, e ninguém para me abrir a porta, e nenhum barulho, e ninguém a gritar, e ninguém a ser chicoteado pelo chicote da insónia... e esperei, e esperei... até que acordou a noite, até que

Que eu estava com gripe, é mentira mãe, é tudo invenção deles...

Até que deixei de ouvir, até que deixei de ver, até que fiquei sentada em frente à Baía de Luanda a imaginar metralhadoras do outro lado da rua a vomitarem

Palavras, palavras de papel?

Sim, sim meu filho, a vomitarem... a vomitarem palavras de papel.

 

(não revisto – Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:24

foto de: A&M ART and Photos

 

pensava que eras uma tela esquecida na parede da minha insónia

dormia acreditando nas cores abstractas que fingem alimentar os teus olhos de granizo

pensava e acreditava

nas personagens sem nome que vagueavam antes de adormecer

pelo quarto sonolento das noites em solidão

como os vidros da minha janela

em cacos

pedaços

como um pobre coração

dentro do peito da saudade

correndo e batendo

os sargaços das tristes palavras de escrever

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 28 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:58

27
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

dois pontos de ténue nua luz

esperando pela abertura da triste janela

dois corpos vestidos de onda

caminhando nas tuas costas de porcelana

voando sobre a doce cama

onde se escondem os homens de palha com palavras inaudíveis

fracas

terríveis

 

dois pontos teus hoje na roda da fortuna

rodando como milagres indefinidos no altar das Marias adormecidas

vaiadas

cansadas

correndo ruas despidas

descendo e subindo calçadas

como tu

como eu

 

à sombra

dois pontos de ténue nua luz

comendo sílabas enlatadas

e bebendo

chá de ervas enraivecidas

sumarentas

na caverna da Dona Joaninha...

e uma ferradura pendurada à porta

 

e um velho letreiro recordando

barbas e cabelo

barbeiro

oficina de beleza

pintor de jóias roubadas...

barbeiro feiticeiro

barbeiro literário... poeta

dois... dois pontos de ténue nua luz

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 27 de Agosto de2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:49

26
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Tinhas-me inventado numa noite de copos, éramos leves como as lágrimas das tuas madrugadas, éramos finos como os beijos atravessados pelos teus lábios e fundeados na tua garganta, e éramos de aço que corríamos sobre os andaimes que vomitavam a cidade em pedaços de granito, éramos loucos e loucas, e tínhamos dentro de nós o jardim da saudade, tinhas-me inventado como inventaste tantos outros bonecos de palha, como tantas outras flores em papel crepe, coladas numa cepa envelhecida e envernizada, ofereci-te o meu primeiro ramo de flores, ainda em criança, e diziam-nos que os morcegos roubavam-nos os sonhos, que os morcegos roubavam-nos os suspensórios onde prendia-mos as poucas palavras que sabíamos pronunciar, e vagamente adormecíamos sobre a bandeja da empregada do bar,

Matilde... olhava-nos e tinha dó, pela nossa tristeza, pelo nosso desespero... pela nossa infinita solidão como os cordões brancos das malditas botas da tropa, que aos poucos se afundavam dentro do Tejo e os velhos Cacilheiros dormiam envenenados pelas Ratazanas de duas patas, de tão grande porte... que quando aparecia o vento, quase sempre estas ficavam em terra, pesadas, os pés recheados de pequenas bolhas, era Verão, era Verão e tinhas-me inventado depois de um pequena brincadeira de adolescentes, prometeste-me o Céu, e eu, eu nada te prometi, um grande sovina, sempre de algibeira vazia, sempre depenado, após uma noite de jogarmos ao montinho

Azar ao jogo, sorte...

Maldita,

Tinhas-me inventado numa noite de tempestade, jogávamos ao montinho, bebíamos Moscatel de Alijó, estávamos em mil novecentos e oitenta e oito, Julho, quase, quase a despedirmos-nos das Ratazanas, desta vez, as de quatro patas, era noite, e tu dançavas sobre um lençol branco suspenso numa parede triste, desprovida de qualquer cor, chamávamos-lhe a parede dos sonhos, nas traseiras do triste lençol ardia um prato com chouriço embebido em aguardente, o cheiro intenso espalhava-se pela janela e poisava nas sombras adormecidas da vida, havia uma ruela estreita, onde a empregada da esplanada, a querida Matilde aparecia em altos voos, descia, tão vagarosamente... que quando chegava até nós...

Olha... adormeceram,

Cansados,

Embriagados do intenso cheiro das Ratazanas,

E a cidade crescia como uma seara na longínqua Carvalhais, um parvalhão questionava-me

Ouve lá pá, onde fica Carvalhais?

Timidamente... perto de Viseu,

(puta que te pariu)

Claro que Carvalhais pertence a S. Pedro do Sul, claro que Alijó é Alijó e tinha de me explicar mil vezes que Alijó

Fica em Vila Real,

Trás-os-Montes?

Sim, (cabrão), sim, sim em Trás-os-Montes,

Sacana,

Eu, eu sacana?

Sim, sim você seu grande cabrão...

Tinhas-me inventado numa noite de copos, éramos leves como as lágrimas das tuas madrugadas, éramos finos como os beijos atravessados pelos teus lábios e fundeados na tua garganta, e éramos de aço que corríamos sobre os andaimes que vomitavam a cidade em pedaços de granito, comíamos comboios ao pequeno-almoço e espingardas ao almoço, éramos todos tímidos, e todos fumávamos charros nas vagas horas, depois

Tombavam na formatura como toupeiras,

Matilde aparecia, abraçava-me, dilacerava-se nos meus cabelos inexistentes, dava-me um beijo, e desaparecia como tinha aparecido, sempre pelo buraco da chaminé,

E chorei,

Quando tudo ardeu semanas depois de eu regressar, arderam as minhas memórias, arderam os meus passos pesadíssimos com cordões brancos, arderam as livrarias onde comprava os meus livros, e ardeu também a querida Matilde, depois ainda a vi em sonho, vestida de cinza passeando em frente ao Tejo e em pequenas despedidas,

E adeus querido Chiado, e adeus, adeus minha querida Matilde...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:12

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