Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

07
Mar 15

P1010003.JPG

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

habito dentro deste livro inacabado

existo porque gritam as palavras

e os sonhos amargurados

não tenho tempo para olhar o mar

nem percebo o cheiro deste rio envenenado pelo silêncio

um cigarro

mal-educado

apagado

sessenta anos encurralado nestes socalcos sem nome

habito

dentro

do livro inacabado...

 

os tristes sorrisos das lanternas da solidão

vendo-me

vende-se

tudo

nada

coisas estranhas

esta calçada

viva

vivo

apagado

não tenho

o tempo

 

nem a vida

de marinheiro

sou um barco enferrujado

sou o aço triturado pelas mãos de um sábado...

apenas

outras coisas

como as simples janelas de uma prisão

prisão

a prisão

do meu falar...

habito

habitar no teu peito de livro encalhado.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 7 de Março de 2015

 

 

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:51

07
Mar 15

Eu?

Nunca,

O amor, a casa recheada de cacimbo e palmeiras desgovernadas, o meu irmão reaparece e mal o reconheço, que estou mais velho, cansado..., claro, tantos anos...

Como estás, meu querido?

Eu?

Nunca

A relatividade em equações, a luz enfestada de palavras e beijos de adormecer, e eu

Eu?

E eu olhando as singelas pálpebras do Oceano de prata, nada a acrescentar em minha defesa, perdi-me na ponte do solitário adeus, morreram os sonhos

Amanhã

Três horas da tarde, cemitério da Ajuda, os sonhos, o corpo dela engasgado nos rochedos da paixão, Foder ou não foder...

Eis a questão do artista, a tela simplificada, amanhã restará uma única sílaba ao acordar, o espelho

Mais nada a acrescentar aos teus desejos, meu filho...

Cansei-me das palavras, mãe, das flores, dos sonhos e das cidades de vinil, cansei-me das mãos de porcelana da madrugada, sem janelas

O cubículo?

Morreu, algemou-se ao silêncio da noite, escreveu no olhar

Amo-te,

Escreveu no olhar as suas últimas palavras, despediu-se das árvores, despediu-se das gaivotas, cerrou os olhos, e

Vive-se numa selva, dizia-me ela ao acordar, e eu

E tantas coisas belas dentro de ti, e eu segmentado, e eu ensanguentado das lágrimas das equações trigonométricas do sexo, o prazer, a confusão de corpos numa cama imaginária, gemes, abraçam-se às amoreiras do dia, acendem a luz, e

E eu?

Nunca...

E eu parecendo uma página velha de um velho livro, o reumático, as atrozes, os pontos ocos suspensos no espaço, e mesmo assim, ela

Amo-te!

Claro que não, claro que não...

O que é o amor, meu querido irmão?

Coisas,

Nunca...

Percebi porque o mar me abraçava.

 

 

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 6 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:39

O acrílico beijo

na tela do desejo

sem medo de perder

o acordar da madrugada

ele abre a janela

e percebe que afinal...

a madrugada é um fantasma

uma coisa de nada

sombras

silêncios

e

e abraços na escuridão

 

ela sabe que os dias morrem

e nas aldeias de granito

habitam pássaros de papel

coloridos

aventuras

sem destino

acorrentados aos gritos da caverna do adeus

ela sabe que os dias

poucos

nenhuns

absorvem a luz

disparada por um olhar invisível

 

e no entanto

o beijo transforma-se em fotografia

negra

como o poço da morte

na infância de uma cidade perdida

há nos seus lábios abelhas

e pincelados corações de pólen

e voam

poucos

nenhuns...

homens conseguem entranhar-se no seu corpo

e ela desaparece em cada avenida do sofrimento.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 6 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:27

06
Mar 15

Os berros argamassados da menopausa, o sal brincando nas encostas do abutre negro, a carne em putrefacção, distante, os berros

Amanhã vamos?

Berros, os berros das medusas entranhados no corpo, os sonhos morrem, morrem os beijos e as carícias da madrugada, menstruais palavras dentro do poema, gritam, da menopausa, perdeu-se o silêncio eterno das andorinhas em flor,

João?

Sim, pai,

Onde puseste os meus óculos?

Sei lá...!

Dentro da fala, os sons em delírio, porque dentro deste quarto habitam livros decadentes, desenhos sem rosto, imagens, fotocópias de fotografias a preto e branco, muito longe

João?

Sim... pai...!

Os homens chegaram, temos de retirar todas as rosas do nosso jardim, não vamos deixar que nos penhorem a melhores rosas da aldeia, pois não'

Não, pai...!

Aos berros, da menopausa, o sal brincando nas encostas do abutre negro, sobre ela o beijo desenhado na areia, colorido, embrulhava-a numa estrofe envergonhada, levava-a para as cabanas dos sonhos adormecidos, cerrou os olhos

Foi bom, amor,

Só?

Os olhos na cárcere do sofrimento,

Stop...

Só, as sílabas dos fósforos em aventuras,

Stop, aos berros... o Rossio embriagado...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 5 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:22

Tenho na sombra do sono

um pilar de areia

uma casa em ruínas

sem telhado

sem braços

sem cabeça

tenho na sombra do sono

o cansaço das palavras

o sorriso do poema

enquanto o poeta gagueja

sofre

e sofre

 

(sem braços

sem cabeça

sem telhado)

os olhos da serpente

fingindo corações de luz

como charcos de lama

sapateando junto ao mar

e eu

na sombra do sono...

inventado papéis de amar

comestíveis

ao pequeno-almoço

 

(sem braços

sem cabeça

sem telhado)

este poema disparado

pela mão do sofrimento

levanto-me da insónia

pensando que já acordou o dia

levanto-me do dia...

acreditando que já é noite

escura

húmida

e vagabunda...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 5 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:36

Está escuro

no exíguo espaço dos teus braços

mantenho-me aceso como uma fogueira invisível

no meio do campo

deserto

sem árvores

pássaros

ou... enforcados marinheiros

procuro a enxada do silêncio

e gemem as pedras xistosas dos lábios da alvorada

escuro

nada

 

como o transeunte sentado

na Calçada da Ajuda

procura

procura o carteiro

carta escrita

sem remetente

vem a morte

e leva-o para a biblioteca

abre um livro

folheia-o como se fosse o teu corpo adormecido sobre as lágrimas do veneno...

afugenta as palavras

e a tempestade alicerça-se-lhe no peito

 

começa a voar nos cortinados da noite

acende o seu último cigarro do dia...

e pergunta-se

quando?

quando terminará este dia...

a morte dos sonhos

envergonhados

lânguidos nas janelas sem vidros

o mar dança-lhe na algibeira da solidão

bebe um uísque...

e acredita que a poesia

habita no terceiro esquerdo dos teus seios...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 5 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:29

05
Mar 15

Sentava-me no Tejo a contar cacilheiros, no final da tarde, depois de alguns cigarros, percebia que todos aqueles cacilheiros pertenciam ao exército dos apaixonados anónimos, tristes, convictos, passeavam-se como se fossem crianças num qualquer recreio de uma escola já extinta, encerrada,

Morta

Morreu, o Miguel trazia na algibeira meia dúzia de moedas encardidas pela sombra da noite, dormia debaixo de alguns cobertores de cartão, antes de adormecer desenhava no passeio pedestre algumas das imagens sem nome, de tantas outras... as fotografias de família

Morta?

Pais, avós... irmãos?

Sentava-me no Tejo, brincava com as gaivotas, saltávamos à corda, pegava num cinzeiro e esvaziava a algibeira quase...

Morta?

Irmão de papel, fumado, defumado, as palavras no quase... e ele... procurando irmãos invisíveis numa cidade invisível, não há miúdas nesta terra? Ainda é cedo, mais logo, talvez

Quase a desmaiar, sem sonhos, talvez imaginasse esta terra a terra prometida, mas não

Esqueceu-se do aparelho, Sr. António? E agora... como vai ouvir-me...! Sentava-me junto ao Tejo, mas não, fumava charros de areia enquanto a preia-mar se abraçava a mim, beijava-me, fodíamos como dois livros entrelaçados...

Ẽ?

Toca o telefone, morta...

Morta?

Quase...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 4 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:32

Esboço os teus olhos na carlinga nocturna do prazer

finjo caminhar sobre as pedras íngremes do silêncio

em vulcão

as palavras desalmadas do caderno negro

as imagens da melancolia

no espelho secreto dos teus seios

fujo

e sem regresso...

imagino os rochedos da insónia

mergulhando na constelação do adeus

o plágio mágico de uma fotografia

e a simplicidade dos sentidos embainhados nas florestas em solidão

canso-me

e fujo

dos lábios em desejo

como as formigas procurando alimento

nas esplanadas da dor

esboço os teus olhos

o esquisso em desassossego dentro da caixa de madeira

janelas

portas

o segredo

quando os dardos envenenados atingem mortalmente o peito do artista

o circo ofegante

em murmúrios e pequenos gestos pincelados de sangue

os aplausos falsos

e os falsos sorrisos

na aldeia

entre ventos e tempestades de areia

sinto em mim o mar

e todas as marés do amor

o poeta adormece junto ao rio

escreve na espuma tingida de saudade

e canso-me

das palavras

e dos olhares em beijos de luar...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 4 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:33

04
Mar 15

Acrílico 50x60.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Mãe, como é o mar?

Lençóis de espuma, meu filho, silêncios de sombras poisadas numa tela virgem, aos poucos reaparecem as palavras e os riscos, a arte de amar e de navegar num beijo invisível, sem imagens, sem noite para chorar, as ruas completamente indiferentes às minhas tristezas, as cintilações dos versos descendo os socalcos imaginados pelas tuas brincadeira de menino,

Fui menino, mãe?

Cansei-me das palavras,

Escrita... nunca,

Mais

Amanhã restará uma única sílaba ao acordar, o espelho

Mais nada a acrescentar aos teus desejos, meu filho...

Cansei-me das palavras, mãe, das flores, dos sonhos e das cidade de vinil, cansei-me das mãos de porcelana da madrugada, sem janelas

O cubículo?

Morreu,

As janelas e o espelho completamente envergonhados pela partida do monstro das quatro cabeças, nada mais do que isso, literatura ao jantar, poesia ao pequeno-almoço, e

Morreu,

E alguns gladíolos apaixonados pelo jardim dos arciprestes, sabes? Falamos sobre isso, lembras-te?

Não, não...

Morreu.

 

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 3 de Março de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:26

03
Mar 15

Acrílico 40x50_2.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

O fugitivo regressa, aparece disfarçado de pássaro, não voa, deixou de voar, sonhar, deixou de viver, e de construir castelos de areia junto ao mar, quando dizias que aos três anos de idade já voava...

Eles chegaram, o caixão ainda cheirava à tinta fresca da manhã, brincava um silêncio de olhos verdes no vão de escada,

Foder num vão escada, como fodem todas as palavras do poema...

Sabíamos que o corpo não pertencia às nossas vidas, e o fugitivo sem regressar aos nossos lençóis de sémen foragido, sem pátria, destino

A porta de entrada encerrada,

Janelas ainda não tinham acordado,

Destino, viver dentro de duas folhas brancas com olhos verdes, um círculo, o Sol, a Lua, o vazio do corpo na alvorada clandestina, fria, fria e amarga,

A porta

Deus, criador de tudo e de todos, a porta gaguejando, rangiam os biombos da literatura quando imaginava o mar na parede da biblioteca,

Apetecia-me

Queimar todos os livros, meus, desenhos, vozes, corpos de insectos e rosas embalsamadas, queimar as fotocópias e os fósforos da insónia, beijar-te, e olhar-te

A mim?

A porta entranhada entre dois segundos, as lâmpadas lá de casa todas fundidas, sós, escuras, como a humidade das palavras enquanto pessoas, nenhumas... monstras, vazio, a astronomia do ciume suspensa num cabo de aço, Rua da Nossa Senhora..., Não está, hoje,

O Doutor, a secretária do Doutor, e a porta, envergonhada como eu, porque hoje não houve madrugada, porque hoje morrem as palavras...

 

 

(cansei-me, vou deixar de escrever durante uns tempos e de frequentar as redes sociais, cansei-me e apetece-me ouvir Wordsong... embrulhar-me nos sons das palavras... e imaginar AL Berto voando junto ao Tejo. Vou ler muito mais e dedicar-me ao desenho)

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 2 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:24

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