Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

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Out 11

Durante muitos anos acreditei que ele tinha morrido quando pela manhã deixou de pendurar-se na janela, e todos os dias descerrava o cortinado, e todos os dias a mesma sombra e a ausência, o silêncio de um cadáver recortado de pedacinhos de papel crepe, as nuvens amarrotadas nas sílabas desencontradas das minhas palavras,

Todos os dias, deixei de ouvir a voz melódica e poética das rosas pintadas no muro de vedação do meu quintal, e de dentro de mim começaram a crescer as mentiras que me contavam e contam e que eu finjo que acredito, e não acredito e durante muitos anos acreditei que ele tinha morrido quando pela manhã deixou de pendurar-se na janela do meu olhar,

- Todos os dias descerrava o cortinado e todos os dias chegavam até mim a claridade dos sorrisos emagrecidos na noite escura de Alcântara, o rio cruzava os braços e um cacilheiro ao longe engasgado nas luzes do fingimento E ele deixou de pendurar-se na janela do meu olhar e reaparece entre os candeeiros plantados na margem onde se sentava e fumava cigarros e pedia que uma voz o levasse e que o sol o engolisse nas tardes de Agosto,

De que serve o amor se não lhe podemos tocar?

- E nenhuma voz me levou e nem o sol me engoliu, e as tardes de Agosto misturaram-se nas acácias e das noites de sofrimento apenas os espargos que beijavam as minhas mãos e voavam contra as luzes suspensas no teto do cansaço,

E de que serve?

A janela calafetada abraçada ao amor, e de que serve a noite sem a luz e de que serve a lareira sem a fogueira,

- E até hoje nenhuma voz conseguiu levar-me e nenhuma voz conseguiu levantar o meu corpo fundeado no cais da solidão,

E o sol,

- Nunca me engoliu nas tardes de Agosto, e desespero, e acordo e ele ressuscitou e voltou a pendurar-se na janela do meu olhar,

E o sol,

A voz,

- À minha procura dentro de uma caixa de sapatos quando em criança, numa tarde de inverno, me escondi abraçado à neve, e esqueceram-se de mim,

E a neve evaporou-se e o sol e a voz…

Fingem que não existo,

Durante muitos anos acreditei que ele tinha morrido quando pela manhã deixou de pendurar-se na janela, e todos os dias descerrava o cortinado, e todos os dias a mesma sombra e a ausência, o silêncio de um cadáver recortado de pedacinhos de papel crepe, as nuvens amarrotadas nas sílabas desencontradas das minhas palavras,

- Estou só,

E fumo cigarros e peço que uma voz me leve e que o sol me engula nas tardes de Agosto,

- Amanhã,

O silêncio de um cadáver recortado de pedacinhos de papel crepe pendurado na janela do meu olhar…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:58

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