Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

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Out 11

As escadas ingrimes levavam-me ao cubículo do segundo andar, lá dentro Matilde esperava-me, bato à porta na confusão da sombra do corredor, arrependo-me no medo de me ter enganado e por momentos deixo de ter a certeza se era o duzentos e dezasseis ou o duzentos e dezassete, a porta abre-se e o sorriso de Matilde abraça-se às frestas do gesso embebido no suor da tarde,

Da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

Crianças brincavam na ruela e mulheres discutiam porque o marido de uma dormia com o marido da outra,

O rio,

Da janela virada para a rua subiam os desejos do tejo e o cheiro a saudade alicerçava-se no teto do cubículo,

Feio,

O rio deitado junto à esplanada de Belém e desciam gaivotas das nuvens de Outubro e subiam cansaços dos mangalas invisíveis que marchavam numa parada militar invisível,

Matilde abraça-me,

E encosto a cabeça no perfume barato que adormecia no pescoço enfeitado de dálias e gladíolos, da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

O rio,

Feio,

Nas frestas que nos observavam e terminavam no espelho embaciado e que vezes sem conta e em silêncio e repetidamente folheavam junto ao rodapé as estórias de desejo do cubículo,

Um homem e uma mulher que ardem na fogueira da tarde,

Um homem e outro homem que suspiram no odor do corpo emagrecido e encharcado de gotinhas de prazer,

Uma mulher e outra mulher simplesmente deitadas, e uma o lençol da outra, beijavam-se e adormeciam sobre o nevoeiro que acordava no tejo e no final da tarde,

Da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

O rio,

Feio…

 

(o princípio ou o fim do meu romance)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:46

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