Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

01
Nov 11

É-me difícil ser eu

O eu defeituoso que vive numa caixa de sapatos

Com uma tampa de vidro

E paredes de papel,

 

É-me difícil ser eu,

Duzentos e seis ossos e uma cabeça de abobora

Dois braços finos como um pincel

E nas pernas as raízes apodrecidas do desassossego,

 

E tenho de ser eu,

É-me difícil ver-me ao espelho da noite

E pela tampa de vidro

Da caixa de sapatos onde vivo…

 

Descem tentáculos

Que se enrolam aos meus duzentos e seis ossos

E levam as minhas mãos…

Os tentáculos comem as minha mãos,

 

E fico proibido de abraçar

O mar e o Tejo,

Em seguida,

Os tentáculos comem-me os olhos…

 

E deixo de ver as gaivotas

E deixo de ver o meu corpo seminu

Embrulhado nos lençóis da manhã

E deixo de ser eu,

 

É-me difícil ser eu

O eu defeituoso que vive numa caixa de sapatos

Com uma tampa de vidro

E paredes de papel,

 

O eu sem braços

O eu sem olhos

O eu sendo eu não sou o eu…

E as paredes de papel começam a arder,

 

A noite esconde-se na Ajuda,

E procuro o meu corpo

Dentro do estômago do Tejo

E vejo um outro eu com o meu corpo,

 

É-me difícil ser eu

Dentro desta caixa de sapatos

Com tampa de vidro…

E paredes de papel,

 

E hoje vivo sem corpo…

À procura dos meus braços

À procura dos meus olhos,

Dentro de uma caixa de sapatos com uma tampa de vidro e paredes de papel…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:11

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