Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

02
Jan 12

Definitivamente não,

Acreditava eu quando olhava o céu do meu quintal e entre os ramos das mangueiras via os aviões em manobras de diversão, emagreciam e engordavam, e eu estúpido acreditava que dentro deles uma alavanca que alguém puxava e depois passavam os pássaros e eu já não acreditava em alavancas porque dentro dos pássaros só carne e ossos e músculos e gordura e porcaria e perguntava-me,

- Tudo bem francisco Dentro do avião o parvalhão puxa uma alavanca que o faz engordar ou emagrecer, e os pássaros?

Que têm os pássaros Perguntava-me o meu pai,

- Os pássaros pai Os pássaros quem os faz engordar ou a emagrecer,

Definitivamente não,

Quando junto ao porto de embarque e os barcos enormes e eu tão pequenino e perguntava-me,

- Também alavancas dentro dos barcos?,

Zarpavam em pedacinhos de nada à boleia de um rebocador e enquanto eu abria e fechava os olhinhos certamente o mesmo parvalhão que puxava a alavanca dos aviões e puxava a alavanca dos pássaros,

- Alavancas Quais alavancas?

O barco pequenino e desaparecia no horizonte,

- Pássaros com alavancas? Sorria o meu pai quando passávamos junto à estátua da Maria da fonte e no fim de tarde a ida aos coqueiros para assistir aos treinos do hóquei em patins,

E quando fui de Luanda a São Salvador de avião fartei-me de procurar pelo homem que puxava a alavanca para que os pássaros emagrecessem ou engordassem e definitivamente não, nenhuma alavanca dentro da barriga do pássaro a não ser, a não ser,

- A não ser o quê francisco?,

A não ser a cidade tão pequenina e outro parvalhão de alavanca na mão,

- Acreditava ele quando olhava o céu do quintal e entre os ramos das mangueiras via os aviões em manobras de diversão, emagreciam e engordavam,

A cidade tão pequenina e as nuvens penduradas à janela e o paquete em pedacinhos de nada agarrado à boca do rebocador,

- Eu com as mãozinhas agarradas às grades e nenhuma alavanca e nenhum homem a puxar a alavanca para que ele emagrecesse, e aos poucos alguém de alavanca na mão fazia com que Luanda ficasse tão minúscula e deixei de a ver e hoje,

E hoje recordo,

Definitivamente não,

E hoje recordo o dia em que vim e nunca mais vi Luanda porque aos poucos emagreceu e desapareceu e só água e só agua e só água,

E uma outra cidade começou a engordar quando ao longe uma ponte me acenava e anos mais tarde sentado junto ao rio via um paquete a caminhar tejo acima e um menino pendurado nas grades a acenar-me e a perguntar-me,

- É o senhor o homem das alavancas?,

Definitivamente não,

Alavancas? Miúdo tão parvalhão…

Alavancas, Alavancas.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:46

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