Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

18
Mar 12

E que não

- Preciso de ti Oiço o murmúrio dos seus lábios no meu pescoço,

E que não na roulotte dos sonhos quando os gemidos das palavras voam entre a plateia do circo, o palhaço chora, e das mãos da trapezista Oiço o murmúrio dos teus lábios,

- Precisar de Mim? Ninguém, Ninguém precisa de mim, a não ser

A não ser

Em sonhos,

- A não ser quando descem as gotinhas de silêncio e poisam sobre a débil e cansada roulotte, a minha roulotte, a minha casa, eu, eu deitado sobre nuvens de espuma quando um finíssimo orgasmo de seda cobre a minha boca, e adormeço abraçado ao livro da insónia,

E que não, Porque se o fosse, Porque se o fosse sabia-o, tenho a certeza, tal como tenho a certeza que duas retas paralelas se encontram no infinito, entre Belém e Cascais, os carris dormem, os carris dormem encostados ao Tejo, os cigarros,

- A não ser,

Os cigarros têm o seu encanto, como a noite,

- Que tem a noite?

Insónia e nuvens de espuma e uma trapezista e um palhaço que chora, os cigarros, a não ser, os cigarros evaporam-se no sorriso de duas retas paralelas, os carris acordam e eu, e eu por engano sento-me sobre um barco enferrujado, quase sem cigarros, e eu corro e corro e corro, para quê pergunto-me

- Para quê,

Pergunto-me antes do comboio me engolir e dou-me conta, e quando entro no estômago do comboio dou-me conta que Belém foi um sonho, porque se fosse verdade sabia-o, sabia-o tal como sei que os carris para Cais se encontram no infinito, a não ser

- Que tem a noite,

A não ser quando o jantar se recusa a entrar na minha boca, quase sem cigarros e que não

- Não gosto de raquetes Ouvia-lhe os gemidos na roulotte dos sonhos e o prato em círculos sobre a mesa de inox,

Quase sem cigarros e o professor de Metalurgia Mecânica explicava os aços e as ligas, e o prato em círculos de mão dada aos cigarros

- Quase sem cigarros,

E que não

- Preciso de ti Oiço o murmúrio dos seus lábios no meu pescoço,

E que não na roulotte dos sonhos quando os gemidos das palavras voam entre a plateia do circo, o palhaço chora, e das mãos da trapezista Oiço o murmúrio dos teus lábios, o maldito jantar recusa-se a entrar na minha boca, e o prato em círculos sobre a mesa de inox,

- Precisar de Mim? Ninguém, Ninguém precisa de mim, a não ser

A não ser

Em sonhos,

- A não ser quando o jantar é solha e amanhã novamente solha e solha e raquetes e solha…

Sabia-o se Belém fosse verdade.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:03

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