Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

03
Jul 12

Oiço a cidade a desaparecer para lá da noite

onde se perdem as almas sem nome

de todas as algibeiras construídas em cetim doirado

e mesmo assim

e mesmo assim há quem não tenha medo de atravessar a fronteira

não regressando nunca mais ao fim de tarde junto ao rio

 

as peles flácidas que transportam nos lábios

onde em letreiros gatafunhados se podem ler os desejos da noite

antes das almas sem nome atravessarem a fronteira e sentarem-se sobre as pedras

de nylon com que um esqueleto de óculos escuros constrói as redes para a apanha da solidão

e do chá e das torradas

antes

antes de ele se deitar dentro da sepultura de cordas e pregos de marfim

antes do cerimonial complexo à iniciação dos sem abrigo com cigarros de pluma em oiro

 

oiço o meu nome transformado em “filho da puta”

é a cidade travesti em direcção ao outro lado do rio para lá da noite

gajas chamam-me e eu recuso-me

curiosamente hoje e ontem “FEBRE COM PINTINHAS DE SARAMPO”

antes

antes de deitar-me dentro da sepultura de cordas de marfim

vi um homem louco com uma cabeça de areia embrulhada em correntes de aço

e do chá e das torradas

as redes com que apanhava debaixo da madrugada

pedacinhos de solidão com restos de esperma

e eis que para lá da noite

a cidade cresce nas peles flácidas dos olhos pedrados no pólen

 

(curiosamente hoje e ontem “FEBRE COM PINTINHAS DE SARAMPO”

curiosamente hoje e ontem “FEBRE COM PINTINHAS DE SARAMPO e nunca fui feliz”)

 

eu vi a noite comer os letreiros gatafunhados

e as frases começavam a misturarem-se com os restos esquecidos no passeio dos infelizes...

“vendo todo o recheio da minha biblioteca – motivo Fartei-me dos livros”

“vendo braços e pernas e dentes de madeira – Bom estado”

eu vi

a noite a transformar-se em palavras além da fronteira dos infelizes

com febre e papeira ou sarampo ou gajas a gritarem do outro lado do rio

para mim

eu o gajo mais infeliz do cardápio da infelicidade

eu vi

tu viste

a cidade a desaparecer para lá da noite...

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:01

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