Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

01
Mar 13

Liberta-me, desamarra-me deste sufocado porto de embarque, desembarque, ancoragem, liberta-me das árvores doentes e cansadas e das rochas amarguradas, por favor

Oiço-os dentro dos pedaços de luz,

Por favor, ouve-me, assombra-me como assombras-te-me quando torrencialmente desceram as lágrimas do sono, deitávamos-nos sobre a pelugem escura das amendoeiras em flor, acordavas-me depois de mergulharmos nas tempestuosas buracos de areia

Gigi dorme, observa-me de cima de uma simples tábua de madeira, flutua, voa entre paredes e taludes desgovernados, um barco, ele chora, e depois

Buracos de areia com pocinhas de água, límpida, outra

Salgada

E às vezes,

Delicio-me com as paredes finas das gotas de orvalho do vidro facial que as mascaras de madeira transpiram quando o mar avança terra adentro, e oiço-os dentro dos pedaços de luz, frios, longínquos, sem estrada, vila, casas, telhados de colmo, e oiço-os como ouvia na Primavera o rosnar das caravelas à deriva sobre a mesa de um bar, sem nome entre outros, com nome abraçado a outras, pedia laranjas e traziam-nos garrafas de cerveja, copos invisíveis embebidos em vodka, as velas e os mastros, cá fora, esperavam-nos

Sós, embriagadamente

Como as estátuas de pedras dos jardins desenhados no muro da escola, e infelizmente

Ela chorava como choram as cobras antes de morrerem,

Entre nós um losango em betão com armadura de ferro de vinte milímetros, e com uma janela circular, como elas

Depois saíamos do bar e vestíamos os mastros e as velas, e começávamos a navegar calçada abaixo até desejarmos não encontrar o vulto humano do homem de gabardine que todas as noites se passeava em redor de árvores e candeeiros de cartolina

Desviavas-te dele e do cão dele,

Embriagadamente sós, entrava a noite pela porta das traseiras, uma rapariga com tranças estava mergulhada no croché, um maço de linha escoria-lhe pelos cantos da boca, e no pavimento, junto aos pés descalços, nascia ela

Uma enorme colcha de renda e pacientemente sós, embriagadamente sós, como as aranhas que debaixo do xisto (Por favor, ouve-me, assombra-me como assombras-te-me quando torrencialmente desceram as lágrimas do sono, deitávamos-nos sobre a pelugem escura das amendoeiras em flor, acordavas-me depois de mergulharmos nas tempestuosas buracos de areia), uma conversa de poucas palavras, a colcha cresce, alimenta-se dela, e come-a como comeu todas as estrelas o mar na madrugada da tua partida, em

Desviavas-te dos grãos de areia, deitavas-te nos meus braços de papel onde hoje passo as noites a escrever, pergunto-te

E depois? E quando terminarem os meus braços?

E pergunto-me

(Gigi dorme, observa-me de cima de uma simples tábua de madeira, flutua, voa entre paredes e taludes desgovernados, um barco, ele chora, e depois)

E quando ela acordar? Abrir os olhos e olhar-me pela primeira vez? Que dirá? Escreverá algo sobre mim, como eu escrevo dela nela,

E às vezes

Poucas,

… Delicio-me com as paredes finas das gotas de orvalho do vidro facial que as mascaras de madeira transpiram quando o mar avança terra adentro, e oiço-os dentro dos pedaços de luz, frios, longínquos, sem estrada, vila, casas, telhados de colmo, e oiço-os como ouvia na Primavera o rosnar das caravelas à deriva sobre a mesa de um bar, sem nome entre outros, com nome abraçado a outras, pedia laranjas e traziam-nos garrafas de cerveja, copos invisíveis embebidos em vodka, as velas e os mastros, cá fora, esperavam-nos...

Depois derrubaste os muros pintados de branco, tiraste todos os bancos de madeira, escondeste as árvores acabadas de regressar, e deixaste-me sobre pequenas pedras, pontiagudas, deitado, sombriamente como as algas depois da tempestade, deitado e apaixonado pela trigonometria e coisas para ti, insignificantes,

Desenhavas-me como palavras eu sobre ervas condenadas,

E para ti, eu

Um enorme rochedo com asas de coloridas pétalas de ardósia, e tu

Uma casa disfarçada de abraço,

E quando regressava-mos

E quando não regressava-mos

Tínhamos todas as luzes só nossas, e todas as claridades do universo, e quando não sabíamos o que fazer depois do jantar, inventávamos literatura com migalhas de pão,

(E para ti, eu

Um enorme rochedo com asas de coloridas pétalas de ardósia, e tu

Uma casa disfarçada de abraço,

E quando regressava-mos

E quando não regressava-mos)

Dentro do mar.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

 

P.S.

Hoje apetecia-me decorar-me com morangos e pequenas cerejas sobre a minha cabeça de arame, de mim, tu, confecionares um bolo de aniversário, e apesar de ninguém conhecido fazer anos, apetecia-me ser um bolo, recheado, só, ou acompanhado, um bolo de chocolate com quatro pisos e uma cave, janelas com vidros de açúcar, e claro, muitas velas, com números, círculos, triângilos, quadrados, linhas rectas, não rectas e simplesmente, linhas, sem nome, desertas, abruptas, cinzentas ou

Linhas;

E ainda nem te perguntei se tu, sim tu, aí

Sabes confecionar bolos?

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:02

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