Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

05
Mar 13

Carlota Maria acordara com o barulho ensurdecedor que o vento provocava nos braços de Alberto, dentro dela, Humberto, cavaleiro, passeava-se de armadura de papel e montado no seu cavalo de oiro com finos olhos de porcelana, recordava os tempos infinitos vividos numa guerra inventada, num País inventado, onde todos os dias era Inverno, uma criança brincava junto aos pés de Alberto, empoleirava-se num triciclo com assento em madeira e velhos ferros das intempéries chuvosas alicerçadas às raízes que faziam estremecer o coitado do Alberto,

De vez em quando, Alberto balançava as grandessíssimas mãos de ébano sobre os cabelos movediços de Carlota Maria, ela

Vestia-se simplesmente, tinha olhos que pareceriam diamantes e da boca ouviam-se-lhe os gemidos dos gonzos que suspendiam os dentes em marfim, nas traseiras, a criança com uma vara metálica procurava o mar, Alberto fingia que dormia, enquanto dentro da Carlota Maria um silêncio de prata começava a clarear, percorrendo cada milímetro dela, o menino gritava por ela

Ela, docemente nos abraços do cavaleiro, não a ouvia, e se a ouvia, fazia ouvidos de marcador, e eu, eu permanecia sentado, alguns metros de distância de Carlota Maria, percebi que havia um menino em cima de um triciclo e que procurava o mar, como um outro menino, num outro continente, que tanto procurou o mar que se cansou, e hoje

Não consigo ouvir, ler, nada, a palavra mar,

Ela dançava com as mãos poisadas na cintura de sílabas mortas, e quando o cavaleiro Humberto entrava dentro dela com toda a sua fúria, ela

Chorava,

Ela chamava pelo Alberto, mas este, entretido com o menino do triciclo pensava;

E quando eu morrer?

O que será do menino? O que vai acontecer à Carlota Maria?

Ela gemidamente estremecia com os soluços do cavalo, e o mar nunca apareceu,

E quando eu e a Carlota Maria e o Humberto e o menino, todos, morrermos? O que será do narrador sentado no muro de xisto a cerca de cem metros de nós...

Ela, docemente nos abraços do cavaleiro, não a ouvia, e se a ouvia, fazia ouvidos de marcador, e eu, eu permanecia sentado, alguns metros de distância de Carlota Maria, percebi que havia um menino em cima de um triciclo e que procurava o mar, como um outro menino, num outro continente, que tanto procurou o mar que se cansou, e hoje sons estranhos dentro de mim, o medo,

O Alberto tem medo de voar, Carlota Maria adora voar mas apenas se com ela for o cavaleiro Humberto e o seu cavalo de palha, e o menino

Não sei, prefiro o mar e todos os barcos que brincam no seu ventre, como os bebés, antes de nascerem, comunicam através de sons, ténues limas de luz, poucos os percebem, mas sei que um dia alguém vai pegar no menino e partir, e apenas ficará um velho triciclo com um apodrecido assento em madeira,

E sinto-o, o medo

O Alberto pálido agacha-se e embrulha o menino nos braços, Carlota Maria sorri aos encantos do cavaleiro Humberto, e eu, eu sentado no muro de xisto a contemplar a feliz Driamara, leve como as penas das gaivotas que andam à boleia nos mastros dos barcos com bandeiras capazes de comerem as palavras do querido Alberto que de um feixe de iões se materializam contra uma parede de vidro,

O medo de voar e perdermos tudo o que temos, e amemos, e perdermos o silêncio húmido das tardes de Primavera, vestia-se simplesmente, tinha olhos que pareceriam diamantes e da boca ouviam-se-lhe os gemidos dos gonzos que suspendiam os dentes em marfim, nas traseiras, a criança com uma vara metálica procurava o mar, e o menino pela madrugada em gritos sussurrantes

Pai, Pai Pai,

Sim filho,

Tenho medo,

Medo? De que tens medo meu querido filho!

Sonhei com uma casa que se chamava Carlota Maria, dentro dela andava um cavaleiro com uma armadura de papel, o cavalo era lindo

Mas tive medo,

E nas traseiras da casa havia um sobreiro que se chamava Alberto, e em frente a eles um homem com um chapéu estranho, fumava cigarros e sentava-se no muro de xisto, havia ervas, pássaros, e só me lembro que eu brincava com um triciclo à procura do mar como uma vara metálica,

Não achas este sonho estranho, Mãe?

Driamara responde-lhe que os sonhos era assim, às vezes estranhos, longe, muito longe, como os dias debaixo das nuvens felizes e infelizes, apaixonadas e não apaixonadas, todas, e sinto-o, o medo

O Alberto pálido agacha-se e embrulha o menino nos braços...

E as marés em sofrimento dos longínquos corredores das planícies inventadas, tal como as guerras, numa tela de gesso com acrílicos mergulhados em quatro simples paredes de amêndoa. E de todos, apenas senti pelo pelo Humberto.

 

(ficção não revisto)

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:34

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