Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

07
Mar 13

Vou sonhando, vou, dentro das águas milenares que da fonte da inocência brotam, deixei de procurar-te, tal como deixei de me importar com o sal que a água transporta, e às escondidas, e

Vou

E sem saber que a vizinha que eu pensava existir apenas no espelho do guarda-fato, porque era naquele lugar que eu a encontrava todos os dias, hoje

Bateu-me à porta,

Procurou-me, e deixei de a procurar, desisti dos cabelos negros com olhos castanhos e pele cor de chocolate, bateram-me à porta, preparei-me para abrir, e ela parecendo uma rosa descida do pedestal do silêncio, murmurou-me, gritou-me, infernizou-me a paciência

O vizinho por acaso tem sal que me empreste? Respondi-lhe que não, que o único sal que disponho é o que transporta a água, e que me desculpasse mas estou com pressa, vou sair, preciso de sair desta casa

O vizinho é mesmo um rabugento e mal educado,

Pois sou, claro que sou, mas não fui eu que lhe bati à porta a pedir sal, fui?

É por essas e por outras que vai morrer só, E passei-me, e respondi-lhe deselegantemente que o facto de estar só não quer dizer que esteja só,

Ela

Não percebi,

Eu

Também não é para a senhora perceber e desculpe-me mas tenho de encerrar a porta, vá ao vizinho do segundo esquerdo, parece que esse tem sempre tudo,

Ele é o colesterol, ele é bicos de papagaio, ele é a próstata, ele é o esqueleto empenado..., talvez tenha sal, quem sabe?

Ela nunca me gramou, sempre me desculpou nas minha aventuras, mas eu sabia que fingia, e nunca me perdoou as fendas que deixei nas paredes da vida, ela nunca percebeu que eu apenas tenho alguns cachimbos e uns tantos livros, nada mais, e no entanto, bastantes CDS, considero-me um barco feliz, tenho asas, voo sobre os telhados das aldeias de zinco, quando quero, puxo da âncora e estaciono num qualquer banco de jardim,

“Cuidado, pintado de fresco”,

E quando percebo, zás..., o casco recheado de listras encarnadas, como um prisioneiro abandonado no cais do inferno, quando o rio se transforma em absorto desejo das entranhas algibeiras de prata, das mãos, incham os dedos coloridos com sabor a limão, e erguem-se-lhe do ventre as flores mortas que as noites se poisam nos seios de oiro clandestino,

Ouvia-te permaneceres sentada nas árvores anãs do jardim do sétimo andar direito, e um desejo de vidro sinto-o apaixonado pela janela que o homem de xisto e a mulher de socalco, deixaram embalsamada como as casas em ruínas da minha alegre vida,

As paredes de gesso, fendilhadas raízes sobre a terra queimada, o azul regressou hoje a casa, na boca trazia a dor de mais um dia passado em branco, junto a uma parede de cimento, vestido de preto, com um lindo chapéu de abas largas, o azul entranha-se-lhe no púbis como o mar quando sobe as escadas do abismo e desaparece entre telhas de vidro e chapas de miniatura com mistura de chocolate e amêndoa, e

Nunca vi uma mulher sentada sobre o mar, mas não invalida que não exista uma, uma apenas, porque também nunca tive o prazer de olhar um protão e ele existe

Vive nas recordações que a terra engole todas as quintas-feiras ao meio-dia, e como barco que era, fazia-se ao mar, tapava os ouvidos para não ouvir os lamentos da vizinha, porque

Umas vezes era o sal, outras, outras a salsa, outras, insignificâncias com as palavras que ele escrevia,

“Porque o que ela quer é peso”, o insignificante Alberto a preencher-me os ouvidos, e eu respondia-lhe És parvo pá, ela é doida, só isso, nada mais do que isso,

E escrevia, escrevia as parvoíces do dia como se fossem histórias de encantar, e de encantar, de encantar apenas os sons do relógio da torre da Igreja, vou sonhando, vou, dentro das águas milenares que da fonte da inocência brotam, deixei de procurar-te, tal como deixei de me importar com o sal que a água transporta, e às escondidas, e

Vou

E sem saber que a vizinha que eu pensava existir apenas no espelho do guarda-fato, porque era naquele lugar que eu a encontrava todos os dias, hoje

Bateu-me à porta,

E hoje descobri que vou...

 

(ficção não revisto)

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:09

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