Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

06
Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

Uma cidade em chamas, um povo em alvoroço, as árvores balançam com a fome do povo em alvoroço, e tu, tu aí sentada, a fumar cigarros, como se não estivesse a acontecer nada de especial, está tudo bem dizes-me tu, não há problema, arreganha-me os dentes o teu pai, e no entanto, balançam as árvores, e no entanto, de tanto balançarem... poderão cair, sobre as mãos líquidas do povo em alvoroço, cansado de sofrer, e sem rosto, recomenda-se, e até diria que nunca vivemos como hoje, somos felizes, somos um casal feliz, sorridente, somos perfeitamente... os mais parvos do bairro onde vivemos – És tão pessimista, meu querido! - como fui pessimista quando fugi para cima de uma árvore, quando criança, e só consegui descer com a ajuda dos bombeiros, e tudo, porque, o Alberto meteu-me em cabeça que se eu estendesse um arame no caminho para o bairro, a meia altura do chão, era engraçado quando o senhor António passasse de motorizada, já noite dentro, e com algum desequilíbrio devido à falta de luminosidade ou porque o tinto da tasca da dona Francisca era do melhor que havia, não interessa, o problema foi que quando o pobre do homem vinha no seu rame-rame, pumba, ele para um lado e a pobre da motorizada para outra, conclusão – Quase que era degolado! - decapitado, poderá dizer-se, e ainda nós não vivíamos na Coreia do Norte, ou na China, que a família do pobre condenado à morte por fuzilamento, coitados, têm de pagar a respectiva munição – Queres tu dizer, meu querido, têm de pagar a bala? - sim, é isso, sim...

(os animais humanos sem direitos porque o direito do dinheiro fala mais alto do que a dignidade, tudo se cala, aqui e fora daqui, e assim vão enviando contas de munições a cada família que por azar, um dos seus queridos resolveu desafiar o sistema – E? - sim? - E se eles tiverem fraca pontaria, isto é, se o condenado precisar mais do que uma bala para voar até ao infinito amanhecer? - boa pergunta, minha querida, nunca tinha pensado nisso...)

Sim, talvez, talvez prendam as árvores com fios de aço para que não balancem tanto, mas... - Mas, meu querido, não há aço que aprisione o pensamento, e esse, vai sempre balançar... - mas esta cidade começa a ficar infestada de ratazanas, cabrões e pratos de porcelana...,

(depois dizes-me alguma coisa? - Sim, minha querida, digo)

Amo-te – Desculpa, não sabia, minha querida – e o “panasca”, desde miúdo que nunca gostou de sopa, papas, ou coisas similares, e agora – Obrigaram-te a comer sopa? - e agora digo-o, sem medo que te amo, e pergunto-me, questiono-me, adormeço pensando em ti, e a perguntar-me - E tu rapaz, sabes o que é o Amor? - desculpa, não sei o que são veredas cinzentas com fios de aço, desculpa, minha querida, não sei o que são fios de prata enrolados em pescoços feios, lânguidos, bronzeados cálices de azevinho, mórbidos, esfomeados como o fumo das sanzalas sem candeeiros de oiro, sem rios de magnésio, sem nuvens de chocolate, como a vida de “merda”, a nossa vidinha, de bairro de preferia,

(de uma cidade em chamas, um povo em alvoroço, as árvores balançam com a fome do povo em alvoroço, e tu, tu aí sentada, a fumar cigarros, como se não estivesse a acontecer nada de especial, está tudo bem dizes-me tu, não há problema, arreganha-me os dentes o teu pai, e no entanto, balançam as árvores, e no entanto, de tanto balançarem... poderão cair, sobre as mãos líquidas do povo em alvoroço, cansado de sofrer, e sem rosto, recomenda-se, e até diria que nunca vivemos como hoje, somos felizes, somos um casal feliz, sorridente, somos perfeitamente... os mais parvos do bairro onde vivemos – És tão pessimista, meu querido! - como fui pessimista quando fugi para cima de uma árvore, quando criança, e só consegui descer com a ajuda dos bombeiros...,)

Começo – Não percebi, minha querida! - ah... sim, quando lá passar eu digo-lhe, fica descansada, começo a ficar farto das palavras, dos poemas e dos textos que parecem poemas, começo a ficar farto, dos livros, e das coisas parecidas com livros, começo a ficar farto com o amor e com todas as coisas parecidas – Terminadas em dor? - ou isso, é-me igual, desigual seria se quando regressasse a casa e não encontrasse a porta de entrada, o pior seria se regressasse a casa, encontrasse a porta de entrada, entrasse, e lá dentro, nada – Como nada, meu querido? - nada, nem paredes, nem janelas, nem escadas, nem móveis, absolutamente nada – Imagino-o, meu querido, imagino-o... - e mesmo assim pedia à vizinha do lado – Vizinha, faz o favor de me emprestar a corda de nylon que serve para prender o seu burro à oliveira da terra funda? - ela meia mouca – Quer-se matar, menino? - e como posso eu explicar-lhe, a ela, à dona Francisca, que a corda era apenas para eu lançar ao ramo mais forte da árvore do quintal, e tentar subir até que não existisse mais árvore – Como o fizeste na infância? - e depois vinham os bombeiros, e eu descia

(sim, como o fiz na infância)

E descia, e descia, descia...

 

(quase ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:47

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