Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

22
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

O estranho... é a roulote estar sempre só, ausente, vazia, o estranho é a simples placa imaginária sobre a porta de entrada

Núria,

Numa letra muito artesanal, quase em gatafunhos, percebe-se que o autor(a) é de pouca instrução, alguém, alguém que provavelmente aprendeu a escrever a palavra

Nuria, só, sem assento,

Uma roulote simples, como a que eu sempre sonhei, desde criança, também simples, de terra em terra, eu simples e só, percorrendo campos não governados, desbravando montanhas íngremes, construindo caminhos, veias, artérias, até chegar ao coração

E Núria

Sobre a porta de entrada de uma pobre roulote,

E depois do coração... o espirrar... até atingir o tecto nocturno do Céu, e uma substância mucosa descendo, muito devagar, as entranhas das costas que sobejaram de ti, depois de teres partido... e apenas a placa ficou à espera pelo teu regresso

Nuria,

Não regressaste, não foste mais observada pelos morcegos da noite... e dizem que hoje já não te chamas Núria,

Nuria?

Não, não eu,

E nunca o fui...

E nunca o foste...

Pergunto-me hoje, quem serias tu, se não eras a Núria...

Juro, juro que nunca fui Nuria,

E jurado está jurado, e como a noite depois de acordar fica... fica assim num estado de sonambulismo, assim num estado de embriaguez..., e tu, tu Núria

Não, não Nuria, não eu,

Tínhamos um burrinho que baptizamos de foguetão, vivia junto à roulote, era assim como devo eu explicar...

O guardião da roulote?

Isso, isso mesmo, faltava-me essa palavra, às vezes tenho necessidade de comer palavras, às vezes tenho a triste necessidade de comer livros, papeis... coisas, e às vezes

Nuria? Não, eu não Nuria,

E às vezes ouvíamos-o durante a noite em conversas desconexas com quem passava, o foguetão percebia de tudo um pouco, sabia que a noite construía sótãos despovoados sobre a cidade argamassa depois de todas as cinzas

Voarem?

Núria, és tu?

Não, não eu, não Nuria eu,

E elas iam-se acumulando num qualquer vão de escada, baixavam as calças, e a literatura parecia línguas de fogo na boca da inocente Núria,

Não

Eu

Não Nuria, eu, não...

E quando lhe perguntavam o que fazia uma velha sanita no patamar da escada que dava acesso ao quarto esquerdo, ele, timidamente... respondia

Núria,

Eu não Nuria, não eu,

E a roulote encostada ao velhíssimo plátano espera, desespera, acorda, adormece, e tal como a noite, e tal como as estrelas do teu cabelo, e tal

Núria, és tu?

Não, não Nuria,

E tal como a vida, as cinzas da cidade poeirenta em pequenos cubos literários, em pequenos movimentos do foguetão, que assanhava com a cabeça quando alguém por ele passava e não o cumprimentava,

E o comprimento da dita roulote não mais do que três metros e cinquenta centímetros,

Cumprimentos, e Núria,

Não

Não eu Nuria,

Núria apenas sabia que o comprimento, todas as manhãs, se sentava ao lado do foguetão, e conversavam, e conversavam... até que um dia a cidade literária deixou de respirar, e Núria

Não, eu não Nuria,

E Núria ficou eternamente nos meus abraços.

 

(não revisto – Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 22 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:21

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.


Agosto 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO