Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

23
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

A noite destrói todas as palavras de papel que o invisível destino escreve

a noite inventa-se na algibeira do clandestino miúdo com suspensórios de vidro

o miúdo estupidamente apaixonado por uma uma gaivota...

… chora

transpira como lâminas de aço quando a lareira acesa derrete o silêncio

há uma pauta sobre a mesa da sala de jantar

na pauta brincam notas musicais órfãs

crianças das ruas sem nome não vivem... mas também não choram

crianças com mastros ao peito... vivem navegam choram e morrem...

e bandeiras de cetim sobre os cabelos cinzentos da tristeza dizem-lhes o que é a saudade

a noite embriaga-se como pedaços de xisto descendo os socalcos com as penumbras das sonâmbulas cambotas correndo e as bielas... as bielas nas mãos do miúdo estupidamente apaixonado...

… que chora... elas imóveis elas silabadas elas... elas são as bielas dos covis iluminados pela loucura neblina que o desejo procura no corpo nu sem nome as bielas fodem...

Alimentam-se dos sombreados tectos de verniz que às esplanadas de areia acordam como tecidos mortos e envenenados e doirados e... e a noite em papel dissolve-se na garganta do condenado

hoje há moelas

moedas de prata

lágrimas de crocodilo

e dentes de marfim

A janela do muro envidraçado abre-se e a noite começa a comer o miúdo depois de destruir todas as palavras de papel que o invisível destino escreveu

e o pobrezinho menino prostitui-se no cais de embarque dos petroleiros ofegantes

a gravata esgana o pescoço dos homens de mini-saia

os sapatos de três andares... adormecem noite adentro num sótão abandonado

a gaivota do amor

não dorme

não vive

chora

chora... chora... parvo... porque choras tu?

e era capaz de acreditar nos objectos negros das portas com triângulos desenhados...

com... com coxas cosidas pelas mãos da Avelã costureira...

Peneirenta

rafeira

e ordinária...

a noite é uma puta desgraçada

e feia...

a noite fode-nos como cinzeiros em prata nas mãos de um drogado...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:33

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