Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

01
Mai 11

Na voz da ausência, estes livros que me acompanham nas noites de escrita, de nada servem, são indiferentes ao bater do relógio, quando às altas horas da madrugada, os segundos esquecem-se do tempo, e este, perde-se no limiar do esquecimento; os dias.

Ao fundo da rua, junto à casinha do ti Manel, a puta da burra desata-me a correr como se tivesse fogo no rabo. Eu bem que implorava, mas ela nada, não voltou, e até prometi levá-la a passear ao jardim do senhor regedor, mas nem assim, a puta, nada. Ela lá há-de vir, se quiser.

- Zé, bom dia!

Bom dia ti manel, bom dia.

- Passa algo?

A burra, ti manel, a burra. Desata-me a correr e nunca mais parou, parece que levava diabo, a grande puta.

Estou a divertir-me.

Se eu conseguisse desvendar todos os teus segredos, todas as tuas palavras impressas nesta pilha de papel espalhado pelo chão; o saco, finalmente era feliz.

Guardas nas tuas folhas os segredos que juntamente com a minha sombra, correm no percurso entre a saudade e o sonho. Guardas dentro de ti, os meus desejos, a minha dor, o meu sonho. Eu.

- Tem lume, ti manel?

Por diversas vezes tentei entrar dentro de ti, mas a saudade, o medo, fizeram com que tu me parecesses o sol a entrar pela janela, a beleza do teu sorriso, e nunca mais liguei ao que estava dentro de ti. Agora que tenho consciência que guardas os meus segredos, os meus sonhos, vou finalmente pegar em ti devagarinho, e folha por folha, ler o que nela escrevi, há não sei quantos anos. Há muitos.

Os meus poemas.

- Poemas?

Sim, poemas.

Pensavas que era alguma gaja descascada?

- Podia ser, porque não.

São quase 8:00 horas, e como vou agora encontrar a puta da burra, eu bem que dizia ao meu pai para não a comprar, mas comprou, e agora nem burra nem dinheiro. Estou fodido e o meu pai vai foder-me os cornos. E com razão. Mas também como ia adivinhar que a puta desatava a correr, sim como. Nem nunca mais a vi…

Poemas, sim, poemas.

- Se te fosses foder! Poemas…

 

Guardas de mim a saudade,

O momento de sentir-te dentro de mim,

Perdida,

Longe, e ao fundo, a triste vaidade

Do orgulho, esquecida

No banco de jardim.

Guardas de mim a saudade,

A luz dispersa no teu olhar,

A luz quente, o húmus da verdade

Encalhada no mar.

Guardas de mim a saudade,

Que eu guardo na minha mão,

Infeliz ou feliz, guardo a felicidade

No meu coração,

Viver a saudade!

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:27

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