Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

15
Out 15

Percebia-se nos teus olhos o esconderijo da noite,

Tínhamos entre nós uma parede invisível e um cortinado em veludo,

Percebia-se nos teus olhos o cansaço das manhãs sem rumo,

E enquanto clareava o esconderijo da noite, sabias que seria o último beijo,

A última palavra,

O último adeus…

O último livro, o último eléctrico para o abismo,

Lisboa continua viva, fervilha, e os jardins onde te sentavas deslumbraram a tua ausência,

Esqueleto infeliz,

Em vidro,

Os cacos,

 

Os grãos de areia descendo a calçada em direcção ao rio,

Percebia-se nos teus olhos o esconderijo da noite,

O silêncio da vaidade,

A loucura por objectos caros, raros, coisas imbecis…

Que só mulheres como tu… sabem apreciar,

Coisas imbecis…

 

Fúteis, como tu, fútil, mimada, menina das searas envenenadas na solidão das paredes pintadas,

Percebia-se no luar o teu olhar,

O outro luar, a outra avenida sem saída…

O outro olhar,

Não o teu,

Porque esse… vendeu-se por migalhas,

E evaporou-se num Sábado de neblina,

Entre transeuntes e feirantes,

Velharias e vigaristas,

Chapéus de palha…

E perfumaria pirateada,

Que alguém como tu, fútil, consegue odiar.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 15 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:12

30
Ago 15

Não espero nada do próximo amanhecer,
Não sei se amanhã haverá amanhecer…
Não sei se estarei acordado para o ver,
No próximo amanhecer
Quero estar junto ao mar,
Desenhar na maré o rosto do silêncio,
E escrever,
Sentar-me sobre uma pedra imaginária,
Olhar-te sem te ver…
No próximo amanhecer,
Escreverei palavras no teu olhar?
Não o sei…
Não o sei sem sofrer,
Não o sei…
Não o sei sem te amar!

Francisco Luís Fontinha – Alijó
Domingo, 30 de Agosto de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:12

12
Mar 15

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas

que habitam os socalcos da saudade

sou um ninho de cacos

e pequenas películas de silêncio

pela madrugada

oiço a tua voz aprisionada nas frestas deste cubículo

há entre nós um espelho cansado

e triste

ausento-me dos teus lábios

e perco-me nas palavras sem nome

como as ruas da tua cidade

ou da tua aldeia

 

o musseque

fervilha

transpira poesia

e o teu cabelo suspenso numa fotografia

tão distante

o mar

e as marés de sono

que me embrulhavam

hoje

não mar

não sono

nada

 

amar

amar

amar as flores e os desenhos embalsamados

correr montanha abaixo

deitar-me sobre ti

apenas

o peso das nuvens pinceladas de alfazema

a aceleração

acorrentada a uma equação

a física

a matemática

e... e amar

 

nada

os separa

os fios de sémen perdidos no cacimbo

o cachimbo em brasa

lúcido

de braços abertos

e abraça-me

e beija-me

como se beijam todos os livros

folheados

e no entanto

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 12 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:35

31
Jan 15

Pintura_55_A1_Nova.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Roubaste-me o sorriso nocturno dos beijos em flor

pegaste nas minhas palavras e transformaste-as em solitárias andorinhas

depois

trouxeste a Primavera

e o amor

do poema

de amar o poema

e sentir no peito as equações do destino...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Janeiro de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:35

29
Dez 14
(desenho de Francisco Luís Fontinha - Alijó)

Não tenho tempo para amar...

como se para amar fosse necessário tempo,

ser amado,

pertencer ao vulcão das tempestades,

não sentir

sentindo...

o desejo das palavras,

o significado das cidades de gelo,

 

não tenho tempo para ser amado...

o amor é um rochedo construído de velhos farrapos e alguns pedaços de aço,

o amor são esqueletos de papel...

no coração de uma mulher,

 

não tenho tempo para amar...

como se para amar fosse necessário tempo,

ser amado,

 

os sítios proibidos dos rios do teu ventre,

o medo de amar-te...

quando eu sou apenas uma imagem,

tão velha... tão velha como os candeeiros das ruelas viciadas,

tão velha... como as ruas da minha infância,

o triciclo em queda livre,

a sombra das mangueiras poisadas no meu sexo...

e eu, e eu sem tempo para amar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 28 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:10

28
Dez 14

Os poemas ao fim da tarde

este mesquinho silêncio

quando entra pela janela

e lá fora

um barco em espera

esquelético

cansado

farto do mar...

os poemas ao fim da tarde

com fome de matar

a voz do teu clitóris em tristes soluços na madrugada

os poemas ao fim da tarde... são poemas de nada,

poemas... poemas de amar

o estranho invisível quadrado com sorriso de vidro

há nas palavras a força da revolta

o corpo em lágrimas

que só a cidade...

que só a cidade consegue absorver

os poemas ao fim da tarde

o vento de sémen contra uma árvore

e os pássaros dos teus cabelos

brincando na seara

entre pedras e enxadas

sempre... sempre, sempre que um relógio acorda... e ninguém sabes onde habitam “os poemas ao fim da tarde”.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 28 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:01

09
Dez 14

As manhãs são límpidas tristezas
Que só o vento consegue abraçar,
Parar no semáforo e olhar a rosa mais bela
Do jardim de transeuntes em movimento,
Tem no sorriso a bandeira da paixão
E nos lábios…
A doçura inseminada das palavras,
Do vermelho…
O verde verdade
Da esperança…
As manhãs são límpidas tristezas
Que vergam o frágil esqueleto da cidade,

Não tenho tempo para desenhar
A saudade na mão de quem me espera,
Não tenho vontade de abrir a janela
Deste quatro latas cansado,
As manhãs são límpidas tristezas
Que só o vento consegue abraçar,
São rosas transeuntes suspensas no mar…
São palavras ignoradas,
Sombras deitadas na estrada,
As manhãs
São… límpidas tristezas
Sem tempo para amar…





Francisco Luís Fontinha – Alijó
Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:23

24
Nov 14

Não quero amar-te

sou um exíguo caixão de espuma

onde habita o meu corpo de silêncio

não quero amar-te

porque sou filho da bruma...

e tenho na mão o sonho de voar

não quero amar-te

sou um exíguo caixão de espuma

com janelas voltadas para o mar

não

não quero amar-te

sabendo que o amor é uma canção sem palavras,

sem vida

quando a frenética cidade se evapora na escuridão...

amar-te seria uma tempestade

ou... ou um vulcão,

não quero amar-te

porque há nos meus poemas pedaços de morte

e rochedos de cartão

não

não quero amar-te

enquanto existir em mim a solidão...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:34

23
Nov 14

Queima o filme negro da tua vida,

ensina aos teus ossos as boas práticas de comer,

sem nunca mencionares o nome da despedida,

nem na rua invisível do teu corpo,

imagina o vento fatiado abraçando-se aos teus seios,

escrevendo neles...

Amo-te...

sem gaguejares,

sem medo de chorar,

os abutres cardumes da insónia

que se alicerçam aos teus cabelos de luar,

queima o filme negro da tua vida... como quem pronuncia pela última vez a palavra amar!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 22 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:50

20
Nov 14

Desintegro-me na desilusão das imagens adormecidas

pareço um velho palhaço gritando para a multidão

palavras

e canções

e noites perdidas,

 

Viagens enigmáticas com odor a madrugada

rios embriagados correndo nas minhas veias

dilatadas

tristes

tristes como as lágrimas da calçada,

 

Desintegro-me sem o saber

enquanto sonho nas planícies lunares

desintegro-me lentamente como o vento nas tardes de liberdade

recebo uma carta... lá dentro habita a saudade...

e desintegro-me nas palavras por escrever,

 

As rosas que disparam sorrisos encarnados

o oceano levitando nas mãos de alguém que é amado

o barco do desejo... navegando

navegando nos cortinados da mentira...

e desintegro-me nos planaltos prateados,

 

Há no teu olhar rochedos vadios comendo mendigos engravatados

das tuas pálpebras ancoradas

despem-se os seios da manhã sem despertador

maldito relógio que nunca morre...

e todas as luzes poisam nos ombros dos alegres desgovernados...

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:51

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