Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

08
Mai 20

És as asas dos meus sonhos.

Os lábios pincelados da minha janela,

És a canção do meu sorriso,

Poema sem jeito, barco, barcaça, caravela,

És o silêncio da minha cidade,

Palavras semeadas na minha aldeia,

És o Sol sem juízo,

Nas noites de Primavera.

És a voz trémula dos sinos em descanso,

O mar calcetado pela esperança,

És o Rossio em demanda,

Passeando na calçada,

És gaivota,

Madrugada.

És a fala amestrada

Das noites choradas,

Beijo na despedida,

És o corpo ausente

Das varandas envenenadas

Pelas abelhas do nada.

Pelas abelhas da Ira.

És o oiro,

Verso em construção,

És o mar salgada da insónia,

Quando absorve o teu corpo na alvorada.

És rochedo,

Medo,

Palavra brava…

És a janela,

A porta,

Da cidade sem nome,

Que privilegia as flores do cansaço.

És rio,

Riacho,

És o calendário da insónia,

Nome,

Morada,

Das ruas em ebulição.

És o vento em aflição,

Bandeja de esplanada,

És tudo.

Não és nada.

És beijo e desejada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/05/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:15

30
Abr 20

Naquela tarde, a saudade alicerçava-se ao sorriso e, este, convalescente do medo, dava a mão à solidão, os pássaros brincavam nas janelas do silêncio, saltitavam como pedras envenenadas por uma laranja de mau-gosto, o amor,

- amas-me?

Como sempre, poisada nas escadas do sótão, a caneta de tinta permanente, às vezes cansada dos versos sem nome, sublinhava na escuridão as sílabas que apodreciam no jardim lá de casa,

- Tenho medo,

Dizia-me ela ao acordar,

E, no entanto, as almofadas continuavam suspensas na janela do sótão com fotografia para a noite, descia os cortinados, sentava-se no colchão envergonhado pelo sémen e, nada, apenas o cheiro intenso do alecrim, um pequeno ramo que o afilhado tinha deixado pela Páscoa,

- O folar, apelidavam-no de poema inverso, desplante manhã de Primavera, entre a agonia de um dia e a tristeza da noite, velhinha, folgaz, teimosa nas camadas finas de poeira que assombravam os móveis,

Mesmo assim, ao deitar, preparava um beijo, flores amargas, sonolentas, que a faca da cozinha laminava como drageias no imenso clarão da cidade,

- O Padre,

Bom dia, bom dia,

Que horas são?

Incêndios entre corpos carnívoros pelo cansaço do sexo, é tarde, dizia ela, e o amar entrava sempre sótão adentro,

- Estou longe,

O ausente, camuflado homem das tristes sobrancelhas, rabugento, feliz pelas palavras das abelhas e, todas as marés anoiteciam no falso ouro das grandes avenidas que circundavam o sótão da saúde, tenho medo,

- Amanhã o Inverno será tardio, o feriado, um pouco mais de azul, na poeira que adocica todas as palavras do dicionário, como sempre, a saudade, o amor, a paixão,

- A paixão come-se?

Às vezes, meu amor, às vezes come-se; outras, bebe-se.

 

 

Francisco Luís Fontinha

30/04/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:38

28
Abr 20

Sabes, meu amor,

As fechaduras do cansaço dormem nas tuas mãos,

Os pássaros, as abelhas, escrevem nos teus lábios de amêndoa o pólen da paixão,

E, as ribeiras, são canções de solidão,

Palavras envenenadas pelo vento,

A praia onde poisas o teu perfume.

Sabes, meu amor,

Os triângulos da saudade, a trigonometria da saudade,

O perfeito cansaço da manhã,

Quando nos teus braços me deito,

E, durmo docemente como um poema.

A noite veste-se de negrito acrílico,

Desenho-te, nua,

E, acredito que as montanhas têm paciência para me ouvirem.

Oiço as areias finas do Mussulo,

Os barcos e as caravelas,

Deitados na praia da infância,

A morte, regressa sem nome, idade ou sexo…

Sou assim, porque te amo,

Dentro destes livros calcinados pela ânsia de partir…

Chegar,

Ou sorrir.es, meu amor,

Sabes, meu amor,

As flores do nosso jardim, aquelas que plantamos na Primavera, cresceram, já falam e, gritam por ti; a fuga da serpente quando morre um triste cágado de suplante sargaço.

Sabes, meu amor,

A tristeza de te amar em silêncio,

Quando lá fora, tudo dorme,

E, não posso mais gritar; amo-te.

Ai… como são lindas as tulipas do teu cabelo,

Ai… como são lindos os abraços do teu sorriso…

E, no entanto, a noite cai sobre nós,

E, uma cama de sono nos espera.

As fechaduras são eternas.

 

 

Francisco Luís Fontinha

28/04/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:52

28
Mar 20

O tempo que passa,

Desassossega o desespero,

Finto a vaidade,

Perco o emprego,

Vagueio na distância,

Ilumino-me,

E, perco-me no cansaço dia.

Tenho pena,

Daqueles que por lá passaram,

E, desavergonhadamente,

Lá continuam,

Esperando as pedras que caiem do silêncio,

Aos poucos,

Em cio,

Os pássaros loucos,

No desvaneio da solidão.

O tempo passa,

A fome aperta,

Neste desespero acontecimento,

Dos novos marinheiros,

Entre sexos e chapas de zinco,

O rio, comem-me,

Quando a maré se abraça ao cansaço.

Todas as vezes, algumas, o tempo passa,

O mar envaidece-se de sonolências madrugadas,

Calcárias manhãs de Primavera,

Ao deitar,

Sobre o travesseiro da insónia,

Esqueço-me de acordar,

Tomo café, todos os dias,

E, vejo no jornal, a minha foto,

Necrologia,

Perdidos e achados,

Despeço-me,

Até logo,

Abraços.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

28/03/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:26

14
Fev 20

Uma rosa,

Rosa,

Rosa,

No teu corpo,

Corpo,

Corpo, rosa.

Um sorriso,

Riso,

Palavras,

Lavra,

No poema,

Ema,

Riso,

Rosa,

Cama.

Um silêncio,

Lêncio,

Algures na madrugada,

Ugada,

Ada…

Uma pedra,

Pedra,

Nas palavras,

Lavras,

Quando acorda a noite,

Noite,

Oite…

Uma rosa,

Rosa,

No amor,

Rosa,

Mor,

Flor,

Lor,

Dor.

Uma pirâmide de giz,

Na ardósia nocturna da serpente,

Mente,

Ente.

Do ponto,

Onto,

Nada.

Nada, de mim.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

14/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:42

02
Fev 20

E, agora? O que será de nós depois da saudade;

Pertenciam-lhe as palavras invisíveis das marés de prata.

A boca mergulhava na ínfima madrugada do silêncio,

Descia à cidade, quando acordava a noite,

Pegava num pedaço de sombra,

Agachava-se no pavimento húmido da solidão…

E, gritava palavras de amor.

E, agora? Que a tempestade regressou de ontem,

Traz consigo os dois cansados cadáveres da única memória que lhe restava,

Os homens entre guerras e coisas simples, banais,

Percorriam as ruelas sem saída, suspendiam pinturas nas janelas do horror,

Para que as crianças conseguissem adormecer,

Nesta cidade de “merda”, sem dormitórios, sem palavras abstractas,

Que pertencem aos livros de poesia.

O corpo arrefece sobre a lápide fria da manhã,

O silêncio vem em direcção ao peito,

Como uma flecha, e, o sangue corre para os canaviais…

Tinha medo da saudade,

E, agora?

O que será de nós, depois da saudade, quando alguém procura o corpo amachucado pela violência dos gritos do homem de chapéu negro,

Seu nome Chapelhudo, vestido de pássaro nocturno,

Quando as palavras emergem e, tudo à volta morre, extingue-se em finíssimos pedaços de carvão,

O desenho acorda,

Mergulha na tela da saudade,

Sempre ela, a saudade dos dias, da noite, dos candeeiros a petróleo…

E, agora? Nada.

Apenas um sorriso,

Flácido,

Triste,

Porque sim;

Cansado da vida.

Chapelhudo, morre. E todas as palavras do menino branco.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

02/02/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:04

15
Jan 20

Não me digas as palavras que eu te prometi.

Ontem, reinava o silêncio, no interior do teu abraço,

As flores, cansadas de dormir, acordaram com o teu sorriso,

Dilacerado nas manhãs de Sábado.

Não gosto dos Sábados, meu amor.

Fico estúpido, burro,

Durmo na despedida do Adeus,

Às vezes, esqueço-me de almoçar,

Lanchar,

Ou… jantar,

Coisa pouca,

Ninguém morre por não comer.

Não me digas as palavras que eu te prometi,

Porque este livro em solidão,

Assusta-se com a minha voz,

Foge de mim,

Como um mendigo,

Ou… sem-abrigo.

Não,

Não me digas,

As palavras,

Em voz alta,

As palavras que eu te prometi,

E mesmo assim, hoje, escrevo-as no teu olhar.

Sinto-me cansado dos dias,

Das noites,

Sem dormir,

Vagueando num corredor escuro,

Sombrio,

Que me traz à lembrança, a morte.

Essa mesmo,

O final do dia,

O eterno desgosto,

Que abraçam os livros de poesia.

Oiço-te,

Lá longe,

Nas páginas esquecidas da sonolência das palavras,

E mesmo assim,

Grito,

Sufoco com os gritos das pedras,

Também elas, tristes, gastas, e, cansadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

15/01/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:47

03
Jan 20

Gosto,

Do teu perfume impregnado nas palavras do poema,

Quando o mar me chama,

Quando a maré me leva.

Gosto,

Do silêncio teu corpo,

Em delírio,

Dentro de uma cabana.

Gosto,

Dos livros que leio,

Das mãos que me acariciam,

E a madrugada ainda vem longe.

Gosto,

Do apito do petroleiro,

Fundeado nos teus seios,

Derramando gotículas de saliva…

Gosto,

E adoro,

Do significado transparente da tua sombra,

Quando o mar está bravo,

Quando o mar se veste de tempestade…

E morre com a saudade.

Gosto,

Da solidão das tuas mãos,

Porque, meu amor,

Gostar,

Pertence aos poetas,

Escritores,

Pintores…

Gosto,

De todos aqueles que amam,

Sofrem…

E sorriem,

Em frente ao espelho do cansaço.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

3/01/2020

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:04

15
Dez 19

Sem Título.jpg

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:13

08
Dez 19

Longe vai o tempo

Em que eu adormecia acordado

No silêncio da escuridão.

E de madrugada

Quando o amanhecer acordava,

Sentia o vento

Na minha janela mal fechada,

O roncar do meu cão

Que não me deixava sonhar…

Adormecer,

E eu… sonhava,

Acreditava na alvorada sem luar,

Na chuva miudinha impressa num verso de fazer

Inveja ao silêncio dos teus olhos a chorar.

 

E longe vai o tempo

Em que sonhava sonhos de sonhar,

Como se fosse o movimento

Do pêndulo simples na minha mão a saltar.

 

E saltava!

 

Corria sem correr

Adormecia e acordava

E voltava a adormecer

No silêncio da alvorada.

 

Longe vai o tempo

Em que eu sonhava sonhos de sonhar,

E sonhava.

E tinha medo de acordar…

No teu pensamento,

Mulher do mar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Para publicação

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:53

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