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Cachimbo de Água

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Barcos em silêncio

Francisco Luís Fontinha 18 Mar 16

Uma janela de sombra

Suspensa no parapeito da saudade

O equinócio sonho

Atormentado

Espera os meus braços de granito

Um grito

E fujo

Salto a janela de sombra

Corro calçada abaixo

Até tocar o rio salgado pela inocência da noite

E sou apedrejado

Pelos barcos em silêncio…

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 18 de Março de 2016

Sou um pássaro assustado sem poiso onde aportar

Francisco Luís Fontinha 21 Nov 15

Sou um pássaro assustado

Sem poiso onde aportar

Sou a noite vestida de solidão

Com janela para o mar

E tenho na mão

Um rochedo de dor

Que só este corpo acorrentado

Sabe suportar

Como o perfume de uma flor…

Sou um pássaro assustado

Esperando o regresso do amor

Neste barco de amar.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

sábado, 21 de Novembro de 2015

incerteza

Francisco Luís Fontinha 5 Nov 15

hoje recordo as tuas mãos pigmentadas na insónia madrugada

sinto dentro de ti um rio desnorteado

rumo à incerteza

e os barcos que nele brincam

não têm âncoras nem cordas de nylon nem amarras invisíveis

são pássaros meu amor

e corações de pedra

descendo a montanha

 

gritos da noite escondidos no teu cabelo

raízes de sémen poisadas na tua solidão

e sempre que o comboio da esperança avança

há sempre uma carruagem desalinhada

só e triste

só e cansada

correndo a Calçada

embrulhada no sono

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

quinta-feira, 5 de Novembro de 2015

Sem cabeça

Francisco Luís Fontinha 20 Out 15

O inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas,

Menos tabaco nesses cigarros…, gajas no inferno?

E canteiros recheados de malmequeres, crisântemos e orquídeas selvagens, imperfeito, o vidro estilhaçava-se, ficou sem cabeça, ficou sem coração, e ficou com o medo misturado nos óbitos grãos de areia, ainda hoje acredito que um objecto depois de crucificado… permaneça o mesmo objecto, mas com formas e cheiros e desenhos…

Menos tabaco, amigo, menos tabaco,

Diferentes, tornam-se ausentes, tornam-se miúdos brincando no musseque, os charcos, o capim descendo a rabina, o miúdo do bibe acreditava na liberdade, e é tão difícil ser-se livre nesse País, tão difícil meu pai, tu sabes

Menos tabaco, menos,

Tu sabes que vivi encerrado entre quatro paredes invisíveis, tu sabes que vivi entre três janelas sem vista para o mar, mas sentia-o no meu quarto,

Lembras-te, filho? Os Domingos junto ao Porto e os barcos pareciam cancelas suspensas na madrugada, lembras-te, filho? Os Coqueiros, as gaivotas comendo os Coqueiros, e tudo apenas imagens a preto e branco do meu imaginário, porque, meu filho

Sim, pai?

Lembras-te do Mussulo?

Sim, pai, sim… a areia recheada de lençóis brancos, a poeira do cansaço vomitando languidas lâminas de azoto, e depois, e depois regressava a noite, dormias, sonhavas, gritavas… e eu, eu sem dormir, comer,

Ao longe, meu amigo, ao longe o inferno, as gajas, as nuas gajas junto à porta do inferno,

Louco, menos tabaco nesses cigarros, menos,

Ao longe a agonia do fim de tarde agachado em cima de um telhado em zinco abraçado a um livro, não sabia ler ainda, mas lia-o, absorvia-o, como hoje o faço, e não sabia ler ainda,

E tu, pai, e tu emprestavas-me os teus livros, e eu, eu dilacerava-me com o cheiro do papel, com as letras, com as imagens, com as tuas palavras “estes livros não são para a tua idade” como se houvesse idade para se manusear e cheirar e “foder” um livro… vigava-me, riscava-os, tal como as paredes do corredor, riscos, riscos, um livro entre gemidos, um livro em pleno orgasmo… Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…

Desaparecem todas as palavras, o inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas, pensei (estou em cais do Sodré) não, não estava, nunca lá estive e nego-o, absolutamente,

Menos tabacos nesses cigarros, menos

Aproximava-me, lentamente a minha verticalidade diminuía, sentia-me um miúdo de bibe gritando, berrando, “fodendo” livros com uma caneta de tinta permanente, e nada, até hoje, nada, morreu ele, morri eu, morremos todos.

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 20 de Outubro de 2015

Sombras sem sorriso

Francisco Luís Fontinha 25 Set 15

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(Fontinha – Setembro/2015)

 

Deixei de sonhar com as tuas sombras sem sorriso,

Sufocam-me as tuas palavras amargas…

Sofridas e falsas,

Deixei de olhar o mar

E os barcos embriagados pela sonolência da noite,

Agora pareço um Cacilheiro amarrado às folhas ténues dos Plátanos,

Escrevo-te,

Mas não sonho com as tuas sombras,

Sem sorriso,

Agora,

Ontem…

A alegria de estar só.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2015

 

O espelho da paixão

Francisco Luís Fontinha 22 Set 15

Sentíamos a liberdade do vento dançando sobre os nossos corpos em desejo,

Um sótão recheado de livros gemeia, e da janela ouviam-se alguns sussurros insolentes, tristes, como serpentes mergulhando no peito da noite,

O rio que caminhava nas nossas veias saltitava nas luzes do prazer,

Uma clarabóia em delírio alicerçava-se aos teus seios, olhava-a, e via o luar em lágrimas, como se fosse esta a nossa última noite,

Amanhã não vens, e nunca mais existiram fotografias minhas no espelho da paixão,

Morri,

Não o sei…

Ou… ou talvez não,

Deixei de sentir a liberdade,

Deixei de pertencer aos sonhos em papel químico, e hoje sou apenas uma sombra escondida nas coxas do poema,

Senti, vivi o teu corpo misturado nas marés cinzentas da madrugada,

Não sei, meu amor,

Não sei se voltarei a olhar-te…

É que os meus olhos cerraram-se e apenas consigo imaginar os barcos agachados no Oceano amanhecer.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 22 de Setembro de 2015

O grito

Francisco Luís Fontinha 21 Set 15

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(Fontinha – Setembro/2015)

 

Lembrei-me de ti, hoje, e das fotografias tiradas quando se escondia a noite nos coqueiros junto ao mar,

Lembrei-me da solidão

E dos passeios agarrado à tua mão,

Lembrei-me de ti, hoje, e das palavras que escrevias no meu olhar,

Como se eu fosse uma fina folha em papel,

Sofrida,

Cansada de ser riscada,

Velha e tonta… amada,

Lembrei-me de ti, hoje, e das tardes a desenhar os barcos em cartão,

Sós no imenso Porto de embarque e desembarque… sem destino algum,

Ensinaste-me o que eram as montanhas vestidas de branco,

Ensinaste-me o sabor da geada…

E hoje, e hoje lembrei-me de ti e das tuas lágrimas choradas,

Quando acordava a madrugada…

E eu, e eu sem sono… sem sono… gritava.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 21 de Setembro de 2015

 

Regresso (Setembro de 71)

Francisco Luís Fontinha 18 Set 15

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(Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)

 

Perco-me nos teus olhos de cereja envenenada,

Ao amanhecer, oiço a tua voz fundeada nos meus braços,

Um barco, sem rumo, desnorteado junto aos rochedos da noite…

Olho-te,

Beijo-te,

E sinto sobre mim todas as estrelas,

E sinto dentro de mim o teu corpo disfarçado de papel colorido,

Desenho em ti os sonhos,

Escrevo em ti todos os sorrisos dos marinheiros,

Olho-te, beijo-te…

Até que regressa a morte,

E desapareces na neblina do silêncio…

 

Despeço-me da tua sombra,

Invento cigarros nas andorinhas em flor,

Um barco, meu amor,

Um barco entre círculos de desejo e cubos de paixão,

Brinca na tua pele de amêndoa amaldiçoada,

Entra no teu peito,

Deita-se no teu coração…

E mais nada temos para escrever,

Não temos medo da geada

E das fotografias vestidas de madrugada,

(Perco-me nos teus olhos de cereja envenenada,

Ao amanhecer, oiço a tua voz fundeada nos meus braços),

 

E sei que amanhã não terei palavras para aprisionar o teu olhar,

 

O triângulo poético das tuas coxas suspenso no luar,

Um barco, meu amor,

Um maldito barco me trouxe para esta terra…

Maldito Setembro,

Maldita sanzala agachada no cacimbo…

E brincava com os mabecos,

E brincava com os papagaios de papel escrevinhado,

Sem tempo,

Sem sono,

Habito neste inferno sombreado de machimbombos

E triciclos apodrecidos…

E nunca tive coragem, meu amor, e nunca tive coragem de saltar o portão de entrada.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 18 de Setembro de 2015

A esfera da saudade

Francisco Luís Fontinha 24 Ago 15

Palavras para o amor

Que ama as palavras,

Os beijos incendiados nos lábios das estátuas,

Os cabelos dançando no jardim coberto de espuma,

Os bancos em madeira sentados sobre os meus joelhos,

E ao longe, o silêncio do desejo construindo lágrimas de algodão…

Sinto nas minhas veias a esfera da saudade

Caminhando sobre uma lâmina de cartão,

É tão triste esta cidade,

É tão triste a solidão,

Palavras para o amor

Que ama as palavras,

As belas, as belas e todas as outras… belas,

São palavras,

São elas que me alimentam e iluminam quando regressa a noite do teu olhar,

São elas que me abraçam quando o vento bate no meu peito…

Alicerçam-se a mim,

E eu, e eu fico sem jeito,

Só, só neste jardim,

Eu, os bancos em madeira e as estátuas de alecrim…

E no final da tarde tudo é embrulhado no mar,

Zarpamos em direcção ao infinito,

Bebemos copos de sofrimento

Para não enjoarmos…

E esta ondulação enlouquece-me,

E faz deste barco uma jangada de tédio…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 24 de Agosto de 2015

O mendigo das palavras

Francisco Luís Fontinha 22 Ago 15

Pedido nesta avenida

Recheada de cacos e velharias,

Mendigando palavras,

Fumando cigarros imaginários,

Perdido,

Achado,

Escrevendo no teu rosto poemas envergonhados

Que só tu

Consegues perceber…

A vida parece um carrossel enferrujado,

O teu corpo fundeado no meu peito

Como se fosse uma serpente de tristeza,

Perdido,

Achado,

Na algibeira alguns sorrisos de riqueza…

Mas tu sabes que nunca quis ser rico,

Mas tu sabes que nunca quis ser nada…

Apenas me apete estar qui,

Sentado,

À tua espera…

Como um barco que regressa do Ultramar

Trazendo gaivotas

Caixotes poucos…

E recordações em pedaços de papel,

Perdido nesta avenida

Recheada de insónia

E sonhos inventados por uma criança,

Hoje, hoje aqui sentado…

Espero-te sem saber se vens

Ou se pertences às lápides da madrugada,

Não me importo com as fotografias rasgadas

E deixadas nos braços do vento…

Perdido,

Achado,

Aqui… como um rochedo sem coração.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 22 de Agosto de 2015

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