Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

02
Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sinto-me ausente como os barcos da minha infância

oiço os loucos apitos das orgias nocturnas dos pássaros anónimos em mim

finjo escrever no corpo da alma

acredito voar se saltar a varanda e passear sobre os telhados de Alfama

os bares em Cais do Sodré

o rio... o rio que me chama... e eu... e eu não vou

pronto

não quero

porque não me apetece olhar o mar

sinto-me transeunte como as formigas empanturradas em açúcar e compota de abóbora...

não quero conversar com ninguém

prefiro a ausência,

 

A minha santa ignorância... sou um Réu sentado em cima das rochas de espuma

sou um corpo deitado sobre outro corpo

mórbidos nós... até que a morte nos separe... penso em ti

e nunca sei quem és

como te devo apelidar...

se

ou

sinto-me ausente como as serpentes e os barcos da minha infância,

 

Além habitam os charcos lamacentos das bibliotecas em flor

aqui... nada que preste

aqui apenas a minha sombra espetada num farrapo junto a um espigueiro...

o telhado chora

e range

as ripas fazem amor com os pregos enferrujados...

gritam

uivam

e lá dentro

pedaços de nós em pequenas espigas de milho adormecidas no cansaço da morte

não sei... ainda não sei o teu nome

como te despes... como... qual é a tua relação com o espelho do desejo?

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:29

26
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso na madrugada que espera o regresso da barcaça abandonada em alto-mar, a maré eleva-o, a maré come-o, e o navio da sede submerge nas rochas negras da noite, o que é desejar, se não querer e não o ter, suspenso, absorto, iluminado pela mão de quem o acaricia... e ouvem-se os gemidos sons da tempestade do silêncio,

O corpo transforma-se em fantasma, o corpo transcreve os invisíveis carris da solidão e desaparece entre os moinhos de vento espalhados pela montanha dos sonhos,

O medo,

A tristeza de um corpo deitado na penumbra descendo das árvores envenenadas pelo desejo, desejar um o corpo proibido, o corpo prisioneiro das mãos do moribundo cambaleante mendigo das trevas, hoje

O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso na madrugada que espera o regresso da barcaça abandonada em alto-mar, o marinheiro engana-se no navio e quando acorda está fundeado em Cais do Sodré, um cavalo de areia corre junto ao rio, saltita de banco de jardim em banco de jardim, a chuva molha-te e do desejar-te não desejo, a sede esconde-se nas clandestinas janelas com cortinados de chita, e a mão de quem o acaricia... covardemente troca o teu corpo por meia dúzia de cigarros, enrolas-te no Inverno cobertor que cobre o teu cabelo, pareces uma cobra recheada com chocolate e torrões de açúcar, amanhã não o sei, mas hoje, hoje queria ser o dito fantasma vestido de chuva, todo molhado, húmido como o teu, e ao longe, ao longe sentirmos os apitos com doirados sons de fim de tarde,

Não sei quem sou...

Desisto de desejar o que não pode ser desejado,

(dizer que te amo sabendo que o medo transverso do esforço alimenta-se de mim, faz-me fraco, covardemente troco o teu corpo por meia dúzia de cigarros... e quando dou a ordem definitiva ao interruptor para acender o candeeiro da mesa-de-cabeceira... não estás... e diluíste-te com a chuva)

Não sei quem sou...

Desisto de desejar o que não pode ser desejado, os trapos, os farrapos de nós como livros molhados, sujos e imundos, o corpo em imagens tridimensionais... que esperam o meu regresso e curiosamente ainda não sei onde me encontro, preciso de descobrir o caminho para regressar, e se regressar... que seja de noite, que esteja a chover... e que o teu corpo permaneça sobre o divã do desejo

Desejo?

O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso... desejar um corpo sem nome.

 

 

(ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:30

08
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

O menino de sorriso amarelo não acredita no Natal, alimenta-se de pigmentados corações de açúcar, dança descalço sobre as pedras quadriculadas do caderno de Matemática, inventa equações que para não esquecer o significado de cada uma, escreve-as na adensada areia branca da praia das gaivotas cinzentas, o menino não acredita que existem barcos com asas, o menino não acredita que existem pássaros com âncoras de verniz e paisagens prateadas nas janelas do olhar, o menino

Sou seu?

Ela dizia-me que quando eu fosse grande

Aparecerá na tua sombra um poema chamado saudade,

Cresci, fiz-me de homem

Fizeram-no homem com braços, com pernas, com... cabeça e olhos, tudo, tudo em granito, puro, do Transmontano, mas nunca contou que

Aparecerá na tua sombra um poema chamado saudade,

Sou seu?

O menino de sorriso amarelo não acredita no Natal, o menino de sorriso amarelo não gosta do Natal, das coisas supérfluas e inanimadas como as árvores rendadas do pijama dela,

Ela dizia-me que quando eu fosse grande um poema chamado saudade aparecia na minha sombreada constipação nocturna das flores ainda não oferecidas

Posso oferecer-lhe flores, menina?

O parvalhão do moço, dizem que sou eu, inventava palavras e escrevia-as sobre a pele incandescente da areia branca das praias do Mussulo, o menino de sorriso amarelo queixava-se que a travessia transatlântica era uma maneira fácil e cómoda de se esconder dos embondeiros com lábios de suor encarnado, havíamos de descobrir o amor e a paixão, o silêncio quando a noite rompes os cortinados vazios dos púbis em fúria, havia sempre um clitóris agoniado, sem sentido, às vezes

Envergonhado,

Outras

Outras..., não, não gosto do Natal, e o poeta é lindo enquanto escreve, e o homem de pedra é homem enquanto a pedra não se desfaz, esmigalha-se... e o pó entranha-se nos móveis do quarto com varanda para o Tejo,

Os apitos chegavam-nos de Cais do Sodré, elas vestidas de meninas gritavam...

Olá meninos, vamos a uma voltinha?

Inseríamos a moeda na ranhura... e voávamos sobre as oliveiras invisíveis que me acompanhavam desde o Douro ainda não Património da Humanidade, mas um Douro carrancudo, encurvado... como cobras de cabeça em prata que pernoitavam no vão de escada do sótão dos esquimós de aço, que inventávamos nos iglus que o prazer carnal transmitia aos alicerces de leite-creme depois das aventuradas passagens pelo carrossel do sexo vampiro, o sangue aparecia nos tornozelos da ardósia tarde, os cobertores

A menina dança?

Nem dançava nem tão pouco consentia que lhe apalpassem as mamas, como as plantas do canteiro da dona Augusta, acariciávamos-lhes as doces pétalas de chocolate, e depois

Envergonhado,

Aparecerá na tua sombra um poema chamado saudade,

Sou seu? eu... o poema chamado saudade...

Subíamos, descíamos, rodávamos em sentido contrário aos ponteiros do relógio do tio Serafim, e vinha-me à memória o círculo trigonométrico do tesão quando o cosseno de trinta e cinco graus adormece sobre as âncoras de verniz e paisagens prateadas nas janelas do olhar, choravam elas, tremiam, e

Não deixavam que lhe apalpássemos as mamas porque diziam

São estrelas com sabor a tristeza,

As flores, o carrossel e o vão de escada,

Cais do Sodré em sólidos apitos, e eu

O menino de sorriso amarelo não acreditava no Natal,

Depois

Acordei, fizeram-me de homem

E tal como o menino

Não

Acredito

Que existem pássaros com âncoras de verniz e paisagens prateadas nas janelas do olhar, o menino

Sou seu?

É ela, quando acendo a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira e vejo lá poisado um par de óculos, um livro do Agualusa e o “Quinto Livro de Crónicas” de A. Lobo Antunes, e oiço-o em teias de aranha caminhando no corredor do

Carrossel

Inseríamos a moeda na ranhura...

E no corredor do sótão um jacaré de palha seca brincava com o menino que

Não

Acredito

Que existem pássaros com âncoras de verniz e paisagens prateadas nas janelas do olhar, o menino

Sou seu?

Um carrossel pintado de fresco,

Cuidado

“Pintado de Fresco”

O Natal... e as meninas não gostam que eu lhes ofereça flores...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 8 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:53

28
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro

aquele que deambula pela cidade

de pêndulo suspenso na alvorada

dá-lhe corda

fá-lo correr quando se ouve a maré dos silvados xistosos nas encostas íngremes do Douro...

há um leve apito de um novo marinheiro

o cachimbo geosmina como serpentinas voando sobre os candeeiros da saudade

o velho relojoeiro engata uma nova carvoeira

decidem os dois romperem os lençóis do desejo quando os segundos ficam suspensos nas ardósias tardes de literatura

há uma cama estonteante com tonturas e pequenos enjoos...

coisa de loucos

 

drogas dizem logo os transeuntes da rua dos abismos...

cansaço... sussurra o Psiquiatra Manel...

 

o homem do homem esconde-se nas ventosas térreas das searas negras

o velho relojoeiro dá a sua mão milagrosa à menina acabada de engatar

ouvem-se as sílabas castanhas borbulhando sobre uma prata de alumínio

chovem as lágrimas da menina engatada

se é a carvoeira ou a mendiga empregada da livraria... eu não o sei...

o homem chove

desculpem... os homens não chovem

choram

não choram

se fodem ou não fodem...

o silêncio sabe-o como sabe o cinzento eléctrico das noites que ejaculam migalhas de pão

sobre uma mesa... uma mesa sem vaidade

 

uma mesa sem...

sentido

pratos

húmidas abstractas colectâneas

toalhas bordadas...

comida pouca

serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro

aquele que deambula pela cidade?

 

uma mesa vestida de eléctrico palmilhando medos

voando sobre a cidade das searas negras

parte de Cais do Sodré e adormece sobre a lápide encarnada do cemitério da Ajuda

não...

não AJUDA nada

pertenceres aos mosquitos de prata que brincam nos relógios de cacimbo

procurando a menina engatada pelo velho relojoeiro

carvoeiro... ejaculam

toalhas bordadas...

comida pouca

serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro

aquele que deambula pela cidade?

 

- que horas tens meu querido?

 

uma mesa sem...

sentido

pratos

húmidas abstractas colectâneas

toalhas bordadas...

 

… fá-lo correr quando se ouve a maré dos silvados xistosos nas encostas íngremes do Douro...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 28 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:01

12
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Éramos dois barcos dentro da mão da tempestade, vivíamos sonhando como sonhavam os nossos antepassados, tínhamos luas sem luar, ouvíamos as lágrimas da noite e dormíamos acreditando que a noite era mãe das amendoeiras em flor, tínhamos sidos enganos, só não éramos nada, tu e eu, como a noite nunca existiu, só não éramos nada, como tu e eu, como os sonhos são uma mentira inventada pelas nuvens de prata, só não éramos anda, tu e eu, como a noite, sim, essa mesmo, como a noite nunca foi a mãe das amendoeiras em flor, porque estas

Nunca existiram?

Existiram, e existem, mas... deixaram de habitar a nossa aldeia depois dos incêndios que fizeram de nós, num verão incandescente, como uma lareira enfeitada com papel florido e pequenos desenhos em acrílico sobre tela, quanto vale

Nada,

Não vendo desenhos, não vendo vidas habitadas em telas sem sentido, nuas, escuras, telas minhas que acreditava serem também tuas, telas dela que eu acreditava serem dele... e nada lhes pertencia, a manhã, o frio, as flores dos vasos que quando o vento era mais forte os fazia estilhaçar na calçada, da varanda em queda livre

Ajuda!,

E AJUDA nenhuma, apenas paralelepípedos de tristeza mergulhados nas línguas dos magalas com gravatas em tecido desbravado das costureiras envelhecidas, ela trôpegamente subia as escadas, abria a porta de entrada e logo de seguida um velho gato infestado de reumático lhe poisava não mão esquerda, enquanto com a mãos direita afagava os colarinhos de uma gaivota tresmalhada, envenenada pelas insónias vodkas dos bares em Cais do Sodré, e putas de perfume inocência vagueavam a rua saboreando sexos murchos dos candeeiros ancorados aos pinheiros de Trás-os-Montes acabados de nascer, e cresciam, e cresciam

E AJUDA nada,

Descíamos pensando que subíamos,

Os braços da sombra Inglesa com rissóis de maré grelhada e molho de pôr-do-sol, éramos quatro barcos, éramos quatro vadios guindastes de marfim na boca de um crocodilo em pau-preto, e se a princípio éramos apenas dois barcos

Como quatro hoje?

Barcos em flores acreditando nas gaivotas de porcelana, como dois antes, os filhos dos filhos, e as putas de perfume inocência vagueavam a rua saboreando sexos murchos dos candeeiros ancorados aos pinheiros de Trás-os-Montes acabados de nascer, e cresciam, e cresciam

Até

E cresciam...

Até morrerem.



P.S.



o habitáculo do desejo

 

 

dentro do habitáculo do desejo

a bailarina Caliente voa sobre as gaivotas em flor

uma moeda insere-se na ranhura do piano embriagado

ouvem-se sons dispersos nas coxas dele

ele geme

ela sente cada milímetro quadrado dos gemidos dele

o piano enlouquece

o piano derrama a fina pauta de sémen sobre a geada da alvorada

sinto a lareira do ciume nas planícies do abismo coração solitário

e dentro do habitáculo

ela

ela ri-se e dos lábios sobejam as finas pétalas do prazer...





Percebes agora a razão da existência dos quatro barcos em vez de dois?

Não, não percebo,

Éramos dois barcos dentro da mão da tempestade, vivíamos sonhando como sonhavam os nossos antepassados, tínhamos luas sem luar, ouvíamos as lágrimas da noite e dormíamos acreditando que a noite era mãe das amendoeiras em flor, tínhamos sidos enganos pelo habitáculo do desejo, e dos vidros embaciados, nasceram mais dois barcos, filhos dos dos dois primeiros barcos,

Percebes agora a razão da existência dos quatro barcos em vez de dois?

Não, não percebo,

Tudo

Não percebes?

Tudo tão negro quando os gemidos da saudade se entranham nas frestas dos complexos números do quadriculado caderno, e de vez em quando

Poemas,

E de vez em quando

Percebes agora a razão da existência dos quatro barcos em vez de dois?

Não, não percebo,

Como nunca percebi porque chamam Calçada à AJUDA... quando ninguém é ajudado e o rio engole os sexos murchos dos candeeiros ancorados aos pinheiros de Trás-os-Montes acabados de nascer, e cresciam, e cresciam

E morriam.

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 12 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:09

02
Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

odeio-me por existirem dentro do meu peito as palavras das encarnadas flores

vivo inventando rosas

amores

e chuva miudinha sobre as íngremes rochas do mar da tristeza

sou um barco em fuga das conversas loucas que iluminam os teus lábios de papagaio em papel

e sobes entre o Céu nocturno do desejo

e desces às catacumbas do silêncio

há em ti uma palavra prometida numa tarde de Outono

e éramos crianças vestidas de negro

dançando sobre a mesa de um velho café

esquecendo as amarras Luas dos sótãos clandestinos como divãs de areia

na mala de couro adormecido que a tua mão saboreava

 

me levavas encarcerado até encontrares os beijos das garças quando rompem o cacimbo embriagado pelo capim dos poemas encalhados

distantes

doentes

húmidos

… teu corpo e teu vestido

sós simples abandonados... molhados como saliva de sémen na clarabóia da insónia

o texto reflecte-se no espelho da agonia

dorme

vomita

sangra das veias suicidadas as ardósias com sabor a chocolate

e baunilha

 

terminas a noite voando sobre a cidade dos anjos

entranhas-te em mim

és minha

como todos os livros que vivem na minha algibeira,,,

imagino-te sentada no Rossio

vendando folhas de cartolina com caracteres inanimados

mortos

imagino-te brincando em Cais do Sodré correndo sobre os carris da paixão

escrevem-me e esqueço-me que deixaste de pertencer aos meus sonhos

que deixaste de fabricar sorrisos nos fósforos das manhãs embaciadas

ruas infinitas à volta de uma fogueira de casas abandonadas

e... odeio-me por existirem dentro do meu peito as palavras das encarnadas flores

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 2 de Outubro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:41

02
Set 13

foto de: A&M ART andPhotos

 

Balanço-me das tuas tristes três palavras escondidas no disperso xisto que jazem nas tuas mãos como pigmentos coloridos de pequenos animais, balanço-me e esqueço-me, percebo-o agora, não o sabendo, das tuas outras vozes que alimentas o piano de cauda que vive no hospício com janelas gradeadas viradas para o jardim dos doces colares de pérolas, vejo-te passar sobre o alegre relvado onde brincam árvores, pássaros e crianças que ainda não lhes é permitido visitarem os pais, as mães... os amantes as amante, que amam, que vivem, que comem drageias como quem saboreia os gelados do Baleizão, sentava-me, via-te sobre saias curtas e sandálias com tiras finas de couro adormecido, passavas, olhavas-me e eu, indiferente

Saboreava-o como se ele fosse um botão de rosa descoberto no interior de um velho livro de poemas, havia junto dele uma fotografia, uma imagem estática, triste e com olhos mergulhados em água salgada, olhavas-me, olhas-me... e nada consegues dizer

Apenas

Talvez,

Que o dia terminou, que alguém correu o cortinado da tarde... e o Baleizão mergulha nas sombras dos barcos encalhados perto da Maria da Fonte, de longe chegava o som do Grafanil, cheirava a naftalina e a calções recheados de urina, e ouviam-se os teus suspiros depois de terminar o espectáculo de circo onde passeavas sobre um arame invisível, olhavas-me e vias-me...

Apenas

Talvez,

As mesas e as cadeiras metálicas, o chão em pequenos cubos de açúcar, e eu sabia que nunca mais regressaria aos teus abraços de menina vestida de branco passeando na companhia de um belo e monstruoso cavalo, pungente, e de olhar triangular como as estrelas do Mussulo, e apenas

Talvez,

Não, nunca percebi porque prendiam os barcos com cordas se eles de tão velhos quase não se movimentavam, viviam encaixotados em andares sem elevador, escadas, escadas, a cadeira de rodas mal conseguia mover-se no interior do caixote de vidro, e eles, os barcos, e eles os barcos enferrujados gritavam

Somos felizes aqui,

Perguntava-me

Felizes?

Não, nunca percebi porque prendiam os barcos com cordas se eles de tão velhos quase não se movimentavam, viviam encaixotados em andares sem elevador, escadas, escadas, a cadeira de rodas mal conseguia mover-se no interior do caixote de vidro, e eles, os barcos, e eles os barcos enferrujados gritavam como meninos antes do lanche, tristes, e no entanto, alguém os amarrava às cadeiras e às camas... como medo que eles

Navegassem...

Que eles

Fugissem...

Que eles

Que eles fossem fumar cigarros para Cais do Sodré, entrassem no Texas, pegassem numa das meninas cinzentas, e

Dançassem,

Dançassem até que o comandante com o apito embebido misturado com vodka... os mandasse regressar ao cais, ao cais do caixote de vidro, escadas, escadas, escadas... até que morriam, hoje um, amanhã outro...

E deixavam de ser barcos

E deixavam de ser as três tristes palavras.



(Não revisto – Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:00

12
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Partilhável como os teus seios de abrigo em noites escuras, partilhável como veleiros mendigos em mares por navegar, partilhável como um esqueleto em vidro e pintado à mão,

O corpo

À mão, em dedos como lâminas, os cabelos incham, aumentam de volume, voam sobre os arbustos comestíveis das searas negras, vultos com sorriso nos olhos, à mão, vêm como penas dos pássaros assassinados pelo vento, e o corpo

Navega, estreme como a tua voz quando me ouvias dentro dos cubos de gelo que existiam no velho jardim dos desejos cabelos, os cabelos incham, aumentam de volume, cresce, o corpo cresce vagarosamente, a idade constrói-se num calendário esquecido no arame que vive e sempre viveu... nas traseiras da casa, o banco onde te sentavas, depois do jantar, morreu, e o livro que trazias sempre debaixo do braço

Morreu?

Não, não morreu, deixei de o ver, desapareceu, ausentou-se numa noite de Inverno, estava a lareira acesa, havia lençóis de geada em frente à nossa casa

Lembras-te?

Da casa, do livro... ou da geada?

De mim, se ainda te lembras de mim...

Não, Morreu?

Como morrem todos os livros e todas as geadas, de cansaço, de insónia, de

À mão, meu querido?

De nada adiantaram as gaivotas que nos visitavam ao cair da noite, porque morreu a noite, porque morreram as gaivotas... e

As fotografias, também morreram?

Não, morreu?

E nada fazia crer que tu, tal como o livro, e tal como a geada... deixasses

Deixasse o quê, meu querido?

Deixasses de me visitar, deixasses de perceber como eram construídos os sonhos antigamente, não hoje, mas ontem, o correio electrónico impaciente, não se cala, desassossegado, impaciente...

Saudades das cartas perfumadas com corações desenhados pela tua mão minúscula, pela tua mão... de criança, na altura, cresceste, és mulher, de papel ainda vives deambulando junto ao Tejo, oiço-te quando espero pelos barcos, oiço-te quando me sento num banco em pedra, sinto o frio no rabo, e imagino-te... saltitando nas minhas coxas, oiço

Os apitos,

Partilhável como os teus seios de abrigo em noites escuras, partilhável como veleiros mendigos em mares por navegar, partilhável como um esqueleto em vidro e pintado à mão,

O corpo

À mão, em dedos como lâminas,

Os apitos, comestíveis, partilháveis... como se fosses um livro emprestado, folheado por toda as pessoas lá do bairro, e à mão, o corpo

Inchava e aumentava de volume, e o teu cabelo parecia uma noite de luar, e o teu cabelo parecia uma noite de boémia, num qualquer bar em Cais do Sodré, e o teu cabelos, os apitos, cruzavam o rio, olhava-te e sentia dentro dos teus olhos as tempestades

O corpo, chora, meu querido?

Morreu...

Tempestades como ramos de rosas sobre a lápide do teu desejo, como a lápide da tua vagina quando as gaivotas

Quais gaivotas, meu querido?

Quais gaivotas, meu amor...

De nada adiantaram as gaivotas que nos visitavam ao cair da noite, porque morreu a noite, porque morreram as gaivotas... e

As fotografias, também morreram?

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 12 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:31

03
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Fervíamos como líquidos amargos na imensidão dos botões de rosa, alguns bravios, outros, outros mórbidos, outras..., outros, outros caminhando sobre as gaivotas floridas das noites embriagadas, havíamos combinado não falarmos mais nesta horrível despedida, levantarmos âncoras, recolhendo corrente, motores a diesel a trabalhar, e aos poucos, outros, o rebocador deslizava suavemente sobre a tua pele de seda, começávamos a perder de vista os edifícios alicerçados às tuas coxas rochosas, e aos poucos, os teus mamilos começavam a entrar no esconderijo junto à sanzala da saudade, entrávamos, e no pavimento térreo uma colcha de palha onde nos deitávamos, onde dormíamos, comecei a deixar de ver-te, comecei a escrever no zinco teus cabelos, porque o vento tinha zarpado, outras, outros

Fervíamos,

Outros espiavam-nos juntos às bananeiras com quatro cadeiras e um círculo de sombra, fervíamos um no outro, e outros, e outras, aos poucos apenas o silêncio do teu corpo fervilhando entre os meus dedos, outros, e outras, aos poucos o teu púbis vulcânico descia a montanha do Adeus, e cada vez mais longe

Fervilhando,

Fervíamos,

Deixávamos os meninos em volta de pequenas poças de água, tinha chovido, a terra cheirava a fogo, e o céu começava a clarear como acontecia com as janelas da velha barcaça que nos levava até ao paradisíaco Mussulo, eu, eu amava-o, e tu, tu apenas encolhias as pernas, e sobre ti um lenço de desejo te absorvia, flutuavas como uma abelha dentro da cubata, rodavas em pequenos círculos trigonométricos, e dos teus lábios um líquido amargo com sorriso de cosseno desenhava-te na face esquerda uma parábola, a equação descia-te até enrolar-se nos teus tornozelos de areia branca, palmeiras e outros, e outras

Fervilhando,

Fervíamos,

E outras melodias esperavam no cais pelo desejado embarque, deixei-te para nunca mais poisar-me sobre ti, voando, eu, eu ainda tentei..., mas caí sobre o Oceano, mergulhei acreditando encontrar-te lá muito no fundo, mas

Fervilhando,

Pedras e nada mais,

O pôr-do-sol era triste, fervilhavas nos meus longos dedos, e os teus gemidos alimentavam todo o espaço vazio da cubata, não tínhamos sequer onde poisar uma gotícula de sémen, não tínhamos sequer onde deixar suspenso na madeira misturada com zinco o crucifixo que tínhamos trazido do outro lado da cidade, antes de partirmos, antes de te deixar sobre o cais..., e quando percebi

Fervilhando,

Pedras e nada mais,

Percebi que tinhas desaparecido entre o cacimbo e a saudade, percebi que tinhas zarpado como a nossa velha barcaça, procurei por ti, inventei desculpas, cheguei a descer às profundezas do Tejo, entrei em Cais do Sodré, bebi, embriaguei-me, dancei sobre mesas e cadeiras, cambaleei até Belém, atravessei os carris e sentei-me junto ao rio..., fervíamos como líquidos amargos na imensidão dos botões de rosa, alguns bravios, outros, outros mórbidos, outras..., outros sem vida, e nada, e ninguém, nem sequer um simples peixe... para me informar do teu paradeiro, percebi que a nossa cubata tinha ardido, anos mais tarde, percebi que o teu corpo tinha crescido, mudado de forma, percebi que estávamos velhos, como o espelho da casa de banho, quando hoje me olha e diz-me

Fervilhando,

Fervíamos,

E eu, eu... no cais pelo desejado embarque...

 

(Ficção – Não Revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:43

23
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Sinto-me como um panfleto manuscrito, rasurado em determinados centímetros quadrados de área, sinto-me uma pulga vagueando no interior do pêlo fiel amigo meu canino, escondo-me das luzes, escondo-me dos paralelos desconformados, defeituosos, alicerçados a um passado que nunca, nunca existiu em mim um mar verdadeiro, silencioso, com ondas coloridas, calmas, docemente cinzentas como as flores do teu olhar, sento-me e esqueço-me da tua existência como mulher, criança, menina mimada, sempre em revolta, a brincar, às vezes, dentro da minha oca cabeça, recheada, a minha oca cabeça, com papel de parede floreado, que me servirá para alimentar o medo do quarto onde me deixam adormecer, deixavam? Também o desconheço, o ignoro, penso nas mãos dele e tenho-lhes medo, medo de ser acariciado como uma rosa quando acorda no jardim em desejados corações de incenso,

Tenho-os dentro do meu esqueleto os antigos panfletos manuscritos, rasurados, nojentos, tenho-os, mesmo antes do nascimento do amor, em mim, recordo a primeira paixão, talvez fosse o mar, o meu primeiro amor, ou... as mangueiras, ou... o meu fiel amigo chapelhudo, ou o abraço do velho Domingos quando regressava a casa, abria-me os braços... e eu, entrava dentro dele, até ao dia seguinte, até ser novamente manhã,

Lembro-me das tuas carícias, recordas-me tu em apenas três imagens, três simples desenhos inventados por ti numa noite de desenhos com literatura e vodka, ouvíamos “Dire Straits” sentados numas cadeira com uma estrutura flácida, como o sexo em noites de embriaguez, deitavas a cabeça no meu ombro, e voávamos sobre um Lisboa acabada de descobri, eu imaginava-te dançando sobre uma mesa num bar em Cais do Sodré, tu, não me imaginavas mas sabias que eu era um panfleto manuscrito, rasurado, como a montanha quando nascem os pássaros e a olham pela primeira vez, sorriem e exclamam...

Amo-o,

As tintas alimentava-te,

Amo-a,

Também, vestia-se de tela, e do corpo cresciam raízes pedestais em cúbicas cidades de areia, dançávamos como se não existissem madrugadas de poesia, como se não existissem rosas no jardim do amanhecer para alimentar-te os lábios pincelados de encarnado sangue, fluidos derramavam-se-te como espelhos em pedacinhos de luz, que reflectiam nos tectos das noites ausentadas, e percebia-se figuras não geométricas nos teus lençóis de insónia,

Hoje,

Amo-o,

As tintas alimentava-te,

Amo-a, o cansaço equacionado em triplas integrais numa ardósia junto à pastelaria onde comíamos os fabulosos pasteis de nata, Belém, a nossa casa, um relvado infinito de sombras, de braços entre beijos e sonhos, as árvores despiam-se e deitavam-se connosco, éramos muitos, muitas, o quê?

Amo-o, dizias-me tu enquanto te masturbavas no espelho invisível da noite, e no entanto, reconhecia os meus desenhos no teu corpo bronzeado, escuro, como os livros acabados de arder sobre as tuas coxas de silício, e ias à janela, e desaparecias como desaparece o fumo dos cigarros que hoje não fumo...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:22

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