Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

10
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

senti-te despregada dos sonhos em castelos de veludo

desci as escadas da solidão à tua procura

mergulhei no incenso magusto das castanhas embebidas em pétalas de amor

dormi na rua por tua causa

subi às árvores para buscar-te as asas que te prometi

e por lá fiquei

senti

e sem ti

senti-te mais tarde dentro de mim como se sente o rio quando corre nas nossas veias de onomatopeias desgovernadas

tristes

e simples espada nas cantigas das janelas em ruelas empobrecidas

senti-te despregada dos sonhos em cubos de areia vestidos com bonecos em palha seca

sabia-te perdidamente nas cidades em volta dos relvados nocturnos dos néons castrados como abelhas fundeadas no cais das aranhas e noites em dormitórios de marés rochosas ou das malignas coberturas de zinco nas cabeças sem coloridas manhãs de Outono

amar-te-ei depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita?

e por lá fiquei

senti

e sem ti

imaginava-te louca com brincos de centeio dos campos de Carvalhais

imaginava-te nua dentro do espigueiro junto à eira

e sentia-te entre as frestas do dia em delírios poemas como gotículas de suor que o teu corpo derramava sobre a minha sombra

e por lá fiquei

senti

e sem ti

às caravanas esplanadas do rio embrulhado em pontes de concreto armado

vagueavas-me na ponta dos dedos como objectos minúsculos do edifício da rua dos apaixonados mosquitos de arame

sentia-te fervilhar no meu sangue

sentia-te a desfrutares as palavras dos meus suspiros quando acordava o pôr-do-sol...

e um barco se sémen poisava sobre as tuas coxas envergonhadas

absorvendo o prazer da tarde como uma equação diferencial esquecida dentro do caderno quadriculado

e por lá fiquei

sem saber que tu eras como as espigas de milho

sem saber que tu sonhavas com clarabóias de insónia depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita

amar-te-ei?

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 10 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:24

09
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

em todas as coisas belas fui mestre das tempestades de zinco que habitavam a cidade do nada

adormeci debaixo das sombras pedestres dos castanheiros

vivi em vãos de escada

sorri

e chorei

em todas as coisas belas...

me senti embebido nas lâminas de azoto que vagueavam os alicerces dos muros invisíveis

e descobri que o amor

e descobri que a noite

sorri

e chorei

são abstractos objectos dentro do meu peito

 

pinto desejos nas nuvens de algodão que descem as paredes do Inverno

olho-me no espelho do rio

sinto-te em mim apaixonada por palavras minhas

servem apenas os espantalhos de pano

como as ervas daninhas dos campos de milho de Carvalhais...

abraçadas aos espigueiros da saudade

 

dizem que sou esquisito

que tenho mau feitio

que sou

como o amor

e a noite

objecto abstracto

sem sorrisos

sem âncoras de aço fundeadas no cais das tempestades de zinco

dizem que sou parvo

dizem que sou... esquisito e de mau feitio...

sorri e chorei

são abstractos objectos dentro do meu peito

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 9 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:22

03
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

podíamos aproveitar os desenhos da sala de jantar

podíamos fazer das paredes húmidas telas com alegria

e palavras em espuma

à espera do Oceano

sentávamos-nos sobre a soleira da porta de entrada

e esperávamos o regresso das almas impregnadas no mármore livro onde dorme o avô Domingos

é Domingo

visitei-o e percebi que um dia

eu

não tenho quem faça o mesmo por mim

pertencerei a uma sepultura solitária

entre riachos e pedras dentárias

prédios e alicerces de vidro

é Domingo

e o avô Domingo parece satisfeito com a minha visita

não o consigo ouvir

não o consigo ver...

mas sei que ele vagueia nas minhas mãos enquanto nascem delas as palavras dele

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 3 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:54

03
Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Habitas os planaltos castanhos desde que foram construídos pelos teus olhos em flor, habitas como sombra dentro do meu corpo, dentro do meu cubo esquelético, e dos meus olhos triangulares sinto os ângulos obtusos entranharem-se-me como agulhas, como serpentes de aço, barcos e caravelas enferrujadas, velhas, caquécticas sentadas à mesa do café, pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis,

A chuva, para ti, é o quê?

Um corpo húmido circula concêntrico na fogueira dilacerante que os morcegos deixaram antes de todas as luzes se acenderem, ouvia gritar o meu nome no espelho de um guarda-fatos de mármore, a cama cheirava a sexo e a palha, o colchão picava os corpos transparente que tinham sobejado do Verão minguado, havia uma mão na tua boca, havia

A chuva, para ti, é o quê? Pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis, escrevem sobre a mesa as folhas tristes do Outono, desnudas, as árvores, abraçam-se aos guindastes plastificados em brinquedos crianças, vêm as lágrimas, vêm os primeiros holofotes de néon depois de partirem as madrugadas, e os corpos, os nossos, e os deles

Apodrecem os ramos...

E os corpos amanhecer suspensos nos alfinetes do alfaiate, as calças ficam-me pelos tornozelos, ele ri-se como se eu fosse um boneco de palha espetado no centro do campo de trigo em Carvalhais,

Você cresceu, amigo!

Pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis, a chuva

A chuva, para ti, é o quê?

Um corpo magoado, ausente, triste e cansado, um corpo molhado, um corpo em pura lã virgem antes de acenderem-lhe os braços, ela sorri, encerra os olhos como um navio antes de partir, olhava os porões... e lá longe, homens do tamanho de agulhas, passeavam-se como abelhas de colmeia em colmeia, como velhos

De asilo em asilo,

As ovelhas brincavam sobre a erva doirada das tardes de Primavera, no intervalo entre duas cervejas, uma delas diz-me que se sente apaixonada pelo distinto orvalho, faço-lhe ver que o orvalho é um gajo mal disposto, mal educado, que é um gajo

A chuva, para ti, é o quê?

E ela insiste, e ela que o amor não escolhe idade, religião, sexo ou cor... que o amor apenas acontece, e nada mais de que isso, e que as ovelhas são umas grandes cabras, e que as cabras, às vezes, parecem e nunca o conseguiram ser... mulheres vestidas de chuva, mulheres que pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis, que fuma cigarros quando sentadas num banco em granito, e que

E que caiem as folhas das árvores porque elas, as árvores, estão tristes, porque elas, as árvores

E que ninguém quer perceber,

As árvores sinto-as vacilarem como cordéis de neblina no centro esquerdo do cais das borboletas flutuantes, o lago espirra, tosse, tosse... e o dióxido de carbono aloja-se nos teus seios de incenso, como a noite, como todas as mulheres...

Pedem chá para três e conversam sobre as marés dos orgasmos invisíveis,

A chuva, para ti, é o quê?

Gajas nuas, gajas... saltando muros em xisto.

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 3 de Outubro de2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:39

16
Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Há uma estrela cansada de viver, há uma estrela apaixonada pela tempestade invisível das cidades com edifícios carnívoros, os homens, como eu, são comidos por poderosas guilhotinas de aço inoxidável, o carbono sabe a poeira de marfim, e ela passeia-se pelos jardins com árvores de papel,

Equações com muitas incógnitas dormem docemente na palma da tua mão, tu tocas os mamilos pelo integrais triplas, e diferenciais equações desenhadas no coração da areia, o mar, o mar regressa a ti e leva-as, como levas os ossos nossos que as guilhotina de aço

Comeram? Comem? Adormecem na tua face as abelhas claridade das manhas de Outono, sinto o frio entranhar-se em mim, serás tu, tu

Disfarçada de cetim?

Tecido barato, chita, ou...

O cigano refila com ela, o cigano tenta embrulhar a menina num cubo de vidro, mas a menina, toda sabida, consegue aldrabar o cigano...

Perguntas-me

Quem, quem consegue enganar um cigano?

Fico sem música, Wordsong silencia-se e oiço o AL Berto sobre a minha secretária a discursar, pergunto,

Quem, quem consegue enganar um cigano?

Outro cigano? Outro homem como eu, comido e bebido pela guilhotina de aço? Não, Não poderá ser... assim choviam navalhas sobre o cansaço das tardes de Carvalhais, e sempre tive uma paixão secreta por ela, por S. Pedro do Sul... pelas Termas de S. Pedro do Sul...

O avô Domingos,

“Olha meu menino... a filha do Zé é única como tu e têm muitos bens...”

É maluca como eu..., segredava-me o meu outro eu,

O avô Domingos,

“Muitas terras, casas...”

E eu e o outro eu... Queremos lá saber disso, nós queremos viver livremente, correr, atravessar o mar em direcção a Sul, depois viramos à direita logo à saída de Castro Daire, e é lá, é lá que está ela à espera de um fedelho em círculos, prisioneiro à mão do avô Domingo, nessa altura

Não “Fingertips”,

O avô Domingos,

Finger quê menino?

Nada, nada avô... estava a falar da Teresa, daquela que você diz ter muitas terras, e casas... e parvoíce a mais dentro do pequeno cérebro misturado em areia e teias de aranha,

Sina de dinheiro,

O quê? Finger quê?

Nada avô... nada... é a janela que está empenada, e quando o tio Serafim liga o desgraçado do moinho eléctrico... a luz murcha

Damos-lhe Viagra, meu menino..., não avô, não podemos...

Porquê, meu menino?

Porque ainda não inventaram o Viagra e ainda não existem os Fingertips...

Finger quê, meu menino, Finger quê?

Nada, nada avô, nada, porque o sol vem sempre acompanhado, nada, nada avô, nada, porque a chuva traz sempre outro amigo, e esse amigos traz um pedaço de vento e o vento

Leva-te os papeis onde escreves, não é meu menino?

(nada avô... nada... é a janela que está empenada, e quando o tio Serafim liga o desgraçado do moinho eléctrico... a luz murcha

Damos-lhe Viagra, meu menino..., não avô, não podemos...

Porquê, meu menino?

Porque ainda não inventaram o Viagra e ainda não existem os Fingertips...

Finger quê, meu menino, Finger quê?)

E sentava-me junto às bananeiras, pertinho dos antigos balneários, e havia um banco só meu, tinha sempre na mão um livro, um caderno e uma caneta, e passava tardes inteiras a conversar com o enxofre da fonte incandescente junto a mim...

Nunca mais ouvia as palavras dele. Nunca mais.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:41

26
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Tinhas-me inventado numa noite de copos, éramos leves como as lágrimas das tuas madrugadas, éramos finos como os beijos atravessados pelos teus lábios e fundeados na tua garganta, e éramos de aço que corríamos sobre os andaimes que vomitavam a cidade em pedaços de granito, éramos loucos e loucas, e tínhamos dentro de nós o jardim da saudade, tinhas-me inventado como inventaste tantos outros bonecos de palha, como tantas outras flores em papel crepe, coladas numa cepa envelhecida e envernizada, ofereci-te o meu primeiro ramo de flores, ainda em criança, e diziam-nos que os morcegos roubavam-nos os sonhos, que os morcegos roubavam-nos os suspensórios onde prendia-mos as poucas palavras que sabíamos pronunciar, e vagamente adormecíamos sobre a bandeja da empregada do bar,

Matilde... olhava-nos e tinha dó, pela nossa tristeza, pelo nosso desespero... pela nossa infinita solidão como os cordões brancos das malditas botas da tropa, que aos poucos se afundavam dentro do Tejo e os velhos Cacilheiros dormiam envenenados pelas Ratazanas de duas patas, de tão grande porte... que quando aparecia o vento, quase sempre estas ficavam em terra, pesadas, os pés recheados de pequenas bolhas, era Verão, era Verão e tinhas-me inventado depois de um pequena brincadeira de adolescentes, prometeste-me o Céu, e eu, eu nada te prometi, um grande sovina, sempre de algibeira vazia, sempre depenado, após uma noite de jogarmos ao montinho

Azar ao jogo, sorte...

Maldita,

Tinhas-me inventado numa noite de tempestade, jogávamos ao montinho, bebíamos Moscatel de Alijó, estávamos em mil novecentos e oitenta e oito, Julho, quase, quase a despedirmos-nos das Ratazanas, desta vez, as de quatro patas, era noite, e tu dançavas sobre um lençol branco suspenso numa parede triste, desprovida de qualquer cor, chamávamos-lhe a parede dos sonhos, nas traseiras do triste lençol ardia um prato com chouriço embebido em aguardente, o cheiro intenso espalhava-se pela janela e poisava nas sombras adormecidas da vida, havia uma ruela estreita, onde a empregada da esplanada, a querida Matilde aparecia em altos voos, descia, tão vagarosamente... que quando chegava até nós...

Olha... adormeceram,

Cansados,

Embriagados do intenso cheiro das Ratazanas,

E a cidade crescia como uma seara na longínqua Carvalhais, um parvalhão questionava-me

Ouve lá pá, onde fica Carvalhais?

Timidamente... perto de Viseu,

(puta que te pariu)

Claro que Carvalhais pertence a S. Pedro do Sul, claro que Alijó é Alijó e tinha de me explicar mil vezes que Alijó

Fica em Vila Real,

Trás-os-Montes?

Sim, (cabrão), sim, sim em Trás-os-Montes,

Sacana,

Eu, eu sacana?

Sim, sim você seu grande cabrão...

Tinhas-me inventado numa noite de copos, éramos leves como as lágrimas das tuas madrugadas, éramos finos como os beijos atravessados pelos teus lábios e fundeados na tua garganta, e éramos de aço que corríamos sobre os andaimes que vomitavam a cidade em pedaços de granito, comíamos comboios ao pequeno-almoço e espingardas ao almoço, éramos todos tímidos, e todos fumávamos charros nas vagas horas, depois

Tombavam na formatura como toupeiras,

Matilde aparecia, abraçava-me, dilacerava-se nos meus cabelos inexistentes, dava-me um beijo, e desaparecia como tinha aparecido, sempre pelo buraco da chaminé,

E chorei,

Quando tudo ardeu semanas depois de eu regressar, arderam as minhas memórias, arderam os meus passos pesadíssimos com cordões brancos, arderam as livrarias onde comprava os meus livros, e ardeu também a querida Matilde, depois ainda a vi em sonho, vestida de cinza passeando em frente ao Tejo e em pequenas despedidas,

E adeus querido Chiado, e adeus, adeus minha querida Matilde...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:12

11
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

O corpo do texto, emagrece, reinventa-se e mergulha entre silêncios e cavernas como a solidão dos primeiros dias da ausência dos sons poéticos e melódicos, o corpo ausente de tamanho, do zero ao doze, finge-se de morto, termina a linha, muda-se para baixo, travessão, ponto final, parágrafo, ponto de interrogação?

Desisto, pergunto se vale a pena continuar, e oiço-o como um vibrador dentro do meu ouvido,

Não, não continues, desiste rapaz,

E desisto,

E pergunto-me como será o Inverno, lá, depois de partir,

É como cá, respondem-me, respondem-me, respondes-me

Não faz mal, não faz mal, tudo é maleável como a sombra dos pinheiros em Carvalhais, tu

Tudo mesmo, mãe?

Tudo filho, tudo, o teu corpo é maleável, os teus sentimentos

Como são eles, mãe?

São em tecido e bordados com rosas, umas bravias, outras...

Como são as outras, mãe?

Menos bravias, mais calmas, mais

Belas, mãe, mais belas?

Muito mais, meu filho, muito mais,

O corpo do texto, o papel fica composto, cada vez menos espaços vazios, cada vez mais sofrimentos devidos às letras distorcidas da velha máquina de escrever, o teclado engasga-se, o teclado

Como são as outras, mãe?

O teclado prisioneiro das tardes junto ao rio, o teclado encalhado nos rochedos das sanzalas invisíveis dos panos encarnados, tapavam cadáveres, tapavam fome, tapavam o sol e os sonhos dos meninos, eu sonhava, ela sonhava, nós sonhávamos...

Com rosas, mãe?

Sim filho, sim

O teclado acabado de ser detido, criminalmente... ser oposição, escrever nas paredes negras da noite, e separadamente, éramos espancados vos chicotes de corda, com a ponta em fino papel, era assim, é assim, sempre o foi, sempre assim será, tudo

E se o velho morrer, mãe?

O venho nunca morre, meu filho, nunca, como nunca morrem as rosas bravias, como nunca morrem as sanzalas e os musseques e os charcos depois da chuva, e o velho, mãe, e o velho

Eterno, eterno sentado a olhar o mar,

O texto multiplica-se na maré doentia de Domingo, dizem-me que fiquei absorvido pelas nuvens que sobrevoavam os telhados de vidro, e o texto agora com pequenas imagens, e o texto agora com letras, grandes e pequenas e nenhumas... e algumas, tristes, alegres, negras, azuis e cinzentas, multiplica-se e vomita canções de amor, música, palavras declamadas por gargantas envenenadas pelos peixes e pelas tuas algas, havia um rio que nos prendia à madrugada, havia três caixas de cartão todos os papeis que lá jazem, têm o teu nome, e ainda tu não tinhas nascido

Mãe, como é isso possível? Porquê, mãe?

Estás lá, abro-as, o teu nome escreve-se como teclados domesticados, a tua fotografia hoje pertence aos esqueletos de cartão, morreu disseram-me depois de te ausentares

Morreu de quê, mãe?

Saudade?

Porque se morre de saudade, mãe?

Porque um dia o mar virá buscar-te, um dia, um, filho meu...

E o texto? E o texto cresce como árvores na Primavera, e o texto reinventa-se..., e dorme, e dorme em ti, sobre ti, e dorme na tua mão

O velho, mãe?

O velho morrerá,

E a liberdade dos pássaros e dos corpos... serão comestíveis como os teus mamilos quando salteias os lençóis nocturnos dos pequenos parágrafos, dos pequenos pontos finais, outras

Nem pontos, nem vírgulas,

E enquanto o velho não morrer, não felicidade, não vida, não sonhos.

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 11 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:34

07
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Sinto-me verdadeiramente encaixotado nos aranha-céus que o teu querido pai me prometeu, entre um deles e um qualquer livro, escolho um qualquer livro, e entre um qualquer livro e um copo de vodka, escolho obviamente...

Um qualquer vodka, porque dispenso o livro, porque dispenso um qualquer poema, porque dispenso o copo, sinto-o e sinto-me encaixotado nas tuas mãos vendadas pelo sono, cerras os olhos dos ténues pulsos de areia, pertences aos corpos clandestino como os pequenos grãos e as distintas óbvias gotículas do suor tua pela, cerras os olhos que jazem nos teus pulsos, suicidadas-te como uma menina mimada, singela, como uma flor vagabunda num qualquer palco, onde se ouve, uma qualquer banda, o piano melódico, e da voz poética, ela, ele, transformam

“Demito-o obviamente”,

E demiti-me,

Deixei se ser o amantes nocturno das noites de Verão, deixei de ser o clandestino mendigo passeando-se pela Avenida ribeiro das Naus, enquanto escrevo, oiço a melódica voz de “Joana Gomes” e dos “Fingertips”, e obviamente

Recordo, as saudades, de Carvalhais, e de S. Pedro do Sul, e dizem-me que o rio ainda corre como corria, e dizem-me que a eira ainda é a eira de ontem, pouca coisa mudo, apenas que o avô Domingo deixou de passear-se de bengala e dorme debaixo da lápide granítica onde alguém escreveu

“Eterna saudade”,

E demiti-me,

Hoje, hoje não amante, hoje, hoje não escravo do amor “Slave to love”, STOP, e na primeira rotunda a segunda saída, a respectiva plana de sinalização

“Precisa-de amor”,

Penso, devo estar perto, ao que tudo indica... uns míseros oito quilómetros, estrada sinuosa, encurvada, subo a serra como um caracol mal disposto, paro, peço um café mal tirado, por dificilmente encontrarei um bom café, e fico especado a ouvir a voz melódica do piano, debaixo da mesa, uma criança traiçoeiramente apanha um chupa-chupa, lembro-me de quando ainda era eu, muito antes de me demitir, lembro-me do Baleizão, lembro-me dos palhaços e dos malabaristas, lembro da tenda do circo dançar sobre a minha cabeça de menino

Mimada, tu

Eu, eu mimado, filho único, tinha um cavalo em madeira, saltava o portão de entrada e entrava cidade adentro, a cada machimbombo que encontrava gritava

Avô Domingos?

Nada

Avô Domingos?

Nada, nada de nada

Outra vez... Avô Domingos?

E encontrava-o numa transversal em Luanda com um cordel na mão a puxar um machimbombo com olhos azuis e missangas no pulso esquerdo, no direito

Machimbombo? Outra vez... Avô Domingos?

Penso, devo estar perto, ao que tudo indica... uns míseros oito quilómetros, estrada sinuosa, encurvada, subo a serra como um caracol mal disposto, paro, peço um café mal tirado, por dificilmente encontrarei um bom café, e fico especado a ouvir a voz melódica do piano, debaixo da mesa, uma criança traiçoeiramente

Triste,

Penso, devo estar perto, ao que tudo indica... uns míseros oito quilómetros, estrada sinuosa, encurvada, subo a serra como um caracol mal disposto, paro, peço um café mal tirado, por dificilmente encontrarei um bom café, e fico especado a ouvir a voz melódica do piano, debaixo da mesa, uma criança traiçoeiramente

Infeliz,

Penso, devo estar perto, ao que tudo indica... uns míseros oito quilómetros, estrada sinuosa, encurvada, subo a serra como um caracol mal disposto, paro, peço um café mal tirado, por dificilmente encontrarei um bom café, e fico especado a ouvir a voz melódica do piano, debaixo da mesa, uma criança traiçoeiramente

Cansada de ti,

E obviamente... demito-me.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:56

26
Jul 13

desenho de: Francisco Luís Fontinha

 

Desenhaste-me nas esfinges manhãs de Inverno

procuraste uma tela vazia

construíste-me em mendigo acrílico com coloridos ombros de porcelana

pintados à mão,

 

(Fui o que nunca quis ser

sou tudo aquilo que tu nunca quiseste que eu fosse...)

 

Desenhaste-me em murais que ultrapassavam os edifícios em ruína na cidade das gaivotas

sentei-me em ruas onde tudo se vendia

o corpo flores drogas álcool e amores

livros e papel de embrulho

desenhos e merdas sem sentido

porcarias vãs

vadias entre as pernas alicerçadas aos tambores de choque

envaidecias-te

eras nobre como um donzela puta de adorno...

e os jardins cansavam-se de ti como velhos sorrisos

sonâmbulos das ínfimas janelas

e entrava-nos na sala de jantar o enfeitiçado mar...

 

Um cheiro horrendo

barcos vomitando saliva esbranquiçada

lágrimas

e muitas estrelas

todas elas

embriagadas,

 

Desenhaste-me como se eu fosse um boneco de palha

um cabrão mal vestido

de fato

gravata

e sapato bicudo afiado reluzente como um espelho da feira popular...

chorudas mulheres de açúcar

dormindo em roulotes como gazelas em sexos murchos que os finos pinheiros de Carvalhais...

lançam

deixam ficar sobre a tua pele...

todas as palavras de adeus...

Adeus

Até nunca mais me desenhares nos murais das montanhas de aço,

 

Desenhaste-me nas esfinges manhãs de Inverno

procuraste uma tela vazia

construíste-me em mendigo acrílico com coloridos ombros de porcelana

pintados à mão,

 

(Fui o que nunca quis ser

sou tudo aquilo que tu nunca quiseste que eu fosse...)

 

Desenhares-me invisível

sem saberes quem sou

como penso

vivo

se tenho sonhos

consegues perceber os meus lamentos?

 

Fui tanta porcaria...

cavaleiro

donzela

prostituto

pintor

escritor

abelha tonta tonta como ela... ela tão bela...

e tudo porque me desenhaste nos murais das montanhas de aço,

 

E poeta não o sou

talvez o seja quando se apercebe em mim um silêncio de loucura

devaneio

os peneirentos pássaros que as arcadas do desassossego escondem

constroem e inventam insónias em papel como pobres flores de arremesso...

 

Desenhares-me em toda a porcaria livre

nas calçadas

nas ruas e ruelas

cansadas...

desenhas-me como se eu fosse um esqueleto de amêndoa

suspenso nas três horas da madrugada...

nas calçadas

ruas

e ruelas

sou

nunca o fui

desejo-o como se ele fosse um abutre de asas cinzentas,

 

Sou

fui nunca

poeta pintor escritor porque nunca deixei de o ser...

malabarista de primeira classe... diplomado.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:15

02
Jul 13

foto: A&M ART and Photos

 

Vivíamos não percebendo que das marés de Inverno

habitava em nós o tédio

construíam-se-nos alicerces envenenados por doces lábios de incenso

como Primaveras desenhadas num papel esquecido em ti

eu

de esquadro e régua

tu

deitada sobre o estirador do desejo

delineava-te em curvas com sombras de trapézios

e dos poucos ângulos que sobejavam em ti

davam para alimentar-me quando chovia nos lençóis da espuma infância

e sorrias como os milímetros de noite inertes entre pilares de granito e luzes ancoradas pelo suicídio,

 

Vou deixar de escrever

(confesso-o apenas a ti)

porque tudo tenho perdido com as palavras

hoje

(confesso-o apenas a ti)

olhei-me no espelho do meu guarda-fato (que te garanto, nada guarda)

e vi os meu olhos em pedaços de lume

como a lareira de Carvalhais

(lembras-te do Inverno?),

 

Sorrir para quê?

Se todas as minhas fotografias são tristes

inexpressivas e doentes

até parecem (disseram-me um dia)

cadáveres voando sobre os Oceanos onde mergulhavas em busca de cardumes inexistentes

de peixes

e lobos descendo a Serra

aldeias perdidas em ti

como eu

(disseram-me um dia, que as madrugadas não eram todas iguais)

apelidei-te de PARVALHONA e hoje percebo que errei

(peço-te desculpa)

porque nenhuma madrugada consegue ser decalcada no estirador onde habitas

digamos que (onde ainda consigo ver o teu corpo no esquisso),

 

Abro a janela

(para quase todos eles, já é noite)

para mim (para mim acorda agora o dia)

começam as brincadeiras dos meninos enquanto mães desassossegadas

habitam como tu no estirador semi-nu das estrelas de plátano adormecido,

 

(confesso-o apenas a ti, tenho fome)

fome daquela que estávamos habituados a saciar

coisa que conseguíamos resolver com dois ou três livros

alguns beijos

e corações com o marcador encarnado

deixando no teu peito uma rosa

um silêncio

sem queixumes

saudades

ou pieguices...

abro a janela

e deixaste de descer a Serra

como os lobos

(quando ouviam a velha máquina de costura Singer),

 

Hoje

Que dia é hoje, (se posso apelidar-te de amor)?

Não sabes ou não queres responder...

deixei de perceber se é Sábado

Terça-feira

não o sei porque não o desejo saber

(Vivíamos não percebendo que das marés de Inverno

habitava em nós o tédio

construíam-se-nos alicerces envenenados por doces lábios de incenso

como Primaveras desenhadas num papel esquecido em ti

eu

de esquadro e régua

tu

deitada sobre o estirador do desejo)

porque se o soubesse

perceberia o quanto feliz eu era sem as malditas palavras...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:45

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