Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

10
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Sempre o quiser, sempre sonhei viver, assim, como vivo, simples, livre, às vezes, pareço um abstracto pólen voando sobre a cidade infestada de ratazanas, flores, abelhas, mulheres e homens, crianças, tendas de lona e roulotes, sempre o quis ser, sempre sonhei viver assim, como hoje, ontem, procurando coisas, vendendo coisas, tendo dentro de mim

Coisas?

Dentro de mim a saudade das fotografias a preto-e-branco, imagens mortas, imagens encerradas dentro de um livro, imagens..., sempre o quis ser, sem cheiros, sem a visão da terra gretada antes das chuvas, dentro de mim, coisas, edifícios com coração de madeira, ruas e ruas, coisas, automóveis, barcos flutuando

Dentro de mim?

Coisas,

Não flores, dentro de mim, barcos flutuando nas sandes da manhã, dentro de mim, gaivotas vomitando coisas, porque a ressaca assim o determina, coisas, não flores, não guilhotinas, cordas

Para que servem, pergunto-te, coisas?

Não

Flores, a terra cheira a húmus, a terra cheira a literatura, a terra sabe a poesia, coisas, das coisas, de ti, e de mim, não, não flores, nunca, e nunca me ofereceram flores, nem quando ele se transformava em mulher, nem quando ele

Não

Não flores,

Nem quando ele olhava o espelho do guarda-fato, vazio, coisas, como um compartimento sisudo, sem sorrisos, e que nunca viu o silêncio, nem quando procurava

Ruas?

O desejo transformando-se em mulher, vagueando como minhocas nos jardins das plataformas do cais de areia, trazias umas calcinhas, não meias, Flores? Não

Flores,

E ruas...

Flores,

E nauseabundas camas ortopédicas, onde praticávamos os números de circo que depois exibíamos nos espectáculos sem nome, procurando terras, vivendo dentro de espelho, gemendo quando os sexos, o meu, e o teu, e não flores

Flores?

Se misturavam nos lençóis como a capa do homem que era responsável pela apresentação, uns gritos, uns poucos uivos, e gemidos, dentro do camarim, dentro do espelho

Não, hoje não, flores, não flores,

E ruas?

Nem quando ele olhava o espelho do guarda-fato, vazio, coisas, como um compartimento sisudo, sem sorrisos, e que nunca viu o silêncio, nem quando procurava

Ruas?

O desejo transformando-se em mulher, vagueando como minhocas nos jardins das plataformas do cais de areia, trazias umas calcinhas, não meias, Flores? Não

Não?

Fiquei

Perdi-me nas avenidas escuras com dentes de marfim, fiquei, dentro do armário, anos, meses, segundos, zero, menos um, menos dois...

Debaixo da terra, encalhado numa linda e bela fenda, eu, da roulote, chamava por ti, ouvias-me e dizias que tinhas ficado surdo, ouvias-me e dizias que a lona tinha voado, como o faziam

Pássaros?

Flores?

Fiquei, esperei por ti, perdi-me nas avenidas de gorro e sobretudo, e não

Flores?

Não

Porque odiávamos as flores, porque

Dentro de mim?

Coisas?

Tristes, as coisas que me contavas, contas, e deixaste de contar, tristes, nós, eu e tu, tristes, dentro de uma roulote parecendo um bar flutuante a passear sobre uma velha ponte metálica, porque, tu, deixaste de coisas

Flores?

Não, não flores.

 

(Não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:40

17
Jul 13

foto de: A&M ART and Photos

 

O belo transforma-se em floresta e das palavras, das palavras crescem andorinhas com sorriso encarnado, um mar de rosas invade os alicerces da cidade... e eu, cambaleio entre sombras nocturnas que o medo absorve... e os candeeiros solitários, onde uma penumbra emerge sobre os bancos em madeira com ripas de inveja, olho-te, meu amor, e as tuas mãos tocam-me, e do meu rosto, da minha face decalcada numa chapa de estanho uma mísera garganta embrulha-se nas vozes desgovernadas, há palavras mortas, há flores de tempestade à porta da Igreja, e tu, meu amor, sempre, sempre que me encontras perguntas-me pela música, pelas palavras... e eu, minto-te, porque nada tenho para te oferecer... apenas miséria, apenas fome,

O belo, que tu transportas nos lábios, chega-me, confesso que nunca quis ser rico, ter fortuna, confesso-te que o meu sonho era ser artista de circo, desde criança que sonho com o circo, andar de terra em terra, de País em País, de Planeta em Planeta..., ir à luar, uma semana em Marte, três dias em Saturno..., e aos Sábados, as famosas matinés de areia molhada, deitavas-te e uma língua de fogo adormecia em plena praia imaginária, um molde sobrevivi às marés, e quando entrasse a noite em nós, preenchíamos o respectivo molde com beijos e sorrisos,

E três dias depois,

Nova cidade, montar toda a estrutura, o palco, as luzes, eu, o palhaço frustrado e diminuído, habitante do patamar inferior da Sociedade, porque existem intelectuais de fim-de-semana, os ditos inteligentes com cabeça de vidro, e das omoplatas vagueiam as sibilantes listras abelhas com coração de manteiga, o filho da puta do mendigo, acaba de cuspir no meu próprio pão, e de duas sardinhas, uma para mim, a a outra, reparto-a por ela e pelos dois filhos, nunca percebeu quem eram os respectivos pais..., abríamos a janela da roulote, os vizinhos do lado, um casal de trapezistas, faziam o amor sobre o arame que prendiam de uma ponta da dita até ao infinito... e havia cordas penduradas do piano de cauda que o músico de serviço transportava como se fosse o único objecto palpável, de valor, a única riqueza,

Nunca quis ser rico,

Os intelectuais de fim-de-semana, sentam-se aplaudidamente nas primeiras cadeiras do circo, eu, o pobre, o miserável, o inculto desta terra, rodopio sobre uma bicicleta de madeira que um velho há cerca de vinte e cinco anos me ofereceu num bar no Bairro Alto, vomitávamos as palavras e nem tempo tínhamos de as escrever, havia gajas com asas de cristal e gajos com cérebros envoltos em serrim, cheira intensamente a merda, são eles, os do fim-de-semana quando descem até às raízes invisíveis das omoplatas dos cortinados dos intelectuais ditos espertos, tão... tão espertos e mergulham na burrice e acordam na estupidez, tenho fome, preciso da tua boca e dos teus seios e das tuas coxas, preciso dos alicerces da cidade, de todos os vãos de escada onde se prostituem intelectualmente alguns gajos, poucos, quase nenhuns, preciso, precisava... que da noite viessem as vísceras infames dos livros sobre as mesas de cabeceira, se eu quiser, eu consigo, porque sou um miserável, empobrecido, intelectualmente pobre, dizem-no, parvalhões com serrim envolto no cérebro, asas sobre as omoplatas, cristais nos olhos, e rodas dentadas onde devia existir um cérebro, deixavam de pensar, e aplaudiam fugazmente as palhaçadas dos artistas conceituados, na roulote em frente, o amor

Fazem-no como se ainda estivessem sobre o arame de sémen que atravessa o espaço exíguo de um lado ao outro,

Foda-se, ouviam-se-lhe os sons menstruais das Primaveras amarfanhadas, e a carroça, ou quase carroça, balançava como um plátano sobre o rio da saudade, descíamos a encosta, sentávamos-nos sobre os joelhos do desejo,

Parvalhão, tens a mania...

Sobre os joelhos do desejo, fotografias a preto-e-branco na parede da rolete, um fino tique nos dedos com sabor a chocolate emergia das fundações da ponte que ligava a cidade nova à cidade velha, e nunca, nunca mais vi o velho nem a bicicleta de madeira, mas nos meus tempos livres, o mesmo número de sempre, só que agora sem a bicicleta, sem o velho, sem o Bairro Alto... apenas um sofá com as molas sofrendo de bicos de papagaio e espondilose, perdizes, perdizes masturbam-se com as cadeiras vazias do espectáculo, murchos, os candeeiros, e das lâmpadas, nem o esqueleto, e apenas finos orgasmos de poeira vagueiam sobre a plateia..., o belo, que tu transportas nos lábios, chega-me, confesso que nunca quis ser rico, ter fortuna, confesso-te que o meu sonho era ser artista de circo, desde criança que sonho com o circo, andar de terra em terra, de País em País, de Planeta em Planeta..., ir à luar, ir e não regressar.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:58

25
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Olhos, eu? Não os tenho... são apenas pedaços de xisto vagueando ente os socalcos do Douro e a imaginação invisível do sonho de voar..., uma velha metralhadora dispara sorrisos contra a parede de vento que separa os quintais, um pertence ao palhaço rico, e o outro, como nem podia ser de outra forma, é propriedade do palhaço pobre, quando criança queria ser palhaço, trapezista... ilusionista, qualquer coisa que rimasse com circo, qualquer coisa que me fizesse deslocar de terra em terra, e nunca, nunca ser pertença de nenhuma, não ter terra, não inventar rimas quando vinhas à janela, olhava-te e sorriamos como crianças entrelaçadas nas aranhas dos livros de banda-desenhada, imagina que eu fosse o circo, uma roulote, uma fera indomável, correndo e comendo carne até adormecer,

Imagina-me de bicicleta entre sombras de mangueira e gargalhadas de plátanos, imagina-me, não à janela do primeiro andar, mas... num rés-do-chão sobre rodas,

Imaginava-me prisioneiro a uma corda sem princípio nem fim, eu, um palhaço, um trapezista ou um malabarista engolindo fogo e vomitando pedaços de vidro, imaginava-me acorrentado aos abraços de alguém, que quando chegasse no final da noite,

Estou enjoada,

E eu confortava-a dizendo-lhe que provavelmente era do trapézio, ela olhava-me e sorria

E ente silêncios,

Do trapézio... Parvalhão que não percebe,

Nunca, quando chovia, nunca, quando montávamos a tenda e debaixo dela centenas de crianças, sorrindo, comendo pipocas, gelados, nunca, quando eu no palco travestido de cigana lançava-me às feras, elas diziam que eu

Do trapézio... Parvalhão que não percebe,

Disparam-se sorrisos contra a parede de vento, revoltam-se os lençóis de linho das nossas avós, e ardentemente, faço uma pequena sesta na minha infame roulote, e o melhor local para arquivar determinadas mensagens é sem qualquer dúvida a pasta “LIXO”, e enquanto me esticava no pouco espaço da roulote, olhava-me suspenso no tecto, e percebia que nunca seria eternamente criança, e que um dia a vida artística terminaria, deixaria de ser o trapezista, deixaria de ser o palhaço pobre, deixaria de ser o malabarista... e de to e sempre, deixaria de ser o menino do mar, e perguntar-me-ia

Do trapézio?... Parvalhão que não percebe,

E que não, nunca percebeu, e ainda hoje acredita que os olhos são apenas pedaços de xisto vagueando ente os socalcos do Douro e a imaginação invisível do sonho de voar...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:02

22
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Mergulho na cidade perpétua, ambígua e solitária, mergulho-me como se eu pertencesse à classe dos aços carbono, um ser estranho, diletante, companheiro e amante de melodias poéticas, das flores carnívoras e das árvores em desenhos herbívoros, poisava-me no varandim com quatro cadeira de vime, uma mesa também ela de vime, e na companhia de três invisíveis cadáveres de areia, sobressaia um sorriso defunto com lágrimas de incenso, ouvíamos tocar o telefone, propositadamente, não atendíamos, tínhamos medo da cidade perpétua, tínhamos medo às sombras das sombras que subtraiam à cidade as saborosas multiplicações e divisões,

o miúdo dos calções, multiplicava beijos e dividia abraços, conclusão

Empobreci, quase tudo perdi, porque ninguém, a não ser numa outra cidade, ninguém enriquece multiplicando beijos e dividindo abraços, ninguém engorda lendo poesia, e ninguém, ninguém...,

conclusão, pertenço à classe dos aços carbono, tenho cento e setenta e cinco centímetros e vivo numa casa com silêncios em pedaços de rés-do-chão, na rua dos milagres, sem número, cidade perpétua, as pessoas apelidam-me de barra de ferro, e quando entro no café, quando tudo parece adormecido, ouvem-se os murmúrios das cadeiras vazias

Ninguém na sala, um exemplar espaço exíguo, liminarmente penumbro, vazio, ninguém se levanta à minha passagem, ninguém se recorda da minha existência, ouvíamos os candeeiros a petróleo quebrarem os vidros de gelo das janelas com inclinação a norte, um edifício de quase trinta e cinco andares, tão alto, meu deus, alto, tira-nos a visibilidade, acorda a neblina, e nem com os faróis de nevoeiro conseguimos ver o mar,

vazias?

Porquê?

vazias, e tristes, e longas manhãs de doce claridade, e

Traziam-nos os pães de leite em réstias de desassossego, e como hoje, e como agora

(um terramoto sonolento entranha-se-me)

e como agora, ontem, o nevoeiro entrava-nos porta adentro, brincava no corredor e depois de algumas horas, sentíamos-lo deitado no nosso sofá, vestido de criança, uma criança amena, simpática como todas as crianças, como todos os apitos dos petroleiros quando se fazem à costa, ao longe, ouvíamos-lhes os cigarros de enrolar perdidamente perdidos nos corações dos marinheiros com âncoras de plátano bordados com fio doirado,

e

Traziam-nos...

(um terramoto sonolento entranha-se-me)

… pequenas borboletas de papel, e ouvíamos-lhes os sonoros ruídos das montanhas ensanguentadas pelos perfumes marinhos, coisas tristes com roupa de uma cidade perdida e ausente, farta em alturas, até que quase, não nós, mas eles, quase que chegavam com as pontas dos dedos da mão ao céu,

Ao céu?

pode lá ser isso possível,

Nem que a cidade mude de nome, e de perpétua passe a chamar-se “a cidade da neblina encarnada” onde vivem barcos de porcelana, onde vivem meninas de olhar castanho com cabelos negros, meninas, e meninos, o circo, esta cidade, a cidade dos circos, palhaços, malabaristas, a minha apaixonada trapezista, e claro

pode lá ser possível, amanhã chover, amanhã acordarem as sobrancelhas e depois de levantadas, e depois do duche, voltarem para a cama, embrulharem-se nas pálpebras quebradas e numa voz húmida

Até amanhã, meu querido,

e numa voz húmida, cansada, (um terramoto sonolento entranha-se-me), e claro, o imprescindível AGENTE, o nosso querido Alberto, aquele que nos sustenta, aqueles que ainda acredita nas nossas capacidades, aquele... parvalhão, e de um até amanhã, meu querido, depois, descem os grandes rios às íngremes ruas da cidade, e claro

A tua inconfundível voz

até amanhã, meu querido,

Sem perceberes que amanhã já não vivo nesta cidade,

“mergulho na cidade perpétua, ambígua e solitária, mergulho-me como se eu pertencesse à classe dos aços carbono, um ser estranho, diletante, companheiro e amante de melodias poéticas, das flores carnívoras e das árvores em desenhos herbívoros, poisava-me no varandim com quatro cadeira de vime, uma mesa também ela de vime, e na companhia de três invisíveis cadáveres de areia, sobressaia um sorriso defunto com lágrimas de incenso, ouvíamos tocar o telefone, propositadamente, não atendíamos, tínhamos medo da cidade perpétua, tínhamos medo às sombras das sombras que subtraiam à cidade as saborosas multiplicações e divisões”,

sem perceberes que amanhã já não sou eu.

(ficção não revisto, o sono em decomposição, o cansaço sobrepõe-se ao livro que ultimamente tem vivido sobre a mesa-de-cabeceira, e em vez de folhear as páginas com sabor a “Abraço” de José Luís Peixoto, certamente folhearei os tristes lençóis com pronuncia de insónia... - Pronuncia? Sim, claro, propositada, e não Prenúncia...)

 

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:08

17
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Descobríamos o sono na literatura das imagens, inventávamos silêncios, desenhávamos beijos nas montanhas do desejo, queríamos voar sobre o mar seara de argamassas em sofrimentos das flores em finas peles de areia, que o sonífero coração envenenado pela solidão, gritava como gargantas envidraçadas, como chuva emprestada, a salsa, a cebola, e os alhos..., acreditávamos que existia além da palavra amor, um corpo, braços, pernas, cabelos, olhos, olhos..., asas, montes e videiras, nuvens, casas, ruas e hospedarias, sentava-me na cadeira da barbearia

é para desfazer a barba,

Adormecia, sentia os relógios do vizinho em horários gemidos, nocturnas horas como pêssegos acabados de colher, subíamos e descíamos, abraçávamos-nos, como ervas, troncos, madeira prensada, apaixonados, nós,

eles diziam-nos para desistirmos,

Acorrentados, tubos de néon assobiavam como lanternas mágicas num espectáculo de circo, encharcados, eles, os artistas, o público, o silêncio, todos, e todas, riem-se porquê? que as imagens deixam o suor sobre a mesa-de-cabeceira, e havíamos de enganar o medo, como se engana a fome, o amor, e a paixão, e todos os corpos possíveis e impossíveis de desejar, e comiam-mos-nos como serpentes correndo em corredores que depois de cremadas, elas, voltavam à plateia, sentavam-se numa simples e singela cadeira de vime, no palco, dois pilares trapezistas vestidos como milhafres anónimos, caminhavam sobre um finíssimo fio de luz, e do outro lado, da tenda, as roulotes miseráveis que o homem de casaco branco deixou ficar como forma de pagamento, em demandada partida, desejou a todos

um santo e feliz natal,

E ainda hoje, o detesto, ao homem e ao natal, sinto-me frágil, como um caixote em madeira, nas minhas costas escrita a palavra “Frágil” e uma seta indicava o sentido único da posição correcta, não tínhamos o Kamasutra dos caixotes que transportavam as nossas bicuatas, e quando cá chegávamos, tudo, quase tudo “fodido”, os pratos, as jarras, e toda a porcaria comestível, tudo, ou quase tudo, em cacos, a vida

em cacos, a nossa vida,

Oh! dó... escroque vidente da literatura, da tua máquina de fazer imagens, eu vivia lá dentro, feliz, como eles, a preto-e-branco, cortinados encarnados, folhas de loiro suspensas sobre a padieira, e uma ténue luz, meramente indicativa, desejava-nos felizes cobertores de espuma, ouvíamos do fundo do corredor, os apitos de barcos como eu, frágeis, de corpo engomado

dói, dói tanto, pensar que se está morto,

Engomado, nós, comíamos-nos como loucos animais acorrentados na jaula do desassossego, ela, ele, e toda a porcaria, aqueles que mal dizem de mim, e da minha vida, todos, como dizia o cineasta “quero que eles se fodam”, claro, só aqueles que falam nas minhas costas, onde tenho inscrita a palavra frágil

eu, um caixote de madeira, pouca coisa, bicuatas, um velho fogão, meia dúzia de pratos, roupa, pouca, calções, sandálias de couro, um parvalhão de um boneco baptizado de chapelhudo, se fosse hoje chamar-lhe-ia de

Orelhudo,

pançudo,

Mudo, porque não ouvimos a sinfonia de cacos, e mesmo assim, em mim, o dito frágil, e uma seta que apontava para o céu, tinha seis anos, e já desconfiava de tudo o que existia acima de mim, abrimo-lo,

E tudo, tudo “fodido”, e tudo, tudo... partido, cacos, eles, elas, nós, a nossa vida, a nossa história, que história, João?

abrimo-lo, e sabes, querido João?

Diz-me,

abrimo-lo como que abre o peito de um corpo em putrefacção, e lá dentro, cacos, cacos e vidas em pequenas fotografias, que vivem, que dormem, dentro, fora, em ti, de ti

Até às tuas coxas e comiam-mos como pássaros loucos nos corredores da morte,

diz-me tu, se amanhã estarás dento de mim, como ainda permanecem todos estes cacos, paquetes, barcos, areia branca, pássaros, gaivotas e coqueiros, ai... ai o hóquei nos finais de tarde, deixei de o ter,

“abrimo-lo, e sabes, querido João?

Diz-me”

perdemos-nos nos semáforos de uma avenida, chamavam-lhe baía, eu, não lhe chamava nada, e tu, e tu, querido João, imaginavas-me, como os cacos, dentro de um caixote,

Frágil, com uma seta apontando o céu.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:55

30
Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

Não tenham pressa da minha presença, talvez um dia, talvez, regresse, talvez, um dia, decida levantar voo e andar, e andar, até encontrar o planalto das rochas encarnadas, não, pressa não, porque um dia, eu, regressarei dos finos cortinados de espuma,

uma camisa furtada do estendal da vizinha Amélia, as calças, são do cigano Mário Zé, especialista em auto-rádios e carros de pequena cilindrada, e eu, desiludida, contigo, comigo, connosco, e os velhos sapatos pertenciam ao primo Justino,

A cabeça balança entre as mãos frígidas dos lilases argumentos sem palavras de amor, palavras de dor, ou

não às palavras,

Havia dentro de nós circos, roulotes e malabaristas, o meu pai era trapezista e a minha mãe, entre os intervalos de bailarina esfomeada, tinha um pequeno número de ilusionismo, e

nunca me esqueci do sucesso número dela, quando me colocava dentro de uma caixa de cartão, batia as palmas, e eu

Desapareceste da minha vida naquela fatídica manhã de Sábado junto ao Tejo acabado de assassinar-se, os motivos, ainda hoje desconhecidos, morte incógnita, mas presente entre nós, e tu

Eu desaparecia, ela abria cuidadosamente a caixa de cartão, remexia, remexia, virava de um lado, mostrava o outro, e o rapaz

Desapareceu de casa de seus pais, digo, desapareceu da roulote onde vivia com os seus pais um rapaz do sexo masculino, cerca de seis anos de idade, cabelo castanho e olhos verdes, vestia calções e uma camisola antiquada, calçava umas velhas sandálias de couro, e levava na mão esquerda, sim, penso que sim, espere, não sei, quase que tenho a certeza, e levava não mão esquerda um cavalo

cavalo?

Perdão, um caderno de capa ondulada e escuro, sem imagens, apenas com palavras semeadas numa tarde de vento quando os bancos de jardim ainda tinham ripas de madeira, não podres, ripas de madeira a sério, e já agora pergunto-me – Onde raio fui eu buscar o cavalo? - há cada coisa, em cada hora, a cada momento, numa rua deserta da cidade, uma feira de velharias, uma boina de um soldado da EX-URSS, compro, não compro, pensei

deve ter piolhos,

Não comprei, depois, mostraram-me os cachimbos, compro, não compro, não comprei

lembrei-me da quantidade de saliva – Do tipo... um milímetro por segundo! - desisti

Pensei,

Vou comprar um livro,

que livro – Que tipo de livro deseja? - respondi, talvez de AL Berto

Ela, Como? Quem?

pensei, que raio, nem ela conhece o AL Berto...

Desisto, desisto, e desisti, hoje sou feliz, finalmente apareci dentro de uma das caixas de cartão que a minha mãe fez um dia, num lindo espectáculo, desaparecer, cresci algures, e o meu pai hoje não trapezista, reformou-se e vive desafogadamente com uma linda reforma da Caixa, não, não aquela de cartão onde a minha mãe me fez desaparecer, é a outra caixa, e a minha mãe, hoje, abre a janela da roulote e conta o número de comboios machos que passam em frente à árvore dos telhados bolorentos, porque os comboios fêmeas, ela, deixa-as seguir, sossegadamente, como se fossem o vento numa noite de cavalos...

cavalos?

Quais cavalos, menino?

Uma tarde, numa linda tarde, estava eu com uma das mãos prisioneira de uma das barras de ferro do portão de entrada, o quintal era enorme, tinha mangueiras, e ao fundo, nas traseiras da casa, havia um galinheiro, tínhamos galinhas, patos e pombas, às vezes, passeava-se por lá um velho triciclo, outras, escondia-se debaixo da sombra, e, e nessa linda tarde, repentinamente e no intervalo entre o depois do lanche e a chegada do meu avô, vi passar em frente a mim...

Como não sabe quem foi o poeta AL Berto?

Uma menina vestida de branco, montando um lindíssimo cavalo branco,

Tem ao menos alguma coisa do Pacheco?

ele, o cavalo olhou-me, e desde então, pertence-me, e anda dentro de mim até que um dia

Qual Pacheco? O Luiz, minha senhora, o Luiz,

que não, não sabe dessas coisas, ora agora..., um cavalo

Qual cavalo, menino?

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:13

11
Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

Disseram-me se subisse a montanha eu ganhava o sono eterno, o morcego de prata que alimenta as noites de luar e estrelas em queda, anjos de gravata às gargalhadas pela plateia dos sonhos, onde estão sentados

(meninas, meninos, senhoras, homens e donzelas de extrema beleza, também tenho de reconhecer que perdi a paciência quando me dizem – Sistema fora de serviço, obrigado, seremos breves – e as meninas e os meninos e as senhoras e os homens e as donzelas prateadas, sentados, sentadas, numa cadeira de praia à espera que o palco da vida regresse das planícies de madeira coloridas com carpetes de veludo, vermelho, verde e cinzento, como os dias e as noites, depois de partirem as embarcações com velas bordadas por tais donzelas, ou são belas, ou... velas de estearina no altar da pureza e da digna virgindade do palhaço com três pernas e quatro braços, em pura madeira virgem, como a lã das camisolas com formato de cubo sem portas, ou janelas, salgadeira que hoje não se utiliza, que hoje nem para guardar o farinha de milho serve, a dita caixa de madeira, depois tínhamos um forno no quintal onde cozíamos o saboroso pão de milho, e hoje, todos e todas, morreram como morreram as amêndoas em flor)

Os palhaços, onde estão sentadas enxadas com unhas de gel e a depilação a laser, mais à frente, o engraçado do engaço ou ancinho ou pente para pentear as ervas ornamentais dos segredos depois de ultrapassarmos o muro, um buraco, tantos buracos sem gente, vazios, gira a cabeça, rodopia na cadeira, e enterra os cornos no estrume que alimenta as plantinhas e os anzóis comestíveis das galinhas de perdão perplexo, sinto frio quando converso com as janelas do insignificante desumidificador, e mesmo assim ainda há quem me queria convencer que tudo à minha volta não é verdadeiro, dizem-me – É apenas um visão – finjo que acredito, digo que sim, com o fiz quando queriam que eu subisse para cima do palco e metesse a minha mão dentro da boca de um tigre – Era o metias – não o posso fazer e perguntam-me – Porquê? - por nada... apenas porque sou alérgico ao pêlo do tigre, nada mais, e apenas isso,

(em pequenos quadrados cerâmicos o meu corpo alicerça-se e cresce em direcção à montanha)

“Disseram-me se subisse a montanha eu ganhava o sono eterno, o morcego de prata que alimenta as noites de luar e estrelas em queda, anjos de gravata às gargalhadas pela plateia dos sonhos, onde estão sentados”

(e depois voou sem saber que havia nevoeiro e pouca ou nenhuma visibilidade, desapareceu dos radares, e hoje perguntamos o que terá acontecido ao morcego prateado, que alimentava as noites e os dias, as horas e os minutos, e apenas do interior do clarão da Cinderela apaixonada pelo ilustre visitante da Ilha dos rochedos, nunca mais, nem a enxada com as suas unhas de gel, nem o engaço ou ancinho ou pente para pentear as ervas ornamentais dos segredos depois de ultrapassarmos o muro, um buraco, tantos buracos sem gente, vazios, gira a cabeça, rodopia na cadeira, e enterra os cornos no estrume que alimenta as plantinhas e os anzóis comestíveis das galinhas de perdão perplexo, sinto frio quando converso com as janelas do insignificante desumidificador, e mesmo assim ainda há quem me queria convencer que tudo à minha volta não é verdadeiro, dizem-me – É apenas um visão – finjo que acredito, foram vistos e avistados por estas paragens)

O burro puxa ordeiramente a carroça da miséria, elas, a carroça e a miséria, correm apressadamente quando são perseguidas pelas autoridades fiscalizadoras, a carroça não cumpre as normas Europeias de segurança Rodoviária e a Miséria é inconstitucional, ou não

(despeço-me com amizade, fraternidade e sinceridade, de quem ainda acredita na paciência humana, mas às vezes, como o leito dos rios, é ultrapassado o limite, e a água vai onde não deveria ir...)

E a paciência escorre calçada abaixo, ouvem-se os gritos dos vidros acabados de partir..., e mesmo assim, o grandioso espectáculo não é interrompido, os palhaços sobre uma bicicleta de arame voam sobre as cabeças ocas das sandália que também elas, como as unhas de gel, saltitam entre gargalhadas e sorrisos, o apresentador queixa-se-me que não me compreende, que não percebe o que escrevo, que não escrevo, queixa-se-me como se eu me importasse com a sua opinião, sua, dele, o apresentador do maior espectáculo do Mundo – O Circo? - nem mais, meu filho, do Circo...,

(vou-me embora)

E quando acordo, sinto um casal de pulgas amestradas em cima do meu ombro; foi a noite mais feliz da minha curta vida.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:11

09
Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

O corpo do texto mergulha na espuma recheada com “Liberation serif”, anunciam que brevemente vai começar a Prova Oral (Antena 3) e sinto-me tão absorvido no diário que brevemente terminará com o regresso do jantar, que desconheço se é em directo ou em diferido, ou qual é o tema, oiço que a Troika vai-nos dar mais sete anos, e não percebi muito bem, mas que de certeza é para nos enrabar a todos, ou só a alguns,

(eu enrabo, tu enrabas, nós todos enrabados e eles enrabam-nos como pequenos grãos de areia sobre a praia das marés embriagadas, televisão, desisto, não vejo e não oiço, vou desligar-me das coisas perfeitas, e fartei-me de tantos comentadores, de política, futebol e afins limitada)

Risos em plena sala, o histerismo das flores sem cabeça (afinal já passou, foi-se e finou-se), página um de um, padrão, Português (Portugal) e clica-se sobre o botão perdido no bolso da camisa, um som melancólico perde-se entre os tijolos das cabeças inseridas nas ranhuras da pele enjoativa com saliências de pólen que as avenidas das cidade esconde, e procuro-me nas sandálias que a menina de chocolate calça, e descalça-se, e descalça corre pela praia, procura-me e não me encontra, perdidos, ao fundo da fotografia, uma rua sem nome, sem idade, eu, nada, apenas converso com os números de polícia, e descubro de no número treze, todos os homens vestiam-se de mulher, mais à frente, no número vinte e cinco, terceiro esquerdo, quatro mulheres trabalhavam em sociedade anónima, SA, cinquenta e cinco escadas, três vezes ao dia, quatro drageias com mel e água destilada...

(INSER – PAD)

A menina dos rebuçados – Coitado, passou-se da cabeça! - injectáveis, e das nádegas dele saem silêncios de luz, durante a noite, ouvem-se nada, nem água, nem telefone, nem carro, nem trovoada, e a menina, diz-se crucificada na parede de betão, vêem-se os ferros doirados com alguma ferrugem junto aos dentes de marfim que os barcos de papel deixam cair, um aqui, outro ali, outro... meninas SA, número vinte e cinco, cinquenta e cinco degraus, chega, fartei-me, cansei-me, e vou voar,

(dois vidros partidos e três telhas desgovernadas contra o automóvel do tio Joaquim, trezentos cavalos, barbatanas de néon, faróis de liga leve, oito metros de adereços sobre a esplanada junto ao rio dos segredos, estou preso na despensa, oiço o pulsar da cozinha, na parede, um calendário, tem uma menina, não tem roupa, a vizinha acusa-me de pornografia, eu discordo, um calendário serve para ver e ouvir os dias, as semanas, os meses, as luas, e claro, as coxas da Gaivota..., dois, ou quatro, e três telhas desgovernadas – Onde puseste as clarabóias da menina Gaivota? - não sei, depois de as ter na mão, voaram, sumiram-se, resumindo, todos)

Enrabados por eles,

(três por cinco)

Quando cinco contos ainda valiam cinco contos, quando o cigano – Primeiro o dinheiro – e eu, pensava, “fodi-me, literalmente”, e não, ciganos honestos,

(três por cinco)

A menina dos rebuçados – Coitado, passou-se da cabeça! - injectáveis, e das nádegas dele saem silêncios de luz, durante a noite, ouvem-se nada, nem água, nem telefone, nem carro, nem trovoada, e a menina, diz-se crucificada na parede de betão...

(INSER – PAD)

Desistes de mim? Eu, eufórico, diabólico, trave de madeira apodrecida, o caruncho mergulha-me nas mãos, oiço os orifícios e cavernas, há minhocas vestidas de Cinderela, trapezistas, malabaristas, e palhaços de gesso com pernas de milho, o circo chegou à cidade do Cio, e o rio, completamente desprovido da roupa tradicional, nu, como as aranhas vagarosas das tardes de literatura, havia barracas de Farturas, Pipocas – O Guru? - e Churros e Amendoins sem casca, eufórico, trave de madeira em suspenso porque o chão derreteu e desapareceu, O BURACO, O DERRADEIRO BURACO, enfim sós, eu e tu, nós, que às vezes

(INSER – PAD)

Que – Vai um pacotinho de Pipocas? - que os taludes da insónia deslizam sobre os lençóis da tristeza, hoje, não sei se voltava a levantar-me da cadeira, começar a caminhar, ir até ao cais, e ver ao longe uma ponte deslizante, como manteiga em fatias de pão, que – Pipocas? - que tudo começou quando ouvi pela primeira vez que havia barbatanas comentadores e lesmas de açorda, e inventam-nos palavras como se as ardósias das Primavera fossem jardins cobertos, uma enorme tenda, um trapézio e palhaços, há Farturas & Churros & Pipocas – Posso experimentar? - claro que não, e o – Lucro? - embrulhadas em folhas envelhecidas de prostitutas amarelas das antigas telefónicas páginas – Parvalhão! - é mais barato, higiénico, e lembra-me a infância, de feira em feira, de cidade em cidade, de mar em mar, de cachimbo em cachimbo, regressei ontem, e foi como se vivesse aqui desde sempre, nasci aqui, e fui concebido ali, mesmo ao lado, lá para as bandas da Vila Alice, - Chique ah – rés do chão, Luanda à esquerda,

(queria falar-vos dos meus passeios de lambreta, eu, o meu pai e a minha mãe, mas o tempo de chuva, inibe-me, e lembra-me as noites junto ao Tejo embrulhado em saliva de charros e eu à frente, em pé, e se me pedisses em casamento, responder-te-ia que... prendia as duas mãozinhas no volante e inventava curvas na Baía de Luanda)

Luanda, a mesma Luanda à esquerda da Vila Alice.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:43

01
Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

No quarto escuro, embriagados os relógios de pulso, encosto-me à parede circular, da velha penumbra fechadura que o empregado da ourivesaria deixou por esquecimento sobre o mármore do lava-loiças que vive na cozinha, desgraçado dele, finge-se de morto como as luzes da tristeza se fingem de árvores acesas nos jardins juntos aos Oceanos marinheiros de areia, e, e olho-me nos gonzos descomunais que os vidros de estanho provocam na face ocultas dos meninos traquinas, e olho-me, penteio-me, infeliz como os rebuçados de açúcar, nas geias íngremes até chegarmos à ribeira, olhava para cima do teu ombro escuro, e via as estrelas dançando nos lábios da tenda de circo que esta semana atracou amarras aqui na aldeia dos sonhos, as crianças ainda acreditam em palhaços e malabaristas, eu, acredito também, nas esquinas das paredes, que fazem do quarto escuro o sítio mais seguro da casa assombrada, asas, barcos, petroleiros e cacilheiros, mulheres, e crianças, meninas e meninos,

Os palhaços!

Tantos, tantas, como múmias desgovernadas das mãos enlouquecidas dos ovos de chocolate, eles e elas, deitados, deitadas, as moscas e os filhos das moscas, e claro, as sempre afamadas formigas trapezistas, a recibo verde, em cada rua destruída pelos ventos de nortada, havia destroços de ossos nas traseiras dos prédios sem moradores, e havia moradores destruídos nas traseiras dos bancos de jardim, e havia jardins destruídos, sem bancos e sem plátanos, sem flores e sem corações de manteiga,

Os trapezistas voadores em arames de xisto,

(e será que elas voam?)

Adorava que sim, que se erguessem, e desaparecessem entre a copa doiradas das árvores de papel celofane, E os palhaços? Como os trapezistas...! De roulote em roulote, palmilhando trilhos e veredas, e asas de cetim, E para quê?

Os trapezistas voadores em arames de xisto,

(e será que elas voam?)

Dizem que sim... que voam, que têm asas, corações de vidro e lábios de porcelana, e elas, as gaivotas do desejo, claro que voam, como pedaços de papel, como pedras descendo aceleradamente a encosta montanha abaixo, e abaixo tudo,

Abaixo estes palhaços de barros,

Abaixo,

Abaixo estes trapezistas de madeira,

Abaixo,

Abaixo quem ergueu as palavras que servem para escrever poemas, que falam de amor, que falam de paixões, que falam de circos, ambulantes, como a liberdade dos homens..., abaixo todas as cordas de nylon que aprisionam os barcos aos cais moribundos, latifundiários, cais ordinários com palavras de “NÃO VAMOS REGRESSAR NUNCA”, abaixo quem semeou os campos de trigos do pavimento térreo do meu quarto, escuro, sem janelas, sem portas, apenas com um tecto de vidro, abaixo os cinzeiros de vidro, os cigarros que se prostituem, de boca em boca, de mão em mão, abaixo todos os isqueiros de plástico, com cores berrantes, com desenhos estranhos, e tão deselegantes, tão magros, tão...delinquentes

(e será que elas voam?)

E que acreditam nas algas com braços de prata, e claro que sim, elas, abaixo os candeeiros que rompem a noite e destroem as madrugadas de suor, as peles escuras com sinais sonoros, abaixo os plátanos sem pássaros, e que destroem as mãos amarrotadas dos livros sem titulo, sem história, sem... e é nessas alturas que entra em nós o silêncio, amarfanha-se junto às coxas dos distantes beijos que dos lábios de areia mergulham nas alicerçadas marés de pedra, há virgens com flúor, e tristes mesas de café sentadas nas cadeiras plastificadas dos livros escolares que a mochila da infância carregava, como pedras, pesadíssimas as sombras do teu olhar,

(não sei se amo, se desejo, não se me sinta vivo, ou apenas como um esqueleto de arame vagueando pelas ruas desenhadas por um miúdo acabado de regressar de África, não sei, o que deva fazer, se correr ou esconder-me, abraçado a ti... no quarto escuro...)

Idiota!

Covarde...



Diziam-me que as tristes viagens

eram desencontros que as palavras construíam nas linhas curvas do papel

hoje não o dizem

ou o escrevem como se eu deixasse de existir

procuro-te e dizem-me que morreste ou deixaste de habitar a cidade dos peixes,

 

Não há cortinados com o teu nome

e todas as radiografias de ti foram queimadas como ossos vadios

recheados com o reumático

não há janelas como os teu lábios

quando a tua boca se transformava em areia de Primavera,

 

E dos teus seios havia barcos em fila para atracarem no porto das alegrias

havia luzes coloridas

e flores com palavras escritas em cada pétala perfumada

e tu parecias um peixe com olhos castanhos à espera de semearem a noite

nos lençóis de linho da cama do desejo,

 

Tinhas medo dos meus abraços?

Porque em casa âncora de luz um sorriso adormecia nas estrelas de ontem

e diziam-me que as viagens

eram tristes

e que não sabiam mergulhar nas miseras palmeiras do largo abandonado...

 

 

Covarde, eu?

(não sei se amo, se desejo, não se me sinta vivo, ou apenas como um esqueleto de arame vagueando pelas ruas desenhadas por um miúdo acabado de regressar de África, não sei, o que deva fazer, se correr ou esconder-me, abraçado a ti... no quarto escuro..., sem janela, nós inventamos uma com vista para o mar das traseiras, esperamos que nos desenhem uma porta numa das quatro paredes de gesso, provavelmente não será difícil, difícil mesmo talvez seja desenhá-la, perfeita, em esquadria, e com as medidas standard, oitenta centímetros de largura por duzentos e dez centímetros de altura, e depois, de mão dada, podemos fugir juntos para o infinito, onde dizem os matemáticos, se encontram as rectas paralelas),

Gostavas de me dar a mão e abraçares-te a duas rectas paralelas? Mesmo que sejam duas rectas pobres, traçadas a fiz, ou a carvão, nada de sofisticado, nada de carris em aço, nada, apenas riscos e beijos, apenas imagens dos cortinados de ontem,

Covarde, eu?

Idiota!

Covarde...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:52

27
Fev 13

Uma rua fina e escura levar-me-á até ti, acredito eu, depois a manhã clareá e iluminar-se-á de gotinhas de orvalho, bolas de fogo e réstias de plantas carnívoras como antes de chegarem as palavras do livro destinado ao empobrecimento da floresta, por cada árvore uma andorinha, uma andorinha dorme ao som dos enclaves solstícios que da parede em gesso da sala de jantar sorriem, como sorriam, antes de partires, as poucas lâmpadas que sobraram do naufrágio nosso querido corredor de arreia, foi-se a maré sabática como os perfumes das outras rosas, as falsas, de papel, e depois

Embalsamadas e exportadas para dentro do teu peito,

É isto o amor cansado nas tardes de Inverno, de uma lareira vêem-se os olhos teus comestíveis como os grãos de pólen dos doces lábios da poesia, e se eu te pedisse

Escrevias-me um poema?

Não, claro que não, nunca, nunca escrevi poemas, nem palavras, nada, rigorosamente

Nada,

Muitas

Nada debaixo da tua saia de chita com borboletas azuis,

Muitas outras e algumas são mulheres, entre pilares de sémen e vigas encastradas nos púbis dilacerados das noites vagabundas, descobri, e talvez já o soubesse, que a nossa lareira apaixonou-se pelas chamas incandescentes dos pedaços de oliveira que iluminam as nossas, e sabíamos

Nada,

Que iluminam as nossas mãos quando os pedestais dos arbustos complexos e outras vezes, maldosos nos pensamentos, uma rua fina e escura, levar-me-á até às encostas latejantes do xisto metafisico, só, completamente só, como as tuas pernas antes de eu as acariciar invisivelmente dentro das sombras do néon com sabor a morango, e lá fora

Gemes,

Gritas como os fios de arame que suspendem a velha videira do extinto orgasmo literário,

Sou assim, dizes-me enquanto te dispo no silêncio dos poemas de AL Berto, e detesta-lo, como eu odeio os pinheiros ranhosos dos montes vadios, como as pedras, o sol que mergulhará nos seixos onde poisam os teus seios de espuma, e acredita

Nada,

Me excita como as luzes submersas de uma tenda de circo,

Nada,

Como procurar-te nos cubos de gelo estacionados ao fundo da rua fina e escura, como os lençóis com que te cobres nos infinitos sótãos de chuva, odeio-te escrevias-me nos braços também eles finos, e tal como a rua, escuros, sombrios, distantes, adormecidos, mortos, malvados ruídos das ranhuras que as livrarias provocam nas ocas cabeças de gesso onde está suspenso um crucifixo de madeira banhado a oiro, e sorris-me pela vigésima vez, como a primeira, fotocópias e fotocópias e fotocópias, eu

Tento parar os ruidosos sussurros das Madames em Flor, e não admira que o autoclismo tenha deixado de funcionar, o autocarro engasgou-se num buraco rendado no pavimento atropelado pelas rimas dos versos quando lá dentro, da casa voadora, uma laranja sobrevoa as teias de aranha dos aclamados uivos que os vidros e os cortinados desenham na cidade do lixo, e dançavas embrulhada nos braços de aço do comboio enferrujado entre sílabas clandestinas, de rio em rio, pela primeira vez sorrias-me dançando sobre nós uma penumbra acetinada de papeis diversificados, nas cores, nos sexos, nas bocas antes de entrarem nelas as grandessíssimas aldrabices do cigano com estabelecimento comercial num dos arruamentos transversais da rua fina e escura,

E nada,

Muitas

Nada debaixo da tua saia de chita com borboletas azuis, e ouvíamos o mar nas distantes laranjeiras dos montes solidificados pela bruma, pela espuma, pela

Nada em ti que me sirva, a não ser, os malditos telhados com estrelas cinzentas que os cigarros multiplicavam na ardósia pendurada na mangueira abandonada, lá fora, no velho quintal da casa em ruínas, só, só como eu

Como tu,

Sentados sobre esqueletos de livros, e saliva dissipada pelas tristes palavras de ontem, só como eu, como tu, sem sabermos como explicar aos transeuntes da rua fina e escura, que o amor, entre nós, sempre

Muitas,

Existiu como existem as noites de chuva, de frio, neve, e calor chamado prazer, ou

Húmidas estátuas de arame,

Na tua cama acorrentada aos grandes blocos de granito da montanha dos sonhos...

Pela tua fina mão em anéis de prata.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:19

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