Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

12
Mai 12

vi o vento partir

da esplanada na tarde de Agosto

fingi sorrir

sorrir sem gosto,

 

vi barcos atracados nos muros da insónia

cabeças sem estrelas

línguas afiadas às paredes do inferno,

 

vi crianças sem pão

sem pátria sem memória

vi o vento partir,

ouvi o silêncio de uma nação

com história

a resistir,

 

a mentir,

 

(Vi o vento partir

da esplanada na tarde de Agosto

fingi sorrir

sorrir sem gosto),

 

a fugir

o povo mastigado

cansado

o povo a fingir

sossegado

a mentir

vi soldados

de punho cerrado

antes de acordar a alvorada

gargantas cortadas em pedaços

sem braços

a madrugada.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:20

11
Abr 12

O que dizer

O que fazer

 

(quando a noite deixa de ser noite)

 

Morrer

Quer dizer

Não saber

Viver

 

O que dizer

O que fazer

 

Enquanto o país está a arder…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:21

09
Abr 12

Meu querido irmão,

Por aqui tudo igual como no jornal,

As notícias de sempre DESEMPREGO CRISE CRISE DESEMPREGO DESEMPREGO uma loucura meu querido João,

FOME DESEMPREGO CRISE FOME e que a senhora não sei das quantas retirou as rugas como se essa merda me interessasse para alguma coisa, uma loucura meu querido João, e o dinheiro mal dá para o pão quanto mais para esconder a merda das rugas,

Olha Meu irmão Comprei um burrinho em Miranda do Douro, é giro e engraçadinho, e sempre se poupa alguns aéreos em combustível, e depois de inaugurado o IC5 é um instantinho e zás, estamos em Espanha, Vais gostar de o ver e logo que possível envio-te a foto e até podes colocar no mural do teu Facebook O BURRINHO DO MEU MANO, vai ser giro,

As galinhas morreram devido aos elevados custo de produção e trocando por miúdos Foram-se Morreram de fome, quanto à coelha está outra vez prenha, impressionante, não faz outra coisa…

De tarde fui visitar o nosso primo Augusto e na revista do jornal um cromo perguntava, Não meu querido João, Essa do beijo se está grávida já tem barbas, Que não aguentava fazer amor tantas vezes por dia, não acreditas?, mas infelizmente é verdade, e tem três hipóteses VIAGRA OFERECER UM VIBRADOR À DITA PELO NATAL ou TELEFONAR E PEDIR AJUDA AOS AMIGOS, Não é para isso que servem os amigos Meu querido João?

Meu querido João Por aqui tudo igual como no jornal, e cada vez pior…

Nem me interessam as rugas da senhora nem

 

“lá fora mário

longe da memória lisboa ressona esquecendo

quem perdeu o barco das duas ou se aquele que caminha

será atropelado ao amanhecer ou se o soldado

que falhou o degrau do eléctrico para a ajuda fode

ou ajuda ou não ajuda e se lisboa num vão de escadas

é isto

tão triste mário sobre o tejo um apito” (AL Berto)

O que me interessa mesmo Meu querido João é encontrar trabalho.

Abraço,

Francisco

 

(texto de ficção não revisto)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:51

30
Mar 12

Pego na esferográfica da noite, vem a paixão até mim embrulhada nos pedacinhos de rosa que saltitam nos lábios da luz, olho-te, olho-te abraçada ao pijama com bolinhas encarnadas, deitas os cabelos sobre o silêncio e sonhas,

- Sonharás comigo?,

Pergunto-me,

Pergunto-me se sonharás comigo, com as minhas mãos, com o meu sorriso, com os papéis poisados na minha secretária

- Que desarrumação Francisco,

Miúda parva, poisados na minha secretária os meus lábios, Sonharás com os meus lábios?, ao pequeno-almoço,

Finíssimos cristais de silício com torradas, sumo de laranja e leite, do jornal as parvoíces de sempre, a crise, a crise, a puta que os pariu,

Oiço a tua voz em cansaços sibilados, respiras docemente como uma abelha em busca do pólen, tens nos olhos cerrados as pálpebras da insónia, e se eu comer as torradas, e se eu comer os cristais de silício e deitar fora o leite,

Pergunto-me,

- Quando pego na tua mão se sonharás comigo,

(Esqueço-me do sumo de laranja)

Uma equação diferencial escreve-se na ardósia da tarde, os pórticos galgam as saliências do sonho, e todas as janelas da tua cidade de braços entrelaçados nos ramos de árvores embriagadas pelos pássaros de primavera, aqui não chove

- Miúda parva,

Aqui sol misturado com integrais triplos, e pergunto-me, e pergunto-me se conseguirás sonhar comigo na desarrumação da minha secretária, junto às bolinhas encarnadas do teu pijama,

- Que desarrumação Francisco,

(e não interessa a um desempregado se a TVI escreveu no canto esquerdo do ecrã PAÇOS em vez de PASSOS, o que nos interessa é trabalho; Parvalhões)

Todos os pássaros,

Parvalhões todos os pássaros que deixaram as árvores embriagadas, Parvalhões todos os dias sem torradas, parvalhões todos os dias sem cristais de silício, parvalhões todos os dias sem leite e sumo de laranja,

- Se todos os erros deste país fossem a troca de PASSOS por PAÇOS…

Pego na esferográfica da noite, vem a paixão até mim embrulhada nos pedacinhos de rosa que saltitam nos lábios da luz, olho-te, olho-te abraçada ao pijama com bolinhas encarnadas, do jornal as parvoíces de sempre, a crise, a crise, olhas a necrologia e procuras o meu rosto, vês os meus lábios embainhados numa cruz imaginária, os meus lábios perguntam-te se sonharás comigo

- Fodeste-me cinquenta cêntimos,

Comigo dentro da boca que se alimenta das sombras de Cais de Sodré, o  rio, o rio pergunta-te,

- Sonharás com ele?,

Parvalhões todos os pijamas com bolinhas encarnadas, Parvalhões todos os rios que correm para o mar, Parvalhões todos os barcos que sonham e têm asas, e voam sobre os teus cabelos,

- PASSOS por PAÇOS…

Quando finíssimos cristais de silício com torradas, sumo de laranja e leite, do jornal as parvoíces de sempre, a crise, a crise, a puta que os pariu.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:23

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