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Cachimbo de Água

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O barco que fode o rio

Francisco Luís Fontinha 16 Abr 16

Acordou a manhã, o sifilítico cansaço da espera regressa após vinte e quatro horas de ausência, termina o tempo, ao revés do dia traz a noite os conflitos do dia, a paixão amargurada quando o papagaio de papel sobe e perde-se no Céu, o orvalho dentro de mim em pequenos salpicos de sangue, tenho pena do Ricardo, tenho pena da Madalena, e o sangue

Hoje vi-te pela primeira vez, tinhas no olhar o mel da madrugada, tinhas nas olheiras o rio da paixão, quando a noite geométrica de um cardo dorme, senta-se sobre o tapete do silêncio, a noite habitada pelos fios de nylon das pirâmides de vidro, tinhas fome, escondias-te num verso envenenado pelo cio, engatava-te como se engatam gajos em Belém, não faz mal, o tempo há-de dar-me razão, um dia, quando partires para as borboletas em flor, não havendo outro, vou eu, velho, submerso em ossos perfumados das sílabas de papel, não faz mal, não importa, e o sangue,

E o sangue rebelde nas veias de um covarde, o doente malcriado, sonâmbulo e indisponível das auroras assustadas, Ricardo e Madalena

Amanhã, meus queridos, amanhã,

E Ricardo e Madalena enjoados pelas umbreiras da loucura, a casa parecia uma espelunca recheada de rochedos, o sono, o lixo espalhado por cada milímetro quadrado, em esquadria, ele mentia

Está tudo bem meu amor, está tudo bem,

E ele mentia, não estava nada tudo bem, não havia locomotivas com sabor a Primavera, e ele, lá longe, entre gemidos,

Madalenaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Lindíssima,

O era, confesso que nunca mais abri a porta de entrada, a sala sempre escura, negra, vazia, e o escuro sentado no sofá da inocência,

Dormes?

Acordou a manhã, a alegria do nascer do dia, o rosto inclinado do homem do terceiro esquerdo, os gemidos de Madanela, UIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII, ao fundo o rio, o Tejo entre os parêntesis da meninice dela, os lábios, o engate junto ao copo de uísque, já está, esfregava ele as mãos,

Tenho medo, confesso que nunca tive jeito para a escrita, não gosto de escrever, ler, gosto é de brincar num jardim junto ao rio,

Dormes?

Claro, acordou o dia, madrugada provisória numa greve de fome, tenho fome, abraço-te e beijo-te, levo-te para o quarto, encostas a cabeça ao meu peito e choras, recordas as manhãs numa qualquer rua da cidade entre bebidas baratas e quartos de esconderijo, claro que este corpo pertence-te, sempre te pertenceu, mas não gosto dele, mas não tenho braços para arcar com tanta dignidade, sobre a cama, ele parecia uma árvore em poiso, sobre a cidade, o rio, o barco que fode o rio, e o rio que mata o amor da minha vida?

Lindíssima.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Domingo, 17 de Abril de 2016

Túbia

Francisco Luís Fontinha 16 Abr 16

túbia dos lábios em cromados beijos

a fúria da tempestade alimentando o desejo

que se perde num olhar

não vejo o silêncio

não sinto o mar,

túbia do cansaço alicerçado à escuridão

um simples gesto

um simples poema

túbia do deserto quando a noite morta

invade a solidão dos musseques floridos

túbia da morte em circunferências loucas

finge-se a sorte

das planícies do medo

arrebata-se a sombra sobre os cadáveres do degredo

entre rochedos

e penedos

que apenas a ondulação da insónia sabe abraçar,

túbia meu do alimento proibido

que travestido de Inverno viaja de cidade em cidade

túbia sentido as pálpebras quebradas

do triste sino

das lamentáveis madrugadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 16 de Abril de 2016

Amores de papel com lábios de algodão

Francisco Luís Fontinha 12 Abr 16

Deixei de contemplar o teu perfume.

Ausento-me desta cidade de espingardas envenenadas

Que assombram o meu sorriso,

Procuro-te, procuro-te na ânsia de encontrar a tua sombra

Nos buracos da noite, procuro-te sem saber se existes nesta cidade de espingardas envenenadas, mesmo assim, eu não me canso de te procurar,

Desenho-te. Escrevo-te sabendo que não consegues ler as minhas palavras.

Amanhã acordarei na preguiça do amanhecer, novamente te vou procurar, aqui, ali, em qualquer lugar…

Não sei, não sei se existes,

Não sei se és real como as árvores no final do dia, encolhem os braços e dormem, dormem acreditando, também elas, que existes algures nesta cidade,

Mas não acredito na tua presença,

Imagino-te sentada num qualquer jardim esperando por mim, imagino-te sentada junto ao rio esperando por mim, mas enquanto vou ao rio e ao jardim, nada, nada da tua presença,

Desisto?

Desisto.

Sigo viagem, vou à procura do meu caderno preto, vou à procura da areia finíssima do Mussulo onde brincava com os outros meninos, também eles, esquecidos, sucata, velharias à porta de uma taberna,

Estou só, estou só enquanto escrevo, não sei se existes…, mas…, mas não quero a tua presença enquanto escrevo,

Lamento-me,

Lamento-me dos confins da lixeira dos sonhos, invento amores de papel com lábios de algodão, sinto-o, sinto-o

Sinto-o na minha mão como um fidalgo desempregado, triste e vaiado numa noite junto ao mar, amanhã, talvez,

Talvez existas nos meus aposentos de criança, amanhã, talvez existas nas pedras circulares dos Oceanos abandonados,

Desisto?

Desisto.

Esqueço-me de ti,

Recordo a liberdade de viver sobre este cansaço de aço,

Recordo a ardósia onde escrevia poemas só para ti, mas tu, tu não existes,

Pareces a morte,

O silêncio disfarçado de morte,

E depois

E depois deixei de contemplar o teu perfume.

 

 

Francisco Luís Fontinha

terça-feira, 12 de Abril de 2016

As máscaras

Francisco Luís Fontinha 10 Abr 16

Assim permaneço inconstante

Neste lugar habitado pelos silêncios das amoreiras

Finjo ser feliz porque minto

E mentir faz parte da minha solidão

Fujo

Regresso

Permaneço inconstante na plenitude dos teus braços

Amargo sofrimento das fotografias onde morres

E sofres

Nesta cidade de sonâmbulos

O espelho da insónia

Pregado ao meu corpo

Assim permaneço inconstante

Com medo

O sofrido doente

Neste esconderijo

Fiquei desanexado do presente

Fugitivo da morte

Hoje não sei se te amo

Talvez nunca te amei

Porque o amor é-me estranho

Um ser prepotente

E ausente

De mim

Um esqueleto de palavras incertas

Uma máquina de roldanas fictícias

O livro em acabamento

Com todas as suas personagens

Lá fora

Meu amor

O nada

A absurda escuridão vestida de mar

O semáforo da paixão entre verdes e encarnados

Paro

Inclino-me para o desassossego

As manhãs dos teus lábios

Argamassados pelo colorido beijo

O livro vive

Dentro de mim os parafusos da melancolia

As porcas do cintilante pássaro da madrugada

A paixão novamente no ventre da solidão

Que o tempo há-de levar

As ruas desertas

As casas invisíveis

Como gargantas em granito

Procurando o pôr-do-sol

Ausento-me de ti

Sei que amanhã estarás a ler a minha lápide

Amaste

Não amei

Desamaste em poucas horas

Para voltares aos meus braços

O caminho deserto do silêncio

A rua sem transeuntes envergonhados

Amo-a sem o saber

Ou querer

O sítio esquelético da minha sombra

Em busca do privilegiado tesão do amanhecer

Durmo

Ajuda

Ajuda

A calçada dos ventres desventrados dos destroços de prata

Amo-te

Sem saber a razão

Cintilam em mim os terramotos da lentidão sonolência da sorte

Ausento-me

Corres

Amas-me como eu amo estes livros

Estes cadernos

Estas sebentas encurraladas na escuridão

Regressa o sono

Regressa o desejo das Calçadas envidraçadas pelo engate de um puto

A ressaca

A ressaca dos amigos

Quando ninguém habita o meu coração

Sem ajuda

Com Ajuda

Belém enraizada no meu corpo

Nos meus ossos

Na minha boca entrelaçada nos teus seios

Pássaros

Árvores

E gaivotas

Nos meus restos mortais

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 10 de Abril de 2016

túnel de xisto

Francisco Luís Fontinha 4 Abr 16

perdi-me nesse túnel de xisto

acorrentado ao rio encurvado nos teus seios

socalco após socalco

desço até ao poço da tristeza

escrevo nos rochedos

os caracteres mutilados do sonho

oiço os gemidos de um corpo esquecido no regresso do pôr-do-sol

imagino-me dentro desse corpo de dor

como se fosse a minha última palavra

entre ossos sem remetente

ou destinatário

deixei de receber cartas

pequei nas que tinha escrito na infância e transformei-as em cigarros coloridos

papéis que ardem no comportamento da memória

estou cansado de me perder

e de ser achado pela madrugada

junto a um qualquer apeadeiro deserto

aqui morreram os comboios

aqui morreram os meus pequenos sonhos

derramados pelas âncoras do desejo

na alvorada

não tenho tempo para recordações

não tenho tempo para corações de geada

quando hoje o túnel de xisto

habita esta cidade de cadáveres sem ninguém

ausentes

empobrecidos pelo tempo

não dou conta do adormecer das horas

não tenho horários

sentimentos

nem pulso para suportar um simples relógio de corda

morreram os relógios

e morreram os pulsos que se acorrentam aos relógios

sem remetente

ou destinatário

 

 

Francisco Luís Fontinha

segunda-feira, 4 de Abril de 2016

entre parêntesis

Francisco Luís Fontinha 3 Abr 16

o peso do corpo

quando o corpo se ausenta da realidade

a morte vulcânica do sentido proibido da vida

os tristes pássaros empoleirados nas avenidas sem destino

a lucidez do alpendre da solidão

caminhando calçada abaixo

os ossos

o pó dos ossos

manchado nos camuflados risos da manhã

ao teu lado

oiço amo-te

ao teu lado

oiço-te desejo-te

mas a madrugada roubou-nos o desejo

tenho uma estrada abandonada

nos abismos da madrugada

o silêncio enraizado na melancolia do suor teu corpo

a alegria

sentindo a solidão dos obscenos corpos de nata

há-de viver em mim a mulher desenhada nos espiões da noite

o amanhecer morre no ínfimo acreditar da noite

tenho sono

meu amor

amanhã viverei no teu corpo

amanhã sentirei o teu corpo

fatias finas

papel amargurado

nas algibeiras dos corpos suicidados

a morte

os amigos da morte

na ambição do sonífero sonolento

hesito

morro

neste barco de sentinelas amordaçados

o tempo

sempre ausente de ti

enigmático coração de vidro

sofro

deixo-me sofrer pelos teus lábios

os beijos

o comboio em direcção ao nada

transeuntes acabrunhados

que só o vento desenlaça na porta de uma casa de alterne

o medo da morte

a embriaguez dos rostos maltratados

que os livros comem ao pequeno-almoço

são horas de partir

meu amor

a ausência do cachimbo oco que habita a minha mão

a ausência do olhar

correndo em redor do mar

a cerveja quente o uísque alicerçado às minhas costas

fumam

comem cigarros livros de papel fumado

a noite é um corrupio sonolento da alma

amei-te

quebrado nas montanhas da solidão

este magro corpo acordado do sono

este magro sono acordado no magro corpo

gosto de ti

dos teus olhos vestidos de noite

entre parêntesis

snob

sono da alegria de morrer

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 3 de Abril de 2016

as tempestades do silêncio

Francisco Luís Fontinha 30 Mar 16

a desilusão da noite

quando o corpo cessa de sonhar

debaixo do alpendre os ossos sobejados das tempestades do silêncio

um fio de sono

refugia-se na madrugada

a insónia partiu sem deixar rasto

fugiu das minhas pálpebras

enquanto a solidão brincava no mar

e um barco

e um barco enferrujado atrapalha-se com os meus frágeis braços de porcelana

tenho medo da chuva clandestina

sem morada para aportar

tenho medo da morte que semeia a dor

que semeia o sofrimento

e a escuridão entra no meu peito

sinto o meu coração em pequenas fatias de cansaço

apetecia-me escrever-te

mas deixei de ter palavras para ti

em tempos tinha o teu rosto aprisionado num caderno

mas com a idade

esqueci-me dele

do caderno

e esta ausência viagem permanece sem destino

que só a desilusão da noite

sabe desenhar na areia húmida dos teus seios

o desejo sem navegar em ti

o esquecimento dos teus lábios saqueando a cidade

navego em ti como um sonâmbulo arbusto do teu jardim

e a noite me leva para o infinito

o grito

o sorriso das serpentes nas amarras do beijo

o triste sono sobrevoando os lençóis da alegria

amanhã estarei aqui sentado?

amanhã estarei aqui sentado a folhear o caderno

onde se encontra aprisionado o teu rosto?

amanhã haverá tempestades de silêncio?

(mas com a idade

esqueci-me dele

do caderno

e esta ausência viagem permanece sem destino

que só a desilusão da noite

sabe desenhar na areia húmida dos teus seios)

amanhã?

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 30 de Março de 2016

remetente ausentado

Francisco Luís Fontinha 25 Mar 16

a felugem do corpo

no alfabeto secreto da paixão

as múltiplas palavras ensanguentadas

no deserto coração

as madrugadas invisíveis

estas que o são

e não regressam à minha mão

nunca mais

a felugem do corpo

descendo as ruas íngremes da cidade

o feitio estranho da cegonha vaidade

quando a saudade

poisa no ombro do beijo

os lábios amargos do musseque no abismo desejo

sem destino

este menino

sem cartas de amor

este remetente ausentado

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 25 de Março de 2016

Gaivotas assassinas

Francisco Luís Fontinha 16 Mar 16

As gaivotas assassinas

Que atormentam os teus/meus sonhos,

O silêncio da pedra onde descanso

E sinto a sombra do sofrimento

Antes de acordar a noite,

O túnel da amargura suspensa na água transparente do desejo,

Desapareces entre as nuvens de algodão que alimentam o dia… e neste momento… mortas, feridas, e indesejadas pelos pássaros da avenida nocturna da paixão,

As complexas muralhas do sono nos cortinados das tristes madrugadas…

O beijo da aranha

Que habita o circo da minha infância,

E…

As gaivotas assassinas…

Nos meus/teus sonhos,

Vivo em ti e de ti, semáforo da tristeza

Sem perceber que a vida é uma jangada de pequenos sorrisos

E místicos poemas sem destinatário…

A vida só,

Só…

Como são todas as gaivotas assassinas…

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 16 de Março de 2016

Triste verso

Francisco Luís Fontinha 12 Mar 16

O não, só!

O eu, no não, também ele, só…

E o ó

Do nó

Entre marés de Inverno

E desejos de Inferno

Levante-se o alfabeto

O avô

E o neto

Levante-se o réu

E o sofrimento

Do Céu

Quando alguém cai

E tomba no pavimento térreo

Sem tempo

Volta a cair

Ai…

O vento

Nos teus lábios a sorrir

STOP. FIM. Até breve… no meu regresso

Sem acesso

Ao sítio mais escuro do Universo

Deixo, deixo-te…

Este triste verso.

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 12 de Março de 2016

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