Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

21
Mai 12

Há sempre alguém à nossa espera, o sol, a chuva, o vento, o mar, os lençóis de um divã, ou um petroleiro engasgado no sofrimento do rio, há sempre um cubo prisioneiro numa janela de primavera sem telhado, há sempre uma mulher suspensa no arame de luz que atravessa a rua, há sempre um automóvel pronto a caminhar sobre o meu corpo, há sempre um pano negro que ofusca o meu olhar, uma nuvem cinzenta que dissipa os meus sonhos, há sempre

 

- o dia disfarçado de noite, a luz disfarçada de chuva, o amor vestido de gangster e de metralhadora ao ombro, o homem de túnica encarnada a dançar sobre as pedras da calçada, o girassol murcho nas mãos de uma criança, o rio sem nome em direcção ao mar,

 

Há sempre, uma cidade que deixou de existir, uma escola que cresceu e hoje é o cemitério onde são enterrados todos os livros de poesia, há sempre, a rua da saudade paralela à rua do desejo e atravessa a rua da solidão, há sempre, a vida pintada de muitas cores numa tela de vidro, a boca louca em busca do beijo, a flor cansada que procura a carícia do jardineiro, sempre

 

- há bolachas sem cigarros, orquídeas em papel nas paredes do meu quarto, a clarabóia acaba de morrer e leva-a a noite para longe,

 

Portanto..., diria que há sempre um dia, uma noite, uma manhã sem sentido, o pequeno-almoço, jantar, lanche e almoço, a Eucaristia, há sempre

 

- deus a castigar-me, há sempre alguém à nossa espera, a chuva, o vento, as nuvens, um petroleiro louco nos carris do destino, deus cansado de me ouvir, deus à procura dos lençóis de nylon gamados na feira da ladra, o relógio, há sempre um relógio a controlar-me, sempre a odiar-me, sempre pertinho de mim,

 

Há sempre uma mão que cerras olhos quando eu atravesso a rua,

 

- sempre, pertinho de mim.

 

Uma mão imaginária de óculos escuros.

 

 

(texto de ficção não revisto)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:43

06
Abr 12

Saboreias o cansaço das palavras

E procuras deus nas sílabas da manhã…

Conseguirás encontrá-lo?

 

Saboreias a vida em pedacinhos de nada

Com o medo na algibeira

Que da noite venha até ti a escuridão,

 

Conseguirás encontrá-lo?

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:51

03
Abr 12

Gerberas crescem dentro da cabeça do inferno, (e se a vida chegou à terra através de um cometa Pergunto-me E deus? Veio juntamente com o cometa ou algures no infinito a assistir ao nascimento…)

- Como se vê se as flores são frescas? E ao que parece… pela guelra, a vinte e cinco mil quilómetros por hora, a terra bombardeada por cometas e asteroides, e deus, e deus a assistir ao complexo infinito de luzes e cores,

E se deus tivesse proibido os cometas de bombardearem a terra? E se deus se embrulhasse em gerberas e adormecesse eternamente até se cansar,

Gerberas crescem dentro da cabeça do inferno

- E segundo os especialistas da NASA a vida na terra começou após o último grande bombardeamento por cometas e asteroides, há cerca de três mil e oitocentos milhões de anos,

E deus, e deus sentado à esquerda do filho, a olhar as gerberas dentro da cabeça do inferno,

- Como se vê se as flores são frescas?

Abre-se a janela do inferno e as gerberas erguem-se até ao céu, poisam nos lábios das estrelas e adormecem no estômago da insónia, faz-se noite em ti e do teu corpo as sílabas de silêncio abraçadas ao pindérico cortinado da madrugada, e ainda não tinha nascido o mar, e os barcos voavam de montanha em montanha, de penhasco em penhasco, de seio em seio,

- As gerberas

Sem coração e sem paixão e sem amor,

- As gerberas dentro da cabeça do inferno até que o dia finja ser noite em ti, hoje de seio em seio o pindérico cortinado da madrugada balança nas suaves mãos de silício do teu corpo, o mel arrefece o sabor da tua boca quando as algas vindas do universo comem o teu desejo entre três triângulos equiláteros, Pitágoras escreve no extenso lençol de seda e o outro segredava que um ângulo reto ferve a noventa graus,

(o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos)

Que têm as gerberas? Dentro da cabeça do inferno todas as palavras, dentro da cabeça do inferno todos os desejos e todos os pindéricos cortinados da madrugada,

- As gerberas em pedacinhos de nuvem antes de alguém encerrar a janela e o mar acaba de nascer, e os barcos deixam de voar e começam em mergulhos silenciosos a galgar as águas do teu oceano púbis,

Acorda o dia, nascem os homens e as palavras

- Inventam o fogo e todos os livros de Gogol ardem na fogueira (maldita inquisição), e as palavras derretem-se no cacimbo da manhã,

E as palavras incomodam muita gente.

 

(texto de ficção não revisto)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:26

15
Nov 11

Subo as escadas

E desço as escadas

A minha vida são duzentos e cinquenta degraus

Um corrimão

E subo

E desço

As escadas

E subo até ao céu

 

Cansado

De subir até às nuvens

E à noite

E à noite regressar ao rés-do-chão

 

Abrir a porta

Fechar a porta

Corredor e corredor

Desvio-me dos petroleiros

 

Abrir a porta

Fechar a porta…

Abro os bracinhos

E zás… aterrar sobre os lençóis da noite

 

Duzentos e cinquenta degraus

Uma vida de merda

A subir escadas até ao céu…

E deus sempre ocupado ou ausente

 

E oiço a voz de deus

SÓ PARA A SEMANA!

E desço os degraus

Os malditos duzentos e cinquenta degraus…

 

E espero

E espero que o calendário pendurado na cozinha…

Que o calendário caminhe apressadamente uma semana

E que finalmente deus me receba

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:34

08
Nov 11

Nem sei como começar, Pelo princípio Rapaz pelo princípio, então é assim e nem sei como devo tratar-te, deixa lá o tratamento Rapaz o tratamento não importa o importante é o que tu tens para me dizer, e tanta coisa que tenho, então começa, meu deus ou simplesmente deus ou amigo?, isso não importa, está bem Meu deus às vezes fico sem perceber a razão da tua existência, Como assim Rapaz?, Não sei… é tudo tão estranho…, continua, quando penso fico com a sensação que existes apenas para te divertires à nossa custa, Estás a ser injusto Francisco Não é verdade o que afirmas, está bem Desculpa, mas é tudo tão estranho, Estranho?, Sim estranho Repara Desculpe Repare quando penso em si parece que desde que nasci nunca quis saber de mim Nunca e que nunca está ao meu lado Nunca e que eu não sei explicar mas é tudo tão estranho meu amigo Tão estranho e Desculpe-me mas parece que nunca quis saber de mim.

 

Muito injusto Francisco Muito injusto E quando estiveste a morrer quando eras bebé quem julgas que te segurou na mão e não deixou que vacilasses, Porquê Porque não me deixaste morrer?, Porque Rapaz a minha função não é salvar nem matar A minha função é segurar na mão de quem sofre e acompanhá-la, Só isso? E achas pouco?, Parece-me pouco!

 

Às vezes acredito que está sentado num trono de oiro a olhar-nos A divertir-se à nossa custa e a contar as estrelas do céu, E voltando à nossa conversa Quem pensas que esteve ao teu lado quando mais precisaste E já sei que me vais responder, Os meus pais, E só eles?, que eu saiba Só, E eu? Acreditas que nunca estive ao teu lado?, Sim acredito, Mas não é verdade Sempre estive ao teu lado Sempre, É tudo tão estranho… meu Amigo.

 

Parece-me que a missão dos seres vivos é continuarem a vida para que você sentado num trono de oiro possa olhar-nos e divertir-se à nossa custa e a contar as estrelas do céu, porque se não for assim qual é o sentido de Nascer Crescer Morrer?

 

Nem sei como começar, Pelo princípio Rapaz pelo princípio, então é assim e nem sei como devo tratar-te, deixa lá o tratamento Rapaz o tratamento não importa o importante é o que tens para me dizer, e tanta coisa que tenho para lhe dize que cruzo os braços e finjo que não acredito em si…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:09

09
Out 11

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,

Que o mar só tem ondas porque existe o vento, que se uma borboleta bater as asas na Indonésia um tufão nos Estados Unidos da América acorda e começa a cuspir silêncios de água suspensa nas manhã de solidão,

E que deus está sentado à direita do pai,

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,

Que as nuvens são pedacinhos de algodão e as mulheres têm nos lábios sorrisos de mel,

- É tudo uma aldrabice pegada Confessava ele na esplanada do café onde quatro amigos invisíveis o acompanhavam,

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam e que o amor quando verdadeiro é como as estrelas do céu, cintilam e prendem-se às janelas das árvores deitadas na praia,

- É tudo uma aldrabice pegada os quatro amigos invisíveis e a lua e Luanda e o mar,

Nunca existiram,

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,

E que os beijos são o pôr-do-sol antes de cair a noite sobre o rio que corre apressadamente para o mar,

- E que nunca existiu,

Belém,

- E que nunca existiu,

Calçada da Ajuda,

- E que nunca existiram,

Putas a pedincharem cigarrinhos junto à estação de Cais de Sodré,

- E que nunca existiu,

Um menino debaixo das mangueiras a espetar pregos na sombra da tarde e sobre o triciclo o chapelhudo em queda livre até aterrar junto à capoeira, e as galinhas fingiam que acreditavam em tudo, dava-lhes grãozinhos de areia trazidos propositadamente da ilha do Mussulo e elas que acreditavam em tudo agradeciam-me,

- O milho saboroso da madrugada,

Um menino que corria entre o néon dos musseques e as lágrimas do céu, um menino que acreditava em tudo,

- O milho saboroso da madrugada,

Que tombava como pétalas de dor das mãos do menino que acreditava que os barcos tinham mãos, e que os aviões quando lá no alto encolhiam e adormeciam junto a deus sentado à direita do pai,

- E que nunca existiu,

E que nunca existiram mangueiras no meu quintal,

- E que nunca existiu,

Calçada da Ajuda,

- E que nunca existiram,

Cacilheiros enrolados ao cacimbo,

Porque o parvo que acreditava em tudo o que lhe diziam,

Um dia,

Deixou de acreditar,

E as galinhas deixaram de comer os grãozinhos de areia trazidos propositadamente da ilha do Mussulo,

- O milho saboroso da madrugada,

Nas ruas de Luanda.

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:07

24
Set 11

Parvalhão mas eu amo-te muito,

 

Parvalhão, parvalhão, és um parvalhão, E que sou dizia-me ele quando nos sentávamo-nos à mesa do café, conversávamos sobre os altos e baixos da vida e que mais depressa se cai do que se sobe,

 

Parvalhão,

 

E concordo contigo porque a vida é como uma árvore, e que demora uma eternidade a fazer-se mulher, e vem um parvalhão de motosserra na mão e corta-a, e a mulher tomba sobre as nuvens do mar,

 

E vem o vento e tomba a árvore, e a mulher antes de cair que balança nas arcadas do abismo e os cabelos elevam-se, e escondem-se junto às amoreiras do quintal do tio Joaquim,

 

És tão parvo amor,

 

E que sou,

 

E que sobe, sobe, a manhã nos teus lábios de amêndoa e a tarde à porta de entrada dos teus seios para se deitar, a sesta mergulha nas asas de uma criança sonâmbula, e do cansaço das roseiras o vermelho dos teus olhos entalados no arco iris,

 

O pôr-do-sol acorda,

 

E que sou, sentávamo-nos à mesa do café, conversávamos sobre os altos e baixos da vida e que mais depressa se cai do que se sobe, descia as estrelas com a ajuda de uma faca e de um garfo, ambos mergulhados na saliva da loja de penhores, e as estrelas aos pouco poisadas no prato em fina porcelana virgem e importada de Sacavém, e que se cai tão depressa,

 

Parvalhão,

 

Porque as estrelas são assim mesmo, sobem e descem, e quando se escondem no ascensor que dá acesso ao paraíso nunca mais deus lhes põe a vista em cima, E que sou dizia-me ele, e as estrelas penduradas na cabeça do parvalhão, a cadeira pedia licença para se sentar, e da chávena e do pires e da colher e do açúcar e do café…, nada, apenas a despedida do mar quando ela cerrava os cortinados da noite, despia-se e mergulhava na água gélida até adormecer,

 

E vem um parvalhão de motosserra na mão e corta-a, e a mulher tomba nos finíssimos lençóis de seda, e a mulher tomba sobre as nuvens do mar, a luz extingue-se e deus aflito caminha no corredor do céu à procura das estrelas,

 

És tão parvo amor,

 

E que sou,

 

Sentado à mesa do café…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:18

18
Set 11

Em criança perguntava de onde vinham os bebés,

Mãe, de onde vêm os bebés?, e a minha mãe respondia-me que os bebés vinham de Paris de França e que eram as cegonhas que os traziam,

De França, meu filho, os bebés vêm de França e são as cegonhas que os trazem,

Encolhia os ombros e voltava ao quintal, corria até ao portão de entrada, desprendia o cordel que suspendia o meu papagaio de papel e continuava a sonhar que um dia chegava à lua,

 

E muitos dias depois nunca lá cheguei, e o mais longe que consegui ir foi de Luanda a São Salvador assistir ao batizado dos meus primos gémeos, e a meio caminho o avião começou a soluçar e com vómitos e às curvas, e eu quando olhava pela janela via as casas e os carros e as pessoas em pequeníssimas dimensões, formigas pintadas de azul junto ao mar de luanda,

Olhava os meus primos gémeos e tentava compreender como era possível as cegonhas terem trazido aqueles dois seres arrepiantes e sempre de lágrimas nos olhos e de boca aberta,

Menino olha o primo Quim!

Menino olha o primo Paulo!

E o primo Fernando entretido na sua deficiência mental e que anos mais tarde descobri que tinha mais juízo do que eu,

E quando o avião se fez à pista de São Salvador juro que acreditei que ia embater no morro, estremeci, encolhi-me na cadeira e preso com cordéis a que chamavam de sinto de segurança aterro na cama onde os meus primos dormiam,

 

E as cegonhas não trazem os bebés,

 

E em cada final de ano regressa o natal, e em cada final de ano a minha ansiedade pela visita do pai natal, perguntava à minha mãe quem trazia os presentes,

Mãe, quem traz os presentes?

E ela respondia-me que era o pai natal,

O pai natal, meu filho!

E eu via nas revistas e na televisão um senhor gordo, e perguntava-me como era possível com tanta obesidade descer pela chaminé,

E acordava de manhã, muito cedo, e os presentes poisados em cima da mesa, e eu cismava que um dia ia descobrir com ele conseguia,

E descobri,

Quando fui passar o natal a Carvalhais que o pai natal é uma treta e que tinha deixado presentes em Carvalhais e em Alijó passou ao lado da casa número 15 do bairro do hospital,

Mãe, o pai natal não existe!

E chamei-lhe todos os nomes que sabia,

 

Depois veio a catequese e a minha catequista dizia-me que deus via tudo e estava em todo o lado,

Deus vê tudo e está em todo o lado!

E eu olhava para todo o lado e não via deus,

E perguntava-me,

Se ele está em todo o lado porque não o consigo ver?

E aprendi que nem todos o conseguem ver,

 

E deixei de acreditar nas cegonhas e deixei de acreditar no pai natal e deixei de acreditar em deus…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:47

O descer da alvorada

Pelas escadas da manhã,

A nuvem cansada

Que espreita pela janela cerrada

 

E nas estrelas poisam malmequeres gulosos,

O vento embala as almas para o céu,

E deus orgulhoso

A comer pedacinhos de algodão gostoso,

 

O descer da alvorada

Pelas escadas da manhã,

Deus à porta de entrada

Com uma ardósia quebrada

 

A ditar as leis da natureza,

A alvorada esconde-se entre as árvores doentes

Infestadas de tristeza…

E deus criou a beleza!

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:53

25
Ago 11

O inferno até que é giro, lamentava-se ele enquanto olhava a montra semeada de sapatos e sandálias e chinelos e calçado desportivo, e giro, giro é acordar manhã cedo e perceber que durante a noite alguém roubou o céu, e que durante a noite roubaram as árvores e os pássaros que dormiam nas árvores, e que durante a noite roubaram o mar, e todas as flores dos jardins, durante a noite, roubadas, e giro é perceber quando se acorda e abrimos a janela e o mar não está lá, e penso Quando me deitei vi-o e falei com ele, pois, mas durante a noite, o inferno até que é giro, e giro, giro é acordar e verificar que as coisas mais simples desapareceram, ou pior, alguns se apoderaram delas,

 

E que eu saiba, e digam-me se estou enganado, o inferno até que é giro, e giro é perceber que as flores as árvores e os pássaros e o mar e o céu e a água, e outras coisas mais, pertencem-nos, e giro, giro é perceber que aos poucos deixam de nos pertencer,

 

O inferno até que é giro, e giro, giro é perceber que deus começa a ser um bem apenas de alguns, que cristo se vivesse nos dias de hoje era de esquerda, e não acredito que pudesse ser outra coisa, e que o dinheiro há muito escasseia na minha algibeira, e giro, giro é eu dar-me conta que esqueci completamente como são as moedas, as notas, o inferno até que é giro, e giro, giro é que nos últimos dois dias sobrevivi apenas com dez cêntimos, e até que o inferno não é mau de todo, nós, nós seres humanos é que acreditamos porque sempre nos foi dito que o inferno é algo de muito ruim, não, senhores, o infernos é fixe,

 

E se o inferno onde vivo é fixe nem me imagino a viver no céu, porque, o inferno até que é giro, e giro, giro deve ser todo o luxo do céu, cadeiras de cetim, bordados e porcelanas, mesas de jogo, camas com colchão de águas, sanitas em oiro maciço, e mulheres, muitas mulheres, o inferno até que é giro, e giro, giro é eu no céu, e acreditem, sentia-me mal, enjoado, porque o inferno até que não é mau, e giro, giro é acordar pela manhã e não roubaram o céu, não roubaram as árvores e os pássaros, não roubaram as flores de todos os jardins, não roubaram a água dos rios e das ribeiras, e o que seria do douro sem a água, sem os socalcos, o que seria de Luanda sem o mar,

 

O inferno até que é giro, e giro, giro é saber que não roubaram porque não puderam, não podem, porque é impossível roubar o mar, as flores de todos os jardins, as árvores e os pássaros que dormem nas árvores, e as mulheres do céu, meu deus, e se peco peço desculpa, mas estou tão habituado a viver neste inferno, que me desculpe, senhor, esse teu céu é luxuoso de mais para mim,

 

O inferno até que é giro, e giro, giro é perceber que roubaram-me os sonhos e não conseguiram roubar-me as palavras, e que se pudessem já nos tinham roubado o céu, e já nos tinham roubado o mar, e já nos tinham roubado as árvores e os pássaros que dormem nas árvores, e já nos tinham roubado as flores de todos os jardins, e giro, giro é que eles não nos podem roubar esses bens tão preciosos e que muitos não dão valor, e que são grátis, e são de todos nós, O inferno até que é giro, e giro, giro é que ainda consigo respirar…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:37

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