Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

07
Mai 11

Vejo no espelho excrementos

Que são a minha imagem reflectida na noite

Eu dançando no fundo da sanita

Engasgado pelo silêncio da casa de banho

 

Tento aos poucos emergir da merda

Mas a água do autoclismo puxa-me

Agarro-me às paredes

Escorrego… começa a afundar-se

 

A minha imagem dentro de uma conduta

Entro no vácuo

E caminho por um tubo de cento e dez milímetros de diâmetro

Percebo de estou debaixo da rua

 

Percebo que a rua cansada de mim

Farta da minha imagem de excremento

E eu feliz

E eu em direcção ao mar…

 

Vejo no espelho excrementos

Que são a minha imagem reflectida na noite

Eu dançando no fundo da sanita

Eu sufocado no desejo

 

Deitado de barriga ao ar

E tudo tinha peninha da minha imagem de excremento

Dançando na madrugada

E infelizmente eu não gaivota

 

Brincando dentro de uma conduta

Em direcção ao mar

À procura do amanhecer…

À espera de adormecer

 

E morrer.

 

 

Luís Fontinha

7 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:21

Encosto-me ao silêncio da manhã

E apetece-me partir

Caminhar junto ao mar

Até encontrar o infinito

 

Uma gaivota que me abrace

Ou uma onda que me afogue

Chove e peço à água que cubra o meu corpo

Inclusive a cabeça

 

Deixar de ver o dia

Não ter medo da noite…

 

Encosto-me ao silêncio da manhã

E apetece-me partir

Esconder-me no mar

E ser engolido pelo mar…

 

Mas nem o mar quer o meu corpo!

 

 

Luís Fontinha

7 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:49

02
Mai 11

Que algas são estas que se enrolam no meu corpo

Prendem-me os braços ao cansaço da noite

E na minha mão em desespero

Desenham silêncios ao amanhecer

 

Serei eu um rio

Ribeira perdida na montanha?

Que algas são estas que se enrolam no meu corpo

E não me deixam voar

 

Eu uma gaivota em morte lenta

Cortada em pedacinhos de tristeza

Que algas são estas

Que não me deixam caminhar

 

Que me proíbem de sonhar…

 

 

Luís Fontinha

2 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:13

29
Abr 11

Ele triste e melancólico, ele e ela, ele deprimido quando o fim de tarde vem buscá-lo para jantar e jantar nenhum, hoje não jantar, três ovos e uma alface, um copo de água e de sobremesa um poema de Cesariny, podia ser pior, ele triste e melancólico à janela a ver passear o mar entre os candeeiros da rua, e do jantar fica a saudade do Mário, o eterno louco, o apaixonado Mário Cesariny.

- Porque poisam as gaivotas na minha mão…

Porque poisam as gaivotas na minha mão se eu sem mão, eu apenas entalado entre três ovos e uma alface, coisa pouca, coisa nenhuma, um miúdo acena-me da rua, ele e ela escondem-se nas ondas, e o mar junto aos candeeiros…, três ovos uma alface um copo de água e um poema do Mário, e o Mário pregado na parede ao lado de um crucifixo esquecido pela poeira da maré, quando sobre a janela poisa uma gaivota com cio, e a gaivota em gemidos abafados pela noite,

- porque poisam as gaivotas na minha mão.

Ele triste e melancólico, ele e ela, ele deprimido quando o fim de tarde vem buscá-lo para jantar e jantar nenhum, o relógio hoje encalhado nas oito horas, nem ata nem desata, tipo cordões de sapatos quando enrolados em beijos suspensos nos lábios, e os sapatos em corrida apressada rumo ao areal, o areal longe, o mar aqui, debaixo da minha janela, debaixo das gaivotas, à espera,

- porque poisam as gaivotas na minha mão,

E eu sem mão, ontem comi a minha mão, e ele e ela, ele sem jantar entalado entre três ovos uma alface um copo de água e um poema do Mário, e o Mário coitado, feliz, deitado, adormecido junto ao mar…

- Porque poisam as gaivotas na minha mão…

Um miúdo acena-me da rua, ele e ela escondem-se nas ondas, e o mar junto aos candeeiros, e o mar à minha espera para me engolir durante a noite e eu à espera do mar para me encontrar com o Mário Cesariny.

 

 

(texto ficção)

Luís Fontinha

29 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:55

Nas sílabas a minha boca suspensa

Na escuridão da tarde

E as palavras em pergaminhos

Das palavras onde vogais teimosas

 

Poisam nos meus olhos

Vagueiam dentro do meu peito

À procura dos livros da noite

Que se passeiam nas ruas da cidade

 

Oiço a tua voz sonâmbula

Na esquina junto ao rio

No sorriso de uma gaivota

Que dorme debaixo de um cartão

 

Pede esmola

E ninguém ninguém olha para ela

Nos passos apressados dos transeuntes

Que regressam do trabalho

 

Está escuro e vai chover

E a gaivota desordenada

Nas palavras que se escondem nas vogais

E brincam nas sílabas

 

Nas sílabas a minha boca suspensa

Na escuridão da tarde

Sei que tenho uma cabeça sobre os ombros

Mas sinto-a tão distante

 

Tão longe de mim

Tinha asas e as minhas asas voaram

No sorriso do vento

Foram com a tempestade

 

E agora também eu peço esmola

De mão dada com a gaivota

Também eu durmo debaixo de um cartão…

E ninguém ninguém olha para nós.

 

 

Luís Fontinha

29 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:51

14
Abr 11

Sacio a minha fome nas páginas dos teus olhos

Nas sílabas dos teus lábios

Sacio-me no teu sorriso quando a manhã entra em convulsão

E na tua boca oiço a música das estrelas

 

Sacio a minha fome nos teus seios em seda

Quando junto ao mar

Se passeiam nas mão da maré…

E uma gaivota se aproxima e me sacia

 

E eu sacio-me nas suas asas em revolução

Nos seus gritos de desespero

Sacio a minha fome nas páginas dos teus olhos

Quando me esperam ao fundo da rua

 

E da tua janela sinto o mar dentro de mim

As ondas na minha garganta

Engasgo-me mas sacio-me

Sacio-me no teu corpo pendurado num desejo

 

Na parede do meu quarto

Pertinho da madrugada…

Sacio-me em ti e de ti

Quando te sentas na minha mão e adormeces no meu peito…

 

 

FLRF

14 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:20

12
Abr 11

Enquanto o teu sorriso

Se ausenta de mim

Escrevo na claridade da ribeira

Entre a montanha dos teus seios

 

E as conchas das tuas coxas

Entaladas nos socalcos

O xisto vem a mim meu corpo em voos elípticos

Vagueando tenazmente na madrugada

 

E deixo para outro dia o teu sorriso

No luar que acorda dele em suspenso…

Porque na vida sem alegria

O meu corpo vagabundo

 

Se afunda na espera do teu sorriso

Se ausenta de mim

Procura na minha sombra

As sombras dos teus lábios

 

Os feitiços da primavera

Gaivotas em suspenso

Andorinhas empalhadas na maré

Esperam o teu sorriso ausente…

 

 

 

FLRF

12 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:20

11
Abr 11

Não me interessa o silêncio dos pássaros

Que se penduram nos teus braços

Não me importa a primavera

Não quero saber da madrugada

 

Não me interessa a tua mão

Que poisa no meu rosto

Ou quando os teus lábios

Adormecem na minha boca

 

Não me interessa

Não me importa

Nada…

 

Não me interessa o silêncio dos pássaros

Que se penduram nos teus braços

E a maré se enrola no teu sorriso

Nem me interessam as tuas mãos

 

Quando fazes festinhas numa gaivota

Dentro do meu quarto

Deitada na minha cama…

Não me interessa o meu rosto emerso no espelho pendurado na parede

 

Não me interessa

Não me importa

Nada…

 

Não me interessa o teu corpo em meu desejo

Não me interessa e não me importo

Não me interessa a tua voz

Perdida num beijo

 

Porque o que me interessa

E me importa…

Não me interessa

Não me importa

Nada…

 

 

 

FLRF

11 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:35

10
Abr 11

Preciso da tua boca

Onde esconder as minhas palavras

Deixar os meus versos nos teus lábios

Pintá-los com sílabas

 

Preciso da tua boca

Gaivota da madrugada

Primavera das flores adormecidas

Quando na tarde emerge o pôr-do-sol

 

E na tua boca a maré se ausenta

Finge não me ver

Estremece junto às rochas

Cansaços de um veleiro

 

Passeando à beira mar…

Preciso da tua boca

Onde esconder as minhas palavras

Deixar os meus versos nos teus lábios

 

Transladar as flores para o mar

E na tua boca

Brincam papagaios de papel

Sem medo de voar.

 

 

FLRF

10 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:28

05
Abr 11

Os teus bracinhos

Deitados no meu peito

E nas minhas mãos de primavera

Uma gaivota sorri nos teus olhos de madrugada

 

Lá fora, na rua em movimento, um cisne

Esconde-se nas pedrinhas da calçada

E movimenta-se lentamente junto ao mar

Onde os teus bracinhos e o meu peito poisam vagarosamente

 

Sem percebermos a chegada da noite

Sem compreendermos o porquê da alvorada…

Os teus bracinhos

Deitados no meu peito

Em carícias de fim de tarde

Os carris lotados

E nas carruagens sombras em desespero

Indiferentes aos teus bracinhos e ao meu peito…

 

Enlatados ma maré

 

Os teus bracinhos

Deitados no meu peito

E nas minhas mãos de primavera

Uma gaivota sorri nos teus olhos de madrugada

 

E a maré cresce, cresce até ao infinito…

Os teus bracinhos

O meu peito

Órfãos das sombras

Numa carruagem apressada

Nos carris do desassossego…

 

 

FLRF

5 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:32

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