Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

15
Nov 13

foto de : A&M ART and Photos

 

sinto-me pincelado com pedaços de solidão

e do meu corpo-tela uma fina imagem encosta-se aos filamentos incandescentes de uma lâmpada de halogéneo

não sou eterno

amado

sou um electrão mergulhado no espelho do nada

sifilítico magala apodrecido na doce paixão das árvores do silêncio

sinto-me uma locomotiva denunciando carris e curvas de nível

sinto-me um bufo engolindo sombras que a noite magoa depois do sexo alimentar a tua boca de sofrimento que as rosas poisaram em ti entes de acordar a poesia

sinto-me um vadio inconfortável

ignorante como pequenas conversas de tic-tac

nos alicerces das mãos de cereja que o papel amarrotado embrulha entes da morte

sinto-me um cadáver profanado

mal-vestido

sinto-me um jardim sem nome procurando as estrelas de cartão

sinto-me um barco fundeado no teu púbis de areia

quando os petroleiros da desgraça se fazem à costa pedinchando pequenas folhas de plátano

embebidas em cerveja de lata

sinto-me sobre ti ficticiamente falando como quando éramos dois bancos de jardim

em busca de ripas em madeira

e madeixas coloridas dos triângulos embriagados

sinto-me um falhado diplomado

um triste vagabundo sentado

nas tuas coxas de orvalho...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 15 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:01

11
Nov 13

foto de:A&M ART and Photos

 

Sei que me esperam a cada esquina da cidade, existem placas sinaléticas com o meu nome espalhadas pelas imensas ruas da cidade, obedeço e descubro que sou filho da cidade, obedeço e descubro que vivo clandestinamente na cidade, oiço-os, sinto-os galgarem os gradeamentos dos quintais de arame, sei que são eles porque o cheiro que chega a mim diz-me que são ele e pergunto-me

Que fazem os lobos na minha cidade?

Espero impacientemente o eléctrico para Belém, entre o vir e o desistir, eu ganho-lhe e antes que ele venha... desisto, começo trôpegamente e arrefeço e começo a extinguir-me conforme as sombras que a cidade constrói nas janelas envidraçadas dos táxis embriagados quando saem dos bares de Cais do Sodré, sinto-me não sentir as mãos que me acompanham, sinto-me vaguear como um louco nas cânforas lâmpadas dos candeeiros cintilantes da noite sem sucesso, oiço-os e tenho-lhes medo

Pergunto-lhe e ela responde-me que

Os lobos são filhos da cidade...

Eu paro e repentinamente imagino-me também um lobo, pois sou filho da cidade, pois... logo sou um lobo, solitário, vegetariano procurando os velhos quintais que aos poucos vão morrendo nos arredores da cidade, sinto-me voar sobre os meninos e meninas que brincam nos parques infantis, sinto-me voar sobre os lobos que fazem amor nas fina areia da praia, também ela

Filha da cidade,

Mãe dos lobos, minha mãe, sinto-me perdido dentro de um fino buraco que uma dessas crianças que brincava na areia fez, começo a descer, começo a acariciar-lhe as coxas encostas dos socalcos mergulhados no Douro, sinto-me a entranhar-me nos seios do pôr-do-sol quando há muito partiram as crianças que fizeram o buraco onde me encontro aprisionado, grito pelos lábios do desejo, e sinto a minha mão abraçada à cannabis língua dos soluços depois de acordarem os orgasmos do fumo transversal que também como eu, voam sobre a cidade, que tal como eu

Filhos da cidade,

Sinto os lobos vergarem-se quando o vento sussurra ao ouvido do púbis em cio, a cidade embrulha-se no clitóris da saudade, há momentos de silêncio, há solidões disfarçadas de insónia e mesmo assim, eles, dizem, que,

Ele... filho da cidade

Ele... irmão dos lobos e filho da praia,

Desisto do eléctrico, vou dançando pelas pedras das calçadas e eu descalço, e oiço-os, e oiço-os como martelos pneumático salpicando carne em sexo nas ruelas mal iluminadas, finjo-me de morto, finjo-me de sonâmbulo e eles abandonam-me dentro do cobertor dos sonhos, desisto do eléctrico, desisto dos corpos graníticos dos jardins de pedra, e sobrevoo como uma gaivota desnorteada o teu cabelo de papel com bolinhas encarnadas,

Ele... filho da cidade

Ele... irmão dos lobos e filho da praia, e sei que me esperam a cada esquina da cidade...

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:44

04
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

permaneço intocável como uma folha caduca

como palavras semeadas numa tarde de Outono

ao abandono

voando entre as campânulas preguiçosas das Primaveras adormecidas

sou uma mulher invisível dentro de um corpo convalescente

emagrecido

dorido

sofrido

sou uma mulher cansada de chorar

alegre por amar

e não perceber todos os nomes dos jardins do meu País...

sou uma mulher em desejo

 

(acorrentada à varanda do medo

fumo cigarros vegetarianos e sonho com papagaios de papel)

 

sou uma mulher em desejo

prisioneira da saudade

sou feliz

sou alegre

sou uma gaivota poisada na ponte da eternidade

sou a madrugada em flor

permaneço intocável

e sofro

e morro

e choro... nas lágrimas da chuva como barcos de esferovite

molhados

os meu lábios

 

(e húmida

a minha doirada boca)

 

sou uma mulher mergulhada na melancolia

sou feita em pedaços de vidro

tenho laços de cetim em volta do meu pescoço

sou uma mulher de aço

alicerçada ao mês de Agosto

sou bela e moça bonita

sou linda e mulher donzela

sou filha das flores do amanhecer

e húmida

a minha doirada boca...

alimenta-se das vozes esquecidas

nas árvores mendigas das tuas mãos de gafanhoto

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 4 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:49

25
Jul 13

desenho de: Francisco Luís Fontinha

 

Dirigi, atravessei fronteiras antes inultrapassáveis, subi muros, desci avenidas, ergui-me, caí, voltei a erguer-me e novamente caí, escrevia, riscava, rasgava... fazia arder a manhã misturada em pedaços de cacimbo e tecidos vagabundos, fui uma ilha, fui uma rocha, fui um longo cubo com lábios triangulares, fui seno, fui cosseno, vivi em união de facto com a tangente, fui amante, de noite, as clandestinas visitas à cotangente..., e do círculo trigonométrico..., nada restou, depois, da tempestade, nuvens, chuva entrando em nós, de ti, uma pedra mármore com a tua fotografia, diz lá

O quê?

Eterna saudade de nós..., de mim, em ti, dirigi, suicidei-me, atravessei antes inultrapassáveis ruas, hoje, escuras, ardósias como ninguém percebeu, que um dia qualquer, um dia, ao lado do café, um miúdo, miúdo com sandálias de couro, percebeu, percebi, que a morte entrava-nos, e levava-te como levou todas as árvores que dormiam sobre as nossas sombras, dilatavam-se as tuas pálpebras, dirigi, adormeci, acordei num jardim recheado de zínias, fui feliz, infeliz, fui feliz, fui agreste, montanha, passeio pedestre, fui

O quê?

Ratazanas

Dirigi, vivi sobrevoando canteiros e riachos, sobrevivi aos beijos assassinos dos guindastes de chumbo, naveguei, cruzei oceanos como se eu fosse uma leve e tranquila folha de alumínio com uma bolha castanha, andava, ia a cima, descia, vinha a baixo, sentava-me, despedia-me, levantava-me, erguia-me... e caía,

As ratazanas amigas, amigos, protestantes e mendigos, vivi, fui vivendo, dirigi e atravessei o teu corpo transparente embrulhado em jornais envelhecidos, tinhas rugas, usavas sapatos cambados, e fui aprendendo a ultrapassar, dirigi, fui roupeiro, cobertor, homem espantalho, fui há muito tempo

Palhaço,

O quê? O que têm as ratazanas?

Palhaços, cabelos de fino arame, fui trapezista, vendi pipocas, corri avenidas em tristes engates, fui ratazana, fui praia, areia, ou barco, fui aço, fui âncora, palhaço, circo, pedestal, dirigi, cansei-me de olhar o rio, cansei-me de colocar a minha pobre mão na salgada água, lembras-me o mar, o ébano eu?

O quê?

Tínhamos zínias, cheirava em nosso redor a Primavera embriagada, desconfiávamos que o amor tinha algures um ninho num dos ramos da árvore de papel do nosso quintal onde brincávamos em meninos, não dávamos importância alguma aos pêssegos, às laranjas, às roulotes com lentes de contacto, um parvalhão de fita métrica na mão assaltava transeunte, chovia, não sabíamos, eu desconfiava dos vidros das janelas da casa das ratazanas,

Eu? Não sabia...

Desconfiava apenas,

Ratazanas, zínias enraivecidas com dentes de marfim afiados, metadona desconfiada, sem dono e abandonada, tudo se vende, tudo se compra, o zinco em chapas, os telhados em vidro, as barracas

Quais barracas?

As casas, húmidas, vivendo-se dias desenhados sobre a areia molhada, vinha o vento... e nada, tudo desaparecia, tudo se deitava, dormia, dormiam as zínias, as ratazanas, a mulheres-a-dias e as concubinas..., o quê? Eu? Não o sei... como o poderia saber,

Que horas são, hoje, mulher do mar, de mar, ao mar,

Desculpa?

Que horas são, mulher-a-dias, veleiro carrancudo, com velas de assobio, o circo, as tuas mãos desprezíveis, íngremes como as calçadas nocturnas das cidades escuras, desculpa...

Feldspato?

Não o sei, pergunta ao gerente da barraca, talvez ele saiba...

Gosto, não gosto... pelas dúvidas... deixo-te um like sobre as sobrancelhas, e

Dirigi e caí,

Me levantei, voltei a cair, e caí, me ergui, e me pendurei no teu pescoço de galinha envenenada, serpente, crocodilo, em madeira, em bom estado, vende-se dentadura postiça, primeira mão, em prestações, trinta e seis suaves, como lírios, como zínias, cachorros e cadelas e trapezistas e palhaços e trompetes de aço, me levantei, eu, e para quê?

Me sentei em ti, dormi, envelheci, e quando acordei, tu, vestida de mar..., me seduzi, me engatei nos laços transversais dos parafusos encalhados, fui, vou-me a ela, fui rua, donzela, fui... e nua, nua a tua doce madrugada.

Dirigi. Menti. Atravessei fronteiras antes inultrapassáveis, subi muros, desci avenidas, ergui-me, caí, voltei a erguer-me e novamente caí, escrevia, riscava, rasgava... tudo, tudo para nada.

(texto, ficção, vida, desenho, arte, zínias, jardins, amor, Primavera, tudo, e nada, pouca coisa, desenvergonhada, ela, paixão de areia, homens de vidro, cabelos frios e secos, mendigos).

 

(não revisto – quase ficção)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:21

10
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Há os grãos de areia que poisam na tua pele

como letras serpentes voando de cerejeira em cerejeira

há as pedras pássaro que dormem na tua mão

como uma sílaba acabada de nascer

há nos teus seios pincelados de cinzento

flores de pétala amarela e olhos azuis,

 

Há a chuva embriagada

que das nuvens inventam o prazer nocturno da paixão

rompem as amarras e as correntes em aço

como saliva deleitada entre rios e pontes imaginárias...

há mulheres com bocas de cetim

brincando como crianças nos relvados e jardins,

 

Há os dias sem fazer nada

e os minutos às janelas envidraçadas

há lágrimas dilaceradas como águias envenenadas

pelos pequenos parafusos de aço

que alicerçam os barcos ao cais dos desejos...

há os grãos de areia que poisam na tua pele.

 

(não revisto)

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:58

19
Mar 13

A&M ART and Photos

As três árvores do sonho, morreram, deixaram sete sombras e duas teias de aranha, fumavas muito, repreendias-me sobre os malefícios do tabaco, e eu, prometia-te

Brevemente vou deixar,

Hoje, não fumo, e sinto-me envergonhado por nada ter para te prometer, não posso prometer-te o mar porque é impossível levar o mar até ti, não posso prometer-te flores, porque deixei de saber o que são flores, noites de geada, ou noite de lua cheia em plena Primavera, não posso, e não quero

Prometer-te o que não consigo dar-te,

Um rio, por exemplo, poderei eu um dia oferecer-te um rio só para ti, não, evidentemente que não, mas posso oferecer-te os cheiros que vivem no rio, ou

Um banco de jardim, onde te sentarás à minha espera, mesmo tu, sabendo, que nunca irei regressar, porque os mortos não regresso, e eu, lembras-te?

Morri quando caí na asneira de prometer-te o Céu com estrelas, com chuva, e ventos e tempestades, fiz-te promessas que nunca fui capaz de realizar, umas por falta de tempo, a melhor desculpa para todas as situações, outras

Por não ter dinheiro, emprego, vida estável, por preguiça

E deixei-te ficar sentada num banco de jardim, em ripas velhas, em busca das sombras, e duas teias de aranha, fumavas muito, repreendias-me sobre os malefícios do tabaco, e eu, prometia-te

Brevemente vou deixar,

E deixei que esperasses por mim quando devia ter-te dito para partires..., depois veio a bruma, a fina espuma, o silêncio, depois veio o caderno onde escrevíamos palavras, loucas, poucas às vezes, que iluminavam os teus olhos com uma luzinha em cada um, parecias um sol quando acabava de acordar, ainda na parte de esfregar as pálpebras, com os finos dedinhos que a lua emprestava, depois vinha o sono, o cair da tua cabeça sobre o meu ombro...

Brevemente vou deixar,

De sentar-me em bancos de jardim, principalmente aqueles em ripas de madeira, porque me fazem recordar os teus olhos, as flores, que confesso, não sei o que são, nunca soube, e prefiro não o saber, como tantas e tantas coisas que

Não sei

Não quero saber

Não me apetece,

Não sei, mas talvez um dia, quem sabe, me venha a sentar num banco de jardim com ripas de madeira, e talvez um dia, quem sabe, me ensinem o que são flores, noites estreladas, omeletes recheadas com pólen, talvez um dia, me ensinem, que o amor, às vezes, tal como o sono

Aparece sem darmos conta, outras, é difícil adormecer, mas o pior, é o silêncio quando nos sentamos num banco de jardim com ripas de madeira, espero-o, e ele não regressa, e eu, sentada, acreditando que tal como o sono

Ele vem, vai regressar a qualquer momento, acredito, e enquanto sentada, imagino-o a caminha em direcção a mim, vagarosamente, como sempre, debaixo do braço, um livro, nos lábios um cigarro, imagino-o, vejo-o, depois, sentar-se-á junto a mim, dar-me-á um beijo, e nervosamente me dirá

Desculpa, meu anjo, o transito estava infernal; Já leste o novo de José Saramago “A Estátua e a Pedra”? Trouxe-o para ti..., E penso sempre nele quando me sento num banco de jardim com ripas de madeira, e ele me diz

Meu anjo

Não sei, mas talvez um dia, quem sabe, me venha a sentar num banco de jardim com ripas de madeira, e talvez um dia, quem sabe, me ensinem o que são flores, noites estreladas, omeletes recheadas com pólen, talvez um dia, me ensinem, que o amor, às vezes, tal como o sono, e talvez um dia, meu anjo, talvez um dia te apaixones por mim, como a Primavera se apaixona pelas flores, que confesso-te

Não sei e nunca soube o que são,

O que são flores, meu anjo?

 

(ficção não revisto)

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:54

28
Fev 13

Supostamente, nada o fazia prever, e no entanto, misteriosamente, aconteceu, como uma mácula cinzenta de penumbra debaixo de um céu reconstruído de resíduos esféricos que sobraram das brincadeiras infantis em frente à velha escola, quatro paredes, telhado em zinco, e casa de banho completa com cerca de um hectare bordada a capim húmido e algumas pedras cansadas de sobreviverem à escuridão das noites quando os cortinados se enrolam no pescoço esguio do teu vestido encarnado, adoras o vermelho, o sangue, a gravida quando deixa de ser aproximadamente nove vírgula oito metro por segundo quadrado, e talvez por desorientação, é de doze vírgula cinco metro por segundo quadrado,

(acreditei que o seno ao quadrado de alfa mais o co-seno ao quadrado de alfa o resultado é um, incrível, como se a tangente de trinta graus não fosse raiz de três sobre dois),

Dir-me-ás que o triângulo isósceles do segundo esquerdo é loucamente apaixonado pelo triângulo equilátero do rés-do-chão frente, e que são felizes, diria até

Muito,

E tal como o triângulo rectângulo do quinto direito ama loucamente o triângulo isósceles do quatro esquerdo, a hipotenusa ao quadrado é igual à soma dos quadrados dos catetos, e também eles, apaixonados pelo perímetro do círculo com o raio igual à paixão, e se

A paixão ao quadrado é igual ao amor, logo

Qual será a raiz quadrada da paixão?

Não sei nada dessas coisas, tal como nunca percebi o silêncio dos nossos vizinhos que se amam loucamente e têm medo de o assumir, palhaços e palhaços, dentro de um circo denominado tesouro absorto das palavras proíbas, custava-lhes dizerem ou escreverem ou simplesmente no átrio da escola com um ripa de madeira, desenharem na terra húmida

Amo-te Teresa,

(o autor deste texto não ama e tão pouco conhece fisicamente uma Teresa, e é apaixonado por triângulos rectângulos e círculos de luz)

Amo-te Teresa, e enquanto ele escrevia na parede lateral esquerda do átrio da Igreja Matriz, não sendo ela, a matriz, nem quadrada, nem diagonal, nem outra coisa alguma

(apenas o devaneio de um louco que julga ter piada com as porcarias que escreve)

Apareceram treze linda flores de nome Teresa,

Nunca acreditei que no jardim do amor existissem tantas e lindas

Figuras geométricas,

Complexas coxas, finíssimas fronteiras de carne e osso, da pele, escurecida como a água depois de cair a noite sobre o mar, libertava-se um distinto livro de poemas com pétalas vestidas de cubos e hipercubos

(E se eu em vez de amar uma Teresa amasse um hipercubo?)

Com madeixas triangulares, e percebi que ele resolvia as equações do terceiro grau como se elas fossem simples flores, pertences ao jardim do amor, e mesmo assim, elas, elas acreditavam que

(Supostamente, nada o fazia prever, e no entanto, misteriosamente, aconteceu, como uma mácula cinzenta de penumbra debaixo de um céu reconstruído de resíduos esféricos que sobraram das brincadeiras infantis em frente à velha escola, quatro paredes, telhado em zinco, e casa de banho completa com cerca de um hectare bordada a capim húmido e algumas pedras cansadas de sobreviverem à escuridão das noites quando os cortinados se enrolam no pescoço esguio do teu vestido encarnado, adoras o vermelho, o sangue, a gravida quando deixa de ser aproximadamente nove vírgula oito metro por segundo quadrado, e talvez por desorientação, é de doze vírgula cinco metro por segundo quadrado,)

Quando se cai nos braços de uma Teresa qualquer; Cravo, Rosa, Crisântemo ou outra qualquer figura geométrica.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:10

24
Fev 13

Desenho letras no muro das tuas coxas onduladas debaixo das gotas nuas de água em silêncio, tenho medo, pergunto-me

E depois? Quando o muro se transformar em jardim com flores de seda e coloridas abelhas cantando, e depois?

Poisadas nos mamilos da sede, sem que eu perceba onde fica o bosque, e a canção que é filha do bosque, e os pássaros, e os restantes muros

Desenho letras nas tuas coxas, e tenho o medo, e a vaidade, e tenho o sentido que não sinto, e depois, sento-me sobre o papel amarrotado das tardes violentas que os segredos do Inverno inventam nas tuas pequenas mãos, tenho pena

Dos teus ínfimos dedos, esbeltos, finos, e transparentes,

Como a água dos rios sem nome, sem destino, livremente correndo até ao mar, correndo, correndo, regressando os pinheiros mansos das eternas manhãs sem vidros nas janelas que têm visão nocturna para as rochas tuas coxas, aquelas

Onde desenhas letras? Exactamente, meu amor, essas mesmo, um muro de carne e sedução, curvadas à direita, e à esquerda, embebidas às vezes, ou sempre, no desejo infinito coração com sílabas de pétalas agrestes, como os livros tristes e cansados dos homens sem nome, sem vida, sem viabilidade económica, sós, e abandonadas

Por quem?

Pelos caminhos onde deambulam peugadas, e algumas delas, poucas, que se escondem nas pedras pequeninas dos teus dóceis dedos de fio iluminado pelos lábios da lua, escrevo as letras que desenho nas tuas coxas, preocupo-me, muito, e pergunto-me

E quando terminarem as tuas coxas? E se eu ficar sem o teu corpo, sem a tua sombra, e se eu perder os teus olhos, a tua boca, e se eu

Te perder numa tempestade de areia?

Gostava das tuas mãos quando me desenhavam letras nas minhas coxas, recordas-me as árvores da nossa infância, a minha, a tua, separadas por um muro alto e fino de cimento armado, eu atirava pedras para o teu território, tu, mais amoroso, atiravas-me rosas em papel, uma tarde, furiosa, eu, parti-te a cabeça com uma pedra, fiquei triste naquele momento, depois, durante a noite, sorri, sorri, sorri até que percebi o que era o amor, a paixão e as pedras não serviam apenas para partir cabeças de meninos mimados, filhos únicos, as pedras também serviam para eu perceber o que era a paixão

Por quem?

Pelos caminhos onde deambulam peugadas,

E,

Invejava a pontaria da avó Silvina e do tio Serafim, lançavam pedras e caiam estrelas do céu, ao revés, eu, lançava uma pedra contra uma árvore (alguém durante a noite escreveu EU MAIS TU – AGOSTO DE 1989) onde brincava um pássaro, e partia o vidro da janela da escola, nunca, nunca tive jeito para o lançamento de pedras e para jogar à bola, e meu Deus, Meu Deus... quantos vidros estilhaçados, quantas espigas de milho esmigalhadas, mas estrelas, não estrelas, nunca tive uma estrela, e por quem?

(E quando terminarem as tuas coxas? E se eu ficar sem o teu corpo, sem a tua sombra, e se eu perder os teus olhos, a tua boca, e se eu

Te perder numa tempestade de areia?),

E invejava as letras desenhadas nas coxas que fugiam como os barcos, leves, com o vento, escorregadios como lânguidos gemidos de orvalho, sentíamos as luzes dos livros embrulhados nas tristes maçãs da macieira do quintal, e subíamos pelas escadas da insónia até chegarmos ao varandim com janelas de sangue onde às vezes dormiam os vampiros, os verdadeiros, aqueles que nos chupavam o sangue antes de adormecermos, os mesmos, aqueles que nos roubaram os sonhos, e sempre belas as fotografias a preto e branco, e um dia, desceremos das nuvens, vamos calçar os sapatos com biqueira pontiaguda e com salto alto que deixamos junto ao Tejo, e talvez, e talvez sobre uma mesa estacionada num dos bares de Cais do Sodré, EU MAIS TU – AGOSTO DE 1989, desça de uma árvore de casca grossa, difícil de decifrar, como as equações com integrais que resolvíamos sentados num banco de jardim, debaixo de uma...

E sobravam-nos, não poderei dizer sempre, mas quase sempre,

Letras do muro das tuas coxas onduladas debaixo das gotas nuas de água em silêncio, tinha medo, perguntava-me

E depois? Quando o muro se transformar em jardim com flores de seda e coloridas abelhas cantando, e depois?

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:42

19
Fev 13

Pilotavas corações nos jardins suspensos da Babilónia, às Segundas, Quartas e Sextas voavas sobre as searas de sorriso que submergiam nos mares distantes das nuvens de gelo que desajeitadamente acordavam dos pulmões de porcelana dos homens prateados com cintos de Cobre, às Terças e Quintas dançavas sobre as mesas do Karamelo Doirado Bar, e aos Sábados e Domingos, dormias como os pássaros nos ramos de papel das árvores de prata, não respiravas, não sorrias, apetecia-te ficar

Triste,

Não havia em ti uma simples corrente de ar que se erguesse dos teus olhos, não havia em ti um aparo à espera de uma caneta recheada com tinta e uma maço de papel mata-borrão, E triste, dizias-me tu quando eu acordava do meu sono longínquo que me levava a atravessar as loucas montanhas do sono,

Triste não haver em nós uma corda de luz enrolada numa janela de mar com periscópio para observação da cidade dos quatro tristes cadáveres de areia, insónia, insónia com poucas palavras entre paredes, pilares e vigas de aço, triste não haver em nós

Eu, tu e ele, Tristes

Um sofá com pele cuticular espera-nos para se alimentar dos nossos ossos, o teu corpo e o meu corpo, esqueléticos, são absorvidos pelas mandíbulas das molas dos assentos com almofadas de orvalho, o lago onde te sentavas a olhar-me enquanto eu pilotava os corações dos jardins suspensos da Babilónia desapareceu quando decidiu a noite esconder-se dentro de uma larva com olhos mórbidos, também eles

Tristes, como nós, Eu, Tu e Ele, e todas as árvores de prata,

Também eles, todos, os habitantes dos jardins suspensos da Babilónia na expectativa de uma nova revolução entre palavras e canções, pedaços de cartão alimentavam os cobertores daqueles que sem casa, iam vivendo nas ruas com edifícios de sofrimento, e quando lhes perguntávamos se eram felizes

Que sim, muito, como nós, Eu, Tu e Ele,

Como nós ao acordarmos e as lâmpadas dos candeeiros poisados sobre as mesas-de-cabeceira, todas, fundidas, sem seguro e inspecção periódica, às vezes, o corredor, é literalmente abraçado a uma coima simbólica por parte de um sombra com braços de cinza, o excesso de velocidade, fatal, contra a porta da casa de banho, de um pequeníssimo postigo de morte, três costelas e um pulmão queixam-se do fumo das plantas que fazem sorrir os homens que pilotam corações de chocolate que vivem nos jardins suspensos da Babilónia, felizes

(Um sofá com pele cuticular espera-nos para se alimentar dos nossos ossos, o teu corpo e o meu corpo, esqueléticos, são absorvidos pelas mandíbulas das molas dos assentos com almofadas de orvalho, o lago onde te sentavas a olhar-me enquanto eu pilotava os corações dos jardins suspensos da Babilónia desapareceu quando decidiu a noite esconder-se dentro de uma larva com olhos mórbidos, também eles), abrem-se as carapaças dos submarinos encalhados nos bancos de areia, à escotilha, um homem e uma mulher e uma criança (não tivemos tempo de determinar o respectivo sexo e a idade), provavelmente do sexo masculino com cerca de seis anos, cor da pele (não determinada), olhos (com a distância não nos foi possível verificar a cor dos olhos), e sem qualquer dúvida trazia ao nível dos ombros um par de asas azul marinho, como os sapatos de verniz que o tio Francisco lhe tinha oferecido, eles, os três orgasmos de sémen perdidos na ocidental praia das línguas de serrim, Tristes, todas, e todos

Esperavam,

Acordavam,

Inseminavam,

Um sofá com pele cuticular sobre os joelhos da cansada nuvem em descidas bruscas dos céus pintados de fresco nos bancos de madeira debaixo dos plátanos-poemas que escrevíamos antes do jantar, triste não haver em nós uma corda de luz enrolada numa janela de mar com periscópio para observação da cidade dos quatro tristes cadáveres de areia, insónia, insónia com poucas palavras entre paredes, pilares e vigas de aço, triste não haver em nós

Eu, tu e ele, Tristes

O cio mergulhado no rio Xisto, barcos de medo pendurados nas janelas viradas para a seara de gelo, nuvens poeirentas nas abraçadeiras das pernas dos pássaros e flores livres entre os corações avermelhados que o saudoso amor engolia nas profundas goelas de saliva que a paixão deixa ficar nas mãos dos pequenos livros de poesia, ontem

Eu, tu e ele, Tristes

Numa cidade de madeira, e

E

E às Segundas, Quartas e Sextas voavas sobre as searas de sorriso que submergiam nos mares distantes das nuvens de gelo que desajeitadamente acordavam dos pulmões de porcelana dos homens prateados com cintos de Cobre, às Terças e Quintas dançavas sobre as mesas do Karamelo Doirado Bar, e aos Sábados e Domingos, dormias como os pássaros nos ramos de papel das árvores de prata, não respiravas, não sorrias, apetecia-te ficar

Triste.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:20

23
Nov 12

Há coisas dentro de mim estranhas

assim

estradas pontes tectos sem madrugada

há coisas assim em mim dentro estranhas

entranhas palavras de dor

sofrer sofrendo o amor de amar uma flor

assim

coitado de mim

sofrendo sofrer amar

amando

as raízes do teu jardim

pontes estradas nas entranhas vidas sofridas,

 

amadas

palavras malvadas dentro de mim

há coisas dentro de mim estranhas

como as luzes que a noite desenha

no térreo pavimento da paixão

a dor

amar amadas as palavras sofridas

as vidas

as horas

todas

as janelas em gemidos sibilados os sofridos jardins entre os parêntesis

entranhas elas todas quando crescem em ti as flores sem destino...

 

timidamente

belas.

 

(poema não revisto)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:01

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