Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

28
Fev 13

Supostamente, nada o fazia prever, e no entanto, misteriosamente, aconteceu, como uma mácula cinzenta de penumbra debaixo de um céu reconstruído de resíduos esféricos que sobraram das brincadeiras infantis em frente à velha escola, quatro paredes, telhado em zinco, e casa de banho completa com cerca de um hectare bordada a capim húmido e algumas pedras cansadas de sobreviverem à escuridão das noites quando os cortinados se enrolam no pescoço esguio do teu vestido encarnado, adoras o vermelho, o sangue, a gravida quando deixa de ser aproximadamente nove vírgula oito metro por segundo quadrado, e talvez por desorientação, é de doze vírgula cinco metro por segundo quadrado,

(acreditei que o seno ao quadrado de alfa mais o co-seno ao quadrado de alfa o resultado é um, incrível, como se a tangente de trinta graus não fosse raiz de três sobre dois),

Dir-me-ás que o triângulo isósceles do segundo esquerdo é loucamente apaixonado pelo triângulo equilátero do rés-do-chão frente, e que são felizes, diria até

Muito,

E tal como o triângulo rectângulo do quinto direito ama loucamente o triângulo isósceles do quatro esquerdo, a hipotenusa ao quadrado é igual à soma dos quadrados dos catetos, e também eles, apaixonados pelo perímetro do círculo com o raio igual à paixão, e se

A paixão ao quadrado é igual ao amor, logo

Qual será a raiz quadrada da paixão?

Não sei nada dessas coisas, tal como nunca percebi o silêncio dos nossos vizinhos que se amam loucamente e têm medo de o assumir, palhaços e palhaços, dentro de um circo denominado tesouro absorto das palavras proíbas, custava-lhes dizerem ou escreverem ou simplesmente no átrio da escola com um ripa de madeira, desenharem na terra húmida

Amo-te Teresa,

(o autor deste texto não ama e tão pouco conhece fisicamente uma Teresa, e é apaixonado por triângulos rectângulos e círculos de luz)

Amo-te Teresa, e enquanto ele escrevia na parede lateral esquerda do átrio da Igreja Matriz, não sendo ela, a matriz, nem quadrada, nem diagonal, nem outra coisa alguma

(apenas o devaneio de um louco que julga ter piada com as porcarias que escreve)

Apareceram treze linda flores de nome Teresa,

Nunca acreditei que no jardim do amor existissem tantas e lindas

Figuras geométricas,

Complexas coxas, finíssimas fronteiras de carne e osso, da pele, escurecida como a água depois de cair a noite sobre o mar, libertava-se um distinto livro de poemas com pétalas vestidas de cubos e hipercubos

(E se eu em vez de amar uma Teresa amasse um hipercubo?)

Com madeixas triangulares, e percebi que ele resolvia as equações do terceiro grau como se elas fossem simples flores, pertences ao jardim do amor, e mesmo assim, elas, elas acreditavam que

(Supostamente, nada o fazia prever, e no entanto, misteriosamente, aconteceu, como uma mácula cinzenta de penumbra debaixo de um céu reconstruído de resíduos esféricos que sobraram das brincadeiras infantis em frente à velha escola, quatro paredes, telhado em zinco, e casa de banho completa com cerca de um hectare bordada a capim húmido e algumas pedras cansadas de sobreviverem à escuridão das noites quando os cortinados se enrolam no pescoço esguio do teu vestido encarnado, adoras o vermelho, o sangue, a gravida quando deixa de ser aproximadamente nove vírgula oito metro por segundo quadrado, e talvez por desorientação, é de doze vírgula cinco metro por segundo quadrado,)

Quando se cai nos braços de uma Teresa qualquer; Cravo, Rosa, Crisântemo ou outra qualquer figura geométrica.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:10

18
Fev 13

Um livro esquecido sobre uma mesa de vidro, os olhos tristes da gaivota quando sobrevoa o oceano acreditando que as horas são pedaços de papel à deriva no mar desenhado na areia por uma menina com lágrimas de vidro em frente a um espelho de pano, dividia-me entre manhãs de desencanto e tardes de loucura, não falando nas noites

Ternura,

Pintávamos os nossos corpos invisíveis com acrílicos que o velho do jardim das Pilas Murchas nos ofereceu no dia de S. Valentim, tu primeiro, eu depois, pintamos o céu e as estrelas e quando nos abraçávamos perguntavam-nos

Vocês são a noite?

Dizíamos-lhes que sim, claro, porque ter medo, vergonha, dizíamos-lhes que éramos a noite disfarçada de janelas com vidro duplo, cortinados de açafrão, e na porta de entrada para a gaveta onde guardávamos os pincéis, as tintas, as telas, a mãe das telas, e os filhos das telas, desenhos, construídos, em construção, alguns desmaiados e à espera da chegada do 112, outros

Amarfanhados como ervas daninhas recheadas de restos de cigarro e pólen de haxixe que saboreavam os desassossegos lábios das abelhas revoltadas contra as árvores do recreio, as tuas lágrimas de luz morriam como morreram todas as coisas que amei, os livros, as crateras dos desejos secretos quando a noite me vinha buscar e eu sentia-me transportado para dentro do teu coração de aço, outros

Sem vida, já, estendidos pelo corredor, o cheiro putrefacto da tela misturada com a tinta, um cadáver de quadro sem tecto, morada, destino, ou vida, pindérico pequeno-almoço que me serviam na enfermaria e eu sabia das lágrimas circulares depois de lhes calcular a área e o respectivo perímetro,

Qual é o perímetro de uma lágrima?

Partindo do princípio que as lágrimas não são círculos, porque têm volume, e que o perímetro de uma lágrima calcula-se elevando a tristeza ao cubo multiplicando pela cor dos olhos

Qual é a cor dos olhos dela? Verdes, verdes, tem a certeza?

Então diria que o perímetro da lágrima dela é de três vírgula catorze verdes searas lineares...

(Pintávamos os nossos corpos invisíveis com acrílicos que o velho do jardim das Pilas Murchas nos ofereceu no dia de S. Valentim, tu primeiro, eu depois, pintamos o céu e as estrelas e quando nos abraçávamos perguntavam-nos), se éramos a noite disfarçada de noite, tu, respondeste-lhe

Não, nós somos a noite disfarçada de amor, com beijos, com asas, com vento e palavras parvas, com tardes cinzentas, horas embebidas em ponteiros de relógios suspensos nas teias de aranha das madeixas dos limoeiros da dona Aninhas, do galo que não se cala, todos os dias, rabugento, enferrujado, rouco como os cigarros de arame, tristes, tristes as tuas mãos com silêncios em penas amarelas, verdes, azuis, encarnadas

Pareces um palhaço com ventoinhas nas pernas e embrulhado num tecido quadricolor, depois tiveste o azar do teu hipercubo se apaixonar por um gato, o gato mordeu-o e o hipercubo fugiu, depois veio-te a carta do tio Hilário a comunicar-te que Venho por este meio informar Vossa Excelência que os livros da prateleira número três, rés-do-chão – Direito, por minha morte, pertenceram à Biblioteca Pública da Aldeia das casas de vidro

(Que se foda o velho, nunca gostou de mim..., que meta os livros pelo rabo acima)

Quero lá saber dos livros, do amor, do tio Hilário, do perímetro, do volume, ou da área de uma lágrima, Porquê? Sou mais feliz por saber essas coisas?

Não quero saber,

Não me interessa,

Quero lá saber da paixão do meu hipercubo por um ranhoso gato, mimado, filho único como eu e maluco, como diz o povo, ai o povo diz tanta coisa

Só não diz às vezes aquilo que devia dizer,

Como a gaveta mortuária onde dormem as telas mortas, como a gaveta dos sonhos onde dormem um par de chaves e uma lanterna, como

Quero lá saber dos livros, do amor, do tio Hilário, do perímetro, do volume, ou da área de uma lágrima, Porquê? Sou mais feliz por saber essas coisas?

Não quero saber,

Não me interessam,

Como será um hipercubo loucamente apaixonado por um gato? Consegues imaginar?

Claro que consigo

É como nós,

Um dia é verde, outro dia é encarnado, e às vezes alterna entre o azul e o amarelo, e nunca, e nunca elas se queixaram por eu não saber calcular a área, o perímetro ou o volume de uma simples lágrima, porque o segredo está

No coeficiente de tristeza.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:00

19
Abr 12

Procuro nos olhos oblíquos da manhã

a bissectriz do cansaço

o meu corpo transforma-se em matriz composta

e dos meus braços

crescem linhas paralelas sem destino

algures suspensas no infinito

 

elevo ao quadrado a minha solidão

e à raiz quadrada do sofrimento

adiciono uma noite sem nome

sem horários

 

sem nada

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:39

02
Jul 11

Mergulho

Dilato-me no vácuo como um sistema de equações

Matrizes alicerçadas aos meus braços

E nas minhas pernas as integrais triplas

 

O peso mingua e o meu corpo em pó

Amarrotado a uma folha de papel

Procuro o meu centro de massa

E um ponto esconde-se na manhã

 

O sol em mim que se derrete

E alimenta as veias do meu cansaço

Às árvores os pássaros

Ao poema as palavras

 

Que jorram do meu sangue em cadáver

E se cruzam na esquina da rua

Putas em putas os cabelos ao vento

E nas escadas do sótão

 

As migalhas da miséria

Pedacinhos de piolhos

Agarrados ao cobertor

E roem-me os tornozelos de números

 

Complexos infinitos e reais

Vem o vento e leva o cheiro de mim

A carne podre numa cama ancorada à janela

No sótão da casa

 

Casa? Quatro paredes de cartão

No tecto as estrelas do céu

As montras das lojas falidas

E do soalho as pedrinhas do passeio

 

Mergulho

Em ti oração da manhã

E dizem-me que Deus sentado no poleiro

Indiferente arrogante

 

Um político de merda

Como todos as merdas

Indiferentes

Arrogantes.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:43

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