Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

15
Abr 16

Tenho medo. A noite traz os esqueletos da insónia, perfilam-se em frente ao meu quarto, e sei que brevemente haverá uma revolta.

Tenho medo,

À minha volta brincam as flores da Primavera, loucas, loucas como as serpentes bronzeadas dos dias sem escrever,

Das palavras, o silêncio da madrugada que acorda embriagada,

Tonta, alimenta-se das minhas mãos como se alimentam os pássaros dos meus sonhos, medo, tenho medo.

Tenho medo da noite,

Do sifilítico cansaço da espuma do mar,

Dos barcos encalhados junto aos esqueletos, em frente ao meu quarto,

Fujo deste esconderijo,

Fujo desta cidade amaldiçoada pelo vento…

Medo.

Sinto o peso do xisto sobre os meus ombros,

E o bolorento desejo guardado na minha algibeira,

Tenho medo,

Sim,

Sinto a maldição das Calçadas que dormem no rio,

Sim,

Sinto a solidão das manhãs a olhar para o infinito, assim, assim como olham os esqueletos em frente ao meu quarto,

O peso da lua,

O peso do medo abraçado à lua,

Do medo,

Hoje, hoje acordei desconectado das sílabas do prazer,

As flores do meu jardim, tristes,

As bananeiras do meu jardim, contentes,

E os esqueletos que habitam em frente ao meu quarto…

Ausentes,

Diminutos segundos de lentidão,

O medo.

Sinto.

A lentidão dos ossos dos esqueletos em frente ao meu quarto, homens, mulheres, crianças, plantas e alguns animais de estimação,

Um cartão de cidadão grita,

Zurra,

Pimba…

E morre de overdose,

Sei que sim,

Sei que este medo pertence à neblina da minha terra, sei que este medo pertence às desavenças cotidianas, embargadas sonolências das noites em papel,

O medo,

No medo,

Sinto.

Sinto a sombra do meu esqueleto de vidro,

Sinto a sombra do meu cabelo quando chove torrencialmente no meu olhar…

E regressa o medo,

A morte,

A morte de um esqueleto.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 15 de Abril de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:40

20
Mar 16

Os dias encostados à maré, um sorriso de sémen aprisionado na garganta, sinto o peso do corpo sentado no esplendor da noite, entrelaço as mãos, começo a rezar…, esqueço-me de mim, de ti, dela, e dele, nunca percebi o silêncio das aves, dos pinheiros abandonados entre os rochedos do desejo, abro as pernas, sinto-te em mim, sorris

Amanhã um jazigo de sol entranhar-se-á em ti, à noite regressavam com os guizos da paixão, a borboleta poisada no teu ombro, meu amor, as imagens do nosso sofrimento suspenso nas sombras do esquecimento, estou só, sem o teu peso no meu peso, um dia voltarás a mim,

Sorris, fugimos do caos como fugiram todas as paixões deste areal, um barco morrerá nas tuas mãos, um marinheiro morrerá na minha mão, ele sofre, ele sente… o meu peso?

As ruas desertas, o sexo misturado no luar, os dedos meus encarnados no teu peto, e sorris…

Partir, os dias encostados aos meus dias, imaginas-me dentro de ti, eu, e eu… tão longe da tua palavra, do teu silêncio quando o meu arde na fogueira do adeus, estou só, sozinho neste inferno de morte, a vida desgraçada descendo a calçada, o corpo amarrado aos cortinados do medo, o jazigo da paixão encolhe-se no seu esqueleto, hesito, tenho medo, e volto a fugir, amo-te, amo-te como jangada do poema deambulando os alicerces cromados do circo da alegria, hoje tiraram-me um retracto, ficou mal, estou velho

Velha, cansada deste inferno encostado aos estilhaços da saudade, encosto-me a ti, meu amor, encosto-me a ti sabendo que nunca mais voltarás a minha noite,

Cansado,

Estou velho. Pareço um farrapo engatando gajos antes de cair a noite, sonho, sonho com as viagens ao escuro, a fome, lá fora, vive, mora e morre a fome, meu amor, lá fora as esquinas do sofrimento, as velhas nuas avenidas das orgias em papel, a tinta desta caneta, só, sozinho, esquecido nesta alucinada grandeza dos povoados beijos do Além…

Amanhã, Francisco, amanhã…

Sinto-te, sento-me no teu corpo de velhice, sempre o sono, a amargura, e nada de beijos, meu amor, e nada de beijos, meu amor…

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 20 de Março de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 01:09

13
Fev 16

A noite desesperada

No labirinto da palavra

Todas as flores do teu jardim

Assassinadas pelo coração do poema

Absinto

O mínimo tempo consagrado aos insectos

Que poisam no teu olhar

Imaginávamos o silêncio

Nas treliças da saudade

Sempre em desespero

Neste labirinto de espuma

Camuflada pelas mandibulas do cansaço

O louco sorriso

Nas avenidas do sofrimento

Que absorvem a cidade do medo

O teu corpo disperso na escuridão

Descendo do luar

Até à minha mão

(A noite desesperada

No labirinto da palavra

Todas as flores do teu jardim)

Mortas

Trémulas segurando uma velha esferográfica

Escrevia em ti o sentido lapidar da timidez

Como um rochedo de insónia

Navegando no Oceano

A morte

Vivida a cada segundo de luz

A morte

Vivida a cada milímetro de tristeza

E voava nos teus braços

E voava nas tuas coxas

Até adormecer junto ao mar

A noite

O labirinto da palavra

Despedindo-se das uniformidades da sentença escrita

Morte

Até que as lágrimas se transformavam em flores assassinas

O dia inventado nas pequenas limalhas do desejo

Acordávamos sobre os lívidos secretos da angústia

E terminávamos nos limos do corpo

Desejado

Indesejado

Do corpo

No corpo

Do majorado envenenado

Observávamos as gaivotas construídas no papel pelas mãos do pôr-do-sol

E nada mais tínhamos nas veias

Apenas sangue sofrido

E pedacinhos de areia…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

sábado, 13 de Fevereiro de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:34

28
Dez 15

Simplifiquei o cansaço,

Libertei-me das tuas garras e hoje consigo voar…

Sou livre de amar,

Sou livre de ser amado,

Ou nada das duas, é-me indiferente,

Simplifiquei o desejo,

E hoje é muito mais fácil desejar…

Ser desejado,

Ou nenhuma das duas,

É-me igual,

Indiferente,

Mortal,

O salto para os teus longínquos e proibidos braços,

Estou só, alguns livros e nada mais,

Simplifiquei tudo…

Só não consigo simplificar o amor,

Tão difícil amar…

Amar aquele que nos ama,

Tão difícil amar…

Aquela que nos ama…

Simplifiquei o cansaço,

As noites mal dormidas

Por motivos de preguiça,

O abraço,

Mortal

O salto para o teu olhar,

Fico cego,

Absorvido pelas insígnias do destino

E afins,

Simplifiquei o cansaço,

Libertei-me das tuas garras e hoje consigo voar…

 

Só.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

segunda-feira, 28 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:58

31
Out 15

Diz que disse sem o dizer

Dizendo que eu era um monstruoso esqueleto com asas

Que voava enquanto todos dormiam

E que tinha uma cidade só minha

Diz que disse sem o dizer

Dizendo

Mas disse-o

Esquecendo

Que eu voava nas noites de insónia

Que era monstruoso

Que tinha alergia aos rochedos da solidão

Não o dizendo

Disse-o

Um dia

Nos meus lábios

Emagrecidos

Pobres

Descarnados pelo veneno da madrugada

Que só o Inverno consegue abraçar

Diz que disse sem o dizer

Dizendo

Que um dia

Qualquer dia

Eu

O esqueleto monstruoso com asas

Ia morrer

Sem o saber

Dizia-o

Que disse

Sem o dizer

Inventando-me sonhos que eu não queria

Nem dormia

Com medo das suas garras de chocolate…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:11

18
Out 15

desenho_18_10_2015.jpg

Fontinha – Outubro/2015

 

Ontem tinha medo do escuro,

Meu amor,

Hoje tenho medo da paixão,

Dos pássaros mais tristes que habitam o meu jardim,

Ontem, ontem não,

Meu amor,

Hoje tenho medo das pedras, porque não falam,

Porque, também elas, tal como eu,

Não amam,

Nem choram,

Ontem sentia na minha mão o cansaço da vida,

A não alegria de viver,

Fingia a partida,

Fingia amar sem saber que fingia…

Fingir que não sofria,

Hoje, meu amor,

Hoje tenho medo da paixão…

Sofrida,

Vencida,

Porque ontem tinha medo,

Medo do medo,

Mas hoje, meu amor,

Hoje aprisionei o medo num cubo de vidro,

Vejo-o, toco-lhe nas faces…

Mas ele deixou de pertencer aos vivos…

E é apenas uma palavra sem significado.

 

Francisco Luís Fontinha – Algures fora de Alijó

Sábado, 17 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:05

10
Ago 15

desenho_11_08_2015.png

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

Desta carta escrita

Nada restará

Será pó

Melodia desencantada

Como triste

A madrugada

Como triste a noite magoada

Desta carta…

Nenhuma réstia de silêncio sobejará

A enjoada jangada que transporta a solidão

Cai sobre a sombra desorientada dos meus braços alicerçados à terra

E eu sonharei,

 

Um dia

Uma cidade inventada

Nascerá no meu peito

Com ruas

Casas desabitadas

Gente cansada

Crianças à volta das árvores…

Gritando junto aos barcos em papel,

 

Não tenho medo

Não pertenço a esta melancólica avenida

Irritada

Sangrenta

E desta carta…

 

Pó.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 10 de Agosto de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:33

27
Jul 15

desenho_27-07-2015_2.png

 (desenho de Francisco Luís Fontinha - Alijó / IPO-Porto, 27/07/2015)

 

Vivo imaginando corvos poisados neste quarto cinzento,

Sinto ao longe os barcos em círculos atravessando a tempestade,

Esta cidade morre como morreram todas as flores do meu jardim,

E mesmo assim…

Não me apetece escrever neste lugar sem nome,

Não vejo as estrelas,

Perdi a noite

E os andaimes da escuridão,

Perdi a paixão,

Deixei de ter o rio nas minhas veias,

As calças cresceram,

Pertencem a outro arbusto,

 

E estou aqui… como um rochedo,

Perdido,

Vestido de medo,

 

Sentado numa cadeira invisível.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Porto, 27/07/2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:33

21
Jun 15

Tenho medo de me sentar na esplanada

Junto ao mar,

Tenho medo de me apaixonar,

Pelo mar,

Pela madrugada vestida de mar,

Tenho medo dos sorrisos

E do luar,

Da noite,

Do dia vestido de noite,

Medo,

Medo de caminhar sobre as ervas daninhas e belas,

Medo das ervas menos belas,

E das estrelas

Em forma de velas,

Os barcos cruzam-se nas minhas veias,

Não têm marinheiros,

Mulheres a bordo,

Imagens de cadáveres espelhados

Na sombra da tarde,

Preparo-me,

Sem saber do que tenho medo,

Mas tenho medo do teu olhar…

Vestido de saudade.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 21 de Junho de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:44

20
Jun 15

O fim…

Enigma sensação de distância,

Os objectos são coisas vivas sem vida,

Imagens heliográficas com vista para o mar,

O estranho,

Negro o homem da sombra em frente ao espelho da morte,

Será que sente?

Sentir… o quê?

A sorte dentro do túnel de vento,

Sem asas,

Aerodinamicamente estável,

Seguro e alicerçado aos cinzentos medos da tarde,

 

Sem asas,

Será que sente?

Sentir… o quê?

As lágrimas da gente…

O fim…

O meio…

Cubos,

Círculos,

Ímpares equações embrulhadas no sono,

Drageias de esperança…

E nada,

E ninguém,

 

Consegue afagar esta criança…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 20 de Junho de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:03

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