Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

06
Jul 11

… Ou a puta da mania de quem se julgava, julga, mais esperto do que os outros,

O Chico esperto de mãos na algibeira, a imersa lentidão dos cigarros avulso nas clareiras da manhã, o fio de sémen em remoinhos que se desprega dos lábios de uma gaivota, o murro no estômago, pluf pum pum, e testículos abraçados à janela, o tecto sorri e o cuspo de gesso em estalidos que dos intestinos começa a sair e de imediato se ajoelha no soalho, o prato da sopa inclinado, a mesa da cozinha em três pernas e a quarta perna, falta-me a quarta perna grita a mulher, a quarta perna engessada do mergulho da cerejeira abaixo, só temos sopa, pensa ele enquanto em esforços conturbados discute com a colher em punho e apontada à porta de acesso à despensa, a mediocridade da fome, a despensa despida, seios ao léu, púbis emagrecido no interruptor na parede, os seios chupadinhos como as tetas de uma cadela vadia, falta-me a quarta perna da mesa, falta-me pão, falta-me a paciência para te aturar, ouve ele enquanto em manobras de reanimação tenta equilibrar o prato da sopa,

- Três quilogramas de saliva e os dentes que mastigam em seco,

A pobrezinha da sopa tomba e escorrega milímetro a milímetro pela toalha de plástico aos quadradinhos, falta-me tudo na voz rouca da noite ela de sorriso espetado na lareira, e ele furiosíssimo numa luta de galos a tentar estancar o derrame, o sangue a dilatar e das veias a mortalha dos cigarros avulso misturados com o murro no estômago,

- E a língua amarfanhada ao céu-da-boca, a secura dos dias esquecidos no sofá a olhar os retratos pendurados na parede da sala, e ele em voz alta, e o avô tal foi-se, e o outro avô também se foi, e eu, e eu também me vou,

Encosto as mãos à barriga e vou-me corredor fora,

A dor intensa que os pássaros deixam pela manhã, as asas que batem e se debatem contra o rápido das cinco horas, Porto-Lisboa, Lisboa-Porto, Lisboa-Lisboa, Tejo-Tejo, a cacilheiro em movimento curvilíneo a assustar os peixes, a tia à minha espera no Pinhal dos Frades e eu dentro do Tejo algemado à maré,

- Que saudades meu filho…

O cheiro dos pinheiros em mim, emagreci tia diz ele, evaporaram-se de mim cerca de dez quilogramas de argamassa, três sacos de cimento e cem litros de água, é a fome tia, é a fome, sabe tia, a fome é como o cacimbo em Angola, começa a descer em nós lentamente e quando damos conta, tia, os ossos tia, lembra-se?, o cacimbo a entranhar-se-lhes e eles em gemidos quando a insónia não nos deixa adormecer,

- Há quanto tempo,

Os ricos com insónias e o medo de perderem o dinheiro, e os miseráveis tia, os miseráveis com insónias porque não têm dinheiro para comer, porque os ricos tia, os ricos podem levar murros no estômagos,

- E os pobres filho?,

Os pobres tia, os pobres há muito que deixaram de ter estômago, é como o cacimbo em Angola tia, lembra-se tia?, desce devagarinho e entranh...

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:50

02
Jul 11

Mergulho

Dilato-me no vácuo como um sistema de equações

Matrizes alicerçadas aos meus braços

E nas minhas pernas as integrais triplas

 

O peso mingua e o meu corpo em pó

Amarrotado a uma folha de papel

Procuro o meu centro de massa

E um ponto esconde-se na manhã

 

O sol em mim que se derrete

E alimenta as veias do meu cansaço

Às árvores os pássaros

Ao poema as palavras

 

Que jorram do meu sangue em cadáver

E se cruzam na esquina da rua

Putas em putas os cabelos ao vento

E nas escadas do sótão

 

As migalhas da miséria

Pedacinhos de piolhos

Agarrados ao cobertor

E roem-me os tornozelos de números

 

Complexos infinitos e reais

Vem o vento e leva o cheiro de mim

A carne podre numa cama ancorada à janela

No sótão da casa

 

Casa? Quatro paredes de cartão

No tecto as estrelas do céu

As montras das lojas falidas

E do soalho as pedrinhas do passeio

 

Mergulho

Em ti oração da manhã

E dizem-me que Deus sentado no poleiro

Indiferente arrogante

 

Um político de merda

Como todos as merdas

Indiferentes

Arrogantes.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:43

09
Jun 11

Chego a casa e os móveis enferrujados, escondidos por panos envelhecidos no tempo, o cheiro a mofo cansado e aflito pela minha ausência, enrolo o pano que cobre o sofá, atiro-o indiscretamente e vai cair precisamente sobre as cinzas da lareira, e há quantos anos as cinzas aqui, suspirando dia e noite pela minha sombra, sento-me no sofá e dou-me conta do regresso, uma mola partida e o rabo encaixado no escuro, os meus ossos envelheceram e o jardim coberto de vegetação, silvas, tojos, ervas…, irreconhecível.

 

- Há quantos anos eu fora, há quantos anos eu distante, perdido, esquecido,

 

As portadas das janelas recusam-se a abrir, de braços cruzados olham-me, e porque me olham elas, estarei assim tão diferente?

 

- Há ratazanas cá em casa, penso eu, pedacinhos de papel mastigado junto ao rodapé, e os livros já eram, evaporaram-se como gaivotas junto ao mar,

 

Nada me resta, meia dúzia de destroços e enferrujados. Experimento abrir delicadamente a torneira do lavatório, queixa-se do reumático e cospe fios de lama, que grande merda a minha vida…

 

Batem à porta, ainda agora regressei e já uma velha alcoviteira vem verificar com os próprios olhos a minha miséria, as notícias correm rápido, e agora com estas geringonças da internet, com estas coisas da internet é num instante que vêm até nós, só pode ser a vizinha, a velha Adosinda, e recordo-me de a ver na cama, e eu em passinhos de lã ia até ela, dava-lhe um beijo e ela, ela com cinco coroas para comprar rebuçados, há quantos anos tia Adosinda,

 

- Meia dúzia de destroços e ainda nem consegui abrir as pestanas da casa, a luz foi aos poucos fugindo conforme os meses passavam e ninguém, ninguém para pagar a conta,

 

E saia da escola apressado, corria pelos quelhos em direcção a casa e ela sentada numa cadeira, os cabelos brancos, e na escuridão do quarto via uma auréola sobre a cabeça dela, são os anos meu filho, são os anos, buracos no soalho, nuvens no tecto e nas paredes, das paredes via sorrisos,

 

- Há ratazanas cá em casa,

 

Abro a porta e a velha Adosinda a olhar-me, de cima a baixo, do lado direito ao lado esquerdo, e, e meu filho, como tens esse cabelo e essa barba, estás velho, são os anos tia, são os anos,

 

- Sinto as ratazanas no forro da casa,

 

Chego a casa e os móveis enferrujados, escondidos por panos envelhecidos no tempo, o cheiro a mofo cansado e aflito pela minha ausência, enrolo o pano que cobre o sofá, puxo de um cigarro e aos poucos o cigarro treme nos meus dedos, da rua vem até mim o choro de uma criança, e imagino, imagino como tudo seria mais fácil se eu tivesse regressado mais cedo e não envelhecesse como uma oliveira cheia de feridas no peito,

 

- Há ratazanas cá em casa, a tia Adosinda abraça-me e deixa-me um beijo na face recheada de pêlos, abre-me silenciosamente a mão e coloca cinco coroas, diz ela, é para comprares rebuçados…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

9 de Junho de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:37

29
Mai 11

Sou prisioneiro da miséria

Engomado pelas nuvens em revolta

Sou mendigo revoltado

Nas montras de café à minha volta,

 

Sou presente envenenado

E distribuído pela manhã às árvores vagabundas

Milhares de pássaros suspensos nos meus olhos

Nas minhas mãos sujas nas minhas mãos imundas,

 

Quem quer um desempregado

Quem quer um monstro escondido numa folha de papel…

Quem quer palavras comer

Palavras cansadas palavras amarradas por um cordel

 

À minha espera no portão de Luanda,

Quem me quer quem me quer

Folha de plátano nos meus lábios sedados

E envenenados por sílabas de aluguer,

 

Canso-me nas ruas da cidade

Farto-me da prisão Portugal

Sou prisioneiro da miséria…

Sou homem ou sou animal?

 

 

Luís Fontinha

29 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:45

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