Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

14
Ago 14

Uma casinha habitada por pequeníssimas lâminas de papel,

um coração de cacimbo voando sobre as sanzalas com telhados de insónia,

um homem, um poeta..., e a amante do poeta,

um corpo pendurado na preia-mar,

que espera o regresso do sonâmbulo cansaço da madrugada,

o silêncio disfarçado de mendigo passeando-se pelas ruas da cidade,

uma janela que nunca, que nunca se abre,

um poema nas mãos da clarabóia com braços de luar,

uma casinha,

e lâminas de papel,

um sorriso, um desejo... e três círculos de luz nos lábios do pôr-do-sol,

o sonho...

 

As paisagens pigmentadas nas paredes da casinha,

as palavras acorrentadas no estendal poético,

uma eira deserta, uma eira de vinil girando na noite...

e o sonho,

e o lugar que me falta alcançar antes de morrer,

a escola morta, a escola um amontoado de escombros,

cadernos apodrecidos,

quadriculados momentos que ficaram sob a árvore de sisal,

um menino brincando com um velho “chapelhudo”...

e um triciclo com o assento em madeira,

o mar, o mar do Mussulo em tracejadas rotações de amar,

no sonho, no sonho de voar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:29

01
Ago 14

Tenho no meu peito um fóssil,

uma lâmina de aço laminado,

tenho no meu peito uma cidade, uma mulher que habita nessa cidade, uma lâmina...

que me estrangula, que me absorve,

e engole,

nas noites de Sexta-feira...

 

Há um triste olhar que me acompanha desde as ruas de Luanda,

olhava as sanzalas, inventava grãos de areia no Mussulo,

desenhava peixes nos machimbombos com coração de granito,

ouvia, às vezes, um grito...

e engole,

nas noites de Sexta-feira,

 

Há um apito quando oiço a voz do silêncio,

uma criança com mãos de sisal,

deitada na eira de Carvalhais,

tenho no meu peito um fóssil,

um lâmina de aço laminado,

uma luz esculpida na calçada do abismo...

havia entre nós um muro amarelo,

havia ao longe um rio embriagado,

eu, eu sorria,

eu, eu descia... até que os tentáculos do desejo me levavam,

e quando regressava,

o apito... apitava...

 

O vício vomitava sílabas com sabor a alumínio,

e eu, eu dançava sobre uma nuvem de nada,

que me estrangulava, que me absorvia,

e engolia,

nas noites de Sexta-feira...

… e percebia o significado de liberdade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:15

11
Jun 14

Deixei de sonhar,

a vida entranha-se nos meus ossos tridimensionalmente aos soluços,

e eu, às vezes, percebia que havia uma parábola no meu olhar,

comecei a despedaçar imagens, comecei a desperdiçar curvas, quadrados e triângulos,

os sonhos iam desaparecendo, como a chuva, aos poucos, misturada com finíssimos raios de sol,

e em vez de sonhar,

comprava num quiosque das redondezas algumas gramas de noite,

pensava eu que era o esqueleto de verniz mais feliz da minha cidade,

não o era,

e... e nunca o fui,

depois regressaram aqueles malditos pássaros de aço,

tão esfomeados que, que comecei a trocar os poucos beijos que me sobejaram por andorinhas de papel,

 

(batem à porta)

 

É o meu vizinho a queixar-se que os meus sonhos não o deixam adormecer,

respondo-lhe que..., que eu não sonho,

que... que há muito deixei de sonhar,

escrever,

e amar,

 

(o tipo ateima que sim, que são os meus sonhos,

canso-me...

e mando-o foder com todas as letras...)

 

São tristes os candeeiros da minha rua,

não respondem às minhas questões e anseios,

ignoram-me...

e quantas vezes... nem servem para me iluminarem,

abaixo os candeeiros da minha rua,

a minha rua...

e esta estonteante cidade,

a que pertenço e que me engole a cada milímetro de solidão,

 

(batem à porta)

 

(o tipo ateima que sim, que são os meus sonhos,

canso-me...

e mando-o foder com todas as letras...)

 

Deixei de sonhar,

deixei de ver as sanzalas iluminadas pelo doce luar,

deixei de ouvir o melódico som dos mabecos,

e da espuma brilhante do mar do Mussulo,

dois ou três caixotes em madeira apodrecida,

e apenas uma pequena caixa de sapatos com um, com... com dois, talvez três sonhos,

um avião telecomandado,

e livros do meu pai,

um par de calções,

e... e alguns tarecos,

e os sonhos?

Deixei de sonhar e voava, e voava quando calçava as minhas sandálias de couro...

 

(batem à porta)

 

É o carteiro!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 11 de Junho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:15

12
Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Há no teu sangue a paixão do amanhecer, penso eu,

vives como se fosses uma árvore suspensa na solidão,

choras, sonhas? Há em ti as insígnias da madrugada,

como lisas paredes ente a montanha e o mar,

há no teu sangue a saudade da vida, dos telhados em zinco perdidos nos velhos musseques...

há no teu peito uma rosa dentada, uma Bedford amarela prisioneira a um cordel imaginário, sem folgas, sem ruas, esplanadas, ou... ou simples palavras,

 

Há no teu corpo uma âncora em papel que te fundeia ao cais da dor,

âncora salgada e filha do barco marinheiro em combustão,

vives no teu sangue como serpentes envenenadas, tristes... e ausentes,

há no teu sangue a noite onde escreves poemas,

inventas rios e dos rios... recordas-te do rio Congo? E das bananeiras pedindo-te perdão...

… ou... ou quando te deitavas na areia límpida do Mussulo,

 

Há nas tuas veias o sangue da paixão, penso eu,

aquele que te alimenta, o penhasco bravio dos pinheiros mansos,

há em ti cortinados que encerram as janelas do teu olhar,

meigo como as gaivotas, colorido... sensato, há no teu sangue o meu sangue,

o sangue dos livros que leste e depois... apenas lá,

lá... no longínquo Oceano de lata.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 12 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:02

16
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

porque me procuram nas incendiadas sanzalas do prazer

não sendo eu um homem como os homens das bandeiras embriagadas

porque me procuram nas entranhas manhãs de cacimbo

eu escondido no zinco telhado do musseque alvorado

porque sou assim

um casebre sem esqueleto e ignorado

um imbecil que em tudo acredita

e que procuram como se fosse um objecto para reciclagem

usa-se

deita-se fora

e nasce em ti o dia ensanguentado das tristezas noites junto ao Mussulo

porque sou um um monstro vestido de negro

 

(como o dizem quando me chamam

e acordam

em todos os silêncios do medo...)

 

porque finjo que sou amado

porque acredito eu no amor

quando o amor é uma caravela à deriva no triste Oceano

porque me procuram nas incendiadas sanzalas do prazer

porque sou um canino disfarçado de desenho animado

porque me dizem que sou um poema odiado

palavras da merda escritas por um gajo de merda

porque acredito

se nunca deveria acreditar nas manhãs sem nuvens

porque são falsas

e logo em seguida

ejaculam as gotinhas amargas da chuvinha colorida...

 

(como o dizem quando me chamam

e acordam

em todos os silêncios do medo...)

 

sou um gajo porreiro como o são todos os cadáveres da morgue do púbis amanhecer

porque sou um imbecil sentado num banco de jardim

espero as ripas madres em madeira apodrecida

finjo que sou amado

e todos o sabemos que não o sou

porque apenas pertenço aos corpos dilacerados

dos musseques adormecidos

doridos

mórbidos entre as espadas dos livros em poesia

e as palavras semeadas nas tuas coxas de terra fértil...

esperam as sementes da alegria

como se fossemos apenas vozes entrelaçadas como dedos em vaginas acorrentadas às sílabas inanimadas...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 16 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:33

28
Jul 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Esquilos, nozes em vozes, mamilos denegridos, absortos, lábios lânguidos, corpos absolutamente sós, como eles, e como nós, os vizinhos quando lhe batiam à porta em maciça madeira, ele, ainda embriagado pela poesia não escrita, escondia-se, fazia-se... morria, não percebendo depois, que tudo era a fingir, acordava, voltava a dormir, deixou de sorrir, deixou de viver, não queria passear-se pelas cansadas margens de um doente rio, vivia-se, e ia-se vivendo, não sabendo, nunca, o horário penumbro das amendoeiras em flor,

Descia-se,

Subia-se,

E chorava-se,

Esquilos vaidosos roendo nozes de brincar, fantasia, histórias ao almoçar, sobre uma pequena mesa, de pedra, no quintal, uma árvore e um pássaro, preto, bico amarelo,

Melro?

Melro, talvez, porque não?

Inchados, os pilares de areia que seguram as amarras das tristes varandas com murchas flores, ao longe, a praia, o silêncio, o corredio de machimbombos vomitando sonhos adormecidos entre o Baleizão e o Mussulo, batiam-me à maciça madeira porta, eu, eu escondia-me, ou simplesmente berrava

Não estou em casa, hoje,

E eles, elas, acreditavam..., tão parvos, e continuava fingindo dormir, quando na verdade, eu, eu estava morto, desde criança, morri, recordo-me vagamente, tinha alguns poucos, não muitos, seis anos de vida, lembro-me como se fosse hoje, era Setembro, brevemente começavam as vindimas

O que são vindimas, pai?

É o apanhar das uvas...

Uvas, o que vão uvas, pai?

Não percebia que as videiras

Pai, sim filho, o que são videiras?

Não percebia que as videiras davam uvas, que existiam cachos, e lembro-me como se fosse hoje, era Setembro, quase, quase começavam as vindimas, e lembro-me, morri, depois, embrulharam-me num lençol de água salgada, permaneci assim cerca de vinte e oito dias, era Outubro, caiam as folhas das árvores, e eu, eu perguntava-me porque caiam as folhas das árvores,

O que são vindimas, pai?

É o apanhar das uvas...

Uvas, o que vão uvas, pai?

Não percebia que as videiras

Pai, sim filho, o que são videiras?

E pela primeira e última vez, eu, eu tive vergonha de perguntar ao meu pai

Pai, porque caem as folhas das árvores?

Eu tive vergonha de perguntar ao meu pai se esta terra era para sempre ou apenas para eu brincar, e começaram as chuvas, e o frio, a geada e a neve, e eu, eu morto, fui ficando, fui ficando... embrulhado num lençol de água salgada.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:58

27
Jun 13

foto de : A&M ART and Photos

 

São... oiço-a no fino pano de espuma, que nos separa, oiço-a do esconderijo com folhas de azedume e janelas de neblina

São nove e qualquer coisa...

Antes das dez, presumo eu, nunca tive um relógio, não por difíceis condições económicas, mas porque sempre achei ser um utensílio, Objecto? Quase, recordo-o agora

(Objecto quase – José Saramago)

Desnecessário, pergunto-me para que me serve um relógio se eu nunca, nunca lhe obedecia, ou minto, fui um servo escravo dele, mas hoje, hoje não o sou, deixei de o usar, tenho-o poisado sobre a cómoda, passo por ele, logo de manhã, indiferente, sublime a luminosidade que consigo observar-lhe quando a luz incide sobre o mostrador com números brilhantes, a princípio, a princípio fiquei na expectativa se aguentaria viver sem ele, e consegui, e sinto-me feliz, muito feliz...

Claro que minto, caro que o tive e deixei de o usar,

O amor?

Entre dois pontos com coordenadas tridimensionais, algures no espaço, com apenas três coordenadas, e um referencial, percebo, que ele, o amor, vive, respira, habita nos corpos mais lentos da cidade, movimenta-se com dificuldade, é mutante, e raras vezes aparece depois de encerrarmos as luzes dos candeeiros a petróleo espalhados pelos silêncios dela,

Oiço-a

São nove e qualquer coisa...

Ainda não dez, brevemente, depois como uma louca corrida em direcção ao fim do corredor, ele, desaparece pelas sombras submersas nos cobertores dos divãs do amor, as escadas em madeira, barulhentas, rabugentas, doces, elas, as nádegas do relógio de pulso submergido no rio de suor da pele ausente que tu me prometeste, e que nunca

São quase dez,

Nunca cumpriste, nunca, escrever para quê?

(Objecto quase),

Em saltos de prateleira em prateleira, em risos, como os móveis teus cobertos por um velho lençol, deixaste de entrar em mim, deixaste todos os móveis do meu corpo protegidos por um branco pano, ausência de pó, vida medíocre, ausência de oxigénio, sempre com as minhas janelas fechadas como uma cancela em suspenso por dois pilares de cansaço, a embaixada

São nove e qualquer coisa...

Você não é Angolano,

Percebo que não sou, percebo que nunca o fui, percebo que a certidão de nascimento onde consta que nasci em Luanda, lamento informá-lo mas a sua certidão de nascimento é falsa, é falsa, como são falsas a respectiva cédula pessoal, como são falsas as fotografias, como é falso o cartão de vacinas contra a febre amarela

O quê? Qual febre amarela, rapaz... enlouqueceu,

Tudo é falso, eu sou falso, a embaixada

Você não nasceu em Luanda, você é um mentiroso, compulsivo, sou, pois sou, e garanto-lhe que nunca brinquei no Mussulo, e garanto-lhes que nunca vi, juro pela minha honra que nunca vi, não sei o que são, machimbombos, juro que não tenho terra, juro-o...

São quase dez,

Nunca cumpriste, nunca, escrever para quê?

(Objecto quase),

Em saltos de prateleira, dentro de um falso paquete, enganaram-me, disseram-me que nasci num local que não existe, falsos, disseram-me que vim num paquete, lindo, enorme, atraente como as meninas que passeavam junto ao Tejo, e não vim, e descubro que esse paquete nunca existiu, falsos, mentirosos, falsas infâncias, como os jardins da escola

Será que ela existiu?

São quase dez, diz-me ela, oiço-a..., em Portugal continental, e no entanto descubro que toda a minha infância foi uma mentira inventada por um menino que andava de calções e sandálias de couro, sentava-me debaixo das mangueiras e inventava histórias,

E inventou esta história, que nasci, vivi, e vim...

E eu, acreditei,

Como acredito nela que me diz que são quase dez horas, da noite?

(Objecto quase)

E eu, acreditei.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:55

04
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Ouves as mãos de chocolate vagueando sobre a tempestade de cereal em forma de palavra

escreves-me dos tentáculos silêncios dos vulcões entranhados na montanha teus seios

e um arbusto chora a tua ausência

como se o vento adormecesse nas melancólicas mesas de granito

que um buraco de minhoca alimenta em pedaços de paixão

e tristes casas de areia com vista para a cidade dos barcos amargurados,

 

Ouves tuas minhas cansadas desilusões que o mar engole como Sereias de papel

e nada fica eterno

oiço-os fingindo escadas de acesso ao tecto da insónia história

não existo

desisto

de procurar palavras numa calçada sem nome num bairro esquecido no altímetro do Mussulo,

 

Vagabundeio semi-nu procurando terrenos para aportar

meus alicerces de tristezas manhãs de Primavera

a astronomia minha amiga inventa-me estrelas com pequenos torrões de açúcar

goiabada e mandioca

habitávamos em corpos sonâmbulos pela infinita distância sem que o universo nos informasse

dos projectos para ultrapassarmos as difíceis tardes abraçados a um rio imaginário,

 

Doente

sem nome dizendo-se filho das grandes palavras esquecidas nas cúbicas coxas cinzentas

que deixam os pássaros embriagados em penumbras cristas de azoto

finíssimas peles bronzeadas como noites escurecidas num qualquer confim de África...

e invento a felicidade com pedaços de capim e uivos de mabecos

enquanto um velho papagaio de papel circula no céu como uma ventosa em busca da saudade...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:19

16
Jan 13

Inventava-te histórias enquanto dormias dentro de uma agenda recheada de espaços vazios, passavam os dias, alimentavam-se as semanas das semanas hipoteticamente, também elas, vazias, sôfregas flores à espera da doce Primavera, doce

As horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua

Doce tua,

Inventava-te histórias

Não verdadeiras,

Histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente amadas pelas mãos dos homens que corriam a trás de ti, e tu, sabia-lo, tinhas consciência das cartas escritas sobre os velhos joelhos de rocha, que todas as noite, o mar embalava e atirava para as garras da saudade,

Não verdadeiras as histórias que me inventavas, todas as mentiras quando regressavas a casa, desculpas, reuniões, jantares com clientes, e de súbito abria-te a agenda, e percebia que

Vazia, histórias enquanto dormias,

Não verdadeiras doce tua,

E percebia que inventar-te também dava trabalho, muito, cansava-me com as sombras do teu corpo projectadas nas árvores pobres da cidade, o sono tombava-as e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, inventava-te histórias de açúcar, e um fio límpido de chuva descia pelo teu rosto, contornava o teu pescoço esguio e preguiçoso, e poisava-se nos teus ombros, descansava um pouco, continuava em andamento e em aspirais de pêssego rodopiava em círculos à volta dos teus seios que a areia do Mussulo esculpira na melancolia das tarde de Sábado, quando eu percebia que

Vazia, histórias enquanto dormias,

Não verdadeiras doce tua,

E percebia que inventar-te também dava trabalho, e que o fio límpido de chuva ia descendo teu corpo abaixo até esconder-se no púbis húmido das palmeiras que a Baía guardava como se fossem o maior tesouro de Luanda, e sentava-se

Sentava-me numa simples cadeira de pedra a olhar o mar nas suas histórias de amor que o açúcar desenhava nos corpos cobertos de espuma, havia pássaros com flores de papel no bico, havia parafusos de aço nas ligações do arco-íris e que faziam com que as cores andassem sempre de mão dada, havia

Não verdadeiras doce tua,

Havia barcos de esferovite com velhos motores de carrinhos a pilhas, havia alegria, vida, havia silêncios sem sabor a solidão, histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas

Havia a lua,

Nuas não verdadeiras doce tua vida de cidade sem rio, não verdadeiras, todas as falsas janelas com vidros de linho, falsas portas em falsa madeira das árvores que tombaram com o sono e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, havia lua, encharcadas de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas

Nas horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua

Doce tua,

Inventava-te histórias

Não verdadeiras,

Histórias de crianças que nasceram em Luanda, histórias de crianças que brincavam em Luanda com papagaios de papel e nas sombras ínfimas das mangueiras escondia a solidão do silêncio, inventava-te histórias, inventava-te laranjas com sumo de tomate, inventava-te o amor, e todas as palavras escritas nos muros da paixão

(e confesso que detesto conversar e inventar histórias sobre crianças que nasceram em Luanda, recordo-me das ruas, do mar, dos machimbombos, recordo-me do todos os cheiros, e das cores que a terra húmida construía nos corpos de veludo, e confesso, que detesto)

Os muros da paixão, as mãos dos muros da paixão

(e confesso)

Que detesto os lábios, a boca, os olhos

(e confesso)

Que todas as histórias que te inventei não verdadeiras, falsas, que detesto

(e confesso)

Que a primeira vez que vi socalcos, chorei, como choravam as meninas das minhas histórias de açúcar quando um fino tímido fio de chuva descia e descia, descia os socalcos e entranhava-se no Douro, e chorei

(e confesso)

A primeira vez que vi socalcos.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:23

26
Dez 12

Insisto, desistes facilmente como se fosses a chuva miudinha dos finais de tarde em Belém, e nunca percebi, senti, sem ti, perceber

 

Porque me perseguias entre sombras e canaviais que escondem a cidade, porque me perseguias, sem perceber, sem ti e sinto, hoje, não propriamente hoje, ontem talvez, às vezes esqueço-me que já morri, defecado dentro dos orifícios das lilases masmorras de granito, sentavas-te e acorrentavas-te aos candeeiros encardidos, velhos, ontem, hoje não

 

Perceber, sem ti, sentir-te dentro dos meus olhos cabisbaixos, amorfos, fabricando euros clandestinos num barracão da Madragoa, e entortavas-te com a vestimenta disfarçada de gaja Espanhola, made in China, perceber

 

Hoje não, desculpa-me,

 

E entortavas-te nos lençóis embebidos em vodka, senti, sem ti

 

Hoje não, desculpa-me,

 

Sem ti e sinto, hoje, não propriamente hoje, ontem talvez, às vezes esqueço-me que já morri, defecado dentro dos orifícios das lilases masmorras de granito, os sexos murchos como as palmeiras da Baía de Luanda, quando o vento, as levava, e eu

 

Sentavas-te, sem ti, senti, sentavas-te a olhar o mar, e esperavas, pelo regresso das palmeiras, algumas regressavam, outras morriam, e outras

 

E entortavas-te nos lençóis embebidos em vodka, senti, sem ti

 

Libertavam-se das manhas de cacimbo, e o capim mergulhava nas tuas coxas de linho, o cortinado tremia, sentavas-te

 

Sentia-te,

 

Sentavas-te nos rochedos que as nádegas, e entortavas-te nos lençóis embebidos em vodka, senti, sem ti a paixão dos homens que se suicidavam dentro dos cubos de vidro, e sentavas-te nos rochedos que as nádegas de manteiga desenham nos espaços vazios da areia das parais do Mussulo, caraças

 

Sentavas-te e sentavas-te e sentia-te

 

Regressavam os barcos nocturnos das viagens sem regresso, perdias-te nas caves escondidas dos porões esfomeados que a saliva do desejo traçava nas paredes murmuradas em parêntesis incompletos, pontos finais sem fim, continuação da história, da mulher de saltos altos e meia de vidro no palco em delírios e sentavas-te

 

No caixão revestido de sorgo, amêndoas e chocolates fora de validade, acreditavas nas esplanadas junto ao rio, abrias as pernas, fincavas os dentes num pedaço de pano, sujo, imundo, húmidas as tuas mãos, e

 

Absorviam-te as palavras, desculpa-me, sentavas-te, sentavas-te, senti, sem ti, absorviam-te as palavras como se fosses um poema de amor, como se fosse uma rosa, uma nuvem, pássaro, ou uma árvores inventada pelas mãos de um apaixonado motorista dos machimbombos, com asas de de vodka, embebias os lençóis em sangue menstrual, limpidamente à janela de onde se observava a pastelaria, e quem diria

 

E entortavas-te nos lençóis embebidos em vodka, senti, sem ti,

 

E quem diria, que eu, um dia, acabaria como um lençol mutuário, sem testamento, herdeiros, e quem diria, que eu, um dia, sem ti e sinto, hoje, não propriamente hoje, ontem talvez, às vezes esqueço-me que já morri, defecado dentro dos orifícios das lilases masmorras de granito, os sexos murchos como as palmeiras da Baía de Luanda, quando o vento, as levava, e eu

 

E eu

 

Um vulcão,

 

E eu

 

Sentia-te,

 

E eu

 

Libertava-me das manhas de cacimbo, e o capim mergulhava nas coxas de linho construída por uma noite de insónia, e o cortinado tremia, e sentavas-te

 

Sentia-te,

 

Nos meus silêncios do inverno à lareira dos sonhos,

 

E eu

 

Não acreditei.

 

(Texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:49

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