Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

23
Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

há tanto silêncio nos lábios de um rio

há dor insignificante nos braços de um drogado

há pétalas cansadas nos guindastes dos teus olhos

pérfidas madrugadas

poemas e velhas canções

há janelas de onde nada consegue sobreviver como as ratazanas de esgoto

escadas sem corrimão de acesso ao sótão da insónia

há poetas e aprendizes de poetas

e eu

eu nem uma porta de entrada consigo ser

nem uma simples fechadura consigo abrir

e este coração é louco entre palavras e sensações

 

memórias

histórias

canções perdidas nos teus seios de capim...

há tanto silêncio nos lábios de um rio

que sinto medo de morrer

partir

morrer e não saber como são os socalcos depois de a chuva cair

partir

sem o saber

livremente voando sobre ti em desenhos quadrados de um colorido beijo

há tanto silêncio

sobre o caixão invisível que embrulha a minha paixão de esferovite...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:20

15
Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Excelente título para qualquer coisa com palavras...

O que pensas da paixão em dias de chuva, meu querido?

Excelente, divinal sorriso em silêncios brancos, os lenços de linho e bordados pelas tardes infindáveis das suas mãos de pergaminho, sentava-se no meu colo e abraçava-me, pedia-me

Posso beijá-lo?

Respondia timidamente que

Sim... talvez... silêncios brancos, lenços em linho, e nos lábios seda pura como lágrimas de Outono nas videiras nocturna dos socalcos virados para o rio, tudo parece existir, não existindo, as janelas de xisto

Abriam-se nas clandestinas jangadas com velas aos braços cansados nos Domingos depois do jantar, sabia-a apetecível... mas a senhora dona sobre mim absorvia todas as cores do arco-íris, comia-me a madrugada, e eu, nem com o amanhecer conseguia brincar, acariciar, nada, como se ele fosse um corpo desejado e intocável

Posso beijá-lo?

E havias as janelas de xisto suspensas nos cabelos da montanha, e havia as perdizes voando sobre os cachos ensanguentados pelo suor de quem os apanha, carrega-os, e

As janelas de xisto

E

As janelas de xisto

E

Posso beijá-lo?

E ele beijava-o e víamos o amanhecer pregado aos lábios da manhã...

E

Posso beijá-lo?

Perguntávamos-lhes se os beijos tinham açúcar, e perguntávamos-lhes se o amanhecer tinha desejos como os homens, como os homens, e como as mulheres, e as mulheres em outras mulheres, depois e os tristes homens em outros homens,

Posso beijá-lo?

E depois

As janelas de xisto

Vinham as sombras da noite anterior, entravam-nos e levavam-nos

Como crianças pela mão?

Como xistos em janelas de correr, guilhotinas simplificadas,

Quer factura?

Guilhotinas transparentes entre rochas e ruelas mergulhando a aldeia num frenesim de loucos, aviadores esqueléticos, aviadores sobrevoando imagens a preto-e-branco do teu corpo amargurado, absorvido pelo sémen nocturno dos esteios em palavras cansadas que a mão dele deixavam ficar nos lábios de outro ele, amavam-se

Amo-o, dizia-lhe entre sorrisos brancos, e no entanto hoje procura moedas de cêntimo na Calçada da Ajuda, ouve os apitos de um barco que partiu há vinte e cinco anos, para onde?

As janelas de xisto?

Beija-me,

E ele beijou,

Abraça-me...

E ele... timidamente... não abraçou... e desapareceu dentro do cacimbo como se houvesse um túnel secreto no peito dele, onde supostamente

As janelas de xisto?

Posso beijá-lo?

Que supostamente

E ele... timidamente... não acordou, e desapareceu... que supostamente lhe tinham cortado com a tesoura da dor...

O quê, o quê?

A vontade de amar, de amar como se amam as paixões envenenadas em suicídios de amêndoa...

 

(Não revisto – Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 15 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:10

27
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Sabia que te escondias na sombra de uma locomotiva louca

entre carris imaginários

e praias de incenso sobre tingidas nuvens amarguradas

sabia e não fazia nada

deixava-te sombrear nas planícies rebeldes da solidão,

 

Inconstante este amor que os comboios deixam nos socalcos ao rio doirado

milagrosamente só como sandálias de couro e pingos de espuma

e o mar transpirava

e quase me levava até à pedra onde te sentavas

só como eu só nas locomotivas loucas,

 

Sabia que te escondias... louca

entre cartas invisíveis nas palavras famintas

sabia-o e nada fazia para te resgatar da ausência que a saudade constrói nos sorrisos de amendoeira

e olhava-te como uma louca locomotiva em movimento

procurando sombras que o rio Douro vomitava...

 

Tínhamos um mala simples com objectos simples com destinos diferentes

eu sabias que me transportava para Sul

e tu

tu fingias transportares-te para Sul obliquamente sabendo-o que irias para Norte

opostamente de mim como uma serpente envenenada,

 

Hoje somos apenas dois cadáveres de areia que o tempo

semeia sobre a água salgada onde se escondem os teus seios de cereja

e brincam as tuas coxas como livros em poesia depois de lidos relidos e transcritos

pela louca locomotiva

de uma imagem a preto-e-branco...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:40

08
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Das tuas tristes mãos, as pérfidas melodias de ti para me contentares como se eu fosse contentável, como o são, os outros, os esqueletos, compostos de massa xistosa com algumas fendas devido ao cansaço, suor, e como escrevinha o povo, e lágrimas, ou, como o pão que o diabo amassou, e se não existir o diabo, e se existir, ele, sabe-se lá, for um péssimo amassador de farinha, água, fermento e sal... e algum esforço físico,

ficamos sem pão

Confesso que nunca vi, ouvi, ou... de perto, convivi com a ilustre personagem que apelidaram de diabo, e que como quase tudo, é o culpado das coisas más, porque das boas, essas, encarrega-se deus, como antigamente, quando acontecia alguma coisa má, em muitas das nossas aldeias, vilas e cidades, claro... a culpa era sempre dos ciganos,

comprávamos heroína, e logo alguém nos dizia – Se fores apanhado dizes que compraste a um cigano! - talvez porque exista uma fisionomia entre eles, ou porque realmente alguns por infelicidade tornaram-se culpados sem o saberem, culpados, como eu, vagueando entre cidades como uma carruagem de metal enferrujado, e de porto em porto, sobre os carris travestidos de tristeza, ando, andam, caminham-se-me porta adentro, cortinados vazios, simplicidades obscuras que acordavam nas poucas esquinas com venda de pequenos bens não essenciais, um rolo de papel alumínio, uma nota de vinte escudos, de preferência de quinhentos escudos, e quinta-feira, sempre à quinta-feira, o carro enfeitado com luzinhas quadricolores, e de seguida, sem o saberem, acordavam as madrugadas de dor de costas, de diarreia, de enjoos, e afins como a insónia, o corpo transformava-se em cilindro, rodava sobre um eixo imaginário, e quando vinha a mim a madrugada, perguntava-me – Quantas Francisco, quantas voltas hoje em torno de ti mesmo? - e nunca percebia até descobrir nas tuas tristes mãos, finíssimas, e de dedos também eles finíssimos e compridos, que

Tinhas dentro de ti, sem eu o saber, uma escada secreta, com cobertores e espelhos, ambos, em madeira de primeira categoria, gosto, muito, - Sabes? - do Mogno ou do Carvalho Francês,

(Antena 3 – Alijó – 101.5 MHz)

Quando chovia, sentia-te desaparecer dentro das sombras que viviam connosco na casa de Favarrel, e só mais tarde, quase quando começaram as demolições da dita, que eu descobri que existia uma escada, até então secreta, tua, só tua, que subias, e a meio caminho, sentavas-te, como uma prisioneira à espera que lhe encerrassem a cela fictícia, uma cela de ficção como os testos dos escritores, que para não se chatearem com esta ou aquela pessoa, escrevem

(texto de ficção, não revisto)

não revisto, vá lá que não vá, - Agora... de ficção? - Não... nãoooo...

(País de ficção, qualquer coincidência com a fantasia é pura realidade)

E tudo em ti é ficção, são-o as tuas doces mãos e tristes palavras, quando acordam no centro da galáxia, os teus olhos, também eles, pura ficção, são-o os teus seios, as tuas coxas de socalco esquecido junto ao Douro, e também é de ficção o teu púbis envergonhado nas eternas geadas de Janeiro, aqui, porque lá, era verão, porque lá, lá tudo, também, como tu, tudo de ficção,

(texto de ficção, não revisto)

Amo-te, meu amor,

Cinco cêntimos de melancolia

Libertava-me de ti e das tuas sombras penumbras que o vento comia

e deixava sobre uma mesa redonda

os cansados uivos que o prazer recheava o prato de sopa mergulhado em tonturas e febres desgovernadas

tristes

cansadas

era eu o teu guardião das madrugadas fingidas pelos teus orgasmos de cera

que ardiam no altar da tua cama virada para o mar,

 

Não eras de pedra

aço

não minha e nunca o serás

e deixo-o arder entre clareiras como flores pintadas com verniz,

 

É-o no medo corrompido sabendo-o esquecido pela infinita mão

de ficção

em cinco cêntimos de melancolia

e três dias depois

evaporou-se como se evaporam as minhas palavras para ti...



Mata-me se puderes, mas

(ficção)

Deixa-me ficar os teus lábios para eu recordar, um dia, e nunca o esquecer...

esquecer o que são lábios, os teus, de pura ficção,

… de mera fantasia.

 

(Amo-te, meu amor)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:51

22
Mar 13

A&M ART and Photos

Chegavas a casa, quando chegavas, e quantas noites desesperaste por mim, quando eu desfilava pelos passeios ornamentais com pedrinhas coloridas, um passeio artístico, com candeeiros de cartolina, junto a ele, as casas de madeira com corações de manteiga, algumas delas, com mais do que um andar, e poucas, com um sótão inclinado, onde, sabias-me perdido entre ondas de chocolate das paredes verdes que alimentavam as teias de aranha das tuas finíssimas mãos, tinhas medo do escuro, e tínhamos começado a construir durante as noites as famosas Rainhas da Rua Dona Grande Solidão, uma rua estreita, Débora, onde a pouca luz desaparecia como desapareciam as poucas moedas de escudo dos fundos bolsos das minhas calças de ganga, filha única, lavava-as à noite e manhã cedo voltava a vesti-las como se elas fossem calças de ganga

Mágicas,

Felizes elas que pensavam em mim,

E não tinham medo de adormecer debaixo da mesa, suspensas no cordel que eu utilizava durante as tardes para segurar o meu papagaio, e saboreando o calor da braseira, elas felizes, elas

Gosto muito delas, Fingia para com os meu amigos quando me confrontavam

Andas sempre com as mesmas calças, não tens outras?

Encolhia os ombros, e esperava que chegasses a casa, quando chegavas, e quantas noites desesperaste por mim, quando dentro da mochila apenas um par de calças de ganga, únicas, verdadeiras peças de arte, e já na altura

Mágicas,

Na altura felizes elas que pensavam em mim, felizes ás árvores de veludo, que de mão dada com os candeeiros de cartolina, e como eu amava a Rua Dona Grande Solidão, as alergias, das drageias, à água-de-colónia que ele trazia da feira da ladra, na altura, as ruas eram de areia pisada por pincéis de arame e guarda-fato com espelhos rabugentos, e quando olhávamos o mar, eles, transmitiam-nos apenas rochedos em decomposição física, e restavam-lhes apenas o espírito melancólico de uma noite sentado no gonzo esquerdo da maré de Maio, e Mágicas

Claro que Mágicas,

Muito elegantes até que eu entrasse vagarosamente nelas, depois, depois abria as asas, abanava-as e em pequenos movimentos ascendentes e descendentes, lembro-me

Lembras-te meu querido,

A levitar até chegar à janela do sótão, e ela, desesperava por mim, e dentro da mochila, farrapos, pedaços de papel, às vezes entrava em casa com o orvalho sobre os ombros, às vezes entrava em casa com os restos de cartolina dos candeeiros, da Rua

Eu amava a Rua Dona Grande Solidão, Lembras-te, meu querido, das paixões dos cubos de vidro onde nos sentávamos depois de...

Não percebi, desculpa?

Mágicas? O quê Mágicas? Não, Não me recordo de nada parecido com magia, espera, espera

Talvez mágico só as tuas coxas de xisto que o Douro engole quando os socalcos vomitam fragrâncias hélices de sons e cheiros,

Só, apenas essas magias que a tua mãe às vezes trazia para casa,

(tou, amor? Tou bem, cheguei bem, onde tou? Na biblioteca, e tu, também tou bem meu amor, e a menina, tá bem, minha querida), e de vez em quando ouvia-te pequenos gemidos a renascerem do teu interior mais secreto, mais escondido, mais impuro, agora deixou de existir a Rua Dona Grande Solidão, agora os poste de iluminação já não são de cartolina como naquela época, os passeios onde havia postes de iluminação as pedrinhas são apenas de uma cor, as casas deixaram de ser em madeira, sem sótãos, e as calçadas já não são de areia calcada pelos pesadíssimos embriagados homens da mochila cinzenta, onde lá dentro

Tinham, diziam, porque nunca vimos, pedras, papeis, restos de livros e

Dizem, porque nunca vimos

Traziam um par de calças de ganga, dizem eles que

O que diziam eles?

Que metiam a mão direita no bolso esquerdo e segundos depois aparecia a mesma mão direita no bolso direito, Pode lá ser!

A sério!

Dizem, dizem que eram calças Mágicas,

(amo-te)

(também eu meu amor)

(tou, amor? Tou bem, cheguei bem, onde tou? Na biblioteca, e tu, também tou bem meu amor, e a menina, tá bem, minha querida, tem saudades tuas, eu também, dá-lhe um beijo por mim), ele acredita em tudo que lhe digo

Até que tinhas umas calças que metias a mão direita no bolso esquerdo e segundos depois aparecia a mesma mão direita no bolso direito, formidáveis essas calças de ganga, meu amor, pois são meu querido, pois são...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:39

16
Jan 13

Inventava-te histórias enquanto dormias dentro de uma agenda recheada de espaços vazios, passavam os dias, alimentavam-se as semanas das semanas hipoteticamente, também elas, vazias, sôfregas flores à espera da doce Primavera, doce

As horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua

Doce tua,

Inventava-te histórias

Não verdadeiras,

Histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente amadas pelas mãos dos homens que corriam a trás de ti, e tu, sabia-lo, tinhas consciência das cartas escritas sobre os velhos joelhos de rocha, que todas as noite, o mar embalava e atirava para as garras da saudade,

Não verdadeiras as histórias que me inventavas, todas as mentiras quando regressavas a casa, desculpas, reuniões, jantares com clientes, e de súbito abria-te a agenda, e percebia que

Vazia, histórias enquanto dormias,

Não verdadeiras doce tua,

E percebia que inventar-te também dava trabalho, muito, cansava-me com as sombras do teu corpo projectadas nas árvores pobres da cidade, o sono tombava-as e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, inventava-te histórias de açúcar, e um fio límpido de chuva descia pelo teu rosto, contornava o teu pescoço esguio e preguiçoso, e poisava-se nos teus ombros, descansava um pouco, continuava em andamento e em aspirais de pêssego rodopiava em círculos à volta dos teus seios que a areia do Mussulo esculpira na melancolia das tarde de Sábado, quando eu percebia que

Vazia, histórias enquanto dormias,

Não verdadeiras doce tua,

E percebia que inventar-te também dava trabalho, e que o fio límpido de chuva ia descendo teu corpo abaixo até esconder-se no púbis húmido das palmeiras que a Baía guardava como se fossem o maior tesouro de Luanda, e sentava-se

Sentava-me numa simples cadeira de pedra a olhar o mar nas suas histórias de amor que o açúcar desenhava nos corpos cobertos de espuma, havia pássaros com flores de papel no bico, havia parafusos de aço nas ligações do arco-íris e que faziam com que as cores andassem sempre de mão dada, havia

Não verdadeiras doce tua,

Havia barcos de esferovite com velhos motores de carrinhos a pilhas, havia alegria, vida, havia silêncios sem sabor a solidão, histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas

Havia a lua,

Nuas não verdadeiras doce tua vida de cidade sem rio, não verdadeiras, todas as falsas janelas com vidros de linho, falsas portas em falsa madeira das árvores que tombaram com o sono e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, havia lua, encharcadas de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas

Nas horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua

Doce tua,

Inventava-te histórias

Não verdadeiras,

Histórias de crianças que nasceram em Luanda, histórias de crianças que brincavam em Luanda com papagaios de papel e nas sombras ínfimas das mangueiras escondia a solidão do silêncio, inventava-te histórias, inventava-te laranjas com sumo de tomate, inventava-te o amor, e todas as palavras escritas nos muros da paixão

(e confesso que detesto conversar e inventar histórias sobre crianças que nasceram em Luanda, recordo-me das ruas, do mar, dos machimbombos, recordo-me do todos os cheiros, e das cores que a terra húmida construía nos corpos de veludo, e confesso, que detesto)

Os muros da paixão, as mãos dos muros da paixão

(e confesso)

Que detesto os lábios, a boca, os olhos

(e confesso)

Que todas as histórias que te inventei não verdadeiras, falsas, que detesto

(e confesso)

Que a primeira vez que vi socalcos, chorei, como choravam as meninas das minhas histórias de açúcar quando um fino tímido fio de chuva descia e descia, descia os socalcos e entranhava-se no Douro, e chorei

(e confesso)

A primeira vez que vi socalcos.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:23

05
Abr 12

Desejo-me de barco em barco

De rocha em rocha

Desejo-me sobre a copa de uma árvore

Onde me prende uma mesa de madeira

Sobre a mesa de madeira caldo de cebola

E trigo de Favaios

Desejo-me dentro do Porto

Vinho que dá vida

Que do porto nada tem

E no douro cresce nas mãos calejadas de homens e mulheres

De rocha em rocha

De barco em barco

Desejo-me quando me aprisiona o espelho da vida

E dispo-me sobre a mesa de um bar

(já o fiz

E voltarei a fazê-lo)

Alguns de vós dizem

Coitadinho do louco

Que fumou de tudo um pouco

Coitadinho

Desempregado

Desamado

Desgraçadinho

Desejo-me sobre a copa de uma árvore

De rocha em rocha

De calhau em calhau

Desço até ao pavimento as calças esmiuçadas

Que dançam sobre a mesa de um bar

Sem lareira sem literatura

Apenas um bar com muitas gajas

E um copo de silêncio sobre o balcão

Coitadinho

Do menino

Sem tino.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:56

08
Nov 11

 

(desenho de Luís Fontinha/MiLove)

 

Não passas de um rio confuso

Olho-te

E sentado na rocha da noite enterro as minhas palavras nas tuas águas

Olho-te e não passas de um rio confuso

Frio

Ausente e que corres para o mar

 

Olho-te e peço-te que me leves até ao mar

Peço-te

Olho-te e não me ouves

Porque és um rio confuso

E curvas e curvas e curvas às voltas dos socalcos

E frio

 

E não consigo alcançar-te debaixo das nuvens

E tu prisioneiro a um cordel

E baloiças e baloiças no céu

Olho-te

E não me ouves

Olho-te e desistes de mim

 

E eu

Olho-te e não me ouves

E eu peço-te e não me levas a ver o mar

Sabes? Nunca abracei o mar…

Consegues desenhar na minha mão o mar?

Claro que não… porque não passas de um rio confuso

 

E frio

E que não me ouves

E eu

E eu peço-te que me mostres o mar

Como fazes quando me desenhas na testa

O pôr-do-sol…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:10

30
Set 11

Aqui pelo Douro os socalcos começam a descer até ao rio,

O cigarro debruçado no peitoril da janela e ao longe o latir de um canino, os risquinhos dos taludes sobressaem das margens e as palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio,

Das silabas de uva acorda a saliva do amanhecer e a manhã em pedacinhos de árvore que balança contra os desejos do sol,

O rio segura com mãos trémulas os socalcos envenenados por fios de luz, o parvo do meu irmão cisma que se subir até à copa de uma oliveira consegue acariciar as estrelas e a minha mãe acredita que a noite é uma mentira e que não existe, o parvo do meu irmão a sorrir,

- Vês consigo tocar as estrelas,

O parvo do meu irmão sentado na despensa do céu à espera que a minha mãe o chame para almoçar,

- Mãe o que é o almoço?

A minha mãe responde-lhe que não sabe,

O parvo do meu irmão sorri dentro da despensa do céu, eu ergo a cabeça e mal consigo ver o parvo do meu irmão, começou a diminuir e parece uma abelha à procura das nuvens,

Uma abelha que saboreia a doçura dos baguinhos de uva quase a adormecerem junto ao rio e a minha mãe que o almoço é caldo de cebola, broa de centeio e sardinha assada,

- Agora lembro-me o que é o almoço Caldo de cebola, broa de centeio e sardinha assada,

E o parvo do meu irmão começa a descer da oliveira vagarosamente e aos poucos ergue-se do corpo de abelha ainda com os lábios embebidos no açúcar,

E fica crescido e homem,

- Francisco vem almoçar, aqui pelo Douro os socalcos começam a descer até ao rio, a minha mãe responde-lhe que não sabe,

E eu pergunto-me porquê Porquê mãe,

- Francisco vem almoçar,

E quando ela me trata por Francisco sei que tenho o caldo entornado,

Sempre assim,

Desde que nasci,

Francisco para as ocasiões muito especiais,

Francisco quando me porto mal, e vejo o meu triciclo no quintal de Luanda às voltas da perna da mangueira,

- Olá menino,

O parvalhão do meu irmão que brinca na sombra do avô Domingos e sobre o portão de entrada os socalcos começam a descer até ao rio, o caracol da CP despede-se do fim de tarde e ao longe o latir de um canino, os risquinhos dos taludes sobressaem das margens e as palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio, e o rio segura com mãos trémulas os socalcos envenenados por fios de luz,

- Olá menino,

Sempre assim,

Desde que nasci,

As palavras disfarçadas de videira a correrem e a brincarem entre as linhas metódicas do silêncio…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:21

29
Set 11

Oiço a voz cansada do fim de tarde

Nas entranhas dos socalcos mastigados

Oiço o levitar agitado da manhã

Enquanto me sento e levanto

 

E corro entre o xisto magoado

Prendo-me ao monitor do computador

E da janela oiço a voz cansada do João

Do Manuel do Zé do Carlos e das nuvens em solidão…

 

E do António agarrado a uma flor

Sonâmbulo sobre quatro rodas do trator

Oiço oiço o Manuel a gritar…

- Doze e dezoito

 

Impossível penso eu

Deve ser das ondas do mar

Olho o céu

E oiço o Manuel a cantar

 

Enrolado nos braços do Rui

Oiço as pedras sobre o pôr-do-sol

E o Manuel a ateimar

- Doze e dezoito

 

Impossível de dar

Não há uva que resista

A tanto chorar…

 

Cerro a janela

E desligo-me do douro adormecido

Deixo a uva bela

Na cuba a fermentar

E amanhã do meu corpo dorido

Vão crescer sonhos de sonhar…

 

E oiço oiço um cão a ladrar

Na paisagem ente o rio e a montanha

Socalcos mastigados

Na garganta de uma aranha

 

Oiço a voz cansada do fim de tarde

Nas entranhas dos socalcos mastigados

 

E das lâmpadas do céu-da-boca

Acordam os meus lábios apaixonados…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:31

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