Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

06
Mai 11

Nas tuas mãos líquidas de esperma, uma rosa saltita de alegria, contente, nas tuas mãos líquidas, o silêncio da alvorada travestido de nada, coloca na mesinha de cabeceira toda a sua história de vida, todo o seu passado, o projecto para o futuro, alguém, é indiferente, alguém abre uma janela da escuridão, e eis que todos os papéis, inclusiva o projecto para o futuro, voam literalmente, despedem-se uns dos outros, agarram-se ao cansaço de quando o muito era pouco, era nada, nas tuas mão liquidas, um sorriso agarra-se ao meu pescoço, com cio, que me faz corar de vergonha…

E o silêncio da alvorada fica com nada, perde tudo em segundos, tudo se pode perder em segundos, e fica refém do vento, será levado na tempestade, porta fora, e sempre na alçada do relógio que há muito deixou de dar horas, nas tuas mãos líquidas, a sombra, a minha sombra, não quer saber dos papéis que acabam de sair janela fora, indiferente, não quero saber, tens medo de mim, claro que não, porque devia ter medo de ti, sei lá…,

O medo faz parte do ser humano, talvez do ser vivo, essa não acredito, de que terá medo uma árvore, uma lindíssima flor do teu jardim, ou… as minhas mãos liquidas de esperma, não têm medo, provavelmente não, provavelmente sim, e o medo alimenta-se da dor, do sofrimento, quando uma criança chora porque tem fome, e eu caceio-me com o fumo do meu cachimbo, indiferente às tuas mãos liquidas, eu, indiferente. Quero lá saber.

As tuas mãos líquidas cheiram mal, cheiram a sexo de ocasião, faço desconto, pode pagar em suaves prestações, e o silêncio da alvorada fica contente, não tem nada, é feliz, para que quero alguma coisa, tenho tudo, estar vivo… é tudo. Enquanto as tuas mãos líquidas se despedem do meu rosto, escondo a minha tristeza no teu armário, um simples pretexto para voltar novamente às tuas mãos, regressar.

Regresso a ti, todo-poderoso, criador do céu e da terra, das coisas visíveis e invisíveis, mesmo dos neutrinos, sim, mesmo desses, regresso ao ponto de partida, quilómetros feitos, para nada, para voltar ao mesmo ponto, um qualquer referencial, em X ou em Z, tanto faz, regresso às tardes tristes de inverno, à lareira, à leitura, à escrita, regresso ao medo que tens de me perder, e já me perdeste, andas distraída, ou num qualquer referencial em Y, tanto faz, é-me indiferente que as tuas mãos líquidas tenham medo de mim, da minha sombra dispersa na janela do teu quarto, onde repousam as tuas mãos líquidas de esperma.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:06

13
Abr 11

Nunca recebi uma simples flor

Da tua mão, meu amor!

 

Estou habituado a receber

Silêncios de nada,

Fantasmas da madrugada

Que se confundem com o amanhecer.

 

A minha antologia poética.

Um saco de papéis espalhados pelo chão

À espera de irem para o contentor,

Nunca recebi da tua mão

Uma simples flor.

 

És tão patética!

 

Nos meus versos que foram teus

E agora são do nada,

Pequenas palavras em folhas de papel

Ornamentam o teu olhar,

És tão patética, meu amor,

Que nunca recebi flores da tua mão.

Aí momentos meus

Que se perderam no batel…

Escondem-se na madrugada.

 

E agora são Luar!

São nada.

 

Nunca recebi uma simples flor

Da tua mão, meu amor!

 

Nem uma simples rosa amarrotada.

Nada.

 

 

Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:51

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