Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

26
Ago 15

Nada me resta neste condomínio fechado,

Esculpido nos muros com esqueletos de xisto,

Brinco com uma bala em direcção à morte,

Sinto o peso da tua mão poisada no meu ombro,

Pareço uma janela sem cortinado dançando ao som do vento,

Este navio em pequenos círculos,

Quadrados,

Parábolas loucas na ardósia da tarde,

Imagino-te vestida de rosa doirada,

Imagino-te sentada na clareira da madrugada,

Triângulos de insónia

Adoçando o teu olhar de andorinha,

E nada, nada me resta nesta montanha suicidada…

Perdi as árvores, perdi as rochas e a sombra das árvores,

Tenho dentro de mim um hipercubo doente…

Não tem coração,

Tenho dentro de mim os fios de nylon das redes transparentes do sonho,

E não tenho sonhos para te descrever,

Invento sonhos,

Invento personagens nas finas lâminas do desejo,

Invento, imagino-te sem nome, e nada… me resta… e nada me resta neste condomínio fechado,

Não me interessa se tens no sorriso um lençol de linho, não me interessa se tens nos lábios os socalcos afogados no Douro,

Não me interessa se navega no teu ventre um barco Rabelo…

Ou uma bandeira sem Pátria,

E nada,

Deixei de amar os livros, deixei de pertencer aos tristes mendigos da cidade em combustão,

Deixei de amar o amor, deixei de amar o mar… e as palmeiras filhas do mar,

Agora, sento-me numa velha esplanada, escrevo o Tejo sobre a simples mesa de plástico,

Pego num café, puxo de um cigarro envenenado pela tua boca,

E escondo-me da luz, e escondo-me das imagens prateadas projectadas nos alicerces da memória,

Fujo, escondo-me, e nada…

Apenas lágrimas confusas descendo o meu rosto de granito,

Grito,

Grito como se eu fosse uma noite de luar,

Grito como se eu fosse um comboio desgovernado…

Contra a carruagem da saudade.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 26 de Agosto de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:27

31
Jul 15

Um cachimbo mergulha na água perfumada do silêncio,

Transporto nos ombros a insónia dos Oceanos,

Os ossos embalsamados embrulham-se nas paredes de vidro de um olhar,

Perdi o mar da minha infância,

Construo no coração um muro em xisto,

Ao longe os socalcos imaginários,

As janelas sem cortinado,

As fotografias envenenadas pelos sais-de-prata,

E eu, aqui, sentado, escrevendo coisas sem significado…

Palavras que se escondem no vento,

Os livros, sós, dormem sobre uma secretária doente,

Pego no cachimbo e finjo acreditar na solidão…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 31 de Julho de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:27

04
Jun 15

Invento desenhos

Nas paredes negras do sonho,

Acorrento o sono aos socalcos inanimados da minha vida,

Procuro a cidade prometida,

E apenas encontro lápides em xisto

E ruas esverdeadas

Com sabor a lágrimas,

Invento desenhos

Nas paredes cinzentas dos teus lábios,

Escrevo palavras na tua pele artificial

Enquanto ainda há luar

E estrelas no céu para pintar,

 

Depois,

Olho-me no espelho da solidão,

Sou feliz sem ninguém…

Porque as pessoas à minha volta,

Irritam-me,

E sinto saudades do meu velho cão,

Sempre sorridente,

Sempre… em silêncio,

Olhava-me

E percebia nele as palavras que te escrevo,

Porque ele,

Nada me perguntava,

 

Apenas me olhava

E nada mais do que isso,

 

E nada mais do que isso…

 

Apenas me amava sem o saber.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 4 de Junho de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:25

16
Mai 15

Sinto nestas palavras

O tecto nocturno do sofrimento,

Uma sombra de luz,

Sobre ti,

Acariciando o teu corpo

Inventado por mim,

E mesmo assim,

Não estou feliz,

Não me apetece olhar o rio,

Nem os socalcos desesperados,

Ler, escrever ou desenhar,

Sobre ti,

O corpo emagrecido das tempestades de silêncio,

Voas como uma invisível folha,

Sem asas,

Nem… palavras,

Eu,

Sinto nestas palavras

A ardósia tarde da loucura,

Estranhamente… só,

Sempre só,

O vento,

E a chuva,

O medo,

E a paixão,

Escondidos no coração do amor…

Sem sonhos,

Sem… sem Nação!

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 16 de Maio de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:22

19
Abr 15

A vida do sentido proibido

O escoamento do líquido adormecido

Nas mãos do sem-abrigo

Esquecido

Faz da cidade

O amor em quadriculadas paixões de medo

Dorme acreditando que não acordará mais

Sonha com triângulos de luz

Saltitando no tecto do desejo

A vida

Esta vida

Embrulhada no invisível beijo

 

Não o vejo

Meu amor

Deixei de o ver desde o dia do Adeus

Quando os Cacilheiros da nossa cama

Se afundaram no poço do prazer

Tínhamos os livros exilados

Das tempestades do sofrimento

E mesmo assim

A vida do sentido proibido

Não brinca dentro de nós

O cigarro nos teus dedos

E nunca fumaste

 

Imaginava-te em frente do espelho da solidão

Procurando rugas

E aranhas zangadas com o silêncio

Dos teus peixes

Meu amor

As espinhas

E o pó dos Oceanos enferrujados

Os barcos de água

Galgando as coxas da inocência

Como um bolo

De chocolate

Na boca de uma criança

 

Dormíamos com o Tejo pintado no teu corpo

Regressavam os petroleiros

E sentíamos os apitos das gaivotas de aço

Poisando

Em pequenas plataformas de espuma

Até… até adormecerem no teu colo

Olhava-as

Fazia-lhes festas como se fossem os nossos filhos

Que nunca viram a madrugada

Nem a manhã

Dançando nos teus lábios

Tínhamos o mundo dos vulcões de areia

 

E as pinceladas conchas do primeiro abraço

Tínhamos os socalcos do Douro

Encurvados nas lâminas da insónia

E o vento folheava o teu cabelo

Entre espadas e balas de amêndoa

Canso-me

Meu amor

Da escrita e das palavras

Dos livros

E das coisas parvas

Canso-me das fotografias que me tiraram na infância

Sempre o mesmo ranhoso

 

Sempre…

Sempre a mesma sombra sobre os ombros

Frágeis

Magoadas conversas

Nós

Perdidos num jardim de província

Sem barcos

Sem Calçadas

Sem gajas

Nem gajos

À pedrada

À pancada

 

Como os Monstros do Tejo

Quando dormíamos

E entravam nos nossos corpos de néon

Faziam-nos o que não queríamos fazer

E nós

Impávidos

Perdidos num jardim de província

A declamarmos poesia roubada na Feira da Ladra…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 19 de Abril de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:27

14
Abr 15

O vento não passa por mim

Não me abraça

Não brinca comigo no jardim

O vento ignora o baloiço da minha infância

Deixa-me sem paciência

Para as coisas

As mais simples

E as mais belas

O meu cão fugiu de casa

Ou fartou-se da casa

Ou cansou-se das minhas palavras

E nem o vento o traz

 

E nem o vento me leva

Como o faz

Às folhas caducas de uma árvore

Ou aos cabelos desalinhados da doença

Não toca nas páginas escritas sobre a minha secretária

Nem nos livros não lidos

Por falta de tempo

Por falta de vontade para o fazer

O vento não passa por mim

Não me abraça

Nem dá força à tua barcaça

Que andas à deriva

 

Num Oceano sem nome

Algures entre Luanda

E

E Lisboa

O vento

Esquece

O vento esquece a criança que vive dentro de mim

Que brincava num quintal

Recheado de sombras e cheiros

Que trouxe

Mas com o tempo se perderam nos socalcos do Douro

E outro vento

 

Os levou

Para outro Oceano

Tão distante

Meu amor

Tão distante que nem à velocidade da luz

Eu

A criança

Conseguia alcançá-los

Os calções

Os papagaios de papel

Longe

 

Procurando outro vento

Numa outra cidade

Sem ruas

Sem pessoas para amar

Apenas cinzas

De um velho cigarro

Suspenso

Entre dedos

E rochedos

(O vento não passa por mim

Não me abraça

Não brinca comigo no jardim

 

O vento ignora o baloiço da minha infância

Deixa-me sem paciência

Para as coisas

As mais simples

E as mais belas)

Como o sorriso do teu amanhecer

Junto ao Tejo

Os cacilheiros embriagados de transeuntes

Apressados

Tão apressados

Que

Que deixaram de sentir o vento

 

Como eu

Eu

A criança do baloiço

Inventando círculos de prata

Nas manhãs engolidas pelo cacimbo

O vento

O vento é uma desgraça

Não passa

Nem me abraça…

A cabeça estoira

E a chuva pendura-se

No vento que de mim desistiu.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 14 de Abril de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:02

09
Abr 15

O texto reflectido no espelho da saudade

Subíamos ao cimo da montanha

Perdidos

Saltávamos as pedras e os vultos

Que alimentavam a montanha

A luz iluminava-nos

E ficávamos transparentes

Como a água

Que descia os socalcos do desejo

Tínhamos a noite

Habitada pelo medo

A separação ambígua do silêncio

As armas apontadas aos teus olhos

A caneta em fúria

Disparando palavras

Que só a tua pele conseguia absorver

Não havia entre nós

Muros

Sanzalas de areia

Mar

Caixotes em madeira

O barco

Deslizava nos teus seios de orquídea selvagem

Dormíamos nas campânulas da solidão

Dizíamos que um dia

Um electrão

Apareceria nas nossas mãos

Nem protão

Nem…

O barco

Ferrado no sono da madrugada

Acorrentado às trincheiras da paixão

Que pela manhã

Acordava

Acordavas

Eu acordava

Ele acordava

E não dávamos conta

Que o dia tinha terminado

A morte dos fantasmas

Na sala crucificada pela ausência

A minha

Tua

Os pesadelos viajavam de cidade em cidade

A bagagem secreta dos lábios de prata

Escondida numa ribeira abandonada

A carta

Não regressava

E havia no teu corpo sílabas de chocolate

Inventando homens e mulheres

Brincando no jardim junto ao rio

Nunca percebi o mecanismo dos relógios

E dos aceleradores de partículas

Nunca percebi que amar…

Não percebo

Não sei

O significado das palavras

E dos livros

Sobre a mesa-de-cabeceira

Em lágrimas de crocodilo…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 9 de Abril de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:38

12
Mar 15

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas

que habitam os socalcos da saudade

sou um ninho de cacos

e pequenas películas de silêncio

pela madrugada

oiço a tua voz aprisionada nas frestas deste cubículo

há entre nós um espelho cansado

e triste

ausento-me dos teus lábios

e perco-me nas palavras sem nome

como as ruas da tua cidade

ou da tua aldeia

 

o musseque

fervilha

transpira poesia

e o teu cabelo suspenso numa fotografia

tão distante

o mar

e as marés de sono

que me embrulhavam

hoje

não mar

não sono

nada

 

amar

amar

amar as flores e os desenhos embalsamados

correr montanha abaixo

deitar-me sobre ti

apenas

o peso das nuvens pinceladas de alfazema

a aceleração

acorrentada a uma equação

a física

a matemática

e... e amar

 

nada

os separa

os fios de sémen perdidos no cacimbo

o cachimbo em brasa

lúcido

de braços abertos

e abraça-me

e beija-me

como se beijam todos os livros

folheados

e no entanto

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 12 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:35

22
Fev 15

Desenho_A1_065.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

O amor suicida-se nos lábios do sorriso de xisto,

uma carta poisa respeitadamente sobre uma almofada granítica,

impregnada de silêncios

e fósforos adormecidos na inocência do poema,

faltam-me as palavras...

oiço-o nos braços do seu amante,

inventado beijos

e livros entranhados nos socalcos do desejo,

há no Outono uma noite em despedida,

a sinfonia da saudade

nas clarabóias do sexo,

e lá fora todos os transeuntes são imagens a preto e branco,

expostas numa parede branca,

descendo a calçada,

virava à direita,

o engate,

a rua,

em nada,

como lâminas de sono contra as marés de prata,

não quero os sonhos

nem os seios dos caixotes de vidro

que habitam as minhas mãos de medo,

o amor suicida-se

nos lábios do sorriso de xisto... e a penumbra é uma estátua de gelo...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 22 de Fevereiro de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:17

03
Dez 14

Inventei-te numa noite de solidão,

escrevi o teu nome fictício numa muralha de xisto

que a tempestade tombou,

havia no teu olhar socalcos cansados

e vinhedos sombreados

de... paixão...

 

Havia na tua mão

uma carta por escrever,

e lá dentro...

um beijo,

um beijo desenhado no meu sorriso

com lágrimas de sofrer,

 

Inventei-te numa noite de solidão,

abri os cortinados e olhámos as estrelas de papel crepe...

havia luar nos teus cabelos

e neblina cinzenta nas tuas pálpebras de adormecidos rochedos,

e quando me abraçaste... a cidade morreu,

como morreram todas as cidades onde habitámos,

 

hoje, somos dois esqueletos vadios...

vagueando pela embriagada poesia de um louco,

dois pássaros sem árvores para poisar...

hoje, somos dois esqueletos vadios... sem Oceano para navegar,

e esperamos,

impacientemente que acorde a madrugada.

 

(e hoje... nada me apetece escrever...)

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:58

Agosto 2020
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados
2 comentários
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO