Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

16
Abr 16

túbia dos lábios em cromados beijos

a fúria da tempestade alimentando o desejo

que se perde num olhar

não vejo o silêncio

não sinto o mar,

túbia do cansaço alicerçado à escuridão

um simples gesto

um simples poema

túbia do deserto quando a noite morta

invade a solidão dos musseques floridos

túbia da morte em circunferências loucas

finge-se a sorte

das planícies do medo

arrebata-se a sombra sobre os cadáveres do degredo

entre rochedos

e penedos

que apenas a ondulação da insónia sabe abraçar,

túbia meu do alimento proibido

que travestido de Inverno viaja de cidade em cidade

túbia sentido as pálpebras quebradas

do triste sino

das lamentáveis madrugadas.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 16 de Abril de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:43

14
Abr 16

A desordem das coisas

Quando as roldanas da saudade invadem a noite,

Levam-me o sono,

Levam-me a alegria dos sonhos

Enquanto lá fora a ténue madrugada grita sozinha.

Não.

Avisto os rochedos cravados nos socalcos da insónia,

Visto-me de branco,

Alimento-me das palavras semeadas pela enxada da solidão, amanhã,

Um pedaço de terra tapar-me-á como se fosse um lençol de linho,

Branco e fino,

Com desenhos abstractos que só eu consigo ler,

Não.

A hipotenusa acorrentada à tangente do sofrimento, o seno do desejo, algures encurralado dentro do triângulo rectângulo, e um vício de seda entranha-se no teu corpo,

A geometria da ausência sente-se nos teus lábios,

A recta do amor escondida na mão dos cristais de prata,

Não, não, a fotografia minha despede-se do silêncio,

Oiço os apitos,

Oiço os navios que partem para o desconhecido,

Não. Não.

A desordem das coisas

No limite da escuridão,

O alpendre submerso pelas abelhas que procuram a minha fotografia, não, não preciso de mel, não, não preciso do mar e dos rios sem nome,

Porque amanhã, um pedaço de terra tapar-me-á como se eu fosse uma pedra sonolenta, triste, recheada de olhares sem amanhecer,

Não.

Não.

 

 

Francisco Luís Fontinha

quinta-feira, 14 de Abril de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:02

26
Mai 15

Não oiço as camufladas sílabas do sono,

O corredor embrulha-se no sonho,

Transeuntes vestidos de sombra,

Correm,

Inventam sorrisos…

Como se fossem espelhos fendilhados,

Retractos de medo

Em cada parede,

Ou…

Ou em cada silêncio,

Não oiço…

E também eu… invento sorrisos nas pálpebras da dor.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 26 de Maio de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:32

18
Mai 15

Coloridas pétalas de sono

Sobre o teu corpo embebido na gelatinosa alegria do amanhecer,

A sinfonia da madrugada

Em desespero,

Sem saber

Que a noite não acordará mais,

 

O mar

Envolto nos cabelos das andorinhas,

Os barcos cansados,

No teu peito,

E o tempo alimenta o teu sorrir,

E ouvem-se em ti

As lágrimas de partir…

Nas palavras de fugir,

 

Coloridas pétalas de sono

Procurando abraços

E telhados de vidro fumado,

O dia prisioneiro ao triste calendário,

E o teu corpo

Pincelado pelo orvalho,

 

E o teu corpo… também ele uma pétala colorida,

Sem vida,

Sem vaidade,

Como eu,

Como ele,

Sombras de uma qualquer cidade,

Umas vezes olhando o céu,

Outras… outras brincando na claridade.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 18 de Maio de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:26

09
Abr 15

O texto reflectido no espelho da saudade

Subíamos ao cimo da montanha

Perdidos

Saltávamos as pedras e os vultos

Que alimentavam a montanha

A luz iluminava-nos

E ficávamos transparentes

Como a água

Que descia os socalcos do desejo

Tínhamos a noite

Habitada pelo medo

A separação ambígua do silêncio

As armas apontadas aos teus olhos

A caneta em fúria

Disparando palavras

Que só a tua pele conseguia absorver

Não havia entre nós

Muros

Sanzalas de areia

Mar

Caixotes em madeira

O barco

Deslizava nos teus seios de orquídea selvagem

Dormíamos nas campânulas da solidão

Dizíamos que um dia

Um electrão

Apareceria nas nossas mãos

Nem protão

Nem…

O barco

Ferrado no sono da madrugada

Acorrentado às trincheiras da paixão

Que pela manhã

Acordava

Acordavas

Eu acordava

Ele acordava

E não dávamos conta

Que o dia tinha terminado

A morte dos fantasmas

Na sala crucificada pela ausência

A minha

Tua

Os pesadelos viajavam de cidade em cidade

A bagagem secreta dos lábios de prata

Escondida numa ribeira abandonada

A carta

Não regressava

E havia no teu corpo sílabas de chocolate

Inventando homens e mulheres

Brincando no jardim junto ao rio

Nunca percebi o mecanismo dos relógios

E dos aceleradores de partículas

Nunca percebi que amar…

Não percebo

Não sei

O significado das palavras

E dos livros

Sobre a mesa-de-cabeceira

Em lágrimas de crocodilo…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 9 de Abril de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:38

18
Mar 15

O fantasma orgulho do corpo

que navega nos sorrisos imperfeitos

fingimento

quando a noite cai

não vive

e quer

ser

não sendo

o que é...

uma lâmpada de lágrimas

alicerça-se ao ombro ferido da serpente

tem na roupa a etiqueta

 

mas...

mas existem pedras de giz

na ardósia tarde que observa o rio

não vive

e quer

ser

não sendo

o que parece

às vezes é uma estrela

às vezes... não passa de uma sombra

velha por dentro

infeliz

 

coitada

e quer

a serpente sobre a secretária

difícil de perceber

o amor

as palavras

os livros

e todas as lâminas que o sono constrói no sonho

a casa desabitada

infestada de personagens

cansadas

como o silêncio luar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 18 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:17

05
Mar 15

Tenho na sombra do sono

um pilar de areia

uma casa em ruínas

sem telhado

sem braços

sem cabeça

tenho na sombra do sono

o cansaço das palavras

o sorriso do poema

enquanto o poeta gagueja

sofre

e sofre

 

(sem braços

sem cabeça

sem telhado)

os olhos da serpente

fingindo corações de luz

como charcos de lama

sapateando junto ao mar

e eu

na sombra do sono...

inventado papéis de amar

comestíveis

ao pequeno-almoço

 

(sem braços

sem cabeça

sem telhado)

este poema disparado

pela mão do sofrimento

levanto-me da insónia

pensando que já acordou o dia

levanto-me do dia...

acreditando que já é noite

escura

húmida

e vagabunda...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 5 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:36

01
Mar 15

Não quero ser como tu,

uma cratera de palavras,

invisíveis,

e mortas,

não,

não quero pertencer às tuas mãos,

não,

não quero poisar no teu peito envenenado pelo silêncio de pedra,

e às vezes, sem o saber, escondo-me na tua sombra,

como um rio amachucado,

dentro de uma folha em papel...

como um rio engasgado nos rochedos da melancolia,

hoje, Domingo, Março, primeiro dia...

de quê?

da tristeza?

ou... ou do inferno entardecer vestido de cidade...

ruas,

automóveis enlouquecidos correndo até ao mar,

avenidas e ruelas,

Março,

primeiro dia...

não,

não quero ser como tu...

um calendário pendurado numa das quatro paredes do abismo,

sem coração,

sem pálpebras de nada quando acendes a luz e a literatura voa nos nossos corpos,

somos dois pontos esquecidos no espaço,

um buraco negro,

corremos em direcção à estrela mais próxima...

e acordam as cinco primeiras canções das estátuas de pedra,

há no teu olhar as sete imagens da seara do sono,

e dos sonhos vejo os transeuntes procurando a sombra do pôr-do-sol,

estás triste, hoje,

primeiro dia,

Março,

e sem o saber... hoje é Domingo...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:27

20
Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

O peso do sono quando a noite se suicida no olhar das palavras,

a metáfora inventada

que as imagens alicerçam à construção da fantasia,

regressar... nunca,

o peso do sono suspenso nos oiros plátanos da ínfima melancolia,

o sono morre como morrem as ervas daninhas das minhas veias,

em silêncio,

o peso do sono voando sobre as esplanadas de vidro,

o cansaço das fotografias entre quatro paredes de xisto,

cintilam as calamidades do infinito orgasmo de papel...

e ninguém percebe que na tua mão...

que na tua mão habitam os finíssimos cabelos do poema,

o corpo vacila no pêndulo da saudade como um círculo de luz,

esquecido nas masmorras da infância,

o peso do sono mensurável nas avenidas acabadas de projectar,

sem automóveis para conversar,

pessoas,

sombras...

casas em sonolência despedida,

eu,

transeunte iluminado pelos vapores de iodo,

mergulhado em vulcões de alegria

e... e alguns pedaços de fogo,

e o peso do sono em constante tortura... quando me visto de noite inseminada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:26

14
Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

A mágica sílaba louca

da ardósia tua boca

desenhando

escrevendo

construindo palavras nas pálpebras do sono,

 

A mágica sílaba louca

correndo à fonte a água pouca

saltitando

sonhando

as madrugadas de veludo em seu tão distinto trono,

 

A mágica sílaba louca

como nunca ninguém a viu nas manhãs sem touca

humedecendo

comendo

os censurados cobertores do absorto mono...

 

A mágica sílaba louca

sabendo que terminaram todas as rimas do silêncio em poupa

a cabeça dançando

e os braços... e os braços abraçando

as insígnias maleitas do desejo nono.

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:45

Junho 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
13
14
15

17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO