Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

01
Mar 15

Acrílico 40x40.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

não inventes nomes

detesto nomes

ruas

e cidades

das palavras

os orgasmos sentidos

dos livros

as palavras dos orgasmos sentidos...

o silêncio

a morte envergonhada

à minha porta

sem prazer

 

crescer

voar sobre os telhados desanimados

tristes

e... e cansados

não inventes nomes

moradas

idade

sexo

para quê?

quando há na madrugada uma mistura gasosa de sílabas e vogais enlouquecidas

fumadas

e... e sentidas

 

as palavras

que inventas

e comes

em cada alvorada sofrida...

não inventes imagens de verniz

que a chuva absorve

em cada tempestade

trazida

por um homem

louco

ou... partida

ou apátrida loucura do homem em cada tempestade... trazida.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Março de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:37

21
Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Esta porta

morta

infeliz aquele que deseja entrar

e a sombra o acorrenta

aos velhos telhados de cartão

esta porta

sem acesso ao coração

em vidro

de pedra

o xisto desfeito em lágrimas de papel...

e há sempre um corpo esperando pelo regresso da tempestade

sem vaidade,

sem... sem amizade

esta porta encerrada para obras de restauro

lapidações em trinta e seis prestações...

a vida se perde neste labirinto de palavras

e madeira apodrecida

esta porta

sem entrada para o casebre da mendicidade

e elas em guerra por um punhado de areia

ou... ou por um poema em decomposição

os braços achatados

e sobre os ombros... a fugitivo da madrugada...

de cidade em cidade... de corpo em corpo... de nada em nada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 21 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:49

22
Nov 14

Queimaste a insígnia da paixão no sonífero adeus da tempestade,

dormes profundamente só...

e te alimentas das insignificantes metáforas da saudade,

trazes nas lágrimas uma canção por escrever,

um poema se ergue na tua mão,

e sem o saberes...

habitas na calandra encaixotada do sofrimento,

não sei se algum dia serei teu,

não sei... não sei se lá fora há sol ou escuridão,

se é dia,

noite...

ou... uma mistura de tons com odor a infância,

um barco encalha nos teus seios,

transpiras... gemes as sílabas do prazer,

esperas pelo nascer da madrugada,

quando hoje não haverá madrugada,

quando hoje... não acontecerá nada...

se é dia,

noite...

ou... ou um pincel disparado pela espingarda da solidão,

e se entranha no teu sorriso...

e no entanto,

queimaste a insígnia da paixão,

como quem apaga um cigarro depois de te amar.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 22 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:08

12
Ago 14

Embrulhas-te no medo,

De amar…

… e de ser amada,

Mergulhas nas indígenas marés que habitam o teu corpo em desejo,

Passeias-te nos rios da saudade,

Como se existissem em ti neblinas prateadas,

Embrulhas-te e mergulhas,

Nos pássaros de papel que poisam nas árvores de brincar,

Ficcionas o jardim do beijo como se ele fosse um simples texto,

Um poema ainda não escrito,

E ambicionas veemente a mão do poeta…

Acariciando a tua pele de pergaminho silencioso,

 

 

Finges não ser desejada,

Como se o desejo fosse uma tempestade…

Ou… ou um suicídio premeditado,

Um homem suspenso nos teus lábios,

Procurando uma sanzala,

Ancorado aos teus braços de murmúrio angustiado,

Embrulhas-te no medo,

De amar…

… e de ser amada,

Vestes-te de madrugada embriagada,

Dançando nas nortadas dos sorrisos alienados,

E não percebes que dois corpos são um espelho convexo no olhar de uma rosa dourada!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 12 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:35

09
Jul 14

Esta pedra de sentar,

o sonho quando se apaga e voa sem que ninguém o consiga alcançar,

esta poeira cristalina sem encontrar o mar,

este verso prisioneiro da maré, pontapeando a sombra do sono,

uma cama me grita, e eu, eu obedeço,

me deito, adormeço,

esta pedra de sentar,

alucinada como os botões de rosa de odor a madrugada,

este meu corpo acorrentado ao velho Cacilheiro,

correndo, andando, estropiando o Tejo envergonhado,

este meu olhar cerrado,

como nuvens de papel, como algodão doce na mão de uma criança...

 

Pedra de sentar,

 

Esta pedra de sentar,

disfarçada...

disfarçada de amar,

 

A morte alicerça-se-lhe e ele acredita na pedra de sentar,

vai à janela... sem se levantar,

das árvores que observa, há uma que lhe acena, e o cumprimenta,

come uma sopa, e... e ela, o alimenta,

ele acredita que no próximo amanhecer, uma gaivota o vai visitar,

então, ele, fica esperando na pedra de sentar,

como um rio, ou... ou como um mendigo saboreando a noite,

vai às putas, e esquece-se de regressar...

 

Esta pedra de sentar...

deprimente sobre a pele encaracolada da tempestade,

ele, ele não sabe que do outro lado do rio, há uma cidade,

ele, ele não sabe que do outro lado da cidade, há um esconderijo,

um jardim empedrado, e que na lapela usa um lenço colorido,

detesta todas as gravatas,

detesta todos os lençóis com o aroma a cansaço,

detesta um simples abraço,

esta pedra de sentar,

irrita-me, e até parece um esqueleto com pernas de chocolate,

com olhos de solidão...

esperando, esperando... esperando a alegria acordar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 9 de Julho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:16

25
Mai 14

Dentro de ti, as palavras que oiço,

as frases incompreendidas depois de poisarem nas tuas ténues mãos de areia,

os sítios proibidos,

a montanha escondida nas tuas pálpebras,

dentro de ti, o silêncio,

a ansiedade de partires...

o rio que desce pelo teu corpo até se entranhar nos alicerces da cidade,

a mesma cidade que te absorveu numa noite de tempestade...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 25 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:16

21
Mai 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Os teus olhos no espelho que poisa no meu rosto,

do cansaço adormecido das palavras anónimas,

tu, meu amor, sussurras-me baixinho que serei eternamente tua,

acredito,

acredito que há no teu jardim rosas envergonhadas,

acredito,

acredito que os olhos que habitam no meu espelho,

um dia serão as minhas estrelas vadias,

 

Os teus olhos que dormem nos meus lençóis,

sós,

a aldeia escapa-se entre os dedos da tristeza...

e acredito...

 

Ofereço-te o meu corpo embrulhado em poemas de miséria,

eternamente tua, eternamente... ausente de ti,

regresso ao espelho e descubro os teus braços na sombra dos meus seios,

afago os teus cabelos enquanto a noite se veste de menina desajeitada,

de menina... de menina de uma outra cidade,

ofereço-te o meu corpo como se eu fosse a tua flor preferida,

a árvore sob a qual te deitavas quando se inventavam em ti os sargaços da manhã,

e partiam os barcos para o luar como pássaros em busca dos filhos em voos infinitos,

 

Os teus olhos que dormem e sonham nos meus lençóis,

tão distante, tu, homem sem local para aportares...

ofereci-te os meus abraços,

e tu,

e tu fingiste não ouvir,

disseste-me que o cais serve apenas para a partida,

e partiste,

sem regressar nunca,

 

Como as palavras,

depois de extinta a fogueira da paixão,

ouvia o silêncio dos teus livros...

e nada mais tenho a acrescentar a ti e de ti,

 

Os teus olhos que nunca me pertenceram,

os teus olhos que brincavam nas minhas coxas antes de eu levitar em direcção aos sonhos,

cerravas-os e partias como uma tempestade de areia...

a ti e de ti,

as conversas inacabadas,

as palavras não escritas, e não ditas,

os teus olhos, os teus malditos olhos que iluminavam um cubículo de papel...

e tinham tentáculos que conseguiam beijar o mar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:07

11
Mai 14

mergulho nos sonhos da tempestade,

depois, depois adormeço na espuma invisível do vento,

pergunto-me se existem cabelos de porcelana no teu sorriso,

dizem-me... dizem-me que o teu sorriso não me pertence,

há um exíguo cansaço no meu peito,

uma corrente de aço que me suspende ao Luar,

um constante fluxo de iões voando nas asas da gaivota madrugada,

mergulho em ti, mergulho nas tuas mãos de rosa ensonada,

mergulho no amanhecer,

sem o saber,

como um inocente corpo abandonado nas sombras da cidade,

como um esqueleto sem vontade de amar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 11 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:21

04
Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sabíamos que o tempo era um conceito restrito, ambíguo... talvez... talvez em fatias de tristeza,

sabíamos que apesar das equações de Einstein estarem correctas, talvez... mas não, nada aconteceu,

nada,

e tudo, e tudo se perdeu,

apenas em poucos segundo, apenas... apenas fingindo que havia madrugada,

 

Apenas...

nada,

como sílabas engasgadas na boca da tempestade, uma nuvem suicidada, morreu...

e nada,

nada como dantes... talvez... talvez tivéssemos tempo de fugir, escondermos-nos nos vagões de aço,

 

Talvez...

um abraço,

um beijo,

talvez... talvez fossemos hoje os donos de todos os Oceanos,

e de todas as marés,

 

Mas...

mas nada aconteceu,

e talvez,

talvez... houvesse uma ténue luz no teu olhar,

mas não, tudo, mas tudo ficou no mar...

 

Sabíamos que um dia chegaria noite,

e que essa noite era construída de pedacinhos papel,

e talvez, novamente, regressassem as sanzalas e todos os musseques,

e talvez, talvez hoje estivéssemos sentados nas sombras dos embondeiros com lábios de amar...

talvez, apenas... uma saudade pertencente a ti.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 4 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:40

09
Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sentia-me surpreendentemente minúsculo no colo dele, sentia-lhe o medo na ponta dos dedos, sentia-lhe a ofegante madrugada a entranhar-se nos seus olhos castanhos, sentia-me

E ele percebia as minhas tristes pálpebras desde que acordei da noite e nunca mais adormeci, e nunca mais sonhei, e nunca mais..., amei, porque

Sentia-me envergonhado de ser um menino em papel colorido com cabeça a preto-e-branco, sentia-me envergonhado porque sabia que o vento me vinha buscar, e que eu, eu não tinha coragem de pronunciar a palavra “Obrigado”, porque, porque percebia-se nas telhas do casebre que mais tarde ou mais cedo algo de triste

Triste?

Que algo de triste ia acontecer, e aconteceu, e... senti-me ténue nas mãos garras da gaivota sem nome, pediram-me a certidão de nascimento, acanhadamente respondi-lhes que não a tinha, que nunca a tive, porque

Sou,

Sentia-lhe o cheiro da naftalina nas roupas emagrecidas, e eu

Sou, sou um apátrida com dentes de marfim, e eu, eu sabia que morreria como um rio de encontro ao mar, que morreria como um barco encalhado num velho quintal de um velho bairro onde habitavam velhas casas, com velhas árvores, onde viviam velhos

Sou,

Pássaros como bolas de naftalina, como beijos prometidos e nunca dados, como beijos perdidos na avenida longínqua da saudade, e sentia-te sentir na minha mão os teus velhos lábios, os teus lábios inventados pelo batom encarnado, e de uma roulote ouviam-se-lhe os gritos da distância, no oitavo andar sentia-lhe os sons amorfos encurralados na janela de porcelana, ele chorava entre as linhas do velho, também ele, do velho

Caderno quadriculado?

Um lindo poema morre, e sou, sentia-lhe o cheiro da naftalina nas roupas emagrecidas, e eu conversava com as também velhas sombras de Deus, e de nada percebia, queríamos conversar e não tínhamos todas as palavras necessárias, Deus imaginava-me um louco vestido de andaime suspenso num oitavo andar da memória, Deus queria-me e eu sentia-lhe os sonoros melódicos suspiros do velho piano de cauda, um livro estava com febre, uma mão agachada no capim, tristemente agoniada... mão, não tinha força para se levantar, para gritar, para chamar os velhos pássaros que viviam nas velhas árvores no velho quintal,

Caderno quadriculado?

Sou,

Sou, sou um apátrida com dentes de marfim, e eu, eu sabia que morreria como um rio de encontro ao mar, que morreria como um barco encalhado num velho quintal de um velho bairro onde habitavam velhas casas, com velhas árvores, onde viviam velhos meninos, e que vestiam velhos calções e calçavam velhas sandálias... e nas mãos

Nas mãos velhos papagaios em papel pardo,

E nas mãos sentia-lhe o nome “pai”, e ele percebia o meu choro, as minhas lágrimas, como percebeu muito mais tarde o meu sonho...

 

 

(ficção – não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 9 de Fevereiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:10

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