Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

01
Fev 15

Pintura_224.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Imagino os teus olhos navegando no silêncio da madrugada,

faltam-me as palavras

e as pedras imaginadas pela noite abandonada,

faltam-me as tuas mãos entranhadas nas minhas mãos...

as correntes em aço,

um barco adormecido nas pálpebras do ciúme,

que só o espelho do amanhecer consegue acariciar,

imaginadas lâminas de desassossego

nas ruas íngremes do desejo,

não tenho tempo para desenhar o teu sorriso nas sombras do corpo envelhecido

da aldeia

em lágrimas,

 

Imagino os teus olhos masturbados na montanha

onde habitam os fios da loucura,

o poema alicerçado aos rochedos da solidão,

o medo,

a morte...

da aldeia

em lágrimas,

como uma criança sem nome,

idade,

nada...

as correntes em aço,

e pequenas migalhas de saudade.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Fevereiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:17

23
Nov 14

A fuinha lâmina de luz inventando vulcões e sonhos de papel, à tarde regressam a casa os comboios emagrecidos da saudade, abro a porta, entro dentro do túnel das imagens a preto e branco, e

Meu irmão, amanhã nada seremos,

Pó e pedaços de cinza em evolução,

E cascalho descendo a montanha do sofrimento,

Amo-te...

Sinto-te nas sombras enigmáticas dos poemas em hibernação, nada há a acrescentar ao teu nome, perdeu-se, morreu nas pálpebras inchadas da madrugada,

Amo-te...

Não o sei, não percebo as viagens sem regresso, a morte quando disfarçada de viajante e acompanhada pelas ruas de uma cidade em destruição, amanhã

O telhado estremece, as fendas sonoras das paredes em xisto... parecem melodias embriagadas que só a noite consegue entender, amanhã

Amanhã os cinzentos barcos de espuma, os miúdos esperando a neblina para se esconderem da chuva, uma criança insemina-se no papel esquecido num banco de jardim, há plátanos centenários que me olham, e conversam comigo,

Amanhã...

Nada,

Incógnitas,

Futuro incerto,

Lâminas de ossos envenenados quase em decomposição, tenho medo, meu irmão, tenho medo da despedida, dos abraços e dos beijos sem palavras,

Amo-te... algum dia voltarei a alicerçar-me aos teus braços,

Amanhã...

Nada,

Incógnitas,

Futuro incerto, relatórios, falsas esperanças, rostos deformados, corpos pincelado de decadência..., amanhã

Nada,

Incógnitas

Amanhã estarei ao teu lado, pegarei na tua mão... lemos em conjunto os poemas que escrevi para ti e nunca os conseguiste ler, por medo, por... por vergonha de mim, não, não meu irmão,

Amanhã renasceremos das cinzas que sobejarem do corpo dele, e nada, nada a acrescentar aos teus lamentos, o que importa estarmos a lamentarmos-nos se ele

Amanhã,

Ele voará em direcção às nuvens invisíveis dos Oceanos, inchadas, as pálpebras, incógnitas disfarçadas de mendicidade, e tu

Amo-te... algum dia voltarei a alicerçar-me aos teus braços,

E tu calmamente caminhando lado a lado com o metro de superfície... odeio-o, não aguento mais senti-lo, não aguento mais ouvir os seus gemidos como gaivotas em cio, como pássaros ao cair da noite,

Torturam-me, obrigam-me a olhá-lo enquanto me encerram numa sala exígua e triste, nada posso fazer... se não

Amanhã,

Se não imaginar aquela lagarta recheada de transeuntes em passo apressado, mendigos à porta, pedindo o que é impossível dar-lhes

A vida,

Amanhã pegarei na tua mão, e

Ontem esqueci-me de comer, ontem esqueci-me de olhar-te, não o consigo, pareces uma sombra esperando o acordar da madrugada,

E

E ninguém para conversar, desabafar, ninguém para me ouvir e repetir os gritos que só o silêncio conhece...

E vem o mar,

E vem a saudade, os beijos, os abraços,

Amanhã não,

Não, não...

Amanhã não estarei no teu conforto, nunca consegui permanecer eternamente nos teus braços, fujo, finjo que tenho sono, e não o tenho...

Dormir,

Porque amanhã,

As imagens a preto e branco dos teus olhos, sem lágrimas, sem estátuas de marfim, e no entanto

Poisas em mim como uma bandeira hasteada nos dedos cremados da inocência, o sexo permanece clandestino, nas palavras, nos actos, na... na incógnita do adeus,

Sentir-me-ei uma constelação em vibração, eu sentir-me-ei uma hélice congestionada numa qualquer estrada sem saída,

Preciso de ti, meu irmão,

Amanhã,

Amanhã não,

Não, não...

 

 

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:01

10
Nov 14

É esta página em branco que te acompanhará,

regressarei ao meu destino,

como em menino...

triste por partir,

amanhã vou sorrir...

porque vou zarpar,

os outros que transportam as sílabas de luz no olhar,

serão recordados,

amados,

é esta página em branco que te acompanhará...

como uma casa construída de pálpebras castanhas

e janelas de silêncio,

 

O Oceano será o meu aconchego,

a minha Pátria,

porque dizem que sou um apátrida,

pois... não nasci em Portugal...

também não sou Angolano,

sou um cidadão filho do mar,

porque os nascidos antes de 11/11/1975... não são Angolanos,

é esta a página em branco que te acompanhará...

sem lágrimas,

não enrugada,

e sempre sorridente,

como a alvorada,

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:43

09
Nov 14

A morte em seu regressar

palmilhando aventuras

despedindo a dor e o sofrimento

a morte em seu regressar

das catacumbas da insónia

há nas tuas pálpebras de amêndoa

um poema embebido em lágrimas

há nos teus ossos a sinfonia da partida

a morte... a morte sem melodia

perdes-te na cidade

andas descalço até tombares no chão

como um soldado... como um canhão,

 

Não gritas

não inventas desculpas para a tua viagem

nada levas

tudo em ti pertence à poeira

e ao cansaço de viver

a morte em seu regressar

entre nocturnos pássaros

e desnudas nuvens de incenso

a morte... a morte da palavra

quando todo o papel arde na tua mão...

e tu... e tu sem nada dizeres

impávido... olhas-te no espelho... e constróis sorrisos de vidro!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 9 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:37

03
Set 14

Esta viagem não terá fim,

a terra que procuro não existe mais,

parecem livros velhos... parecem jornais,

semeados na lareira do sofrimento,

esta viagem é uma guilhotina de insónia,

esperando a noite,

esta viagem é uma rua sem saída...

onde habitam telhados de incenso,

essa terra... essa terra envelheceu,

e esta viagem embrulha-se no vento,

grita às encostas graníticas sílabas com doença,

sílabas dentro de um saco de napa vestido de Céu...

esta viagem desassossegada,

quando se confunde com a madrugada,

essa terra magoada...

no olhar das serpentes em silêncio,

esta viagem desterrada,

sem porto para aportar,

e aquele mar... e aquela terra íngreme que ficou encaixotada,

esta viagem marginal correndo em direcção ao nada,

rochedos, auroras boreais, e outros medos,

e tantos mais...

essa terra,

esta viagem,

este corpo sem correntes,

este corpo sem misericórdia...

que não cessa de ranger,

e tantos mais... esta viagem que parece aos poucos morrer!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:27

31
Ago 14


Participações de Francisco Luís Fontinha


publicado por Francisco Luís Fontinha às 15:13

06
Jul 14

A caixinha envidraçada, suspensa na madrugada, sentia-se o silêncio no espelho da mágoa, havia entre nós o sentimento de que nunca mais regressávamos, partíamos..., e

Sentia-me escuro, desabafava com o meu pai, e ele, não tenhas medo, não, meu filho,

Dentro da caixinha trazíamos pedacinhos de saudade, poucos tarecos e amanheceres de nada, partíamos para o desconhecido, partíamos sem sabermos o que nos esperava, lá longe, ma Metrópole,

Pai? Sim filho, o que é... essa coisa de..., Metrópole, meu filho? Sim, sim pai, é a nossa terra, responde-me ele secamente, não percebi, pois sempre ouvi (com todas as letras) dizer que a minha terra era Angola, não...

Não essa Metrópole, não essa coisa de..., deixa lá pai, não faz mal, depois explicas-me, e cresci, e vivi, ou melhor, fui vivendo sem perceber o significado de Metrópole, esta angústia, este desassossego, sentia-me enforcado numa sombra de uma das mangueiras do meu quintal,

Sentia-me escuro, desabafava com o meu pai, e ele, não tenhas medo, não, meu filho, e eu perguntava-me por era tão grande aquele paquete de papel..., pai? Sim, filho, não tenhas medo, meu filho, não tenhas...

Não te sentes, desculpa?, proibido fumar ou foguear ou todas as coisas terminadas em AR, o café está amargo, poucas coisas sobrevivem às tuas mãos, os cigarros, as orelhas postiças dos animais de brincar, desculpa?, não te sentes, e hoje o café não DELTA, e hoje não, não te sentes, circula, corre, caminha, veste-te de vento e vai até às nuvens de fumo, faz-te homem meu rapaz, faz-te homem

- tantas vezes o ouvi, tantas vezes, e no entanto as perdizes livres como as árvores nas planícies junto ao mar, proibido, proibido morrer, e o beijos, hoje, amargos, não DELTA,

faz-te de homem porque lá fora, da rua, os animais perdidos na cidade inventada pelos silêncios heterossexuais das navalhas de prata, coisas pouco belas, algumas até, horríveis como as luzes dos carrinhos de choque que todos os anos estacionam junto ao lago da miséria, os pássaros perderam as asas e as abelhas hoje são doutoras, os barcos enferrujados e que passavam as terdes no cais da desgraça, hoje

- hoje não DELTA, o café amargo, cintilações de silicone suspensas nas difíceis noites sem dormir,

desculpa?, proibido fumar ou foguear, ouvia-o, tantas vezes, algumas vezes, coisas, loiças de porcelana, pulseiras de marfim, dentes de carneiro, e cornos sem fim, palavras, difíceis de engolir, quando a fome entra nos orifícios cinzentos das marés de Setembro, o barco gigantesco faz-se à vida, aproxima-se em pequeníssimas apalpadelas, e aqui, e ali, debaixo de uma ponte de ferro, a criança descobre o amor quando vê dois corações de vidro loucamente entrelaçados como se fossem dois fios de arame, os calções desciam, desciam, desciam pelas escadas transversais da colmeia, e são doirados, lindos, os olhos de Lisboa à noite, ouvia-o

- hoje,

e deixamos de o ouvir quando o barco se amarrou aos cais e as abelhas cor de mel desceram silenciosamente até perderem numa pensão de meia-tigela esquecida numa ruela sem janelas, árvores, gaivotas, velas, esquecida numa ruela sem jornais, cortinados, velhas e velhos de chocolate com mãos de açúcar, e hoje

- hoje não DELTA, o café amargo, cintilações de silicone suspensas nas difíceis noites sem dormir, e hoje os barcos enferrujados, velhos, apodrecidos, os barcos enferrujados e que passavam as terdes no cais da desgraça, hoje, hoje também são doutores, ouvia-o

desculpa?

- quantas horas tens de mar? ouvia-o,

desculpa?, muitos dias, noites e marés, não falando nas noites de descanso vividas em longínquas coxas de oiro, e púbis de cetim, desculpa?, ouvia-o

- estás licenciado, por equivalência és doutor, também

e pela primeira vez na vida o miúdo percebeu o que era o amor, a paixão, Lisboa à noite, e apetece-me recordar e escrever (Lisboa há noite), ninguém sobrevive ao medo das calçadas que terminam no rio, ouvia-o, faz-te de homem porque lá fora, da rua, os animais perdidos na cidade inventada pelos silêncios heterossexuais das navalhas de prata, coisas pouco belas, algumas até, outras não, e eu inventava-me de homem, comprei um fato e uma gravata, e sapatos pontiagudos, estás lindo

- perfeito meu querido, perfeito,

e eu tal como os barcos, também doutor, por equivalência,

- a carta de marinheiro,

e Setembro foi sempre um barco que regressava de longe, um miúdo que descobria o amor, dois corações de vidro loucamente entrelaçados como se fossem dois fios de arame, os calções desciam, desciam, desciam pelas escadas transversais da colmeia, e um paspalho qualquer aos gritos

- Lisboa, Lisboa, Lisboa,

Vivia numa caixa de sapatos tamanho trinta e cinco, com seis anos vi e calcei o meu primeiro par de botas, ouvia o meu pai

Temos de compra umas botas ao rapaz,

Questionava-me, perguntava-me,

O que são botas?

Começava o frio e eu estava habituado aos calções e às sandálias de couro, não tínhamos nada, ou pior, tínhamos tudo aquilo que muitos não tinham, mas como diz o OUTRO

AGUENTAMOS, ENTÃO NÃO AGUENTAMOS? Claro que aguentamos e felizmente estamos os três vivos e de boa saúde, eu sabia-o como sabia que seria difícil andar com umas botas pesadíssimas e depois de as descalçar os meus pequeninos pés pareciam pedaços de tecido, escuro, com bolinhas escuras, e eu pensava

Deve ser das noites de Inverno, pensava eu e hoje digo-o

E pensava muito bem, pois o Inverno realmente enrija-nos os ossos e alguns de nós ficamos mais espertos, outros, como eu, mais aparvalhado, e ainda outros, coitados dos outros

Moribundos como as geadas de Janeiro, passamos o Natal no interior da penumbra branca, esguia, solidamente como a neve suspensa na grade enferrujada da varanda com vista para a Praça, acordei cedo, corri desassossegadamente para a inventada chaminé e dava-me conta que nada existia dentro da bota que tinha deixado ficar sobre o fogão como sempre o tinha feito em Luanda (não como uma bota mas com um sapato), pensei

De certeza a causa mais provável é a pesadíssima bota, depois imaginei um senhor vestido de vermelho com barbas brancas, um pouco barrigudo, olhei para a inventada chaminé e nenhuma dificuldade encontrei para o dito senhor não me ter deixado alguma coisa, enfureci-me e mentalmente insultei-o, e chamei-lhe todos os nomes possíveis e imaginários, comecei e, Boi e terminei em filho da puta, até que um dos meus irmãos mais velhos me explicou

Não vês rapaz que ele ainda não tem a tua nova direcção, e confesso que não percebi, Direcção, que direcção? O que é uma direcção? E ele explicava-me pacientemente que era a minha nova morada e eu a chorar perguntava-lhe Porquê, Porque viemos, e se fosse hoje ele talvez me dissesse que o meu nome não constava da base de dados, mas eu estava ontem, e ontem eu só tinha uma folha de papel selado com vinte e cinco linhas, mas

Vou entregá-la a quem? Ontem não se podia reclamar de nada, como ia eu queixar-me do homem vestido de vermelho com barbas brancas e algo de barrigudo? Não podia,

Mas como diz o OUTRO

AGUENTAMOS, ENTÃO NÃO AGUENTAMOS?

Eu e os meus pais e os meus irmãos mais velhos e os nossos vizinhos e os vizinhos dos vizinhos,

Todos

Aguentamos e estamos vivos e de boa saúde.

Sem muros, a seara livremente em movimento, a seara alegremente voando como os teus doces dedos quando se entranham no meu branco cabelo, e algumas das minhas folhas, ainda por escrever... vão-se alicerçando nos braços da madrugada, venho de ti chorando porque percebi que as cadeiras da vida, algumas, não muitas, estão a morrer, primeiro o maldito bicho, depois... depois... a maldita morte, e depois, bom, depois a tua aspereza dos violinos em flor, havia sons que mal distinguíamos nos soníferas luzes da noite, e o castanho corpo teu... amaldiçoado pelo cansaço

Tomba,

O musseque engorda,

A sanzala incha como pequenos frascos em vidro quando miúdo colocávamos grilos e outros bichos, nãos os que matam as cadeiras da vida, estes, estes apenas nos roubam os sonhos, roubavam, porque hoje, nem bichos, nem sonhos, nem... nem o teu corpo castanho,

Tomba,

Entre os charcos acabados de preencher como o impresso de candidatura com o respectivo currículo, depois de entregue

Lixo,

Depois de entregue

Nem para limpar o cu serve,

Brancooo é papel e só serve para limpar o cu”, gritavam elas,

E a sanzala inchava, crescia, multiplicava-se,

Lixo,

Sem muros, como vértices de areia engolidos por sexos baratos, regressava da feira da Ladra apenas com as cuecas e pouco mais, a vida de difícil passou a horrível,

E a diferença

Está no número, de autocarro é um, de eléctrico... talvez seja outro, mas todos vão dar ao mesmo, e todos me levavam de regresso, entrava em casa, subia as escadas tão devagar que nem as ratazanas davam pela minha presença, mas ela

Isto são horas de chegares?

E eu perguntava-me se existem horas certas para regressar a casa, mesmo apenas em cuecas, se existem horas certas para as refeições...

Horas, tem horas?

Não, não as tenho, sou alérgico,

Mas ela entre perguntas e respostas, entre o vai e o vou, fui e nunca mais voltei à sanzala, cansei-me das viagens nocturnas pelas avenidas transatlânticas com bancos em madeira e pássaros de pedaços papel, fartei-me da cubata apenas só com uma porta de entrada, e juro

Detesto,

Juro que me irrita entrar e sair sempre pelo mesmo sítio, parece de loucos, e de loucos, juro, preferia entrar pela porta e sair pela janela, mas a cabra da cubata nem janelas tem, nem cortinados tem, nem tecto onde suspender um par de calças

Tem?

Não, não tem não,

E entro em casa de cuecas na mão, ela

De onde vens tu?

Venho da lua, venho do mar, venho de onde não te interessa,

Adeus,

Era Domingo, acordei cedo, sem muros, a seara livremente em movimento, a seara alegremente voando como os teus doces dedos quando se entranham no meu branco cabelo, e algumas das minhas folhas, ainda por escrever... vão-se alicerçando nos braços da madrugada, venho de ti chorando porque percebi que as cadeiras da vida, algumas, não muitas, estão a morrer, primeiro o maldito bicho, depois... depois... a maldita morte, e depois, bom, depois a tua aspereza dos violinos em flor, havia sons que mal distinguíamos nos soníferas luzes da noite, e o castanho corpo teu... amaldiçoado pelo cansaço

Tomba,

E O musseque engorda...

A caixinha envidraçada, suspensa na madrugada, sentia-se o silêncio no espelho da mágoa, havia entre nós o sentimento de que nunca mais regressávamos, partíamos..., e

Sentia-me escuro, desabafava com o meu pai, e ele, não tenhas medo, não, meu filho,

Dentro da caixinha trazíamos pedacinhos de saudade, poucos tarecos e amanheceres de nada, partíamos para o desconhecido, partíamos sem sabermos o que nos esperava, lá longe, ma Metrópole,

Pai? Sim filho, o que é... essa coisa de..., Metrópole, meu filho? Sim, sim pai, é a nossa terra, responde-me ele secamente, não percebi, pois sempre ouvi (com todas as letras) dizer que a minha terra era Angola, não...

Não essa Metrópole, não essa coisa de..., deixa lá pai, não faz mal, depois explicas-me, e cresci, e vivi, ou melhor, fui vivendo sem perceber o significado de Metrópole, esta angústia, este desassossego...

Pai? Sim meu filho...! Será esta a nossa última viagem? Não sei, não sei... não sei meu filho...

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:10

03
Jul 14

A caixinha envidraçada, suspensa na madrugada, sentia-se o silêncio no espelho da mágoa, havia entre nós o sentimento de que nunca mais regressávamos, partíamos..., e

Sentia-me escuro, desabafava com o meu pai, e ele, não tenhas medo, não, meu filho,

Dentro da caixinha trazíamos pedacinhos de saudade, poucos tarecos e amanheceres de nada, partíamos para o desconhecido, partíamos sem sabermos o que nos esperava, lá longe, ma Metrópole,

Pai? Sim filho, o que é... essa coisa de..., Metrópole, meu filho? Sim, sim pai, é a nossa terra, responde-me ele secamente, não percebi, pois sempre ouvi (com todas as letras) dizer que a minha terra era Angola, não...

Não essa Metrópole, não essa coisa de..., deixa lá pai, não faz mal, depois explicas-me, e cresci, e vivi, ou melhor, fui vivendo sem perceber o significado de Metrópole, esta angústia, este desassossego, sentia-me enforcado numa sombra de uma das mangueiras do meu quintal,

Sentia-me escuro, desabafava com o meu pai, e ele, não tenhas medo, não, meu filho, e eu perguntava-me por era tão grande aquele paquete de papel..., pai? Sim, filho, não tenhas medo, meu filho, não tenhas...

 

(…)

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 3 de Julho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:16

07
Jun 14

Esta tua viagem,

sentado numa velha cadeira de vime,

esta tua viagem... com regresso, sem regresso, nunca se sabe,

finges não ter medo, e percebo que ele corre nas tuas veias de alcatrão,

esta tua viagem,

navegando por ruas sem nome, por ruas sem... sem cansaço,

pedindo a esmola ao desassossego destino,

que habita numa casa amarela,

 

Esta tua viagem, nunca terá fim?

 

Gosto de ti!

E queria acompanhar-te como se fosse uma velha mala,

sem etiqueta,

 

Esta tua viagem,

sentado...

numa velha cadeira de vime,

numa praia desnuda, na praia do crime,

 

E o... e o medo?

 

De não regressares, de não votares a ler no luar as minhas palavras,

e esta tua viagem, meu velho... não terá fim,

começaste, apeaste-te numa sanzala de brincar,

olhaste os telhados de zinco, puxaste de um cigarro... e pluf,

e pluf,

novamente o eterno silêncio,

e novamente o eterno derradeiro medo,

desta invisível viagem...

 

Esta tua viagem, nunca terá fim?

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 7 de Junho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:20

30
Mai 14

Do teu silêncio vulcânico,

pequenos milímetros de saudade,

pedacinhos de beijos suspensos nas andorinhas,

estrelas há, mas um cortinado opaco ofuscam o teu olhar...

sereno,

uma sentinela fuma vagarosamente o seu cigarro de sombras alcalinas,

e tu, tu pertencente ao círculo trigonométrico, embrulhas-te no cosseno do desejo,

havendo sobre ti alguns sobejantes sorrisos de Luar,

 

Ou...

talvez, ou talvez não pertenças tu às noites sonolentas das camas de veludo,

do teu silêncio...

as gargalhadas dos telhados cabelos que voam sobre a cidade,

 

A musicalidade das tuas pálpebras quando se escancara uma janela de acesso ao mar,

o barco do sémen encalhado nas tuas coxas de vidro,

uma jarra de hortênsias envergonhada, suicida-se,

e no pavimento da inocências alguns pingos de espuma do colorido amanhecer,

do teu...

… o silêncio vulcânico insemina-se e cresce sobre os teus seios de Primavera,

louca,

a sanzala saltita entre charcos e os desnudos pássaros com sabor a viagem...

 

Ou...

talvez, ou talvez pertenças tu a um sonho impossível,

semeada no jardim da solidão...

ou... ou do teu silêncio vulcânico... acordem as cinzas da madrugada.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 30 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:07

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