Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

14
Mai 11

Três cordéis prendem-me a este país (Portugal)

E eu um papagaio de papel

Com muitas cores

À deriva nos céus

 

Levado pela tempestade

Fugindo das nuvens

Eu um papagaio de papel

Suspenso em três cordéis

 

Caminhando por montanhas e socalcos

Encalhado entre o Douro e o Tejo

Estacionado em Belém

À espera de embarque

 

E quando passa o navio?

 

Não navios a passear

Não petroleiros com tosse

Nada que corte os três cordéis

Para eu começar a voar

 

E quando acordar…

Quando acordar poisar a minha mão

Na baía de Luanda

E abrir os olhos para o mar…

 

 

Luís Fontinha

14 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:21

10
Mai 11

Estou bem obrigado

Sem asas

Não consigo voar…

 

Mas continuo a ser pássaro

E a poisar nos sonhos da madrugada,

 

E a passear junto ao mar.

 

Estou bem obrigado

Sem asas

Não consigo voar…

 

Mas posso amar

Sonhar

 

E a passear junto ao mar.

 

 

Luís Fontinha

10 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:50

01
Mai 11

Que tenhas sorte meu filho, rezo muito por ti, tenho lido as palavras que me deixaste no amanhecer, escritas à pressa, quando fugias de mim, tenho lido, por entre as memórias, as frases que deixaste penduradas nas paredes do nosso quarto, imundo, com a janela semi-fechada, para não seres vista na escuridão, tenho lido sem vontade de ler, mas o destino obriga-me, a reler o que já tantas vezes li, sempre a vasculhar no passado, no ontem, dia de Páscoa para uns, de não fazer nada para mim, rezo muito por ti, meu filho.

 

Não respondes às minhas mensagens, massagens, ignoras estas mãos espantadas com o teu rosto, quando em pleno quarto escuro, tu apareces de sorriso estampado em ti, trazes o teu cavalo branco, é meigo, afável, gosta de mim, sabes, é normal, toda a gente gosta de mim, não faço mal a ninguém, será, penso que sim…

 

Por entre as árvores, escondo-me, faço de conta que não estou cá, o senhor está, não, saiu, foi à cidade, e quando me escondo, nem tu, nem tu… consegues descobrir-me por entre as árvores, esperando que o vento me diga quando deva sair do esconderijo, o meu, nas árvores da primavera, aos poucos, começa a aparecer a pelugem nas suas asas, e também elas, um dia, vão voar.

 

Podias ter arranjado outro quarto, parece que está a cair aos bocados, não tinha dinheiro para outro, e é frio, nem aquecimento tem, numa das paredes está escrito em sinais de silêncio VOLTO JÁ, mais acima, junto ao candeeiro, no tecto, TENHO SAUDADES, e curiosamente são as palavras que me deixaste escritas no amanhecer, possivelmente ontem, só podia ser ontem, e detestas o fumo do meu cigarro, tens nojo, e indiferente, olhas para o meu fumo, sorris, e desejas-me.

 

Quando eu morrer nem uma missa mandas rezar pela minha alma, rezo muito por ti, meu filho, acho que o teu cavalo tem ciúmes de mim, tem agora, ele é assim mesmo, fala baixo, ainda nos ouvem do outro lado, só se fosse código de morse, não tem piada, parvo, parva, calem-se os dois, sempre a discutir, um diz que é branco, o outro que é preto, cresçam…

 

DESEJO-TE já nem isso, ontem sim, ontem desejava tudo, hoje, desejo nada, desejo que amanhã esteja sol, e que te faça sorrir, desejo não ter vontade de escrever, desejo a chave do teu coração, fechadura complicada, mas vou abri-la, sei que vou, amanhã, amanhã estará sol, rezo muito por ti, meu filho.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:38

12
Abr 11

Da luz reflectida nele, ela sonhava abraça-lo, brincar com as suas mãos, levá-lo talvez a passear onde ela se escondia à tardinha, depois de o silêncio adormecer na tarde, depois de ela cansada, quase noite, ela a despedir-se do dia, ela a desejar o luar. E ele, desejoso de alcançar o mar, e ao fundo, a foz, o fim. Um petroleiro indiferente, e de soslaio, refugia-se na âncora que o prende ao fundo, aprisiona-o, e de olhos abertos, uma mão acena para ele.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:57

01
Abr 11

Tenho três cabeças, quatro pernas e cinco braços, vivo dentro de uma rosa e às vezes pintam-me de encarnado, tenho a madrugada dentro de mim, e sou o dono legítimo das nuvens, legado em testamento pelo sol; sou muito rico. E sou o proprietário do luar.

Vivo em jardins emprestados, e sou alimentado pelo olhar dos apaixonados, tenho três cabeças, quatro pernas e cinco braços, oiço música clássica e às vezes alicerço-me nos lábios de uma gaivota, ela sem asas, não voa, nunca voou, ela não três cabeças, ela não quatro pernas, ela não cinco braços, ela, ela apenas possui olhos de mar e deita-se no pôr-do-sol.

Eu cinco braços e nunca voei, e ele pergunta-se, e eu pergunto-me,

- como será voar!

E ele pergunta-se como será voar, ser o dono da manhã quando a tarde começa a acordar, e das três cabeças às vezes pintadas de encarnado apenas dois olhos, um par de lábios e quatro narizes, e eu pergunto-me, e ele pergunta-se,

- porquê?

E eu pergunto-me,

- porquê a ela?

Vivo dentro de uma rosa e às vezes pintam-me de encarnado, tenho a madrugada dentro de mim, e sou o dono legítimo das nuvens, sou o menino dos sonhos que perdeu-se junto à praia, e a praia ficou lá, a areia finíssima ficou lá, o esqueleto veio, eu fiquei lá, ele ficou lá, e pergunto-me, ele pergunta-se,

- porquê? Porquê a ela?

Ninguém. E ninguém. Ninguém me responde porquê, e se ao menos o silêncio me explicasse porquê, se ao menos o silêncio lhe explicasse porquê ela, mas ninguém, e ninguém junto às árvores, e as árvores com os pezinhos enterrados na areia, muitos braços, mas como eu, mas como ele, não sabem voar, e alguém pergunta,

- porquê?

Se ao menos o meu corpo de tungsténio… e o meu corpo não tungsténio, o meu corpo frágil que vive dentro de uma rosa, tenho três cabeças, quatro pernas e cinco braços, e pergunto-me, e ele pergunta-se,

- porquê ela?

 

 

 

(texto de ficção)

FLRF

1 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:33

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