Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

28
Ago 14

Este xisto onde me deito

E confesso os meus sonhos invisíveis,

Esta caverna sideral com clarabóias sombreadas,

Este medo de me perder na floresta dos bichos…

E este rio…!

Este rio com sabor a saudade,

Esta vida mergulhada numa cidade

Inventada,

Este xisto,

Esta montanha recheada de vaidades,

Estes pássaros que se alimentam dos meus ossos…

E me transformam em cadáver,

 

 

Este xisto e este cansaço

Que me suspendem nos rochedos do amanhecer,

As ondas que não cessam de brincar

No meu peito de sofrer,

 

 

E este abraço,

E este xisto rosado nas pálpebras da madrugada,

Esta estrada sem saída,

Esta rua deserta com palhaços,

Este xisto onde me deito

E um trapezista louco se abraça aos meus cabelos,

Este circo,

Este circo sofrido voando nos lábios dos socalcos envenenados…

Estes homens enforcados,

Este xisto,

Este xisto derretido em bocados,

Que se alicerçam aos meus segredos…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:30

26
Jun 14

Porque teimas em silenciar-me,

se amanhã não existo...

 

Porque não percebes que o meu corpo são pedacinhos de xisto,

milímetros de muro com sorriso para o rio,

porque dizes que as minhas palavras são cadáveres em movimento,

cabelos enrolados no vento,

esperando o acordar da madrugada,

espelhos esmigalhados com mãos de amar, espelhos... espelhos apodrecidos na calçada,

 

Espelhos desventrados,

esperando que a janela da insónia se abra,

e... e entre a claridade nos teus lábios,

 

Porque teimas em silenciar-me,

se amanhã não existo...

 

Se amanhã sou espuma,

cansaço,

e... e mar,

porque amanhã os pedacinhos de xisto que habitam no meu corpo...

são... migalhas,

pó,

 

Nada...

agulhas,

 

E... e não me esperes mais,

porque os muros... porque os muros depois de morrerem...

jamais renascerão para o teu desejo de me cansar,

 

Nada...

agulhas,

 

Se amanhã sou espuma,

cansaço,

e... e mar,

 

Se amanhã sou... se amanhã sou o teu amante disfarçado de luar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 26 de Junho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:52

27
Abr 14

há um xisto vestido de tristeza

uma nuvem sangrenta poisada em ti

árvore sonolenta

magoada

jardim descalço

jardim... jardim filho da madrugada

 

há um rio perdido na calçada

esperando a tua mão

há um rio dentro de ti

correndo

correndo... correndo nas tuas veias de solidão

e gritando e gritando...

 

há um xisto no muro onde me sento

e te espero

dou-me conta que hoje não há o rio dentro de ti

que tens lágrimas

que... que danças no jardim

magoada no jardim descalço...

 

adormeço

sonho com fios de nylon aprisionando o Céu

que tens estrelas no olhar

e flores

flores na tua doce boca de jasmim

há um xisto... de tristeza... há um xisto dentro de mim.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 27 de Abril de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:48

20
Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Voas nos meus olhos, gaivota madrugada,

procuras em mim, palavras,

voas porque sentes nos teus lábios o vento em desejo,

e no teu prometido beijo, uma simples canção, melódica... e adormeço,

e esqueço que lá fora habitam telhados de vidro, esqueletos de prata,

bairros em lata,

lá fora, na imensidão nocturna da embriaguez,

e um dia, talvez... talvez percebas as minhas tristes palavras,

como pertence aos muros o xisto envenenado,

dos socalcos... o cansaço humano vestido de negro,

e no rio... no rio o meu corpo ensanguentado pelas nobres estrelas da cidade,

voas, voas sem saber que estou vivo...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 20 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:52

01
Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

A flor do desassossego acorda-me com se eu fosse um metro quadrado de terra não fértil

como se eu fosse um pedaço de papel ainda não escrito

doente

debaixo da sombra dos embondeiros

oiço os mabecos vomitarem as sílabas de aço das poucas palavras pronunciadas

gordas... acabadas

tristes como eu porque o dia não cresce

porque a lareira do desejo afunda-se nos cinzentos beijos da madrugada

“a flor tu” que o calendário da paixão colocou na parede da minha mão...

“a flor tu” que eu recuso tocar

porque as nuvens prateadas são como as sandálias... esquecem-se de caminhar

e morrem no mar,

 

E eu toco-te sem perceber que os abraços são filhos do vento

e “a flor tu”

um fino esqueleto de luz voando sobre as montanhas do prazer

a flor

a flor do desassossego acorda-me

enoja-me

faz de mim um velho mendigo sem casa para habitar

sem palavras para escrever...

sem jardins

sem nada...

e eu toco-te e tu...

e tu... tocas-me pensando que sou uma pedra de xisto esquecida nos socalcos do destino.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:33

23
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

A noite destrói todas as palavras de papel que o invisível destino escreve

a noite inventa-se na algibeira do clandestino miúdo com suspensórios de vidro

o miúdo estupidamente apaixonado por uma uma gaivota...

… chora

transpira como lâminas de aço quando a lareira acesa derrete o silêncio

há uma pauta sobre a mesa da sala de jantar

na pauta brincam notas musicais órfãs

crianças das ruas sem nome não vivem... mas também não choram

crianças com mastros ao peito... vivem navegam choram e morrem...

e bandeiras de cetim sobre os cabelos cinzentos da tristeza dizem-lhes o que é a saudade

a noite embriaga-se como pedaços de xisto descendo os socalcos com as penumbras das sonâmbulas cambotas correndo e as bielas... as bielas nas mãos do miúdo estupidamente apaixonado...

… que chora... elas imóveis elas silabadas elas... elas são as bielas dos covis iluminados pela loucura neblina que o desejo procura no corpo nu sem nome as bielas fodem...

Alimentam-se dos sombreados tectos de verniz que às esplanadas de areia acordam como tecidos mortos e envenenados e doirados e... e a noite em papel dissolve-se na garganta do condenado

hoje há moelas

moedas de prata

lágrimas de crocodilo

e dentes de marfim

A janela do muro envidraçado abre-se e a noite começa a comer o miúdo depois de destruir todas as palavras de papel que o invisível destino escreveu

e o pobrezinho menino prostitui-se no cais de embarque dos petroleiros ofegantes

a gravata esgana o pescoço dos homens de mini-saia

os sapatos de três andares... adormecem noite adentro num sótão abandonado

a gaivota do amor

não dorme

não vive

chora

chora... chora... parvo... porque choras tu?

e era capaz de acreditar nos objectos negros das portas com triângulos desenhados...

com... com coxas cosidas pelas mãos da Avelã costureira...

Peneirenta

rafeira

e ordinária...

a noite é uma puta desgraçada

e feia...

a noite fode-nos como cinzeiros em prata nas mãos de um drogado...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:33

21
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

O pormenor emblemático do corpo composto por luz, pétalas encarnadas e algumas insónias margaridas, o jardim parece um monstro recheado de nozes, vozes, um monstro com olhos em xisto, socalcos, montanhas... e nas veias, o rio

O Douro?

O sorriso das madames com plumas desiguais sobre os ombros sombreados pelas nuvens que a noite constrói depois de todas, ou apenas uma ou outra, luzes de néon vomitarem as palavras encravadas nas montras da cidade, oiço-te vaguear como uma gaivota ferida, doente, oiço-te mergulhar no meu Douro que odeio, confesso... que sempre odiei, vivi para ser uma cidade, com bares, ruas e ruelas, travestis, putas, e donzelas... o Douro enerva-me, desiludiu-me quando o encontrei pela primeira vez... como me desiludiram algumas das mulheres que eu tive

(como desiludiste algumas das mulheres que tiveste)

Como me desiludiram algumas das calçadas empedradas com acesso ao rio, outro rio, um rio com vida, um rio com esqueleto de marinheiro, em cio

O Douro?

A ponte iluminava-se, a ponte voava sobre os espaços exíguos da minha cabeça, acordava com pequenas grandes tonturas, acordava a fumar cigarros proibidos e deitava-me a fumar

Cigarros proibidos?

O Douro enerva-me, desculpem-me, mas amo a cidade do Tejo, amo a ponte, os charros que fumei enquanto choramingava... e depois caía num qualquer bar em Cais do Sodré, depois era madrugada, deambulava pelas ruas mais profundas, mais escuras, mais... mais amadas em mim, depois cambaleava, tropeçava no paralelepípedo e vomitava sons inaudíveis dos carris frios, tão frios como o teu corpo de menina enquanto descia Setembro sobre uma sombra em Trás-os-Montes, odeio-te sabendo que sou prisioneiro de ti, odeio-te sabendo que só serei livre quando

Pegar na tua mão, acariciar-la como se fosse a folha de um dos livros do António Lobo Antunes, ou um dos pares de luvas de lã que tive em miúdo, depois deixei de sentir frio porque as minhas mãos transformaram-se em rochas, pedaços de granito, eles também gélidos, eles também... sós, depois vieram os olhos verdes que a pouco e pouco ficaram sem cor, hoje são daltónicos e precisam de lentes para ler as tuas palavras das tuas cartas que eu te reenviei... e hoje, hoje sinto saudades

Da cidade do Tejo,

A ponte iluminada balançava quando o vento vinha para me levar e sempre que me preparava para partir, não partia, um carro de brincar iluminava a ruela dos candeeiros mortos, movimentava-se por quatro pilhas de um volt e meio, redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,

Saudades?

Do Tejo,

Dizer desejo-te é mentira, ilusão, despedida,

Saudades?

Do Tejo,

(dedico esta música a todos os meus amigos)

Amigos? Quais amigos... dás-te conta que não tens amigos, e que se vivesses na cidade do Tejo não tinhas um cão com catorze anos, caquéctico, rabugento... mas engraçado, porque só ele percebe porque choro, quando choro...

(qual é a frase?)

O pormenor emblemático do corpo composto por luz, pétalas encarnadas e algumas insónias margaridas, o jardim parece um monstro recheado de nozes, vozes, um monstro com olhos em xisto, socalcos, montanhas... e nas veias, o rio, a heroína em ebulição sentia-se e no tombar das árvores doidas, como sonâmbulos corpos emagrecidos havia sempre alguém que não regressava,

(ai a frase... a frase...)

O Douro?

A límpida água dos sonhos e da esperança voltam à panela de pressão e evaporam-se nas avenidas encantadas dos guindastes com braços em aço e lábios em pergaminho,

Hoje temos beijos,

(quer uma ajudinha... senhor Francisco?)

Hoje temos beijos, saudades e nada mais do que isso... e redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,

Saudades?

Do Tejo,

(diga comigo senhor Francisco... “Com os voos nocturnos da menina Amélia a sobremesa adormece sobre a mesa-de-cabeceira”)

Hoje temos beijos, saudades e nada mais do que isso... e redopiava em círculos, usava a voz das minhas palavras na boca das outras palavras, aquelas que nunca consegui escrever, dizer amo-te é mentira, ilusão, despedida,

Saudades?

Do Tejo,

E dizer amo-te é pura loucura, desilusão... sei lá que mais...

(à escolha)

E diziam-me que aqui existiam verdejantes barcos com asas em porcelana... pode lá ser...

E é, e é... é assim desde que partiste...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 21 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:06

09
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

brincava com as dúcteis tuas mãos de porcelana

vivia em nós o espelho giba da paixão

e sabíamos que das barcaças tontas dos malignos jacarés de palha...

palavras em fogo atravessavam os nossos corpos

eram agulhas de desejo

como serpentes envenenadas da selva dos beijos embriagados

comíamos coisas fúteis

bebíamos líquidos esbranquiçados com duas simples pedras de gelo...

a tua mão tremia

abraçada à tua voz de noz enfeitada com néons de linho nos cortinados vazios das esplanadas nocturnas de Belém... e os cacilheiros dentro de ti

choravas e uivavas...

e apitavas...

 

percebia-se nos teus olhos o romper da madrugada

e o regresso das chuvas invisíveis com sabor a procissão desalmada

brincava

choravas

e vivíamos encalhados numa tenda de circo

com asas metálicas

e nariz em fibra-de-vidro...

não não éramos um avião

e vivia em nós o espelho giba da paixão

um fino sabor a hortelã vagueava no teu rosto desenhado no xisto de prata

e da lareira

uma nuvem de sofrimento fundia-se como chumbo no prato fundo da ribeira dos tristes orvalhos...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 9 de Dezembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:08

03
Dez 13

foto de: A&M ART and Photos

 

eu sabia que não voltava a ouvir o som estaladiço das tuas mãos sobre o meu peito

percebi quando se extinguiram todas as lâmpadas do silêncio que existiam debaixo da ponte dos sofrimentos

havia dor

havia dor masturbada na simplicidade da doença

havia morte que se entranhava nos ossos ocos da solidão

eu sabia

eu sabia que não voltava a sentir os teus mergulhados dedos nos meus amargurados lábios

e dos meus olhos

lágrimas

gotículas de suor que se desprenderam do icebergue da desgraça

o tecto de colmo

ruiu

como o teu corpo sobre uma cama de ferro em cinzento leito

havia beijos

havia cinzeiros de nicotina esperando o regresso da madrugada

eu sabia

eu percebia...

que nunca mais regressava

que era impossível acreditar nos límpidos anzóis de naftalina

eu dormia

eu fingia que dormia

mas não dormia

porque era impossível adormecer embrulhado a um cadáver de pano...

o cigano Moisés implantado sobre os colchões de areia das tempestades de xisto

e eu

e o tecto de colmo...

no pavimento térreo... esperando que te levantasses

esperando...

esperando que acordasses das malignas manhãs de poesia

mil beijos

um

apenas... um abraço... para te aconchegar antes de partires...

escreveste as últimas palavras escritas das vozes roucas da partida

e eu sabia

que... não voltava a ouvir o som estaladiço das tuas mãos sobre o meu peito...

e... mil beijos depois... acordaste para mim.

 

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 3 de Dezembro de2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:41

24
Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

ouvíamos os mabecos embrulhados na insónia do amanhecer

e tínhamos sobre o imaginário silêncio

as palavras pergaminho de sons invisíveis que as árvores desenhavam nos teus lábios de gaivota apaixonada

tombavam como enxadas derramando suor e lágrimas nos socalcos do desejo

descendo o teu corpo

e mergulhando no rio como pequenos delírios de luz

 

ouvíamos os cubos de gelo gorgolando na tua garganta de caverna madrugada

e ao longe

o vento trazia-nos a flor embalsamada com pequenos colarinhos em prata

e uma mão desalmada

entranhava-se nas tuas coxas de xisto

o muro da solidão tombava

a árvore tombou

e as tuas mãos de porcelana

partiram-se enquanto a noite sorria à janela do cinzento cobertor da dor

como um longínquo fôlego caminhando nos carris da tristeza

ouvíamos

e ao longe a andorinha desassossego morria em pedaços de saudade e melancolia

 

ouvíamos...

chovia

a cansada abelha dos triângulos de chocolate

e ouvíamos

e chorávamos

as palavras sem palavras dos cigarros adormecidos em palavras semeadas

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 24 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:54

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