Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

17
Nov 14

Quando a equação do desejo se perde na escuridão

e há uma incógnita sonolenta embrulhada na ardósia da tarde

nada a fazer

esperar

ou... ou chorar

ou... ou escrever,

 

Quando a equação...

 

É um pedaço de chuva alicerçada à tempestade

o xisto envenenado reaparece nos socalcos em fuga

nada a fazer

olhar o mar

ou... ou inventar palavras de amar

ou... ou desenhar o sorriso da Garça sem o saber,

 

Quando a equação...

… quando a equação te faz sofrer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:13

05
Nov 14

O vigilante nocturno olha-me e alicerça-se aos meus braços,

sinto-lhe o esqueleto enferrujado a caminhar no meu peito,

ofegante,

alimenta-se dos meus velhos ossos com odor a madrugada sem luar,

peço-lhe um desejo...

e... e nada posso desejar,

o vigilante nocturno é como uma âncora de luz sobre as minhas pálpebras envergonhadas,

que as flores seduz...

e aos jardins oferece poemas,

e... e palavras de amar,

o amor enfurece as árvores sem folhas,

nuas como as gaivotas ao entardecer...

 

Depois acorda o silêncio vestido de cidade,

e eu sem saber o que fazer,

os comboios saltitam dentro dos carris desalinhados,

os comboios parecem corpos a arder...

há cinzas laminadas de sangue no sonífero poético,

alucinações desorganizadas em grande multidão,

uns que choram,

e outros... e outros que choram por prazer,

e sem perceberem...

há uma placa de zinco onde habita uma ponte,

nunca conheci o seu nome,

nunca vi um sorriso nas suas treliças,

 

Têm fome as estrelas de papel que brincam no tecto da minha aldeia,

lêem pedaços de nada e alguns cubos de sombra,

escrevem na incandescente memória o álcool sobejante da noite passada...

ressuscitam os outros vigilantes e demais arruaceiros sem gabardina,

e o meu corpo de aço... tomba sobre o ombro de um transeunte desconhecido,

a cidade é uma seara sem espigueiros,

desalojadas enxadas em luta conta a pobreza...

têm fome as estrelas e os planetas,

mendigos travestis correndo montanha abaixo,

e suicidam-se nos rochedos da infância...

triste, triste esta vontade de escrever...

sabendo que nem às pedras pertenço!

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 5 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:57

29
Out 14

Esqueci o meu nome enquanto dormia nesta seara de insónia,

levemente me batia,

o vento inanimado...

cansado de trabalhar,

esqueci o meu nome nos livros da paixão,

desenhei corações nas entranhas da solidão,

esqueci o meu nome nas ruas de uma cidade,

também ela,

também... também eu...

sem nome,

sem... sem idade,

na calçada da liberdade,

 

Caminhei sobre o amarfanhado mar,

como um vampiro em chocolate,

deitei-me no chão,

dormi na seara da insónia...

esqueci o meu nome nas estrelas de cartão,

não sei se estou vivo...

não sei... não sei se hoje há vertigens na minha mão,

enquanto embriagado me encosto ao xisto muro,

não seguro,

o perfume silêncio em volta dos teus seios de rochedo cinzento,

não me calo...

não... não me contento,

 

Esqueci o meu nome nas andorinhas de veludo,

voei como voaram os meus sonhos...

hoje... apenas pedaços de sombra,

e aço enferrujado,

não me calo, não... não tenho medo do amor impossível,

esqueci o meu nome,

esqueci...

nas arcadas do infinito,

não seguro,

não... não me contento...

e no entanto,

sou feliz sem nome... sou feliz sem estória...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:46

Esta espingarda de amar

que vive sem matar

não há bala nem canhão

que se alicerce no teu coração,

o amor travestido de socalco

descendo a montanha do adeus

o rio... longe

o rio come

e alimenta

este corpo descalço

um desenho pintado no ar

um suspiro... um suspiro pronto a disparar...

esta espingarda de amar

que vive sem matar

esta paixão quadriculada

sempre pronta para voar,

voar... voar na madrugada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:49

22
Out 14

Vão morrendo as palavras de amar

quando desperta no amanhecer

o quadrado silêncio mergulhado no círculo lunar,

 

Faço-me à vida,

caminho sonâmbulo sobre a fogueira dos meus poemas

até que eles se transformem em nada,

olho-me no espelho da agonia, sinto na garganta a tempestade da paixão,

carrego nos ombros o peso do meu próprio caixão,

em vidro, e com fotografia a preto e branco para o mar,

saboreio o teu corpo nas pálpebras verdes dos livros não lidos,

perco-me em ti... sem saber se amo, sem saber se estou vivo nesta campânula de lágrimas,

e o desassossego inventa-me como se eu fosse um papagaio de papel,

de muitas cores,

como muitas cartas de amor

no tempo destruídas pelas suicidas lâminas da geometria,

 

Tenho saudades de ti...

minha Lisboa, meu amado Tejo... meu amante Cais do Sodré,

percebia nas paredes húmidas da noite um corpo em translação,

uma puta que procurava um ombro de gesso,

um gajo embriagado que cuspia finos fios de fogo...

e terminava quando a cidade acordava,

eu amava, eu não amava...

eu sentia nas amoreiras flores o beijo de ninguém,

o pavimento paralelepípedo da tristeza começava a transpirar,

ouviam-se os gemidos delas, ouviam-se os gemidos deles...

e ao longe,

um apito encurralado entre carris de aço em direcção a Belém,

 

(Vão morrendo as palavras de amar

quando desperta no amanhecer

o quadrado silêncio mergulhado no círculo lunar),

 

Esquecia as mãos na algibeira,

iluminava-me na fragrância madrugada quando um banco de jardim corria para o rio,

misturava-se com um velho Cacilheiro, às vezes... tossindo, às vezes... às vezes coxeando...

como um mendigo prisioneiro de um vão de escada,

como um marinheiro em busca de sexo, drogas... e um par de asas...

nunca voei,

e havia noites que sobrevoava a minha amada Lisboa,

como um louco,

como um prego de aço no barbear da manhã...

disfarçava-me de ponte metálica...

e desenhava sorrisos nos vidros pintados de negro embalsamado,

até morrerem todas as palavras de amar...!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:00

14
Out 14

São estes os teus medos,

são estas as tuas lágrimas envenenadas pelo silêncio,

são eles que te protegem,

são eles que te enforcam na madrugada,

oiço o sussurrar da alvorada,

são estes os teus desejos impossíveis de realizar,

são estas as pálpebras do teu olhar,

são as tuas veias o cansaço de amar,

viver...

e sonhar,

são estas as palavras de matar,

vejo o ressuscitar de um cigarro laminado pelo fogo...

e há uma cabana com versos de enganar,

e há um rio com vontade de partir...

zarpar,

são elas as rodas dentadas do sofrer,

que te movimentam,

são elas,

são eles os lânguidos amanheceres que te enfrentam...

e baixinho,

te dizem... são horas de adormecer.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 14 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:04

01
Out 14

Dos espinhos melancólicos da insónia,

oiço-os,

como se eles tivessem um corpo,

ou... ou vestissem-se de palavras ainda não escritas,

entranhadas no papel amarrotado da madrugada,

oiço-os...

os sons melódicos do piano amar...

domesticado,

livre...

dos espinhos melancólicos, as ditas canções anónimas com sorriso de alecrim,

o cansado beijo suspenso nos lábios da pianista...

livre... até que desaparece no seio das linhas paralelas da solidão.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:30

28
Set 14

Se eu voasse

não atravessava o Oceano para em ti poisar...

 

se eu voasse

não me levantava deste banco de silêncio

com mãos de pérola adormecida

não gritava

não... não chorava

porque as palavras são searas de insónia sobre um papel queimado,

 

um punhado de trigo

voando

sonhando...

na planície dos corpos embalsamados,

 

se eu voasse

não atravessava o Oceano para em ti poisar...

 

não escrevia

não lia...

não

não acreditava no amanhecer amar!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 28 de Setembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:41

29
Ago 14

Não sei amar,

oiço o ruído da saudade que se acorrenta às frestas da alma,

há uma janela com acesso ao deserto,

não dou importância às pessoas com sorriso de vidro,

ou... ou que habitam as florestas com asas de aço,

têm mãos de palha, há nos seus dedos forcas em espera...

não sei amar,

e oiço do cansaço adormecido o acordar da tempestade,

uma rua dentro da algibeira,

uma moeda que nem dá para almoçar...

quanto mais... jantar,

e o mendigo que me acena e convida para dançar,

 

O menino dança?

 

Vai-te “foder” mendigo que eu não sei dançar,

um cigarro suicida-se nos meus lábios,

e no meu peito deita-se um pedestal encarnado,

não sei amar,

não sei escrever,

não sei fazer anda...

o cigarro grita pelo mendigo,

o mendigo toca-me no braço,

o meu braço começa a flutuar sobre as sílabas embriagadas,

e um poema vaidoso senta-se junto ao rio...

dou-me conta que lá fora é noite,

e não quero sair do útero da noite...

 

O menino dança?

 

Vai-te “foder” mendigo que eu não sei amar...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:35

26
Ago 14

Habita em nós uma jangada de silêncio,

permanecemos imóveis sobre as asas do vento,

pertencemos às rectas paralelas que se abraçam no infinito...

e se amam,

e se beijam,

somos a geometria nocturna do prazer,

às vezes só a cidade existe entre os nossos corpos,

às vezes... às vezes eles tocam-se e uivam sorrisos de neblina,

habita em nós a preguiça de acordar,

dizem-nos que lá fora chove, dizem-nos... dizem-nos que somos dois pássaros vadios,

em cio,

como este rio que nos engole,

 

Habitam em nós os tentáculos de silício com lábios de gelo,

procuramos o esconderijo de amar,

e ninguém...

e ninguém sabe o significado de “sílaba tonta”...

 

Escrever em ti,

como se deixasses de pertencer à jangada de silêncio...

e se amam,

e se beijam,

os nossos corpos argamassados pelo desejo,

viver...,

e se amam,

e se beijam...

os poemas esculpidos nos teus seios,

habitam em nós os moliceiros,

e um marinheiro nos guia até à eternidade...

e nos engana, e nos absorve... como se fossemos duas estrelas de suor...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 26 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:16

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