Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

25
Mai 13

foto; A&M ART and Photos

 

O escritor não sou eu, os cigarros terminaram quando ainda pertenciam-me coisas pequenas, pássaros e poemas, secretárias que vomitavam palavras, cidades que flutuavam entre manchas de sémen e flores de pétala encarnada, o escritor morreu, não me pertencem as palavras que escrevo, que ele escrevia para mima, e eu, amava-o loucamente como quem ama uma árvores, um pedestal sem estátua, ou... escrevia-me nas costas enquanto eu, dormia, imaginava-me dormir dentro dos teus braços, hoje partiste definitivamente de mim, acabaram-se-me palavras e cores e os riscos desordenados das noites de Sábado, hoje

escrevia-te palavras vãs em teus olhos verdes, poisava os cotovelos sobre a secretária, mal educado, ouvia eu da tua triste boca, eu, sem sentido, não me importava que de ti acordassem glândulas e células onde eu guardava as palavras para ti, meu amor, e sinceramente, aos poucos fui desistindo dos teus lábios, ficaste confuso, tu, o homem que veste o meu corpo, me transportas para as imagens longínquas de uma cidade que ainda hoje, não Sábado, não consegues pronunciar, e da minha Luanda infinita com o mar arregaçado até aos tornozelos, tu, desististe de me transportar, de me amar, e assim, perderam-se-me todas as palavras que te escrevi...

Odeio-te como odeio as chuvas tempestades sobre os rios de brincar,

flutuávamos como alicerces de edifícios em ruína, éramos aço que cobria o esqueleto dorsal de um paquete não baptizado, levianamente, desaparecias durante a noite, provavelmente, vestias-te de peixe, e voavas sobre o capim ruidoso que os mabecos rosnavam antes de adormecerem, esperava-te na cama mergulhada em livros, papeis velhos e canetas de tinta permanente, perguntavas-me qual era a minha terra e eu respondia-te que sinceramente, ou

Provavelmente,

ou...

Não tenho terra, aqui não me conformo, não me revejo, e lá, lá não me querem como cidadão Angolano, portanto, além de te perder, além de perder as tuas palavras, os teus abraços, os teus doces lábios, perdi também a Pátria, e considero-me um apátrida, nem pertenço ao mar, nem pertenço à terra,

ou,

Odeio-te como sabias que todos os calendários inventam dias, e que todos os relógios, os pobres, e os ricos, todos, comem horas, minutos e segundos, e subíamos a um coqueiro com asas de vidro, e sentia-te em mim, e sabia-te disfarçado de sebenta com palavras, e palavras, palavras...

a quem pertenço eu? A que corpo pertencem os teus lábios que saboreiam o meu pescoço? Às palavras não ditas, por medo, covardia, Qual é a minha Pátria?

Quem diria, que eu, um dia, procurasse nos caixotes de cartão a tua fotografia, quem me diria, se eu te odeio, desde que morreste-me nas mãos em palavras,

vãs,

E nunca, pára de mentir-me, porque nunca vivi na Vila Alice, porque, nunca, vivi no Bairro Madame Berman, e

vãs, sãs, e nunca, nunca te esqueças, meu grande sacana, que o teu querido corpo, é meu e pertence-me, leva as tuas palavras, leva-as, mas deixa-me o teu corpo para eu brincar no espelho do guarda-fato enquanto não regressa o Inverno...

 

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:21

04
Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

Há uma parede ínfima que separa a saudade da vontade de regressar, há uma brecha na parede ínfima onde me é permitida a entrada, e mesmo sendo apenas ao Sábado, eu entro, e fico lá, a olhar os pedaços de loiça que sobejaram da catástrofe que as madrugadas sem destino provocaram na melodia que junto à noite ouvíamos, provavelmente, da casa do vizinho, mas ao longe, um senhor de barba, todos os finais da tarde, saboreava o seu trompete, e eu, uma criança curiosa, inventava palavras para justificar aqueles sons, que ainda hoje oiço, cerro os olhos, e a música flui em mim como o vento quando enrola os lençóis pendurados no estendal perdido no quintal, lá, misturam-se couves, cebolas, tomates, feijão-verde, alhos e algumas galinhas em processo de rescisão de contracto, são velhas, e imaginando-as dentro de uma panela em ferro-fundido, nunca, nunca estarão prontas para serem comestíveis, a não ser que

(o infinito dos dias deram lugar à rapidez das palavras, quero-as escrever e estou a sentir dificuldade de imaginar-me sentado a uma secretária (digo – de madeira) com uma caneta de tinta permanente a escrever num caderno sem nome, talvez lhe coloque o nome de “Matraquilho”, Porque não? Sempre será mais agradável escrever sobre um nome, semelhante a escrever num corpo desnudo, e não saber o nome da folha de pele doirada onde se escreve, “onde se lê folha de pele doirada, o escritor quer dizer PÉTALA DE ROSA ABANDONADA”, e claro, é como beijar os lábios mais belos do Céu e desconhecer o nome desses lábios, todos têm um nome, uns são de filigrana, outras são de marijuana, outros..., o nome, por favor, insira a moeda na ranhura, e rode a alavanca, e logo em seguida tem o seu desejo concretizado, e melhor do que fazer pipocas, porque essa ideia já é tão velha como o apelidado de “cagar”, porque quase há trinta anos que vejo os ciganos nas feiras a venderem pipocas, e como dizia um professor meu na Universidade, tudo em engelharia já foi inventado, ou quase inventado, neste momento a sabedoria está em descobrir novos e mias económicos materiais, portanto, neste momento é na ciência de materiais que está a sabedoria, porque de equações quase que estamos conversados, esta agora... Pipocas..., ele há cada um)

A não ser que a minha amiga que vive na cabana a seguir à ribeira tenha uma porção mágica para transformar galinhas velhíssimas em novas, com coxas, com lábios, com seios, comestíveis

(o rio enfureceu-se comigo, entrou-me em casa e destruiu-me todos os papeis e livros, e eu não percebendo se estava a sonhar, e eu não percebendo se estava a dormir, apenas recordo-me de dizer – Felizmente, felizmente que alguém fez alguma coisa e destruiu-me esta porcaria sem cheiro, semelhante a rodas de chocolate, parecidas com bolachas de madeira – E logo eu, eu meu querido, logo eu que sou apaixonadíssimo por rios e barcos, logo eu)

Comestíveis saudáveis, comestíveis como folhas de alface – quando a parede ínfima que separa a saudade da vontade de regressar, há uma brecha na parede ínfima onde me é permitida a entrada, e mesmo sendo apenas ao Sábado, eu entro, e fico lá, a olhar os pedaços de loiça que sobejaram da catástrofe que as madrugadas sem destino provocaram na melodia que junto à noite ouvíamos, provavelmente, da casa do vizinho, mas ao longe, um senhor de barba, todos os finais da tarde, saboreava o seu trompete, e eu, uma criança curiosa, inventava palavras para justificar aqueles sons, que ainda hoje oiço, cerro os olhos, e a música flui em mim como o vento quando enrola os lençóis pendurados no estendal perdido no quintal, lá, misturam-se couves, cebolas, tomates, feijão-verde, alhos e algumas galinhas em processo de rescisão de contracto, são velhas, e imaginando-as dentro de uma panela em ferro-fundido, nunca, nunca estarão prontas para serem comestíveis, a não ser que – e dizem-me que amanhã é outro dia, claro, compreendo perfeitamente minha querida senhora, mas... E no Sábado?

(não sei o que são Primaveras)

Grades de sombra

(havia silêncios misturados nos sons do trompete do homem de barba, recordo-me agora, que era branca, tipo – Pai Natal? - Ora aí está, tal e qual, isso mesmo, e na altura eu sentava-me em frente à porta de entrada, uma casa simples, descomplexada, onde os aposentos de serem tão minúsculos quase que abria os braços e atravessava o quarto, entrava na casa da vizinha, e tirando isso – éramos felizes – e aqueles sons habitam hoje dentro do meu corpo, ainda hoje, sento-me em frente à porta de entrada da cabana onde habito, e apesar de não ser a mesma casa e de não ser o mesmo local, consigo ouvir os sons melódicos do trompete do senhor com barba branca, talvez do tempo, talvez da idade, talvez dos versos...)

E o teu corpo prisioneiro em grades de sombra, num castelo de areia, tão alto, tão alto, que é quase impossível alguém subir, subir – se ao menos soubesses voar! - Pois, mas infelizmente não sei voar, pois, mas infelizmente tenho medo que a areia ceda, e se transforme em grãos como bolas e sabão quando éramos crianças e andávamos pelas ruas do bairro a lançar bolinhas para a atmosfera, hoje, ainda as vejo, às vezes, a atravessarem o horizonte entre voos rasantes e lentidão de saliva, e o teu corpo lá, lá, lá...

(A não ser que a minha amiga que vive na cabana a seguir à ribeira tenha uma porção mágica para transformar galinhas velhíssimas em novas, com coxas, com lábios, com seios, comestíveis – Depois de amanhã é Sábado – e mesmo assim talvez não seja este Sábado que vou conseguir entrar através da brecha da parede ínfima que separa a saudade da vontade de regressar – só se as comermos assim, mesmo assim, duras)

Lá, na rua onde vivemos, aprisionado a grandes de sombra, e lá – Lá o quê? - lá bem no alto a entrada no castelo para chegar à cela invisível onde ela come e dorme e vive... e dizem que ama.

 

(quase ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:34

06
Ago 12
publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:28

21
Abr 12
publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:26

22
Mar 12

Saberei escrever

Depois de morrer,

Pergunto-me,

 

De que me servem as palavras

E as árvores sonâmbulas

E as janelas para o mar,

De que me servem os barcos

E as algemas da noite,

Pergunto-me

Se saberei escrever

Depois de morrer,

 

E quando morrer,

Quem…

E depois de morrer quem se lembrará de mim,

Pergunto-me

Se saberei escrever

Depois de morrer,

 

E as árvores sonâmbulas

E as janelas para o mar

E os barcos,

Pergunto-me

Que fazem na minha mão antes de adormecer…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:56

09
Jan 12

Não sei se está vento

No meu corpo encalhado

Se estou gordo

Ou magro

 

Não sei se deva continuar a escrever

Ou simplesmente me sentar

Ver a manhã a morrer

Nos braços do mar

 

Não sei o que são gaivotas

Ou poemas de amar

Sei o que eram almas mortas

Na Rússia do Czar

 

E tal como Gogol

Pego na minha escrita

E faço uma fogueira

E tudo desaparece no centro da eira

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:47

04
Nov 11

Hoje acordei e apetecia-me algo, algo de muito especial, mas nem eu nem ele sabíamos do que se tratava,

E eu sou um banana porque é ele que tudo decide,

- Tu só escreves, e se não fosse eu? Desgraçado… morrias de fome,

E ele tem razão porque ultimamente perdi completamente a vontade de caminhar, porque ultimamente perdi completamente a vontade de lutar,

- Porque tu vives num mundo só teu oiço-o muitas vezes antes de adormecer,

E antes que os meus leitores julguem ou pensem que se trata de um amante, não, é que dentro do meu corpo vivem dois homens,

- Não percebi?,

Tu gostas de matemática, física, e tudo que diga respeito às ciências,

- Pois talvez tenhas razão mas isso não me tem servido de nada,

E eu gosto de literatura, e eu gosto de escrever e desenhar, e eu gosto de poesia,

- E isso serve-te para quê?

Sim tens razão e tal como tu não me serve de nada,

- Se o nosso pai tivesse feito uma bola de queijo…

E eu tenho de encontrar urgentemente um corpo para este gajo que não me deixa em paz, quero dormir e o parvalhão fica a ler até às tantas da madrugada, estou a fazer contas e sinto o parvalhão com a esferográfica na mão, coça a cabeça… e começam a sair porcarias, umas com rima, outras sem rima, mas sempre coisas sem nexo,

- Que queres? Nasci assim,

Depois tenho de lhe aturar as paixões,

- Não existem paixões,

Parvalhão,

Estou a fazer contas e o parvalhão começa a desenhar nos espaços em branco da folha de papel rostos de mulheres,

- Riscos,

Mulheres e flores e barcos e pássaros,

- Sou assim o que queres,

Preciso urgentemente de um corpo para este imbecil, urgente, muito urgente,

E antes que os meus leitores julguem ou pensem que se trata de um amante, não, é que dentro do meu corpo vivem dois homens,

- Eu sou o Francisco, escrevo, leio, desenho e sou apaixonado por tudo que é belo e não belo,

Eu sou o Luís, não faço nada e neste momento sou um inútil…

(queriam-me casado, fútil quotidiano e tributável?) “Álvaro de Campos”

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:23

28
Abr 11

 

Desenhador de construção civil (Autocad) com 19 anos de experiência, frequência do 2º Ano do curso de Engenharia Mecânica e conhecimentos:

- Programa de cálculo Cype;

- Ansys;

- Matlab;

Procura trabalho em qualquer área (desde a escrita ao desenho).

 

Contactar Luís Fontinha

 

Fontinha_francisco@sapo.pt

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:28

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